Quer comprar no Submarino? Entre por aqui e eu ganho 8%.
Estudo literatura para conhecer melhor a sociedade e o ambiente cultural que a produziu. Literatura é muito mais do que o texto que o autor criou, mas também inclui sua recepção pelos leitores, as resenhas que recebeu, as censuras que sofreu, seu contínuo diálogo com essa sociedade ao longo do tempo e, finalmente, seu processo de canonização ou esquecimento.
Por tudo isso, pelo menos no contexto do século XIX, estou percebendo que o teatro é uma fonte de informações muito mais rica do que a literatura em prosa. Por exemplo, o romance "O Guarani", de José de Alencar, foi uma das obras literárias de maior sucesso do século. Entretanto, provavelmente todos os leitores das primeiras edições caberiam em duas ou três apresentações dentre as mais de cem que teve sua adaptação teatral dramática - pra não falar da ópera de Carlos Gomes. Hoje, mencionamos "O Guarani" e pensamos no romance. Um carioca comum de 1880 (estatisticamente falando) provavelmente pensaria na peça, que ele assistiu, contra o romance, do qual apenas ouviu falar - talvez por nem saber ler.
Hoje em dia, esse papel foi assumido pelo cinema. Se eu quisesse compreender melhor a sociedade carioca do começo do XXI, provavelmente começaria estudando a questão da violência urbana, analisaria o livro "Elite da Tropa", discutiria o impacto das novas tecnologias na sociedade no episódio da venda prévia de cópias piratas do filme, analisaria o filme "Tropa de Elite", faria um levantamento do impacto do filme em jornais e na internet, chamaria atenção para o fato de tanto a esquerda quanto a direita terem tomado o filme para si e, por fim, concluiria com "Confronto", peça de Domingos de Oliveira atualmente em cartaz no Sesc Mezzanino, adaptação dramática de um dos episódios do livro "Elite da Tropa" e uma das primeiras tentativas de discutir essa questão no teatro.
* * *
Depois do enorme fiasco de "Apocalipse Segundo Domingos Oliveira", confesso que fui pro Sesc já meio assustado. Fiquei tentando me tranquilizar: a ficha corrida do Domingos é ótima, o assunto é vital; oras, qualquer autor tem uma obra péssima! Vai ver ele estava precisando de dinheiro pra pagar pela lobotomia que Maria Mariana seguramente sofreu nos últimos anos, algo assim.
Bem, vãs esperanças. Não sei o que está acontecendo com Domingos de Oliveira, mas claramente é um padrão. Talvez seja a idade. É uma pena.
Não me entendam mal: "Confronto" é infinitamente melhor do que "Apocalipse", mas somente porque "Apocalipse" é infinitamente ruim.
* * *
Lá por 1830, na França, o teatro romântico, boêmio e rebelde, mítico e arrebatado, geralmente retratando artistas e reis, nobres e marginais, começa a perder terreno para uma nova idéia dramática, o teatro realista, um projeto mais conservador cujo objetivo seria mostrar a vida como ela é, discutir os temas do dia-a-dia, retratar a família burguesa contemporânea.
Uma das figuras mais características desse novo teatro realista é o raisonneur (em francês: o caga-regra), aquele personagem, via de regra alter-ego do autor, cuja função na trama é martelar na cabeça dos espectadores a lição de moral da peça. Algumas vezes, o raisonneur também é personagem; noutras, sua ÚNICA utilidade é cagar-regra, invariavelmente interrompendo a ação para longuíssimos e tediosos discursos que não acrescentam nada e só reiteram a mensagem que a peça já transmitia.
Mesmo no Brasil de meados do XIX, onde essa estética era dominante e entusiasticamente defendida pela elite intelectual, o raisonneur era visto como um chato. A quinta peça escrita por José Alencar, "Mãe" (sobre um rapaz que ignora ser filho de sua velha escrava!), pela primeira vez não incluía a figura do raisonneur, permitindo assim que a platéia tirasse suas próprias conclusões. Pois bem, mesmo entre os adeptos mais dogmáticos do realismo teatral, a ausência do raisonneur foi vista como o ponto alto dessa peça - que acabou se tornando um dos maiores sucessos dramáticos do século.
Assim como os dinossauros e as camisas de Báli, o raisonneur saiu de moda faz tempo e achei que jamais veria um deles ao vivo, assim, no palco, mas me enganei. O personagem Luiz Felipe, Secretário de Segurança do Rio de Janeiro (muito discretamente baseado em Luiz Eduardo Soares, co-autor do livro que deu origem à peça e ex-Coordenador de Segurança do Rio de Janeiro), é um raisonneur na pior acepção do termo, provando que uma peça fraca e cheia de chavões consegue até mesmo a façanha de recuperar um chavão defunto, produto de uma escola superada, e trazê-lo de volta à vida para cagar-regra e entediar platéias do século XXI. É quase um Jurassic Park teatral.
Em determinado momento de lúcida auto-crítica, o personagem confessa que sabe que seu idealismo irrita as pessoas. Então, foi de propósito, Domingos?! Sim, o personagem é pra ser idealista, mas existem limites, limites esses ditados pela verossimilhança cênica, pelo bom-gosto de evitar chavões, pelo respeito à inteligência da platéia, e pela generosidade de coração de não cagar-regra para as pobres pessoas que pagaram caro para ver sua peça.
Diante de um raisonneur tão chato, tão metido-a-santo, tão óbvio, tão moralista, tão petista-pré-2002, o espectador fica dividido: por um lado, duvida que seja possível existir alguém tão puro e angelical, ainda mais como Secretário de Segurança do Rio de Janeiro!; e, por outro, fica o tempo todo controlando a tentação de gritar de volta:
"Caralho, a gente já sabe que a violência é ruim, seu babaca! Dá pra continuar a porra da peça?!"

Obras completas de Freud, de R$960, por R$299/R$399 (sinceramente? o preço dessa joça tem mudado duas vezes por dia, mas está sempre muito barato)
* * *
"Confronto" vale pelo tema. Faz tempo que o teatro não aborda um tema tão urgente, tão contemporâneo, tão local: estávamos todos ali, cariocas em um teatro de Copacabana, assistindo uma história passada nas ruas e bairros onde vivemos e trabalhamos, revivendo nossa própria realidade, elaborando nossas próprias memórias das traumáticas descidas do morro para o asfalto, purgando nossas próprias histórias de violência.
Apesar de minha área de estudos ser o teatro brasileiro do XIX, frequentar as peças da nossa cena contemporânea tem me ajudado muito a iluminar nosso passado.
Em meados do XIX, por exemplo, em pleno processo de formação da identidade nacional, qualquer peça com tema brasileiro e refletindo nossa realidade, que falasse de escravos ou citasse a Rua do Ouvidor, era imediatamente saudada e celebrada como a mais nova esperança da autêntica dramaturgia brasílica - mesmo quando percebida como muito inferior às peças francesas e portuguesas que então se encenavam. Em troca do privilégio de se ver retratada no palco, a platéia tolerava e perdoava os piores deslizes das quase sempre fraquíssimas produções da incipiente dramaturgia brasileira. Afinal, eram coisa nossa!
E eu, que via esse hábito quase que com condescendência, agora entendo perfeitamente. Pois "Confronto", apesar de ser quase adolescente em sua ingenuidade e desleixo, apesar da direção que parece não se decidir entre o realista, o naturalista e o farsesco, apesar do texto repleto dos mais cansativos chavões, lugares-comuns e lições de moral, apesar de ser uma montagem ruim em todos os sentidos, é A peça obrigatória da temporada. Bem mais do que a experimentação plástica de "A Mais Forte, Estruturada" ou do que as tecnicamente perfeitas "As Artimanhas de Scapino" ou "A Inveja dos Anjos".
O que está em debate no palco de "Confronto" é a nossa vida, a nossa realidade, o nosso futuro. E até mesmo o inacreditável amadorismo da peça faz parte dessa nossa história e nos define como sociedade. Afinal, o que poderia ser mais carioca do que uma montagem cheia de boas intenções mas tão mal-acabada?
É preciso ver "Confronto".
* * *
Leia o blog de Domingos de Oliveira, na Bravo. Tem muitas fofocas e bastidores sobre a peça.
* * *
Ficha Técnica
Confronto, de Domingos de Oliveira. Dirigida por Domingos de Oliveira. Estrelada por Michel Bercovitch, Camilo Bevilacqua, Delson Antunes, Renata Paschoal, Paulo Giardini & Grande Elenco. Espaço Sesc Mezzanino, Rio de Janeiro. Quintas, Sextas e Sábados, às 21h, e Domingos, às 19:30h. Até 14 de junho. Assistido a 23 de maio, com Ricardo Cabral.
Sobre a Série "Cadernos de Teatro"
Estou começando a estudar teatro e resolvi aproveitar meus meses no Rio e em São Paulo para conhecer a produção contemporânea. Esses textos são minha tentativa de não só documentar as peças que assisti mas também de escrever mais criticamente sobre teatro.
Leia todos os textos sobre teatro.
http://www.interney.net/blogs/htsrv/trackback.php/35304 Posts similares:
Inveja dos Anjos, de Maurício Arruda Mendonça e Paulo de Moraes (Cadernos de Teatro, 11)
Senhorita Júlia, de Strindberg (Cadernos de Teatro, 2 - Adendo)
As Artimanhas de Scapino, de Molière (Cadernos de Teatro, 7)
(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)
Atalho pra o formulário
Obras completas de Freud, de R$960, por R$399
Um blog sobre rebeldia, contemplação e sacanagem, regado a muita literatura e humor. Nosso assunto são as várias prisões que acorrentam o homem, como ambição, verdade e medo. Dê sua opinião!
Quer comprar no Submarino? Entre por aqui e eu ganho 8%
8129 Panola St, New Orleans, LA, 70118, msn, tel, email
Ao me enviar email ou comentar no LLL, você está automaticamente permitindo que eu publique sua mensagem no blog, inclusive com seu nome e endereço. Pense bem.