Play, de Rodrigo Nogueira (Cadernos de Teatro, 10)

Play, de Rodrigo Nogueira

Um triângulo amoroso subitamente abalado pela chegada de um quarto elemento: João, homem de negócios casado com a fria Ana, tem um caso com sua irmã, Cynthia, mais alternativa e sexual, até que chega do exterior Jonas, artista plástico e amigo de faculdade de João. Inspirado por Sexo, Mentiras e Videotape, de Steven Sodebergh.

Talvez o mais interessante da peça seja o fato de que nada, de fato, acontece. Tudo é de uma sutileza belíssima. O diálogo em que Ana e João discutem comprar ingressos para um concerto ao mesmo tempo em que, nas entrelinhas, discutem o futuro de seu casamento, é somente o ponto alto de uma contida tensão dramática que o texto desenvolve do começo ao fim. Sem lugares-comuns, graças a deus.  Sexo, Mentiras E Videotape

Daniela Galli está simplesmente dando um show, no papel de uma mulher fria, formal e mal-amada, e ao mesmo tempo, ansiosa por se reinventar e viver um grande amor. Rodrigo Nogueira, também autor da peça e dramaturgo de mão cheia, faz um João canalha, confuso e sedutor, provando também seus enormes talentos de ator. O personagem João, homem de negócios indeterminados, verbaliza todos os preconceitos de sua classe contra os artistas ("afinal, o que é uma instalação? não era mais fácil quando era só quadro e escultura?") e, ao mesmo tempo, a interpretação de Rodrigo também encarna todos os preconceitos e estereótipos dos artistas contra essas pessoas estranhas que trabalham de terno e gravata, das oito às seis, cinco dias por semana: um circuito fechado. Maria Maya e Jonas Gadelha (aliás, os produtores da peça) também estão muito bem, com papéis um pouco mais fáceis: ela é a irmã maluquete de Ana, metida a artista, desbocada, atirada; ele, o artista caladão.

O enredo avança num crescendo de tensão muito bem montado até o súbito clímax, que não parece clímax, e não resolve nem conclui praticamente nada, mas simboliza uma virada (sutil) na vida de Ana e, assim, é o fechamento perfeito de uma peça sutil onde quase nada de fato acontece.

Curiosamente, no bochicho pós-peça, só ouvi gente falando mal: uma velhinha pra outra, "quarenta reais... por isso!", e um outro sujeito, que a peça era "desconexa". E eu pensando: "caramba, não havia nada de desconexo nessa peça. Nem uma única linha a mais ou fora de lugar. Será que esse povo não entende sutileza?"

20_1758-Play Soderbergh

A trilha sonora de André Abujamra abre espaço até mesmo para o Bolero de Ravel, uma de minhas "músicas clássicas de comercial de xampu" preferidas. A diferença é que, em "Play", o Bolero não é tocado como se fosse uma música de fundo normal e desconhecida, mas sim como o próprio Bolero de Ravel e o fato de ser essa uma das músicas preferidas do personagem João faz parte do enredo.

Destaque especial para a economia cenográfica, onde duas mesas e meia dúzia de cadeiras são constantemente rearranjadas para simbolar novos ambientes, com magnífica eficiência cênica.

Adorei, e recomendo enfaticamente. A peça fica em cartaz somente até o próximo fim de semana, 7 de junho, e está lotando tanto que eles vão fazer uma sessão extra no sábado, 6 de junho, às 19h. Ou seja, comprem logo e não percam.

* * *

Ficha Técnica

Play, de Rodrigo Nogueira. Dirigido por Ivan Sugahara. Estrelado por Maria Maya, Jonas Gadelha, Daniela Galli e Rodrigo Nogueira. Solar de Botafogo, Rio de Janeiro. Sexta e Sábado, 21h30, Domingo, 20h30. Até 7 de junho. Assistido a 30 de maio.

Sobre a Série "Cadernos de Teatro"
Estou começando a estudar teatro e resolvi aproveitar meus meses no Rio e em São Paulo para conhecer a produção contemporânea. Esses textos são minha tentativa de não só documentar as peças que assisti mas também de escrever mais criticamente sobre teatro.

Leia todos os textos sobre teatro.

 

02.06.09


Categorias: Teatro


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Comentários:


Comentário de: Dr Plausível · http://drplausivel.blogspot.com

É realmente hilariante ouvir pós-comentários de gente desligada.

PermalinkPermalink 02.06.09 @ 17:18



Comentário de: Alex Castro Email

hã? o q sao pos-comentarios? q gente desligada? nao entendi nada

PermalinkPermalink 02.06.09 @ 20:44



Comentário de: Dr Plausível · http://drplausivel.blogspot.com

Alex,

"Será que esse povo não entende sutileza?"

"Gente desligada" foi eufemismo. Tipo qdo fui ver Remains of the Day, terminou o filme e eu – maravilhado com a produção toda, as incontáveis sutilezas de enredo, diálogo e atuação – ouvi uma moça atrás de mim falando com a amiga: "Eu te mato. Vc tá me devendo uma, agora." Ou depois de Troi Couleurs: Bleu, alguém dizendo "Mas ¿por que tanto papo sobre música?"

PermalinkPermalink 02.06.09 @ 20:54



Comentário de: Alex Castro Email

aaaahh, entendi!

PermalinkPermalink 02.06.09 @ 20:59



Comentário de: Luciano Junqueira

Olha também não gostei da peça, mas não me considero gente desligada. Gosto de trabalhos teatrais que me mostram algo diferente na encenação, ou fica parecendo o mesmo que ler um livro. Além da troca de cenário ser completamente arcaica.

PermalinkPermalink 04.06.09 @ 15:58



Comentário de: Egidio

Não gostei. Achei muito fraco e parecendo trabalho de conclusão de curso de férias de teatro. Aliás, tem muito trabalho melhor que a peça em questão. O que vi foi atuações sofríveis e texto arrastado, tentando aplicar a métrica do diálogo sem sucesso. Já vi peças "cabeça", mas esta, definitivamente está longe de ser uma...

PermalinkPermalink 27.01.10 @ 23:09



Comentário de: Dannii

Não concordo com a opinião do autor. Não gostar e criticar a peça "Play" não significa que a maioria não entende de sutilezas. A peça é fraca, com momentos em que tenta arrancar risos da plateia com a interpretação básica de Rodrigo Nogueira.

A encenação que assisti apresentava Sergio Marone no papel do artista "calado" e com sérios problemas de articulação. Não sei se a interpretação dele é sofrível ou o papel que deram pra ele é uma verdadeira bomba.
Maria Maya se destaca entre os atores, mas também possui o papel mais fácil de ser interpretado.

Enfim, não gostei, não recomendo e não confundo sutileza com chatice homérica wannabe intelectual.

PermalinkPermalink 28.01.10 @ 11:21



Comentário de: Silvia

Amei a peça....simplesmente hilária. Dei boas risadas. Recomendo. Aliás , acabou a temporada. Qm viu, viu, qm não viu, fica prá próxima.

PermalinkPermalink 04.10.10 @ 00:42



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