Entendam: eu adoro Suassuna. Sinceramente, acho que é o maior autor brasileiro vivo - o que, infelizmente, não é muita coisa, especialmente em uma língua com dois autores do quilate de Lobo Antunes e Mia Couto.
O seu "Romance da Pedra do Reino" só não é o melhor romance brasileiro do século porque, sério, "Grande Sertão: Veredas" e "A Hora da Estrela" são completamente fora de escala. O "Auto da Compadecida" é simplesmente sensacional: já o ensinei em duas aulas, esquadrinhei seu texto, assisti o filme de Guel Arraes diversas vezes.
Aliás, quando assisti esse filme pela primeira vez, antes de conhecer a obra de Suassuna, gostei muito, mas achei o resultado final tão típico do diretor, que pensei: "pronto, Guel Arraes pegou a peça do Suassuna e a transformou num especial da Globo." Depois, lendo a peça, percebi que Arraes tinha sido muito fiel ao estilo da peça: simplesmente, o que Suassuna tinha feito no teatro brasileiro com o "Auto da Compadecida" não deixava de ser um pouco o que Arraes fez com a televisão brasileira com "Armação Ilimitada".
Pois bem, se o filme "Auto da Compadecida" me remeteu à obra televisiva de Guel Arraes, a montagem atual de "A Farsa da Boa Preguiça", dirigida por João das Neves, me pareceu diretamente saída do "Zorra Total". Lendo "Romance da Pedra do Reino", lendo e assistindo o "Auto da Compadecida", eu ria o tempo todo. Assistindo "A Farsa da Boa Preguiça", não consegui rir nem uma vez. As interpretações me pareceram forçadas, idiotizadas, exageradas, infantis. Em o "Auto da Compadecida", Suassuna conseguiu magistralmente costurar vários enredos da literatura de cordel em uma peça que não apenas recuperava o formato medieval do auto como também era incrivelmente moderna, ao mesmo tempo inteligente e erudita, engraçada e popular. Já na montagem de "A Farsa", me pareceu que o popular foi confundido com o infantil, com o imaturo, com o idiotizado: erro primário de intelectual que acha que o povo é burro e só gosta de bobagem. Nos momentos mais constrangedores, a peça parecia teatro infantil - e dos ruins.
Eu nem saberia dizer exatamente o que deu errado. A montagem é claramente uma super-produção. Os cenários, as músicas, as luzes, as roupas, a atmosfera circense, tudo estava primoroso. Será que o problema foi do texto de Suassuna? Eu teria que lê-lo, para compará-lo ao "Auto da Compadecida" . Será que o problema foi da direção histriônica e popularesca? Provavelmente. Será que o problema foi das atuações infantilizadas ao estilo do Zorra Total? Com certeza, mas quando o problema é de *todos* os atores, podemos colocar a culpa sem medo no diretor.
De qualquer modo, realmente, não gostei.
Ficha Técnica
A Farsa da Boa Preguiça, de Ariano Suassuna. Dirigido por João das Neves. Estrelado por Bianca Byington, Daniela Fontan, Ernani Moraes, Flavio Pardal, Francisco Salgado, Guilherme Piva, Leandro Castilho e Vilma Melo. Sesc Ginástico, Rio de Janeiro. Até 10 de maio. Assistido a 7 de maio.
Sobre a Série "Cadernos de Teatro"
Estou começando a estudar teatro e resolvi aproveitar meus meses no Rio e em São Paulo para conhecer a produção contemporânea. Esses textos são minha tentativa de não só documentar as peças que assisti mas também de escrever mais criticamente sobre teatro.
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