No teatro, marina w. e eu gostamos de sentar sempre na primeira fila, menos quando é comédia:
"Se não for engraçada," explica marina, "eu acabo ficando constrangida e me forço a rir só pra não magoar os atores."
E eu, ingênuo, fiz questão de tranquilizá-la:
"marina, estamos falando do Domingos de Oliveira. Seu filme brasileiro preferido não é o "Todas as Mulheres do Mundo"? Pois então relaxa. Não tem erro."
Pobres de nós.
* * *
Não dá pra entender.
Domingos de Oliveira tem mais de setenta anos, cheio de experiência, responsável por filmaços como "Todas as Mulheres do Mundo", "Amores" e "Separações". Como ele pode ter olhado para o roteiro dessa peça e não ter visto como é simplista, como seu humor é óbvio e morno, como trata seu espectador como uma criança retardada?
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A história: deus (com D maiúsculo) fica deprimido com o estado da humanidade e decide pedir a Eros, deus do amor, que diminua a libido dos homens. Teoricamente, isso resolveria tudo! Eros se recusa, é renegado por deus e se passa para o lado do Diabo (e sua esposa!) que planejam assassinar deus no dia do Juízo Final. Com a ajuda de uma secretária-anja loira, branca e gostosa, deus aniquila os demônios, e também a humanidade, em um Juízo Final apocalíptico. Finalmente, sobram no universo apenas deus e sua secretária-anja, que revela se chamar Vida. Resultado: deus se apaixona pela Vida e o ciclo começa todo de novo.
Com esse argumento, a peça quase-quase poderia ter sido boa, se o autor não tivesse, de forma diligente e sistemática, desperdiçado todas as chances pra isso, salpicando o texto com piadas prontas e fáceis que só faltavam ecoar diante de tanto silêncio da platéia.
Falando do silêncio sepulcral da platéia, houve só uma (enorme) exceção.
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"Apocalipse, Segundo Domingos de Oliveira" custa R$70 aos sábados, R$60 às sextas e domingos, e R$30 às quintas. Naturalmente, fomos ver a peça em uma quinta: nós e toda uma escola estadual, aluninhos no final da adolescência que ocuparam quase metade dos 400 lugares do teatro. Não pensem que estou reclamando: já até escrevi sobre filmes que ficam melhores com uma platéia adolescente histérica.
Cheguei a pensar, todo otimista: "olha que lindo, talvez boa parte deles nunca tenha ido ao teatro, e vão começar com a nova peça de um puta autor brasileiro contemporâneo!"
Coitados dos meninos. Pelo menos, foram os que mais riram. Aliás, praticamente os únicos. A gente só ouvia risos vindo lá no fundo do teatro e, mesmo assim, imagino, não nas horas que o autor esperava.
Por exemplo, um dos 40 e tantos atores era um travesti interpretando um demônio. A princípio, nada de mais, se a cada vez que ele aparecesse, os alunos da escola pública não viessem abaixo de tanto rir. E, se o homem falasse alguma coisa, riam mais ainda.
Enfim, por bons ou maus motivos, devem ter saído com uma boa impressão do teatro brasileiro contemporâneo.
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Um filme ruim é só ruim. Um livro ruim é só ruim. É fácil ler uma página de Paulo Coelho e xingá-lo de sub-escritor, mas imagino qual seria nossa reação se, antes de ler a página, tivéssemos que vê-lo escrevendo essa página, pensando, mudando, refletindo. corrigindo, imprimindo e, então, nos mostrando o resultado todo orgulhoso. Quem teria coragem de lhe encarar nos olhos e dizer que é uma merda?
Por isso, uma peça ruim é, acima de tudo, constrangedora: caramba, aquele povo todo está ali, na sua frente, em cima do palco, dando tudo, decorando falas, pintando o rosto, fazendo acrobacias, suando em bicas - e, mais importante, te encarando olho no olho. Sentem o cheiro do seu peido, vêem seu bocejo, escutam o barulho do plástico da sua bala - e sabem se você não está rindo. Essa é a magia do teatro - e também o motivo pelo qual uma peça ruim também é, antes de tudo, uma peça constrangedora.
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Tudo na peça foi constrangedor. A performance desigual dos atores, a narração em off do Domingos de Oliveira (meu deus, ninguém merece narração em off no teatro!), os lugares-comuns de auto-ajuda mais rasteira ("temos que amar a vida" blá blá) e até mesmo trilha sonora, que incluiu apenas um sub-gênero que batizei de "música clássica de anúncio de xampu". Sabem do que estou falando?
Não é muito complexo: existem músicas clássicas que, apesar de lindas (aliás, justamente por serem lindas), foram tão usadas e abusadas que se tornaram lugares-comuns. Uma música que pode ser ouvida repetidamente em desenhos animados e em comerciais publicitários não apenas perdeu seu poder artístico como, mais ainda, no contexto de uma trilha sonora, tornou-se contra-producente: o diretor a coloca em sua peça ou filme para criar um determinado efeito e, pelo contrário, ao ouvi-la, a primeira coisa que vem à cabeça do espectador é aquela cena engraçada do Hortelino Troca-Letra perseguindo o Pernalonga. Enquanto isso, a moça ao lado está pensando: "hmmm, é verdade, preciso comprar mais Lux Luxo..."
Então, amigos cineastas e dramaturgos, ou vocês contratam um compositor pra criar uma trilha sonora original (recomendo meu amigo Felipe Storino), ou pelo menos tenham a sabedoria de escolher músicas clássicas desconhecidas, que já não tenham associações prontas nas cabeças dos seus espectadores. Meu conselho: virou jingle publicitário, apareceu em desenho animado, fez parte de qualquer compilação "best of", está fora.
Por si só, "O Canon", de Pachelbel, "Pour Elise", de Beethoven, ou "As Quatro Estações", de Vivaldi, são músicas lindas, mas estragam qualquer trilha sonora.
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marina w. e eu ficamos tão constrangidos que ela não conseguiu nem mesmo fingir o riso. De qualquer modo, eram tantos atores entrando e saindo de cena que ninguém ficou tempo suficiente no palco para perceber que não rimos de nada - nem nós nem, praticamente, ninguém nas primeiras fileiras.
Quando terminou a peça, 3 pessoas de 400 se levantaram para aplaudir aqueles 40 e tantos atores no palco. Enquanto isso, marina e eu saímos rápido: "meu deus, que constrangimento!," dizia ela no meu ouvido.
É, amigos, confesso: assistir "Apocalipse, Segundo Domingos de Oliveira", ali na primeira fila, foi umas experiências mais constrangedoras da minha vida - e olha que não sou de me envergonhar por nada.
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Leia o blog de Domingos de Oliveira, na Bravo. Tem muitas fofocas e bastidores sobre a peça.

Obras completas de Freud, de R$960, por R$299/R$399 (sinceramente? o preço dessa joça tem mudado duas vezes por dia, mas está sempre muito barato)
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Ficha Técnica
O Apocalipse, Segundo Domingos de Oliveira. Companhia teatral: Grupo Fúria. Remontagem dirigida por Márcia Zanelatto. Estrelada por Gregório Duvivier e grande elenco. Teatro dos Quatro, Rio de Janeiro. Quintas, Sextas e Sábados, às 21:30h, e Domingos, às 20h. Até 31 de maio. Assistido a 21 de maio, com marina w.
Sobre a Série "Cadernos de Teatro"
Estou começando a estudar teatro e resolvi aproveitar meus meses no Rio e em São Paulo para conhecer a produção contemporânea. Esses textos são minha tentativa de não só documentar as peças que assisti mas também de escrever mais criticamente sobre teatro.
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