O endividamento progressivo e irremediável de toda uma classe econômica é uma das mais perfeitas ferramentas de controle social jamais inventadas. Aqui, nos EUA, a maioria dos estudantes (sem pai rico nem bolsa de estudos) precisa tomar dinheiro emprestado para pagar a universidade e se sustentar. Quando se formam, já estão sobrecarregados com enormes dívidas, que passam muitos e muitos anos pagando - como carneirinhos bem-ajustados e bem-comportados que são.

Underhill é um dos principais pensadores do consumo e do modo como as pessoas compram. Esse seu primeiro livro, e o seguinte, especificamente sobre shopping centers, são repletos de observações inteligentes e grandes sacadas que me ajudaram a entender melhor o funcionamento do mundo.
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Roberto, meu ex-colega de casa, era um dos pensadores mais originais que conheci. Um homem aberto, inteligente, interessante.
Quando morou comigo, estava terminando sua residência em Ortopedia. Sabia que não queria ser médico, sentia-se intelectualmente limitado na profissão, mas já não podia largar. Como pagaria suas enormes dívidas?
Para o banco, o empréstimo para estudantes de medicina é de baixíssimo risco, mas para o estudante, o risco é alto: a medicina torna-se um caminho sem volta. Um empréstimo que se paga facilmente com um salário de médico em início de carreira torna-se sufocante e inviável para qualquer outra profissão.
Roberto queria terminar sua residência, pegar seu diploma e ir estudar literatura, mas com a bolsa de estudos que receberia por um doutorado ele não pagaria nem os juros de suas dívidas. Ou seja, simplesmente não podia mais voltar atrás. Suas dívidas efetivamente o impediam de recomeçar do zero, de tomar uma decisão radical, de seguir por um novo caminho. Por causa das dívidas, Roberto estava obrigado a permanecer na estrada já trilhada, a exercer a profissão que esperavam dele, a continuar tudo igual.
De um modo bem real, talvez tivesse sido bem melhor pra ele simplesmente nunca ter tido acesso a esse empréstimo.
Resolveu a questão do melhor jeito que pôde: conseguiu um emprego como médico do trabalho, fazendo avaliações funcionais; um serviço absolutamente bunda e sem desafios, mas que não lhe exigia nada, nem mesmo concentração. Graças aos excelentes salários médicos, somente dois dias por semana já bastavam pra ele ir pagando suas dívidas e vivendo frugalmente. No tempo livre, corria atrás dos seus projetos pessoais, lia, aprendeu piano, começou a fazer stand-up comedy. Vivia sua vida com liberdade.
Em agosto de 2008, nos encontramos na véspera da evacuação do furacão Gustav: tinha acabado de entregar seu apartamento e estava indo fazer a América Central de mochila. Não soube mais dele.
(O texto continua abaixo da imagem.)

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Uma nação de endividados é uma nação de escravos.
Quem passa o primeiro terço da sua vida profissional afogado em dívidas vai ser muito menos apto a participar ativamente de sua comunidade como um cidadão. Pior: quanto mais pobre, mais dívidas terá e menos poderá de fato participar, deixando, mais uma vez, a arena política e a vida pública nas mãos dos mais ricos e ociosos. Jovens assim, sob o peso de tantas dívidas, tornam-se mais conservadores e alienados, mais avessos aos riscos, mais atraídos por empregos seguros e medíocres, menos propensos às atividades intelectuais, acadêmicas, artísticas, atléticas e também (para não dizerem que o argumento é esquerdista) empresariais e empreendedoras.
Uma nação de endividados é uma nação de cordeirinhos mansos, de gente tão preocupada em não ser despedida ou em arrumar um jeito de pagar a próxima mensalidade escolar do filho, que simplesmente não tem tempo nem disposição para questionar o governo, ser cidadão, participar da sua comunidade.
Uma nação de endividados é uma nação de pessoas tão amedrontadas e acuadas que preferem abrir mão de seus direitos, de seus ideais, de seus princípios, autorizar o governo a filmar as ruas e a grampear telefones, tudo o que quiserem fazer, se somente isso lhes fizer se sentir um pouco menos de medo.
Parafraseando um velho ditado, quem tem dívida, tem medo. E quem têm medo, não é livre.
A verdadeira liberdade apenas pode existir com independência financeira e sem medo.
(O trecho acima desenvolve e parafraseia algumas idéias do pensador canadense John Ralston Saul, que li por recomendação de Camille Paglia. Saul não ser publicado no Brasil explica muita coisa sobre nosso país.)
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Veblen me ensinou quase tudo que eu sei de economia. Além de um pensador brilhante, também era mordaz e engraçadíssimo. Muita gente que discorda de suas teorias ainda o lê como um satirista da sociedade americana. Poucos escreveram sobre os ricos como ele. Fitzgerald também dedicou-se a contar as aventuras e desventuras dos mais ricos: O Grande Gatsby é sua obra-prima e um dos melhores romances de todos os tempos.
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Dicas de Economia Doméstica de um Ex-Rico:
I - As Dicas Básicas
II - Viva a Vida à Vista
III - Não Pague por Nada que Possa Ter de Graça
IV - Não Pague por Nada que Possa Ter de Graça: Livros, CDs, DVDs
V - Reconsidere o seu Carro
Prisão Dinheiro:
I - Viver É Mais Barato do que Você Pensa
II - A Armadilha Consumista
III - Os Dilemas da Classe Média
IV - Caindo na Armadilha do Aumento do Padrão de Vida
V - Viver Fazendo Tanta Economia Já Não É uma Prisão?
VI - Não Existe Liberdade sem Independência Financeira
Adendos da Prisão Dinheiro:
- A Decisão Econômica de Ter Filhos
- O Endividamento nos Estados Unidos
- O Império do Consumo, por Eduardo Galeano
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