As Artimanhas de Scapino, de Molière (Cadernos de Teatro, 7)

Todo crítico sabe que é muito mais difícil falar das obras que a gente gosta. Pois "As Artimanhas de Scapino", com texto de Molière e montagem da Companhia Atores de Laura, é até agora a melhor peça dessa temporada.

As Artimanhas de Scapino

Um dos objetivos da Companhia Atores de Laura (formada a partir dos cursos de atuação da Casa de Cultura Laura Alvim) é "desvincular a atuação do real". Em entrevista a Lionel Fisher, a co-fundadora Susanna Kruger afirmou: "Nós sempre acreditamos que a realidade deve ser distorcida no palco, jamais reproduzida."

Não sei nem por onde começar os elogios, mas posso dizer que não tenho nenhum reparo. Se existe alguma crítica, é essa: por alguns minutos, me perdoe Susanna, eu me esqueci de Brecht e da quarta parede, de teoria literária e crítica teatral, da produção do estranhamento e da distorção da realidade, e me acabei de rir desavergonhadamente. Não queria saber de mais nada.

 Commedia dell'ArteUma boa montagem como essa joga por água abaixo toda a reflexão que eu vinha fazendo sobre adaptações teatrais ousadas ou submissas. Daniel Herz, co-fundador dos Atores de Laura e diretor da peça, manteve-se absolutamente fiel à excelente tradução de Carlos Drummond de Andrade do texto de Molière, encenado pela primeira vez em 1641. As referências ao século XXI e ao Brasil, se existem, são poucas e sutis. Alguns críticos apontaram que o ritmo das gags é tipicamente brasileiro, e que o visual de alguns personagens remete a Hergé ou ao mangá, mas não consegui ver nada disso. O ritmo, o desenho de cena, a composição dos personagens, a convenção do humor, a gestualização, tudo me pareceu (na minha imensa ignorância, que fique bem entendido) de acordo com os cânones da commedia dell'arte. Em todos os aspectos, "As Artimanhas de Scapino" foi a peça mais submissivamente fiel da temporada - e a melhor. Vai entender.

 Bodas de Fígaro, AsA história é simples: dois jovens aristocratas franceses se metem em confusões quando seus pais estão viajando e pedem ao malandro criado Scapino que os ajude. Mentindo e enganando (e nos fazendo rir), Scapino expõe todas as hipocrisias e contradições daquela sociedade. Com um limite: politicamente falando, chama a atenção o fato de Scapino agir sempre em prol dos amos (mesmo quando arrisca a própria pele), nunca de si mesmo.

Só no século seguinte, XVIII, surgiria Figaro, um criado tão ardiloso quanto Scapino -mas que age em proveito próprio. E, finalmente, no outro século, o XIX, aqui no Brasil, no contexto da escravidão negra, Scapino e, principalmente, Figaro, se uniriam para compor um dos mais populares personagens dramáticos de nossa história, o moleque Pedro, protagonista de O Demônio Familiar, peça de José de Alencar sobre os malefícios de ter um escravo doméstico (ou seja, um demônio) Demônio Familiar
no seio de uma família direita. Pedro, como Scapino, também parece sempre agir em prol dos amos, mas no final consegue sua liberdade. (Pausa para uma atualização de vocabulário: moleque hoje já quer dizer menino de modo geral, embora quase sempre com acepção negativa, mas no século XIX era um termo bem específico para designar um menino-escravo.)

Mas, como eu disse, todas essas bobagens pseudo-eruditas e intelectualóides só nos ocorrem depois. Durante a peça, o espectador só quer saber de rir.

Recomendadíssima. Melhor peça em cartaz no Rio de Janeiro.

As Artimanhas de Scapino

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Visite o site da companhia Atores de Laura e confiram essa galeria de fotos.

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Dois Livros de Molière

 Doente Imaginário, O  Tartufo ou o Impostor, O

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Ficha Técnica
As Artimanhas de Scapino, de Molière. Companhia teatral: Atores de Laura.Dirigido por Daniel Herz. Estrelado pelos Atores de Laura. Teatro das Artes, Rio de Janeiro. Terças e Quartas, às 21h. Até 24 de junho. Assistido a 19 de maio.
 Obras Completas Sigmund Freud: Edição Standard - 24 volumes
Obras completas de Freud, de R$960, por R$299/R$399 (sinceramente? o preço dessa joça tem mudado duas vezes por dia, mas está sempre muito barato)

Sobre a Série "Cadernos de Teatro"
Estou começando a estudar teatro e resolvi aproveitar meus meses no Rio e em São Paulo para conhecer a produção contemporânea. Esses textos são minha tentativa de não só documentar as peças que assisti mas também de escrever mais criticamente sobre teatro.

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As Artimanhas de Scapino

 

27.05.09


Categorias: Teatro


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Comentários:


Comentário de: Alessandra · http://alessandrasouza.blogspot.com

"Em todos os aspectos, "As Artimanhas de Scapino" foi a peça mais submissivamente fiel da temporada - e a melhor. Vai entender."

Para falar a verdade, eu não acho muito difícil de entender não. Na minha opinião, os grandes textos teatrais têm esse poder, mas somente quando bem montados. o grande problema é que a maioria das montagens "submissas" não atinge o potencial total do texto, fica na superfície, na historinha. E normal, porque ser absolutamente fiel a um texto e, principalmente, a todo o tema e propósito e camadas de significado de uma grande peça é incrivelmente difícil. Precisa uma companhia excelente para conseguir fazer isso.

PermalinkPermalink 27.05.09 @ 12:57



Comentário de: Luis

Eu ia até perguntar, em outro post, acabei esquecendo.. essa coisa de ver a peça(ou qualquer outra obra) já pensando criticamente não bloqueia outras experiências? não que uma leitura ingênua seja melhor que a crítica, mas será que não é também importante?

PermalinkPermalink 27.05.09 @ 19:02



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