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Tem autores que me espantam sempre. Estava aqui em casa, duas da madrugada, peguei ao acaso uma ediçãozinha que tenho de Gil Vicente, abri aleatoriamente, comecei a ler "A Farsa dos Almocreves", e simplesmente não consegui parar.
É inacreditável pensar que essas peças foram escritas há quinhentos anos, com seu tamanho poder de síntese, seu sensacional o desenho dos personagens em poucos traços, seu humor ainda vivo, sua crítica ainda tão relevante. Gil Vicente é engraçado, leve, fluente, acessível, contundente, atual, mesmo no original, mesmo com todas as palavras arcaicas e suas copiosas notas explicativas: em uma boa edição adaptada ao português de hoje, como as de Walmir Ayala (e sou totalmente a favor desse tipo de adaptação), Gil Vicente parece falar mais sobre a minha realidade, hoje, agora, do que qualquer um andando e twittando por aí.
Quando alguém vem me falar em defender a língua portuguesa, não sei porque, mas de tanta gente que poderia me vir a cabeça, é sempre em Gil Vicente que penso. Tenho vontade de responder: mas, meu amigo, uma língua que assim, na largada, produziu O Auto da Índia e O Auto da Barca do Inferno, não precisa que ninguém a defenda, entende? Gil Vicente e sozinho defende e justifica nossa língua. Com Camões por um lado e Fernão Mendes Pinto pelo outro (ficando só no século XVI!), não precisamos de mais ninguém. É nosso dream team.
Os Grandes Descobrimentos e o Imperialismo Português também já se justificariam só por produzir esses três grandes escritores, em três gêneros tão diferentes, que em meio a fase de maior glória de seu pequeníssimo país, lhe forneceram numa só tacada o seu discurso e contra-discurso. O que poderia ser mais anti-imperialista do que o Velho do Restelo, de Camões, o O Auto da Índia, de Gil Vicente, e cada linha que escreveu Mendes Pinto?
Aliás, se formos mesmo fazer o nosso dream team, eu diria que uma língua que pode formar uma equipe com os três acima, mais Lobo Antunes, Mia Couto, Machado de Assis, Guimarães Rosa, Gilberto Freyre e Clarice Lispector, não precisa ter medo de ninguém.
Pronto, está aí. Ninguém me perguntou mas, na empolgação de um texto apressado sobre Gil Vicente, aqui vai a minha lista dos melhores autores em língua portuguesa.
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