Contra os Descobrimentos: Auto da Índia, de Gil Vicente, e O Velho do Restelo, de Camões

Feliz da língua que tem um Gil Vicente.

Gil Vicente: Auto da Índia; Auto Barca Inferno; Farsa Inês Pereira  Farsa de Inês Pereira GIL VICENTE

Eu sou fã. Adoro O Auto da Barca do Inferno, O Velho da Horta e, agora, acabei de ler um novo favorito, O Auto da Índia, com uma visão mordaz dos Grandes Descobrimentos - presente de um leitor que visitou minha Lista de Presentes.

Em pleno 1509, auge das grandes navegações portuguesas, o autor, grande artista que era, ousava apresentar uma visão oposta ao entusiasmo reinante. O Auto da Índia conta a história de uma mulher que, basta o marido partir pra Índia, os amantes começam a fazer fila na porta.

Ou seja, não a imagem que associamos aos heróicos heróis portugueses que precisavam navegar, não precisam viver e acabavam mesmo é levando uns chifres.

* * *

  Lusíadas, Os LUIS VAZ DE CAMOES Gil Vicente: Auto da Barca do Inferno

O Portugal dos Grandes Descobrimentos foi feliz até em possuir artistas, como Gil Vicente, Camões e Fernão Mendes Pinto, que questionaram seus grandes feitos e tentaram colocar tudo em perspectiva.

Sem o episódio do Velho do Restelo, Os Lusíadas seria apenas mais um empoeirado e obsoleto poemelho épico. O Velho do Restelo é o que dá grandeza, complexidade e profundidade a'Os Lusíadas.

O Velho do Restelo (restelo era o lugar de onde partiam os navios) é somente um velho chato que vai aporrinhar os marinheiros que partiam para trazer glórias a Portugal, lembrando a eles que a glória verdadeira estava em ficar em casa, cuidar da terra. Em suma, ele é a lembrança viva de que nem todo português da época estava saracoteando pelo mar, que tinha muita gente lá na retaguarda tentando manter a casa em ordem.

Ó glória de mandar! Ó vã cobiça

Desta vaidade, a quem chamamos Fama!

Ó fraudulento gosto, que se atiça

C'uma aura popular, que honra se chama!

Que castigo tamanho e que justiça

Fazes no peito vão que muito te ama!

Que mortes, que perigos, que tormentas,

Que crueldades neles experimentas! (...)

Deixas criar às portas o inimigo,

Por ires buscar outro de tão longe,

Por quem se despovoe o Reino antigo,

Se enfraqueça e se vá deitando a longe?

Buscas o incerto e incógnito perigo

Por que a fama te exalte e te lisonge,

Chamando-te senhor, com larga cópia,

Da Índia, Pérsia, Arábia e de Etiópia?

"Ó maldito o primeiro que no mundo

Nas ondas velas pôs em seco lenho,

Dino da eterna pena do profundo,

Se é justa a justa lei, que sigo e tenho!

Nunca juízo algum alto e profundo,

Nem cítara sonora, ou vivo engenho,

Te dê por isso fama nem memória,

Mas contigo se acabe o nome e glória.

Inicialmente, o Velho do Restelo foi lido como um conservador e um reacionário, um inimigo do progresso. Até hoje, em Portugal, ser um Velho do Restelo é ser do contra.

Para outros, no entanto, O Velho do Restelo encarnaria o bom senso, o pacificismo, as preocupações sociais; ele seria aquele que defende que o dinheiro do reino seja aplicado no próprio reino e não gasto perseguindo glórias fugazes que só trariam benefícios às elites.

Recentemente, Saramago atualizou o episódio, colocando o Velho do Restelo (Velho do Cabo Canaveral?) dialogando com os astronautas norte-americanos. O poema não é lá muito bom, mas é uma prova da atualidade ainda contundente do Velho do Restelo.

500 anos depois, o Velho do Restelo ainda vive e gera polêmica; os temas que levanta ainda são relevantes para nós. Essa é a marca do clássico universal.

Pra saber mais:

* * *

   Peregrinação - Vol. 1 FERNAO MENDES PINTO       Peregrinação - Vol. 2 FERNAO MENDES PINTO

E olha que nem comecei a falar da História Trágico-Marítima e das Peregrinações de Fernão Mendes Pinto, outras duas visões críticas contemporâneas dos Grandes Descobrimentos.

Gil Vicente: Auto da Índia; Auto Barca Inferno; Farsa Inês Pereira  História Trágico-Marítima RICARDO GOMES DE BRITO

 

19.05.09


Categorias: Livros


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Comentários:


Comentário de: LucasCF · http://ocioprodutivo.com

Bem legal. Hoje mesmo na minha aula de literatura estavamos analisando o velho do restelo. Que coincidência.

PermalinkPermalink 19.05.09 @ 19:11



Comentário de: Jasão · http://jasoncarreiro.wordpress.com

esse post me motivou a finalmente ler o meu exemplar d'Os lusíadas que comprei num sebo há anos. O livro é lindo, publicado no Porto em 1948 e fui guardando, guardando... acho que chegou a hora!

PermalinkPermalink 20.05.09 @ 00:43



Comentário de: julio · http://umamentecheia.blogspot.com

a unica forma de descubrir a India e so ver a a novela das oito "caminho das indias"

PermalinkPermalink 20.05.09 @ 08:21



Comentário de: Tici Poubel

to descobrindo o seu blog. Bacana. Eu estudo poesia portuguesa contemporanea :)
Sempre bom conhecer alguém que também leu Camões :P
beijo

PermalinkPermalink 10.03.10 @ 22:42



Comentário de: Pharmacist Education Requirements · http://www.wanteducation.com/

It's my job to insisting my father that does not all headlines posted on the web are original but this post is definitely an exceptional to my rule.

PermalinkPermalink 04.01.11 @ 15:24



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