Tem muitas coisas que não entendo na vida. Uma delas é como as pessoas esquentam a cabeça por besteira - especialmente na internet.
Esses dias, o Gravatá fez um post sobre Cuba. Eu estava em trânsito, voltando pro Rio, e nem vi, mas vários leitores (daqueles que ficavam assoviando quando tinha briga no pátio da escola) vieram me dizer que o Gravatá estava me provocando, atacando, etc.
Não acredito que o Gravatá iria fazer um post-indireta, falando mal de mim sem citar meu nome, quando poderia simplesmente me mandar um email e me dizer o que quisesse, mas enfim, foi tanta gente que veio me assoviar no pátio da escola que, independente das intenções do Gravatá, seu texto estava sendo lido como um ataque a mim, então cabe um esclarecimento.
Sinceramente, não entendo tanto histerismo em relação a Cuba, tanto por parte da direita quanto da esquerda. Eu estudo e trabalho Cuba, mas meu interesse é a literatura do século XIX, muito antes que essas babaquices de guerra fria viessem polarizar nossos ânimos.
Cuba é um assunto como qualquer outro e, numa democracia como o Brasil, pode ser abordado e tratado por qualquer um. Ninguém precisa ser crítico literário para falar de Hamlet. Ninguém precisa conhecer a China para falar sobre a China. Não sei vocês, mas me dou o direito de falar sobre qualquer assunto.
Aliás, o engraçado é justamente isso: o fato de Cuba não ser tratado como um assunto qualquer. Cuba aparentemente convida ao extremismo. Todo mundo parece se exalta: à esquerda, à direita, e até ao centro.
Outro dia, o Polzonoff veio dizer que já perdeu muitas amizades por causa de Cuba e aquilo me deixou surpreso. Nunca perdi amizade por causa de país nenhum. Como pode isso? Como alguém pode levar uma bobagem dessas tão a sério assim? E disse ao Polzonoff que a culpa provavelmente não foi de Cuba: ele e seus amigos é que gostam de bater-boca à toa. Resultado: ele ficou puto comigo, me acusou de ególatra (achou que eu achei que ele estava falando de mim!), e deu a maior confusão até conseguirmos resolver o mal-entendido.
Minha ex-namorada é de uma tradicional família intelectual esquerdista. Para eles, Cuba era uma utopia, a grande esperança da América Latina. Um de seus tios chegou a fugir pra Cuba depois do fiasco da luta armada e concluiu a faculdade lá. Já eu sou de uma tradicional família burguesa católica conservadora. Pra eles, Cuba é o bicho-papão. Quando minha mãe conheceu a namorada, ela pegou em seu pulso e disse, muito séria: "Olha, eu vou só te pedir uma coisa!" E pensamos que ela iria dizer: "Não quebra o coração do meu filho!", "Cuida bem dele", ou coisas assim, mas nada disso. Minha mãe pediu: "Não deixa esse menino ir pra Cuba de novo." Meu pai, com menos drama, pediu a mesma coisa. Dois lados da mesma moeda.
Na verdade, não só ninguém precisa ir a Cuba para ter direito de falar de Cuba como talvez o oposto seja verdadeiro: Cuba é um dos poucos países que você pode conhecer *menos* justamente porque o visitou. Regularmente, o governo cubano organiza "brigadas da solidariedade", que são excursões especialmente organizadas para ajudar a levantar fundos para a Revolução e mostrar seus principais feitos a simpatizantes de todo o mundo. A programação dessas brigadas é de gelar o sangue: os participantes ficam o tempo todo acompanhados de funcionários do governo e não tem nenhum contato com a população que não seja mediado por eles. Ou seja, só vêem o que o governo quer que vejam: voltam sabendo ainda menos do que sabiam antes, com uma visão completamente parcial e distorcida do país. Imaginem se o Brasil tivesse excursões especialmente organizadas pelo Governo Lula (ou os EUA, pelo Governo Bush) somente para mostrar as maiores conquistas daquela administração!
O objetivo do meu novo blog Pior que Cuba não é impedir ninguém de falar de Cuba. Eu adoro Cuba, estudo Cuba, escrevo sobre Cuba, pretendo ensinar Cuba: se as pessoas pararem de falar de Cuba, eu perco o emprego.
O objetivo do blog também não é dar carteirada em ninguém e sugerir que só pode falar de Cuba quem pesquisou o assunto ou quem esteve lá, ou qualquer coisa assim. Em um país democrático e com liberdade de expressão como o nosso (o que, infelizmente, não é o caso de Cuba) todos podem falar sobre o que quiserem, com conhecimento de causa ou não. Sou contra até mesmo a obrigatoriedade de diploma pro exercício da profissão de jornalismo, imagina se vou achar que só pode falar de Cuba quem visitou o país!
E muito menos o blog foi um ataque, indireto ou não, ao Gravatá, que sempre escreve posts muito divertidos sobre Cuba. Aliás, como sei que ele se interessa pelo assunto, já lhe mandei um exemplar do meu livro sobre Cuba, mas parece que ele não leu ainda.
O objetivo do blog é somente coligir exemplos de pessoas (pró- e contra-Fidel, da direita ou da esquerda) que puxam Cuba para assuntos que não tem nada a ver com o país. Nada contra quem decide falar sobre Cuba, e vai e fala - como o Gravatá, por exemplo. Mas é muito engraçado esse povo que vai falar sobre a ditabranda no Brasil e já puxa logo o Fidel. E os exemplos são muitos. Para fins de bate-boca na internet, Fidel é o Hitler da América Latina.
Não entendo essas pessoas que são pró-Cuba ou anti-Cuba - ou pró-Israel, anti-EUA, etc. Como alguém pode ser contra ou a favor de todo um país? Não gosto de algumas políticas do governo de Israel, mas não sou anti-Israel. Desaprovo algumas iniciativas do Lula, mas não sou anti-Brasil.
Não sou de esquerda. Nunca defendi o Fidel. A Revolução nunca foi minha utopia.
Mas não sou anti-Cuba, oras.
Cuba é um país lindo e intenso, com uma literatura poderosa que eu amo, com uma história que permite muitos paralelos com o Brasil, com um cinema fascinante justamente pela tensão entre o que se fala abertamente e o que não pode ser dito, com um teatro tão rico que, no século XIX, Havana era a capital teatral da América Hispânica.
Até parece que vou ser contra o país de Cirilo Villaverde e Juan Francisco Manzano, de José Martí e Ramon Meza, só porque um barbudo tomou o poder de sua ilha dezenas de anos depois de suas mortes!
E mesmo eu, que adoro, estudo e trabalho Cuba, vocês nunca vão me ver batendo-boca por aí por causa da ilha.
* * *
Meu livro sobre Cuba, Radical Rebelde Revolucionário, escrito em 2007, e disponível em forma de ebook, está vendendo muito bem, obrigado. Algumas das melhores crônicas estão disponíveis no blog. Para todas as outras, só comprando o livro. Abaixo, algumas das minhas preferidas:
O Período Especial e seu Apartheid
A Salada Monetária Cubana
Os Jineteiros
Dionisio, Um Chileno Malandro
As Jineteiras
Cinema Cubano
Para quem tiver curiosidade, eis aqui algumas coisas que já disseram sobre o livro:
Por Que Che Não Escreveu Isso Antes?, pelo insuspeito anti-comunista Adailton Persegonha, do Leite de Pato:
o desfilar de seus personagens reais, a paisagem de um país perdido entre o presente, o passado e um futuro sempre incerto, as confusões de suas diversas moedas, sua crítica ácida (e ranzinza no meu modo de ver) do turismo sob a batuta do seu imenso poder de observação e objetividade me fizeram ter um sonho: ver este livro lançado em território cubano!
Chato, Crítico e Cínico, por Marcos Donizetti:
"Alex Castro é outro tipo de pessoa, tão ou mais irritante que os já citados, para ser sincero. Seja ele visto como um liberal libertário ou como um rebelde revolucionário, ele na verdade é um chato, crítico e cínico. É exatamente por isso que eu o acho a pessoa mais “confiável” para falar sobre Cuba, por mais que ele mesmo deixe claro já no início de seu livro Radical Rebelde Revolucionário que talvez nada do que ele relata nas 155 páginas seguintes seja verdade. É um bom começo."
E o Alex Castro Gosta de Picadura, do Uber-Blogueiro Cardoso:
Hum. Intelectual. Que fuma cachimbo. Passeando em Cuba bancado por universidades para estudar a Disneylandia do Socialismo? Isso sempre dá naqueles livros chatíssimos onde o cara republica propaganda do Partido, ou então é escrito por um anticomunista ferrenho que vai passar o tempo todo falando das atrocidades da Revolução. Todo livro sobre Cuba cai nesses dois modelos. (...)
O livro é excelente, li de uma sentada só, mesmo com isso soando altamente comprometedor em um post com esse título. São 155 páginas com crônicas deliciosas, onde ele conta seu dia-a-dia na terra de Fidel. Ele descreve um povo como qualquer outro. Alegre, triste, otimista, conformado, assustado, orgulhoso, envergonhado.
Ele encontrou Dolores, a bibliotecária mais sensual desde a Barbara Gordon, descobriu que os cubanos também usam o Jeitinho Brasileiro e aprendeu que quem decide o menu é o burocrata do Governo que escolhe quais produtos colocar nas lojas naquela semana. Passou por saias justas com vendedoras de abacaxi, apaixonou-se por vários pés (longa história) e enganou a polícia para tomar sorvete barato.
Alex alterna momentos líricos com o mais puro sarcasmo. (...) Ele comete vários pecados que farão com que a Academia odeie seu livro, e desejasse estar sob o Regime Cubano, onde Alex seria preso e seus livros proibidos. Ele cita o prosperidade artificial graças ao Regime Soviético, conta que os jornais oficiais são subsidiados, e que o povo os usa como substituto de papel higiênico, conta dos táxis para cidadãos, proibidos por lei de levar turistas, e constantemente parados pelo polícia. (...)
Mesmo assim, Radical Rebelde Revolucionário não é um ebook-denúncia. Nem tudo é ruim, nem tudo é um dramalhão mexicano. Alex não tem uma agenda oculta através do livro. Ele consegue falar mal de uma coisa, e na próxima crônica falar bem de outra. Mostra que por detrás da propaganda e da antipropaganda há gente. E gente é sempre interessante.
Recomendo muito a leitura do livro.
* * *
Última recomendação do Alex: por favor, amiguinhos. Se forem brigar, briguem por algo que vale a pena. Por mulher, por homem, por dinheiro, ou até mesmo para conquistar 24 territórios a sua escolha.
Mas não por uma ilhota de barbudos. Sério. A vida é muito curta.
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