Como ainda não conheço bem a cena teatral brasileira, escolho as peças mais pelo texto do que pela Companhia. E, então, lá fui eu de novo assistir uma montagem baseada em um clássico de Strindberg: "A Mais Forte" é um monólogo interessantíssimo, um desabafo de uma mulher casada a uma amiga. De certo modo, guarda uma relação íntima tanto com meu romance "Mulher de um Homem Só", quanto com "Heartburn", de Nora Ephron, agora finalmente lançado no Brasil com o horrível título "O Amor É Fogo", mas em maravilhosa tradução da Fal.
Quando cheguei ao teatro, ainda estava ruminando as questões que levantou em mim a montagem de "D-on J-uan": afinal, como conseguir, ao mesmo tempo, valorizar e subverter um texto clássico? Como respeitar o texto e, ainda assim, criar em cima dele? Como montar um texto antigo e trazê-lo ao nosso mundo, à nossa época, à nossa cultura? Nesse sentido, as duas adaptações de Strindberg, "Senhorita Júlia" e "A Mais Forte, Estruturada", foram muito mais bem-sucedidas do que a de "O Estrangeiro", que pecou pelo seu convencionalismo, e de "D-on J-uan", que pecou pelo extremo oposto de um excessivo amorfismo disforme e anti-linear.
Pra começar, já estranhei um monólogo com cinco atores, mas vá lá. Gosto de montagens ousadas. Fiquei curioso para ver o que fariam os outros quatro. A solução ficou interessante: duas atrizes, vestidas iguais, se revezavam declamando o monólogo da Senhorita X, enquanto dois atores e uma atriz, no centro do palco, sem falas, interpretavam a Senhorita Y e suas reações ao desabafo destemperado da amiga. Graças a uma minuciosa direção de atores, todos os gestos dos atores estavam perfeitamente integrados, um balé corporal bonito de ver.
Entretanto, talvez por minha deformação pessoal e profissional de escritor, achei que a peça só de fato funcionava na presença do texto de Strindberg - nesses momentos, com o brilhantismo de uma adaptação segura e inovadora. Já os longos trechos silenciosos, onde os atores faziam coisas como separar arroz ou se arrastar no chão como onças (!), me pareceram vazios, tediosos e, talvez o mais importante, completamente não-relacionados aos temas e ao espírito da peça. Apesar disso, são plasticamente lindos e dão testemunho da rigorosa e bem-sucedida direção de atores.
Pior mesmo, entretanto, foram os discursos prescritivos e didáticos adicionados pelo diretor Márcio Zatta. Em determinado momento, no começo da peça, as atrizes se levantam e começam a atacar a pedofilia e a anorexia, citando inclusive estatísticas oficiais do governo. Ninguém questiona que a anorexia e a pedofilia são dois importantes problemas modernos, mas e daí? Inflação e tortura também são. Qual a relação entre anorexia e pedofilia com a peça em si? Os discursos, além de completamente desarticulados do resto da obra, boiando isolados em alto-mar, ainda são repletos de didatismo e lugares-comuns. Se é para interromper uma montagem inovadora de Strindberg para falar de pedofilia (assunto completamente não-relacionado com a peça!), poderia-se pelo menos tratar do assunto com a mesma contundência e originalidade da adaptação. Ao invés disso, o discurso se limita a dizer o que todo mundo já sabe: pedofilia é ruim, anorexia é ruim. Se a mensagem era só essa, sem arte nem nada, melhor xerocar a última matéria da Revista Época e distribuir aos espectadores. Depois da peça, o diretor confessou que perdeu uma amiga querida para a anorexia e que vinha há tempos querendo incluir o tema em alguma montagem. Entendo sua dor, mas, se eu morresse num terrível acidente de carro, desejaria que meus amigos artistas não estragassem suas futuras obras inserindo nelas alertas inócuos e aleatórios contra o trânsito assassino brasileiro.
Mas essa é minha única crítica de verdade. Pela excelência do texto de Strindberg, pela rigorosa direção de atores, pela belíssima expressão corporal e, sobretudo, por uma montagem corajosa e inovadora que, ao mesmo tempo, honra o texto original e também lhe adiciona beleza plástica, eu recomendo "A Mais Forte, Estruturada".
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Visite o site da Companhia Teatro da Estrutura: www.teatrodaestrutura.com.br
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Dois Livros de Strindberg
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Ficha Técnica
A Mais Forte, Estruturada, de August Strindberg. Companhia teatral: Teatro da Estrutura. Dirigido por Márcio Zatta. Estrelado por Cíntia Travassos, Diego Sant'ana, Helen Maltasch, Luana Roesler e Otto Caetano. Teatro Sede da Cia dos Atores, Rio de Janeiro. Segundas, Sábados e Domingos, às 20h. Até 29 de junho. Assistido a 18 de maio.
Sobre a Série "Cadernos de Teatro"
Estou começando a estudar teatro e resolvi aproveitar meus meses no Rio e em São Paulo para conhecer a produção contemporânea. Esses textos são minha tentativa de não só documentar as peças que assisti mas também de escrever mais criticamente sobre teatro.
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