A Mais Forte, Estruturada, de August Strindberg (Cadernos de Teatro, 9)

Como ainda não conheço bem a cena teatral brasileira, escolho as peças mais pelo texto do que pela Companhia. E, então, lá fui eu de novo assistir uma montagem baseada em um clássico de Strindberg: "A Mais Forte" é um monólogo interessantíssimo, um desabafo de uma mulher casada a uma amiga. De certo modo, guarda uma relação íntima tanto com meu romance "Mulher de um Homem Só", quanto com "Heartburn", de Nora Ephron, agora finalmente lançado no Brasil com o horrível título "O Amor É Fogo", mas em maravilhosa tradução da Fal.

Quando cheguei ao teatro, ainda estava ruminando as questões que levantou em mim a montagem de "D-on J-uan": afinal, como conseguir, ao mesmo tempo, valorizar e subverter um texto clássico? Como respeitar o texto e, ainda assim, criar em cima dele? Como montar um texto antigo e trazê-lo ao nosso mundo, à nossa época, à nossa cultura? Nesse sentido, as duas adaptações de Strindberg, "Senhorita Júlia" e "A Mais Forte, Estruturada", foram muito mais bem-sucedidas do que a de "O Estrangeiro", que pecou pelo seu convencionalismo, e de "D-on J-uan", que pecou pelo extremo oposto de um excessivo amorfismo disforme e anti-linear.

a mais forte

Pra começar, já estranhei um monólogo com cinco atores, mas vá lá. Gosto de montagens ousadas. Fiquei curioso para ver o que fariam os outros quatro. A solução ficou interessante: duas atrizes, vestidas iguais, se revezavam declamando o monólogo da Senhorita X, enquanto dois atores e uma atriz, no centro do palco, sem falas, interpretavam a Senhorita Y e suas reações ao desabafo destemperado da amiga. Graças a uma minuciosa direção de atores, todos os gestos dos atores estavam perfeitamente integrados, um balé corporal bonito de ver.

Entretanto, talvez por minha deformação pessoal e profissional de escritor, achei que a peça só de fato funcionava na presença do texto de Strindberg - nesses momentos, com o brilhantismo de uma adaptação segura e inovadora. Já os longos trechos silenciosos, onde os atores faziam coisas como separar arroz ou se arrastar no chão como onças (!), me pareceram vazios, tediosos e, talvez o mais importante, completamente não-relacionados aos temas e ao espírito da peça. Apesar disso, são plasticamente lindos e dão testemunho da rigorosa e bem-sucedida direção de atores.

  Brasil: Palco e Paixão: um Século de Teatro

Pior mesmo, entretanto, foram os discursos prescritivos e didáticos adicionados pelo diretor Márcio Zatta. Em determinado momento, no começo da peça, as atrizes se levantam e começam a atacar a pedofilia e a anorexia, citando inclusive estatísticas oficiais do governo. Ninguém questiona que a anorexia e a pedofilia são dois importantes problemas modernos, mas e daí? Inflação e tortura também são. Qual a relação entre anorexia e pedofilia com a peça em si? Os discursos, além de completamente desarticulados do resto da obra, boiando isolados em alto-mar, ainda são repletos de didatismo e lugares-comuns. Se é para interromper uma montagem inovadora de Strindberg para falar de pedofilia (assunto completamente não-relacionado com a peça!), poderia-se pelo menos tratar do assunto com a mesma contundência e originalidade da adaptação. Ao invés disso, o discurso se limita a dizer o que todo mundo já sabe: pedofilia é ruim, anorexia é ruim. Se a mensagem era só essa, sem arte nem nada, melhor xerocar a última matéria da Revista Época e distribuir aos espectadores. Depois da peça, o diretor confessou que perdeu uma amiga querida para a anorexia e que vinha há tempos querendo incluir o tema em alguma montagem. Entendo sua dor, mas, se eu morresse num terrível acidente de carro, desejaria que meus amigos artistas não estragassem suas futuras obras inserindo nelas alertas inócuos e aleatórios contra o trânsito assassino brasileiro.

Mas essa é minha única crítica de verdade. Pela excelência do texto de Strindberg, pela rigorosa direção de atores, pela belíssima expressão corporal e, sobretudo, por uma montagem corajosa e inovadora que, ao mesmo tempo, honra o texto original e também lhe adiciona beleza plástica, eu recomendo "A Mais Forte, Estruturada".

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Visite o site da Companhia Teatro da Estrutura: www.teatrodaestrutura.com.br

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Dois Livros de Strindberg

Sagas  Senhorita Júlia

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Ficha Técnica
A Mais Forte, Estruturada, de August Strindberg. Companhia teatral: Teatro da Estrutura. Dirigido por Márcio Zatta. Estrelado por Cíntia Travassos, Diego Sant'ana, Helen Maltasch, Luana Roesler e Otto Caetano. Teatro Sede da Cia dos Atores, Rio de Janeiro. Segundas, Sábados e Domingos, às 20h. Até 29 de junho. Assistido a 18 de maio.

Sobre a Série "Cadernos de Teatro"
Estou começando a estudar teatro e resolvi aproveitar meus meses no Rio e em São Paulo para conhecer a produção contemporânea. Esses textos são minha tentativa de não só documentar as peças que assisti mas também de escrever mais criticamente sobre teatro.

Leia todos os textos sobre teatro.

  Machado de Assis - Do Teatro: Textos Críticos e Escritos Diversos

 

01.06.09


Categorias: Teatro


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Comentários:


Comentário de: Roberto Ornellas

Concordo com várias questões que você abordou, aliás com muita propriedade, em seu comentário. Mas discordo quando diz que as questões da anorexia e pedofilia, não têm a ver com o contexto do espetáculo. Acho que foram muito bem colocadas e de forma inteligente, utilizando os atores ainda fora do personagem (técnica brechtiniana) para falarem de temas importantíssimos para a sociedade comtemporânea. No mais estou de acordo com você, o espetáculo é ótimo. Muito bem dirigido e a interpretado dos atores é excelente. É um dos poucos monólogos que gostei de assistir.

PermalinkPermalink 01.06.09 @ 10:50



Comentário de: Breno Kümmel

Faz muito tempo que eu não vou ao teatro... a última vez que eu fui foi uma peça

ANOREXIA MATA!

ao mesmo tempo sem graça e desagradável, que nem consegui ver até o fim.

PermalinkPermalink 01.06.09 @ 15:04



Comentário de: Natália

Também estou com o Roberto! Concordo com várias coisas que vc abordou sobre o espetáculo, porém, não concordo que os textos iniciais, não tenham nada a ver com o espetáculo! Se analisarmos, podemos perceber que os três atores que interpretam a srta. Y, antes de mandar os textos das religiões, eles falam "pacividade", que é exatamente o que a sta. y é durante todo o espetáculo: Paciva!!! E as duas atrizes que mandam os outros textos, dizem " Disturbio"! Tudo a ver com a senhora X, que é cheia de disturbios!!! Outra coisa muito importante, nesta mesma hora, existe o distânciamento! Estes textos são mandados pelos atores e não pelos personagens, por isso de relacionar o distúrbio com a pedofilia e a anorexia e a pacividade com as orações!! Então é isso! Acho que todos estão de parabéns pelo trabalho!!! Abraços!!!

PermalinkPermalink 01.06.09 @ 23:49



Comentário de: João Ricardo

zzZZZZZzzzZZzzz...

PermalinkPermalink 02.06.09 @ 10:27



Comentário de: Julia

Aff... alguns comentários do tipo desse tal joão, devem ser descartados mesmo!!! Coisa mais infantil e sem nexo! Argumentos seriam bem melhores!

PermalinkPermalink 02.06.09 @ 22:41



Comentário de: Marcos e Cláudia

Assistimos ontem esta peça e gostamos muito. Sempre vamos ao teatro e relutamos muito em assistir monólogos, mas como ouvimos falarmuito bem da peça, resolvemos conferir. Foi uma das melhores que assistimos nos últimos tempos.

PermalinkPermalink 14.06.09 @ 12:18



Comentário de: Paola

Sou estudante de teatro e fui com meu grupo assiti a peça. Achei incrível o trabalho de corpo dos atores, o sincronismo dos movimentos e a forma qe mandaram o texto bem articulado e bem trabalhado.

PermalinkPermalink 17.06.09 @ 12:22



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