"Senhorita Julia", em cartaz no Teatro Maria Clara Machado, no Planetário, é baseado na peça homônima do dramaturgo sueco August Strindberg (1849-1912).
Fica até difícil pra mim falar da montagem sem ficar tagarelando sobre o texto em si. Para esse estudante do teatro do século XIX, "Senhorita Júlia" (1888) é um dos melhores textos teatrais dessa era, não apenas sintetizando a moral e os conflitos sociais do século que se encerrava mas também pressagiando os do século que nascia.
A história é simples: durante as celebrações do solstício de verão (na peça, muito bem transformado em Reveillon), uma nobre fica sozinha em sua propriedade com seus criados. O clima é de fim de festa, o dia está nascendo, todos estão meio bêbados e exaustos, a começar por Senhorita Julia. Ela começa a flertar abertamente com um dos criados, Jean, na frente da cozinheira, Cristina, sua noiva. O diálogo é primoroso e poderia ter acontecido, com poucas mudanças, em qualquer cobertura de Ipanema: a patroa, bêbada, feliz e querendo fraternizar com "seus inferiores", força uma intimidade que não existe, mas ao mesmo tempo, continua dando ordens sem nem perceber, assim como não percebe que os dois criados, longe de ficar à vontade, estão ainda mais constrangidos e humilhados por toda aquela situação. Quando a exausta cozinheira vai dormir, o diálogo entre Julia e Jean torna-se francamente sexual, em um jogo de poder e controle: Julia está segurando um chicote e, em um dado momento, chega a ordenar que Jean lhe beije os pés. Finalmente, transam.
Nesse momento, tudo muda. Júlia, de dominadora, passa a dominada, ao perceber que entregou sua honra (era virgem?) a um mero criado. Jean assume agora a posição de controle e começa a ditar ordens. Ela quer fugir, ganhar o mundo, não pode ficar ali, desonrada. E Jean responde que não tem porque casar com uma nobre decaída se pode conseguir coisa melhor. Ao mesmo tempo, Jean continua demonstrando ter introjetado a submissão de sua posição, pois tem um medo patológico do patrão, o Conde, simbolizado na peça por suas botas de cano longo, sempre em cena, e que Jean engraxa febrilmente. Quando o Conde volta subitamente, ambos desabam: Julia, desesperada de vergonha, e Jean, tomado por submissão e medo. A peça termina com Júlia indo cometer suicídio atrás do estábulo (não sabemos se foi mesmo adiante) e Jean engraxando as botas do Conde mais uma vez.
Tracy Segal e Rogério Barros, como Julia e Jean, estão simplesmente perfeitos e encarnaram os personagens com maestria. Não dá pra imaginar interpretação melhor. Quem duvida, basta alugar a mais nova versão cinematográfica, com a belíssima Saffron Burrows e Peter Mullan. Tracy é a perfeita patricinha bebinha: feliz, impaciente, mimada. Rogério está o mais perfeito canalha do subúrbio: safado, cheio de lábia, fala o que precisa pra conseguir o que deseja. Se a peça tem um ponto fraco, é a interpretação de Luisa Friese como a cozinheira, mas talvez a interpretação pareça dura e forçada porque esse é o espírito da personagem. De qualquer modo, léguas distante dos dois protagonistas.
Nada pode ser mais relevante, na Zona Sul do Rio de Janeiro de 2009, do que uma peça falando sobre sexo, controle, dominação, classes sociais, patrões e empregados. As adaptações para o contexto local foram muito bem-feitas. A peça se passa em lugar indefinido; os diálogos que, no original, eram em francês, agora são em inglês, mostrando que tanto Julia como Jean são cosmopolitas e viajados; a fuga, originalmente para a Suíça, agora é para Nova Iorque, etc.
Entretanto, "Senhorita Julia" é uma peça naturalista, escrita explicitamente para denunciar Júlia, um tipo de ser humano que Strindberg chamava de "meia-mulher". Para o autor, ela era um personagem altamente negativo, uma mulher com idéias de igualdade entre os sexos, criada para ser igual a um homem, mas ainda assim sem conseguir rejeitar completamente os valores da sociedade a sua volta. Então, para Strindberg, a tragédia de Júlia era justamente agir como um "homem independente" ao abertamente seduzir Jean e, então, logo após, reverter ao seu estado "mulherzinha", ter um ataque histérico e cometer suicídio por sua honra perdida. Dividida entre duas personas incompatíveis, Julia não tem como existir. Para Strindberg, Jean é um canalha aproveitador e interesseiro mas seu comportamento parece ser perdoado, ou no mínimo, compreendido, como uma estratégia válida do mais fraco contra o mais forte; o verdadeiro culpado da tragédia é a falha de caráter de Júlia.
Naturalmente, a peça não é mais entendida assim. Quando Júlia narra o modo igualitário e não-sexista como foi criada pela mãe, as platéias de 1888 entendiam aquele absurdo como a explicação para seu comportamento anormal e imoral. Para as platéias de 2009, nada poderia ser mais comum.
A primeira parte da peça, antes do sexo entre Julia e Jean, mantém-se bastante atual mas, convenhamos, a segunda parte, apesar de interessantíssima no contexto do século XIX, envelheceu muito. Podemos bem imaginar uma patricinha rica de Ipanema, num fim de festa qualquer, seduzindo seu motorista, e morrendo de vergonha depois. Também podemos bem imaginar o motorista a princípio fugindo dessa roubada, logo após entrando com tudo e, finalmente, desprezando a patroa. O que talvez fique difícil para a platéia de hoje compreender (e criar empatia) seja o desespero de Júlia e sua decisão de cometer suicídio. Nesse momento, as motivações dos personagens, antes tão próximos a nós, subitamente nos parecem tão alienígenas que as próprias interpretações começam a soar forçadas - culpa não dos atores, mas daquelas emoções anacrônicas. Talvez fosse interessante adaptar o final da peça para explorar como essa situação teria se desenvolvido nos dias de hoje. No dia seguinte à transa, o que fariam a patricinha de Ipanema e seu motorista?
Naturalmente, a montagem não pode ser criticada pelo que poderia ter feito. "Senhorita Julia", apesar de ter envelhecido desigualmente, apesar de alguns trechos nos tocarem mais do que outros, apesar de alguns diálogos nos parecerem irremediavelmente datados, ainda assim é um dos melhores dramas do século XIX, e incrivelmente relevante em nossa cidade dividida e favelizada. A adaptação atual é primorosa e merece ser vista. Recomendo.
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- O filme brasileiro A Noite de São João (2003) também foi baseado na peça.
- Uma matéria do Estadão sobre adaptações cinematográficas de Senhorita Júlia.
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Dois livros excelentes sobre teatro brasileiro:
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Ficha Técnica
Senhorita Julia, de August Strindberg. Dirigido por Ole Erdmann. Estrelado por Tracy Segal, Rogério Barros e Luisa Friese. Teatro Municipal Maria Clara Machado, Planetário, Rio de Janeiro. Até 28 de maio. Assistido a 5 de maio.
Sobre a Série "Cadernos de Teatro"
Estou começando a estudar teatro e resolvi aproveitar meus meses no Rio e em São Paulo para conhecer a produção contemporânea. Esses textos são minha tentativa de não só documentar as peças que assisti mas também de escrever mais criticamente sobre teatro.
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