Três Leituras de "Lúcia", de Castro Alves

(Primeiro, vocês leram e comentaram o poema "Lúcia", de Castro Alves. Depois, eu respondi aos primeiros comentários e fiz três perguntas concretas sobre o poema. E, aqui, comentei suas respostas. Agora, abaixo, o meu texto sobre o poema, parte de um artigo mais longo sobre Castro Alves.)

  Castro Alves: um Poeta Sempre Jovem ALBERTO DA COSTA E SILVAO poema curto "Lúcia" foi escrito em São Paulo, em 1868, e publicado pela primeira vez em 1881, em uma edição comemorativa dos dez anos de morte do poeta. Atualmente, aparece em algumas edições de Espumas Flutuantes mas é geralmente incluído em Os Escravos. Seu enredo é traiçoeiramente simples: o narrador conta a história de sua colega de brincadeiras da infância, Lúcia. A princípio, ele só descreve delícias e alegrias da vida em uma fazenda:

Eu e Lúcia corríamos - crianças
Na veiga, no pomar, na cachoeira
Como um casal de colibris travessos.

Logo, entretanto, percebemos que Lúcia é uma escrava:

Ai! Pobre Lúcia... como tu sabias,
Festiva, encher de afagos a família
Que te queria tanto e que te amava
Como se fosses filha e não cativa...

O narrador conta então como a família branca amava Lúcia, o quanto ela tocava suas vidas e os fazia felizes. Mesmo assim, entretanto, ela logo é vendida e mandada para longe. O poema não explica porque a família venderia uma escrava pretensamente tão amada, mas sugere pobreza:

Mas um dia a miséria, a fome, o frio,
Foram pedir um pouso nos teus lares...
A mesa era pequena... Pobre Lúcia!
Foi preciso te ergueres do banquete
Deixares teu lugar aos mais convivas...

Antes de ser mandada embora, Lúcia se despede da fazenda como se tudo fosse sua culpa e diz, "conversando com a natureza":Racismo LLL

Perdoai-me que eu parto para sempre!
Venderam para longe a pobre Lúcia!... ...
Não te esqueças de mim que te amo tanto

Enquanto vai sendo levada embora, Lúcia ainda agita um lenço branco. Muitos anos se passam. O narrador, agora adulto, está andando em uma estrada do interior quando percebe a mulher solitária caminhando a sua frente, cantando uma cantiga triste, carregando água sobre a cabeça, pés descalços no chão de terra - escravos eram proibidos de usar sapatos. Subitamente, ele reconhece a canção:

De repente, Lembrei-me... "Lúcia! Lúcia!"
... A mulher se voltou... fitou-me pasma,
Soltou um grito... e, rindo e soluçando,
Quis para mim lançar-se, abrindo os braços.
... Mas súbito estacou... Nuvem de sangue
Corou-lhe o rosto pálido e sombrio...
Cobriu co'a mão crispada a face rubra
Como escondendo uma vergonha eterna...
Depois, soltando um grito, ela sumiu-se
Entre as sombras da mata... a pobre Lúcia!

E assim termina.

A leitura mais comum desse poema vê nele a romântica história de um incipiente caso de amor precocemente abortado pela dura realidade da escravidão. Em uma época onde ainda era raro desconfiar do narrador, ele era visto como um pobre jovem inocente que, por ter as mãos atadas por uma realidade socioeconomica maior que ele, perde talvez o grande amor da sua vida. Mais recentemente, leitores brasileiros escaldados por Dom Casmurro tendem não só a desconfiar do narrador como a tentar ver a situação pelo ponto de vista do personagem subalterno, transferindo sua empatia do narrador para Lúcia. Cânone Imperial, O FLAVIO R. KOTHE

Seguindo essa linha, o crítico Flávio Kothe, em seu O Cânone Imperial (2000), faz uma análise especialmente dura do poema, tomando como ponto de partida a leitura acima. Pra começar, ele pergunta: se Lúcia era tão importante e tão amada, por que foi vendida? Naturalmente, não deveria ser tão importante assim. Além disso, também é fácil culpar outros por uma separação que fatalmente aconteceria quando ele saísse da fazenda para estudar e Lúcia ficasse para trás, trabalhando pra pagar seus luxos na cidade grande:

"o fato de Lúcia, companheira de folgedos, ser vendida de repente só importa na medida em que, com a ausência dela, o sinhozinho se sente ferido."

Kothe também questiona a fonte da vergonha de Lúcia. Sua vergonha seria não por sua condição de escrava, pois ela já era escrava antes. Será vergonha de encontrar um dos membros da família que ela pensou que a amava, mas a vendeu como gado? Será vergonha que encontrar o homem que provavelmente, caso não tivesse sido vendida, a teria deflorado, como faziam quase todos os sinhôzinhos?

O poema também menciona a profunda tristeza de Lúcia: de acordo com a leitura tradicional, por ter sido separada de seu inesquecível amado da infância. Kothe se pergunta: uma escrava trabalhando sem parar, brinquedo sexual do patrão, sofrendo todas as indignidades imagináveis, será que não tinha outros motivos mais concretos para sua melancolia? Finalmente, Lúcia foge e o narrador não a segue. Na interpretação mais tradicional, ele o faz por pudor, para respeitar seu desejo de ficar sozinha. Na releitura de Kothe, esse ato acaba sendo reinterpretado como uma denúncia da hipocrisia do narrador, do poeta e do próprio leitor atual:

"Sugere-se que ela não queria ser encontrada e, portanto, não queria que ele fizesse algo por ela (exceto um poema). Assim, ele não precisa enfiar a mão no bolso para comprar a liberdade da amiga e dar-lhe vida mais digna. Também não precisa fazer politicamente nada, comprar qualquer briga, já que toda a culpa era dos outros e do passado. Desse modo é fácil ser abolicionista. (...) É a postura do político conservador que declara em público a sua solidariedade com os desgraçados e, na prática, nada faz. O leitor aceitar tal enredo é sinal de que ele também não foi mais longe. Ainda existe algo da mentalidade escravagista no inconsciente da população em regiões onde preponderou o escravismo."

Kothe erra somente ao confundir narrador com autor: independentemente de como o poema foi escrito, em 1868, ou de como foi lido desde então, ele também pode ser entendido não como uma celebração da hipocrisia, pusilanimidade e egocentrismo do narrador (e, por extrapolação, das elites brasileiras, inclusive do próprio leitor do século XXI) mas, precisamente, como sua denúncia. Hoje em dia, Lúcia seria uma empregada doméstica qualquer, tratada como se fosse "da família" mas morrendo na fila do hospital público sem que a família-patroa a levasse para uma clínica particular. A análise incisiva de Kothe demonstra não a falta de valor da poesia de Castro Alves mas, pelo contrário, sua profundidade e relevância política sempre atuais.

O poema, entretanto, não se esgota nessas possibilidades. Uma leitura cuidadosa revela que o narrador nunca de fato se identifica: nada indica que ele seja branco, livre ou que pertença à família que possuía Lúcia. Ele brincava livremente com ela na infância, mas ela era escrava e também brincava livremente. Seria o narrador também escravo? ABC de Castro Alves JORGE AMADO

Existe uma cuidadosa e ambígua operação de aproximação e distanciamento entre o narrador e a família branca: o narrador, ao falar que a miséria tomou pouso em "teus lares", se coloca cuidadosamente fora desses lares - assim como acima fala "a família" e não "nossa família". A que família e a que lares ele pertence então?

Se uma interpretação mais política e contemporânea focalizou em Lúcia em detrimento do narrador, talvez fosse interessante voltar nosso olhar a ele: sabemos quem é Lúcia, mas quem é o homem que narra o poema? Se nada indica que é branco, rico ou dono de escravos, nada também indica que é negro, mulato ou escravo: entretanto, a cuidadosa escolha de vocabulário do poema permite todas essas possibilidades.

Poderíamos perfeitamente reler "Lúcia" como uma abortada história de amor (e talvez nem mesmo isso) entre dois escravos. Quando o narrador encontra Lúcia na estrada, não há menção a nada que indique uma posição socioeconômica superior da parte dele: ele não está nem mesmo a cavalo, mas caminhando assim como ela - talvez também descalço ou carregando peso.

Se começarmos a ler nas entrelinhas, desconfiaremos até da pretensa história de amor: quando Lúcia está para ir embora, ela faz um longo discurso de despedida que termina em "Não te esqueças de mim que te amo tanto." Nesse ponto, muitos leitores podem presumir que ela está falando com o narrador, mas, já no começo do discurso, o poema deixa explicitamente claro que ela estava "conversando com a natureza", se despedindo da mata, dos passarinhos, dos coqueiros e das violetas. Do mesmo modo, logo em seguida, quando ela acena um lenço branco ao longe, nada indica que esteja se despedindo do narrador, mas provavelmente da mesma natureza com a qual estava dialogando há pouco. Não deixa de ser curioso: por que o poema não mostra nenhuma interação, diálogo ou despedida entre os dois? Por que, pelo contrário, faz questão de deixar bem marcado que ela não estava se despedindo dele?

Talvez a intenção do poeta fosse justamente deixar claro o caráter completamente platônico do relacionamento. Ao quebrar nossas expectativas de despedidas românticas e declarações apaixonadas, o poema parece estar enfaticamente afirmando: "essa não é uma história de amor, nosso assunto aqui é outro."  Escravos, Os

Por fim, resta apenas a questão da vergonha final de Lúcia. Se fossem apenas dois escravos se encontrando em uma estrada, por que fugiria? Em primeiro lugar, porque encontrá-lo de novo a fez reviver toda a vergonha de ter sido vendida, aquele momento traumático no qual uma menina inocente, até então criada como se "fosse filha e não cativa", descobriu o quanto de fato valia e qual era o seu verdadeiro lugar na ordem social. Talvez houvesse até uma ponta de ressentimento contra o narrador: afinal, ela foi vendida e ele não. Talvez ele fosse realmente amado e valorizado. Em segundo lugar, porque talvez de fato fossem mesmo amigos, ou apaixonados um pelo outro, e Lúcia introjetou em si toda a culpa da separação.

Assim como muitas mulheres estupradas que se sentem adúlteras ao encarar seus companheiros, Lúcia é duplamente vitimizada: além de ter sido vendida e separada de seu amigo e potencial companheiro, ela também introjeta em si a culpa dessa separação, como se tivesse sido tudo sua culpa, como se ela pudesse ter evitado a separação se tivesse sido uma escrava mais diligente e trabalhadora. Assim, sentindo-se culpada pelo crime que sofreu, não consegue mais encará-lo e foge.

O objetivo dessa análise não foi, naturalmente, esgotar as possibilidades do poema mas exemplificar suas potencialidades. Um romântico e sentimental poeta é separado de sua amada pela perversa realidade da escravidão. Menina escrava é vendida para longe de sua casa e família, e seu egocêntrico amigo e sinhôzinho só consegue pensar em si mesmo e em como isso o afeta. Casal de escravos que cresceu juntos é separado e mulher introjeta em si a culpa da separação. Um mesmo poema e três enredos bastante diferentes: é por essa riqueza que Castro Alves continua fascinando os leitores brasileiros.

* * *

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25.04.09


Categorias: Livros, Raça


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Comentários:


Comentário de: Dr Plausível · http://drplausivel.blogspot.com

Terpretação falha, essa de q o narrador pode ser um escravo. Se fosse, seria um escravo bem sangue-de-barata, vestindo a camisa dos senhores:

"Ai! Pobre Lúcia... como tu sabias,
Festiva, encher de afagos a família,
Que te queria tanto e que te amava
Como se fosses filha e não cativa..."

¿Q tipo de escravo se impressionaria com isso?

O narrador só parece ambíguo aos olhos pós-modernistas de hoje, qdo se pretende usar o q já existe pra finalidades alheias às intenções originais. Mas uma conhecimento mais amplo da poesia do século XIX coloca em cheque os vários enganos das interpretações hipotéticas.

Não sou especialista, mas veja o seguinte:

"Lúcia" é claramente derivado do movimento romântico iniciado décadas antes na Europa por, entre outros, William Wordsworth (morto em 1850).

Wordsworth não só tinha na natureza seu principal assunto, como escrevia bastante em decassílabos sem rima ("blank verse") num tom q C. Alves tava seguramente emulando em "Lúcia"; não só isso, mas alguns dos poemas mais significativos de Wordsworth são cinco poemas rimados chamados de "Lucy poems", q lamentam a morte – ie, a perda – de uma menina chamada Lucy (real ou imaginada).

Tanta coisa junta provavelmente não é coincidência. Digo "provavelmente" pq não posso dizer com certeza se C.Alves leu Wordsworth, ou mesmo se foi Wordsworth quem ele procurou espelhar.

Se, além dessas coisas, vc levar em conta q um poeta romântico tem três assuntos principais:

• a natureza
• ele mesmo
• sua passividade/impotência perante as perdas

, esse poema de Castro Alves se encaixa inseparavelmente *naquela* época e lugar, e qqer uso futuro ou hipótese futura q ignore esses fatores serão claramente espúrias.

PermalinkPermalink 25.04.09 @ 12:07



Comentário de: Lucas

Sei lá, mas eu tenho um pé atrás com essa possibilidade de o narrador ser o sinhôzinho.

Olha:

Na formosa estação da primavera
Quando o mato se arreia mais festivo,
E o vento campesino bebe ardente
O agreste aroma da floresta virgem...
Eu e Lúcia, corríamos - crianças -
Na veiga, no pomar, na cachoeira,
Como um casal de colibris travessos
Nas laranjeiras que o Natal enflora.

Ela era a cria mais formosa e meiga
Que jamais, na Fazenda, vira o dia ...


Ou seja, quando crianças; Lúcia e o narrador eram muito próximos e brincavam juntos. Na Fazenda, Lúcia jamais vira o dia. Admitindo-se que de um modo geral o "mundo do sinhôzinho" é exatamente do tamanho da fazenda, como diabos Lúcia e o Narrador brincariam na infância? A não ser que eles sempre brincavam a noite, e o autor jamais diz isso. :/




PermalinkPermalink 25.04.09 @ 14:52



Comentário de: Alex Castro Email

Lucas, eu não entendi bem sua opinião aqui, mas acho q foi fruto de outro problema de vocabulário. Você está levando as coisas um pouco literalmente demais.

"Que jamais, na Fazenda, vira o dia ..."

"Jamais ver o dia" é uma expressão. Não quer dizer que a menina só saía de casa à noite.

PermalinkPermalink 25.04.09 @ 15:09



Comentário de: Dr Plausível · http://drplausivel.blogspot.com

Bom, claro, grato pelo puxão de orelha. Mas eu só perguntei "¿Q tipo... &c?" pq não acho q Castro Alves, como poeta abolicionista E romântico, colocaria como narrador de um poema seu um escravo q "se identificava com os patrões". Não faz sentido.

E – embora eu concorde com vc em q uma das funções da crítica literária seja extrair novas hipóteses de textos antigos e reinterpretá-los – essas novas hipóteses e interpretações vão ser tanto mais suspeitas qto mais servirem a propósitos não coerentes com a obra. Tem pessoas q, sob o pretexto de extrair novas hipóteses e reiterpretações da Bíblia, citam passagens totalmente nada-a-ver tentando demonstrar q já 2500 anos atrás Deus em sua onisciência revelou aos religiosos q a Terra era um planeta redondo girando em torno de um sol no meio de uma galáxia – e fazem do mesmo jeito q fazem os q acham q o narrador de "Lúcia" pode ser um escravo, ou seja, preenchendo as lacunas com palavras/conceitos q o autor sequer conhecia.

(Entenda q falo tudo isso sem sequer o menor pingo de antagonismo. Se uso expressões como 'sangue-de-barata' e outras é por mero senso de humor, mais nada.)

PermalinkPermalink 25.04.09 @ 15:16



Comentário de: Lucas

Acho que estou sendo literal mesmo.

É que na primeira estrofe o autor deixa mais probabilidade para o fato de que eles brincavam durante o dia.

Dentro da fazenda, a menina não via o dia (Ou seja, o sol)... Isto é, não poderia brincar com o sinhôzinho durante o dia.


PermalinkPermalink 25.04.09 @ 16:32



Comentário de: Luka

LLL,

veja se eu entendi sua interpretação do poema.

Você propôs 3 perguntas a que uma interpretação satisfatória deve responder.

1. Quem era o narrador?

Em resposta a esta pergunta, você sugere que ele poderia ser um escravo. Sua principal evidência são os versos

“Mas um dia a miséria, a fome, o frio,
Foram pedir um pouso nos teus lares...”

afinal, se o narrador fosse mesmo membro da família, por que não diria “nossos” no lugar de “teus? Este é, então, um dos desafios que a interpretação tradicional – a de que o narrador não é um escravo – teria de superar.

Eu acho que pode haver explicações incidentais para isso (manter a métrica; evitar cacofonia – “nos nossos”;), ou explicações semânticas bem deflacionárias (por exemplo, enfatizar que, por mais que isto tenha afetado o lar de todos, isso afetou principalmente, o lar de Lúcia; em suma, a corda arrebentou do lado do mais fraco).

(Aqui, porém, uma dúvida: “a miséria, a fome, o frio” não parecem um exagero? Afinal, Lúcia vai se despedir de uma fazenda grande, cheia de animais – não há o menor indício de que o corte de despesas vá além de vender Lúcia... Será possível, então, que, estritamente, “a miséria, a fome, o frio” só afetem realmente a vida de Lúcia? O frio, lembre-se, contrasta com as noites em torno da fogueira; e a fome, com ela ter perdido seu lugar à mesa.)

Eu não tenho um argumento definitivo em favor da interpretação tradicional, mas acho que a sua interpretação revisionária enfrenta o problema de explicar por que o narrador não foi vendido. Isto é particularmente premente porque:

(a) o poema insiste, desde o começo, em como Lúcia era especialmente querida por todos;

(b) ele diz, nas linhas que seguem imediatamente o trecho em disputa, o seguinte:

“A mesa era pequena... Pobre Lúcia!
Foi preciso te ergueres do banquete
Deixares teu lugar aos mais convivas...”

Agora, se o narrador ficou, ele era mais conviva; mas, se Lúcia, que era querida como uma filha, não ficou, a meu ver, subentende-se que o narrador só era mais conviva porque, além de ser querido como um filho, era de fato um filho. Não?

2. Ele e Lúcia se amavam ou não?

Aqui, se eu bem entendi, você diz que o poema não é sobre amor, platônico ou não – o fato de eles não interagirem diretamente seria uma evidência disso.

Bem, em primeiro lugar, parece-me claro que o narrador gostava de Lúcia; ele a descreve, em duas longas estrofes, em termos muito positivos, e declara, murmurante, sua admiração por ela (“Então, Lúcia, sorrindo eu murmurava:/"Meu Deus! um beija-flor fez-se criança.../Uma criança fez-se mariposa!"”;).

Eu não sei se *ela* gostava dele (e talvez nem ele soubesse, e por isso não se declarava?), mas a cena que você destaca – de Lúcia se despedindo da fazenda, e declarando seu amor à fazenda – bem, você acharia muito forçada a seguinte interpretação? De fato, ela se despediu da fazenda, listando todas as coisas que ela gostava de fazer lá – mas o relevante é que ela fazia essas coisas com o narrador. Neste caso, a fazenda é um substituto para o narrador (porque, provavelmente, ela já está com vergonha dele, e não diria isso pra ele).

Não sei se esta é minha interpretação preferida; acho que também é razoável achar, simplesmente, que Lúcia vai sentir falta de *toda* sua vida na fazenda (até de colher flores para sua senhora).

3. Qual é a fonte da vergonha de Lúcia?

Eu acho que a resposta, neste caso, é inequívoca, e independe da reposta que damos às questões prévias: Lúcia se envergonha de ter sido vendida. Rever o narrador traz de volta as memórias boas daquele tempo (daí seu impulso de abraçá-lo), mas imediatamente traz as ruins – e são estas as que prevalecem.

PermalinkPermalink 25.04.09 @ 19:57



Comentário de: Gustavo B.

Não menosprezando seu trabalho (pelo contrário até;), mas te pagam mesmo pra isso? :)

PermalinkPermalink 25.04.09 @ 22:51



Comentário de: Alex Castro Email

gustavo,

pagam sim. esse, por exemplo, foi inclusive encomendado.

PermalinkPermalink 25.04.09 @ 23:12



Comentário de: Baxt · http://www.baxt.net/blog

Ou numa leitura mais maluca: o narrador era um escravo ou sinhozinho (isso eh irrelevante) que perseguia Lucia e tinha ilusoes de que ela o amava - como um stalker. Ela fugiu dele porque tinha medo do stalker da infancia.

PermalinkPermalink 07.05.09 @ 15:19



Comentário de: joao · http://joaovyctor2006@hotmail.com

este altor é de mais sou fam dele

PermalinkPermalink 01.06.09 @ 11:23



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