Confesso que fui ao teatro apreensivo. O Decameron é um dos meus livros preferidos: vibrante, engraçado, sexual, cheio de vida. E, justamente por isso, é tão fácil de errar, tão fácil de cair em um besteirol de bordões, caretas e duplos-sentidos, de transformá-lo em um Zorra Total da Idade Média - como "A Farsa da Boa Preguiça" foi o Zorra Total do Sertão.
O Decameron foi escrito no século XIV pelo florentino Giovanni Boccaccio. Para fugir da Peste Negra, dez jovens se isolam por dez dias e, enquanto isso, trocam histórias: dez histórias por pessoa, dez histórias por dia. Ou seja, o Decameron é composto de cem histórias independentes, todas (ou quase todas) sobre amor e sexo, histórias quentes, desbocadas, alegres. Não é o que você espera de literatura medieval.

Os dois livros básicos de Henry Miller. Essenciais. Lindos. Não sei o que teria sido de minha vida sem eles.
Li o Decameron por influência de Henry Miller, que dizia que era o seu livro de banheiro predileto. Comecei a ler, amei e ainda segui o conselho: tenho uma cópia em português no meu banheiro do Rio e outra em inglês, no de Nova Orleans. As histórias são curtas, fechadas, pulsantes: é perfeito. (Semestre que vem, terei que fazer um teste de italiano e, pra treinar, estava lendo um bando de porcaria, até que pensei: caramba, qual é o livro escrito em italiano que eu mais gosto? Então, agora, minha cópia do banheiro de Nova Orleans está no original: perdi muito em fluência, claro, já não consigo ler mais numa sentada só, mas ganhei pelo contato com as palavras do autor.)
Enfim, se tinha meus receios, o grande motivo que me fez ir à peça foi o músico/comediante/ator/etc baiano Zéu Britto (acima, à esquerda). Talvez vocês até não reconheçam o nome, mas o Zéu é, em minha humilde opinião, a pessoa mais engraçada do Brasil hoje. Para comprovar, assistam Decameron. Bastava o homem entrar em cena e falar qualquer coisa que eu já morria de rir. Em um elenco afinadíssimo, ele conseguiu a façanha de ser o melhor. George Sauma, que eu não conhecia, também estava perfeito como o Maroto, e Marcos Oliveira mostrou que é muito mais do que o eterno Beiçola de A Grande Família.
Adaptar um livro medieval composto de cem histórias independentes não é tarefa fácil e o autor Elisio Lopes Jr tomou decisões muito acertadas: criou, segundo ele, uma "101ª história", com novo enredo e novos personagens, mas magnificamente dentro do espírito da obra, e costurou dentro dela várias histórias, episódios e cenas do Decameron.
Um exemplo, pra vocês sacarem o espírito do livro, é a cena onde o Maroto, para deflorar uma religiosa extremada, diz que eles têm juntos que mandar o diabo pro inferno: ele mostra o seu pau, que quando fica duro, se transforma no diabo, e a boceta dela, cavernosa, profunda e quente, um verdadeiro inferno... Bem, o resto vocês entenderam, não?
O cenário é primoroso e gostei especialmente das frutas espalhadas por todos os lados, parecendo adicionar ainda mais vida às cenas. E foi só lendo o programa que descobri que as músicas engraçadíssimas são também de Zéu Britto.
No geral, temos um texto original maravilhoso, muito bem adaptado, interpretado por um elenco afiado e afinado, com uma trilha sonora divertida, diante de um belo cenário.
Perfeito.
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Visite o blog oficial de Zéu Britto.
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Ficha Técnica
Decameron, de Boccaccio. Companhia teatral: Cia. Fato de Teatro. Dirigido por Otávio Muller. Adaptado por Elisio Lopes Jr. Estrelado por Fabiana Karla, Marcos Oliveira, Bel Kutner, George Sauma, Zéu Britto, Jô Santana, Claudia Borioni, Isabel Lobo, Hossen Minussi. Teatro das Artes, Rio de Janeiro. Sextas e Sábados, às 21h30, Domingos, às 20h30. R$70 (Sexta) e R$80 (Sábado e Domingo) Até 26 de julho. Assistido a 29 de maio, com marina w.
Sobre a Série "Cadernos de Teatro"
Estou começando a estudar teatro e resolvi aproveitar meus meses no Rio e em São Paulo para conhecer a produção contemporânea. Esses textos são minha tentativa de não só documentar as peças que assisti mas também de escrever mais criticamente sobre teatro.
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