Dar Aula de Literatura

Eu tenho a convicção paulo-freiriana que uma aula de literatura é a aula mais democrática que existe. Pela própria natureza da disciplina, não se trata de uma aula onde você tem um mestre lá em cima magnanimamente distribuindo conhecimento e um grupo de alunos lá embaixo sorvendo tudo silenciosamente. Comparado com um professor de História ou Química, eu tenho de fato muito pouco pra ensinar. Minha leitura de qualquer obra literária vale tanto quanto a de qualquer aluno.

A principal força-motriz que me arrasta pra sala de aula é a curiosidade sincera de saber o que os alunos vão falar sobre aquela obra que estamos lendo. Quase um terapeuta freudiano, eu estou em sala mais pra ouvir e guiar a discussão (e iluminar aqui e ali) do que de fato pra falar.

Em ordem decrescente de importância, eis aqui as minhas tarefas como professor de literatura:

1) Iluminar tudo o que já estaria iluminado para o leitor contemporâneo da obra. Pela distância temporal e espacial, muitas vezes o leitor não sabe coisas que o texto não diz porque presume que seriam óbvias. (Por isso, é impossível estudar literatura sem contextualizar a obra em sua cultura e época.)

2) Ensinar um certo tipo de raciocínio literário, como abordar a obra, como lhe fazer perguntas, como formular hipóteses, como ler as entrelinhas, etc, técnicas que são úteis por toda a vida.

3) Corrigir as hipóteses mais absurdas, que em geral estão erradas ou por anacronismo ou ignorância cultural (ver 1), ou por não estarem baseadas em evidências textuais (ver 2).

4) Conhecer a fortuna crítica para poder oferecer aos alunos outras interpretações e leituras daquela obra ao longo dos anos e em outras culturas e, assim, enriquecer a discussão e estimular o debate.

  Professora, É pra Ler ou Entender? DINORA MACHADO MELO  Memórias de Professoras: História e Histórias MARIA TERESA DE ASSUNCAO FREITAS

* * *

Escrevi o texto acima na semana passada, como introdução à nossa deliciosa conversa sobre o poema "Lúcia", de Castro Alves, mas achei que matava um pouco o ritmo, e decidi fazer um post separado. Muitas das idéias aqui vêm de uma aplicação bem pessoal das minhas leituras de Paulo Freire à minha realidade de professor de literatura. Abaixo, recomendação máxima, um dos livros mais lindos, humanos, abertos, libertários, grandes!, que eu já tive o privilégio de ler:

  Pedagogia do Oprimido

 

30.04.09


Categorias: Artes


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Comentários:


Comentário de: Fer

Bom, esse era o meu curso de literatura idealizado. Na faculdade nao era bem assim, desisti de letras. Acredito que, se o curso fosse menos imposto, mais discussao, eu ficaria até o final.

PermalinkPermalink 30.04.09 @ 01:19



Comentário de: Haline · http://halinices.blogspot.com/

ai, quem dera todo professor de literatura fosse assim!

PermalinkPermalink 30.04.09 @ 09:45



Comentário de: Alexandra · http://guerson.wordpress.com

Paulo Freire é realmente fantástico. Quanto à história, a minha tarefa em um tutorial em história é a mesma... Os alunos lêem documentos do período/tema que estudamos e o que me interessa é saber que conclusões eles chegam sobre a época/tema baseado nos textos lidos.

É sempre um choque para os alunos quando descobrem que muitas vezes não há uma verdade e que historiodares discordam sobre o passado...

PermalinkPermalink 30.04.09 @ 10:15



Comentário de: Gabriel Mendes · http://fumacaninja.blogspot.com

O foda é que depois que terminam suas faculdades, os professores esquecem de praticamente tudo que leram sobre Paulo Freire, ou por comodismo, ou por causa das amarras de nosso sistema educacional.

PermalinkPermalink 30.04.09 @ 11:02




Perfeito, Alex. É assim que literatura deveria ser ensinada e como eu planejo dar aula, se algum dia tiver a chance. Não sei se vc está acompanhando pelo meu blog que, apesar de eu estar quase acabando o doutorado em Lit. em Língua Inglesa, não vou poder prestar concurso porque a maior parte exige graduação na área (e eu me formei em Pedagogia). Sabe, não adianta "só" ter mestrado e doutorado na área. Portanto, comecei faz um mês um curso de Letras a distância, pra conseguir o diploma. Estou odiando. Imagina como é ter aula de Lit. sem discussão em sala de aula, só com apostilas que "ensinam" nomes, datas, obras, e principais características de cada período. Quer dizer, até no cursinho pré-vestibular era melhor. É o fim.
Hoje escrevi sobre "O Cobrador". Vá lá discordar!
http://escrevalolaescreva.blogspot.com/2009/04/algumas-observacoes-sobre-o-cobrador.html

PermalinkPermalink 30.04.09 @ 12:17



Comentário de: Luis

Acho engraçado você dizer que é a aula mais democrática que tem. Eu achava a mais opressora que de todas. Via meus colegas lendo livros e mais livros sem nenhum tesão, um professor mala falando da importância da literatura, que se vc não ler vc nao vai ser nada etc. Eu, rebelde mirim, não lia quase nada. Tomei pavor de literatura. Literatura pra mim era tudo que ia de encontro a minha liberdade de fazer o que eu quero, de ir atrás das coisas que me davam alegria.

Demorou, e ainda demora, muitos anos preu desconstruir essa minha aversão aos livros..

PermalinkPermalink 30.04.09 @ 13:29



Comentário de: Te

Vou dar uma dica que talvez vá odiar por que não vão comprar o livro :-) : as obras do Paulo Freire estão disponíveis. Link
http://www.paulofreire.ufpb.br/paulofreire/listaLivro.jsp?proximo=0

PermalinkPermalink 30.04.09 @ 14:24



Comentário de: Viviana

Acreditem ou não, a melhor aula de Literatura que eu tive foi no cursinho. O professor era verdadeiramente apaixonado e para eu me apaixonar pelo assunto bastou uma aula (sempre gostei de Literatura, mas nunca tinha tido aulas empolgantes). As discussões, apesar de pautadas pela obrigação das obras da Fuvest, eram como a discussão ocorrida aqui sobre a poesia de Castro Alves, Ele levava música à aula também. Lembro-me de uma aula sobre Barroco em que analisamos a música "As Aparências Enganam" cantada por Elis Regina, Eu, que não gosto de MPB nem de Elis Regina, saí encantada, Faz quase 15 anos que eu fiz cursinho e ainda carrego um carinho imenso por aquele professor. Não sei se ele dá aula ainda lá, mas o nome dele era Douglas e o cursinho era Anglo Osasco (SP).

PermalinkPermalink 30.04.09 @ 14:46



Comentário de: Cláudia Lemos · http://www.gabaritodaprova.com

Excelente post! Acredito que é em profissionais da educação desse estilo que o Brasil está precisando. E muito!

PermalinkPermalink 30.04.09 @ 17:02



Comentário de: Rodrigo · http://www.novorodrigo.blogspot.com/

Concordo e faz tempo que esperava ouvir isso de um professor. Sempre questionei as interpretações prontas que são passadas aos alunos como verdades incontestáveis. Ao professor cabe passar o contexto histórico, o momento, estilo e até suas características pessoais do autor. É bonito ver os alunos raciocinando, chegando a conclusões por si mesmo, é a verdadeira construção do conhecimento.

PermalinkPermalink 01.05.09 @ 13:57



Comentário de: Homero

Uma coisa que eu nunca entendi direito: se a pedagogia do oprimido é tão sensacional, por que a taxa de analfabetos (funcionais, ou não) é tão alta nos países onde a pedagogia do Paulo Freire é aplicada (Brasil e américa latina)? Essa taxa costuma ser extremamente baixa em países onde nunca se ouviu falar de Paulo Freire (Coréia do Sul, Japão, Finlândia, Suécia, etc.).

Ou será que uma teoria pedagógica vale por si mesma e o resultado que ela obtém é irrelevante?

PermalinkPermalink 01.05.09 @ 22:59



Comentário de: Rebecca Monteiro · http://umasoutras.blogspot.com

Concordo muito com tudo isso...
Escrevi, no último dia dos professores, esse post aqui:
http://umasoutras.blogspot.com/2008/10/professorar.html

É uma espécie de "homenagem" aos professores
que, como vc, não se sentem "donos da verdade"...


PermalinkPermalink 02.05.09 @ 15:56



Comentário de: paula angelica

Alguém pode me dizer como dá aula de literatura para adolescentes?

PermalinkPermalink 31.05.09 @ 17:46



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