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Quando revelo a falta que sinto do Rio, todo mundo sempre comenta, sim, claro, por causa de seus amigos e parentes, blá blá blá.
Mas, hoje, assim recém-chegado, percebo que... na verdade...bem, nem tanto.
Estava relembrando as mulheres com quem eu mais saía, com quem mais convivia, com quem fiz mais coisas pela cidade. Três estão na Ásia (China, Cingapura, Timor), uma na África do Sul, uma na Rússia, duas em Nova Iorque e uma em Los Angeles. Isso é que dá só conhecer gente cosmopolita.
Enquanto isso, meu único amigo homem mudou-se pra Macaé, atrás do petróleo; e minha irmã e os poucos amigos de infância que ainda moram aqui estão casados, cheios de filhos e trabalhando 15 horas por dia - um estilo de vida tão diferente do meu que fica difícil até de combinar de se encontrar.
Assim como a Revista Mad tinha 100% de turn-over de leitores a cada cinco anos (ninguém lê a Mad por mais que isso!), minha vida também parece ter um ciclo parecido de amigos. Ainda amo todo mundo que amei, mas a vida vai nos levando pra lados cada vez mais diferentes e dificultando a convivência.
Hoje, as pessoas com quem eu mais saio, meus amigos queridos, meus companheiros incríveis, minhas amantes maravilhosas, são pessoas que conheci pelo blog ao longo dos últimos seis anos, alguns pelo flickr ou mesmo pelo orkut - ninguém ainda pelo twitter!
Então, por um lado, em um mundo onde tanta gente reclama de nunca fazer amigos ou conhecer novas pessoas, fico feliz de ser a exceção à regra, de ter um fluxo sempre constante de homens e mulheres interessantes em minha vida. Não são amigos longos e profundos, como os da infância, mas são relações novas, com aquele fascínio desconhecido do futuro. Será que essa nova pessoa que estou encontrando hoje pela primeira vez vai ser meu melhor amigo? Futura esposa? Parceiro comercial? Desafeto? A cada pessoa pessoa nova que conhecemos, é todo um horizonte de possibilidades que se abre.
Por outro lado, volto à cidade que amo e onde morei por trinta anos, e me sinto sozinho - pois todas as pessoas com quem mais saí e convivi já não estão aqui!
E, apesar disso, incrivelmente, não me sinto mal, pois sou tomado de um amor enorme pela cidade inteira, de andar pelas ruas com o Oliver, de tomar um joelho com uma média e refresco de caju lendo O Globo e o Jornal do Brasil, de falar português e não inglês, e de falar doze com u e dez com i e ninguém me corrigir.
Amo Nova Orleans, seu clima e sua mistura racial, sua música e sua comida, sua atmosfera ao mesmo tempo sensual e caótica, decadente e terceiro-mundista, mas basta abrir a Revista Programa ou o RioShow para ver a diferença. Agora que estou estudando teatro, só a quantidade de peças em cartaz já me deixou impressionado.
Existem várias cidades onde eu teria vontade de morar. Nova Iorque e Buenos Aires no topo da lista, Havana e São Francisco logo abaixo, Lisboa como menção honrosa e São Paulo como hors-concours (pois é tão perto que é praticamente como morar no Rio). Todas cidades relativamente grandes e de vidas culturais intensas, ou, mesmo quando não tão grandes, capitais culturais de sociedades que amo e que muito me interessam, como a cubana, argentina, portuguesa - até mesmo, de certo modo, norte-californiana.
Mas nada se compara a estar de volta em casa.
Quanto mais ando e quanto mais viajo, mais percebo que sou, antes de tudo, carioca. Sim, eu sinto saudade dos meus amigos e parentes. Mas não é por isso que amo o Rio.
Amaria essa cidade mesmo se não conhecesse mais ninguém aqui. Amo essa cidade mesmo se tivesse que me reinventar nela a cada cinco anos. Amo a cidade pelos seus defeitos e qualidades. Por sua beleza e por sua canalhice. Por sua hospitalidade e por sua violência homicidade. Pelo seu charme e pela sua imundície.
Não é perfeita, mas é minha.
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