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Em meu vício de escritor, percebi que estava escolhendo as peças sempre pelo texto. Decidi então aceitar a sugestão de minha amiga Viva, a melhor blogueira-sem-blog do Brasil e ex-integrante do blog erótico Nós-Pornôs, e fui assistir Inveja dos Anjos, na Fundição Progresso.
É uma montagem original, criada coletivamente por uma companhia que eu não conhecia (Armazém Companhia de TeatrO) e com uma sinopse vaga ao ponto de não querer dizer quase nada: "um trilho de trem cenográfico é o fio condutor da trama que trata das memórias afetivas" (Globo) ou "passado, presente e futuro de seis personagens se cruzam" (Jornal do Brasil). Realmente, se não fosse a indicação da Viva, jamais teria ido.
E perderia a melhor peça que já vi até agora nessa temporada.
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Começamos com três amigos bebendo, rindo e conversando à beira de um trilho de trem. Cada um deles, entretanto, em breve enfrentará situações dolorosas em suas relações com terceiros: uma mãe idosa e meio louca, uma filha ilegítima que surge do nada e um estranho misterioso do passado. Passeando por entre as histórias, um carteiro que lê correspondências alheias. "Inveja dos Anjos" não é uma peça sobre nobres, rebeldes, heróis, governadores, mas sobre pessoas como nós, pequenas, invisíveis, modestas.
A princípio, achei a atuação dos personagens meio forçada, os diálogos soavam estranhos, a fala não era o português realista do dia-a-dia, mas a peça logo me conquistou com sua linguagem cênica inovadora, cujo uso consistente nos impele a querer conhecer mais aquele mundo e a aceitar a dicção e realidade daqueles personagens.
Na ficção, pode-se fazer qualquer coisa, desde que consistentemente. O leitor também demora algumas dezenas de páginas pra se acostumar à linguagem de Riobaldo ("claro que um matuto do interior de Minas jamais falaria assim!") mas, a partir do momento em que você aceita a nova linguagem e a nova realidade propostas pela obra, pode de fato mergulhar na obra. A consistência de linguagem que falta em "Confronto", de Domingos de Oliveira, sempre oscilando entre drama, comédia, farsa e thriller, é justamente o grande trunfo de "Inveja dos Anjos".
Dá para perceber que estamos diante de um grupo coeso, onde atores, autor e diretor trabalham juntos faz tempo, se entendem, se completam. Patricia Selonk ganhou merecidamente o Prêmio Shell pela sua interpretação de Cecília, mas qualquer outro membro do elenco também mereceria o prêmio, especialmente Thales Coutinho, Verônica Rocha e Simone Mazzer. A peça também levou o Shell de Melhor Autor.
Como em toda boa peça, cada elemento é utilizado de modo a adicionar ao todo. A trilha sonora é original onde tem que ser e evoca músicas conhecidas do passado, quando esse é o efeito desejado - o que fez lembrar da trilha sonora canhestra de "Apocalipse, Segundo Domingos de Oliveira". Os trilhos de trem cortando o palco (inclusive um subindo até o espaço) são de uma beleza plástica lindíssima, sempre bem utilizados em cada cena. Gostei especialmente do jogo de luz para simular a passagem dos trens.
Muito além de um grande texto, interpretado por grandes atores, "Inveja dos Anjos" é uma montagem onde o trabalho coeso de uma companhia unida faz toda a diferença, onde cada elemento cênico (luzes, figurinos, sonoplastia, cenários, música) é usado no seu limite para tornar a experiência teatral mais bela, mais redonda, mais sensorial, mais completa.
"Inveja dos Anjos" é teatro em sua melhor forma. Por enquanto, bateu "As Artimanhas de Scapino" no meu ranking pessoal de melhor peça da temporada. Recomendo nos mais enfáticos termos.
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Ficha Técnica
Inveja dos Anjos, de Maurício Arruda Mendonça e Paulo de Moraes. Companhia Armazém de Teatro. Dirigida por Paulo de Moraes. Estrelada por Marcelo Guerra, Patrícia Selonk, Ricardo Martins, Simone Mazzer, Simone Vianna, Thales Coutinho, Verônica Rocha. Fundição Progresso, Rio de Janeiro. Quinta a Domingo, às 20h. Assistido a 24 de maio, com Cris.
Sobre a Série "Cadernos de Teatro"
Estou começando a estudar teatro e resolvi aproveitar meus meses no Rio e em São Paulo para conhecer a produção contemporânea. Esses textos são minha tentativa de não só documentar as peças que assisti mas também de escrever mais criticamente sobre teatro.
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