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Ainda sobre "Lúcia", de Castro Alves

Primeiro, vocês leram e comentaram o poema "Lúcia", de Castro Alves. Depois, eu respondi aos primeiros comentários e fiz três perguntas concretas sobre o poema:

- Quem era o narrador?
- Ele e Lúcia se amavam ou não?
- Qual é a fonte da vergonha de Lúcia?

Hoje, eu iria postar o meu texto sobre o assunto, mas prefiro somente comentar suas respostas às perguntas acima:

* * *

Escravos Não Tinham Poesia

"Entretanto, fica difícil imaginar um escravo da senzala com a capacidade narrativa e poética do narrador. Talvez a evidência maior que o autor é um sinhozinho seja a existência da poesia em si."

Então vc acha que os escravos eram incapazes de poesia? Comentário pesado esse. Por que você presume que ele era escravo de senzala? Existe alguma indicação disso? Dado que o narrador brincava com Lúcia e a acompanhava pra todos os lados, SE ele fosse escravo, seria certamente um escravo doméstico - e muitos desses sabiam ler e escrever, e até compunham poesias.

Uma das grandes críticas aos escritores abolionistas do século XIX - inclusive Castro Alves - era que defendiam o negro mais ou menos como se defendem os pandas: sem reconhecer neles a humanidade, sem lhes dar voz, presumindo que não tinham poesia, que não saberiam se expressar, que não tinham subjetividade, que não poderiam se defender.

Na verdade, eu acho que Castro Alves (apesar de cair nessa condescendência diversas vezes) é o primeiro que começa a quebrar esse paradigma e retratar personagens negros com vidas interiores intensas e dilemas existenciais profundos - aliás, como qualquer pessoa.Racismo LLL

Então, olha, não quero ser chato nem nada, mas a essa altura do campeonato, acho o seu comentário bastante problemático. E fico por aqui.

* * *

Ela Fala para a Natureza

"Acredito que ela o amava, despediu-se dizendo "Não te esqueças de mim que te amo tanto...""

Mesmo quando Lúcia diz "Não te esqueças de mim que te amo tanto...", não há a certeza de uma paixão aqui.

Vamos sempre lembrar que não é para ele que ela diz isso: é para a "natureza". O poema afirma isso com todas as letras. Aliás, é inclusive uma boa pergunta: por que o poema faz questão de dizer que ela se despede e se dirige à natureza e à fazenda, e às flores e às matas, mas não ao narrador?

* * *

Autor vs Narrador

"Tá claro q o narrador é o próprio poeta, ou relembrando ou imaginando"

Sim, acho que o fator primordial para nos fazer intuir que se trata de um "sinhozinho" branco é o fato dele ter sido escrito pelo Castro Alves

Hmm, então vc acha que o narrador é sempre igual ao escritor? Essa hipótese não se sustenta para grande parte da literatura. É como falar que só porque está lendo um livro da Toni Morrison, intui ou pressume que o narrador é uma mulher negra do século XXI. Isso não faz muito sentido.

* * *

Proximidade dos Escravos Domésticos

- Quem era o narrador?
O sinhôzinho. Ele estava muito próximo da família e dos sentimentos da família para ser "de fora".

Hmm, e os escravos eram "de fora"? Os escravos domésticos viviam em total coabitação com as famílias brancas, ainda mais do que as domésticas de hoje. Cresciam juntos, mamavam juntos, comiam juntos, transavam juntos. Dificilmente poderiam ser considerados de fora. Provavelmente, sabiam todas as fofocas e todos os segredos de todo mundo das famílias. Escravos, Os

* * *

Mariposas e Colibris

Há um certo distanciamento dele em relação a ela. No verso "Meu Deus! um beija-flor fez-se criança...Uma criança fez-se mariposa!", o narrador parece expressar uma certa surpresa. Bom, e aí, entra uma sutileza que pode ser viagem minha. No sertão, normalmente, a mariposa não é um símbolo de pureza, como um beija-flor ou a borboleta - animais do dia. É como se ele dissesse com essa metáfora que, de repente, descobriu em Lúcia sua verdade: Não mais a menina, mas a mucama, a escrava, que doravante ele passa a tratar - e o faz por três vezes - de "pobre Lúcia".

É interessante notar que no início do poema, o poeta e Lúcia corriam "Como um casal de colibris travessos". Já no meio do poema, o poeta se impressiona com a transformação ("cai a ficha" na cabeça dele) de Lúcia, de beija-flor para mariposa. Tenho a impressão de que a surpresa que ele demonstra esclarece sua situação de sinhozinho branco, já que nada fala acerca de uma possível transformação de si próprio. Nesse sentido, ele continua sendo um colibri, ou um beija-flor.

Excelente observação. Muita gente viu a imagem da transformação de beija-flor em mariposa como negativa. Eu não vi isso mas, realmente, meu contexto é outro. Castro Alves era do interior da Bahia, vai ver lá mariposa remete a "inseto preto e feio que pousa no cocô". Talvez realmente esse verso signifique que o narrador desencantou de Lúcia.

Por outro lado, me parece que todo o tom do trecho é de elogio e assobro pela moça bonita em quem Lúcia se tornou - especialmente porque ele começa o trecho dizendo que está sorrindo. Não faria sentido incluir aí uma crítica, quebraria todo o ritmo e o clima que se estava construindo. Reparem como fica o trecho se eu trocar "mariposa" por um inseto que vai ter conotação negativa para todos:

Na grande sala em torno da fogueira,
Então, Lúcia, sorrindo eu murmurava:
"Meu Deus! um beija-flor fez-se criança...
Uma criança fez-se barata!"

Pois é, acho que não bate, mas gostei da observação.

* * *

As Regras do Jogo ABC de Castro Alves JORGE AMADO

Sei não. Esse poema me parece bastante simplório. Tá claro q o narrador é o próprio poeta, ou relembrando ou imaginando; tá claro q, se não estiver comparando Lúcia a um bicho de estimação, ele mistura alhos com bugalhos na hora errada (Lúcia chorando enquanto as vacas mugem, as éguas relincham) coisa típica ou de cínico ou de mau poeta; e tá claro q o autor faz Lúcia fugir ostensivamente pra esquecer o passado, mas na verdade pra permitir q o poeta-narrador seja inundado com um sentimento vago de algo intangível q foi perdido pela realidade anti-romântica, e ai ele pode fantasiar como quiser sem ferir sua hombridade pós-adolescente. Muita fumaça.

Ah, doutor, se você não quer brincar, não brinca, mas se quiser entrar na roda, tem que jogar pelas regras. Não existe isso de dizer que "é claro que o narrador é o próprio poeta". Claro por quê? Claro baseado em quê? Que trechos, que elementos no texto fazem você achar que o narrador é o poeta?

Todo mundo pode falar o que quiser, mas a única regra é justificar suas opiniões com elementos do texto. Senão, deixa de ser extrapolação louca para se transformar em reescritura do texto.

Eu estou afirmando o seguinte: nada nesse poema nos permite presumir que o narrador seja branco, rico, patrão, sinhozinho, ou que tenha nível socioeconomico superior a Lúcia. Ele pode ser um agregado, pode ser mulato, pode ser um escravo da casa, pode ser muitas coisas.

Se vocês acham que é claro que ele é sinhozinho, beleza. Toda a opinião é válida. Provem com o texto.

* * *

Eles Fazem as Mesmas Coisas, Logo Eles São Diferentes

Na minha opinião, há sim, um contexto - ainda que não um verso explícito - que parece indicar que o narrador não é um escravo, ou que, pelo menos, leva a essa impressão. Ambos eram crianças ("Eu e Lúcia, corríamos - crianças -") e em todo o poema, o narrador parece conhecer bem o ambiente em que transita Lúcia. Se ele também fosse uma cria da fazenda, não necessariamente, por ser menino, iria transitar nos mesmos lugares, nem nas mesmas horas.

Tanto senhores quanto escravos conheciam bem a fazenda, e os escravos domésticos teriam tanta liberdade de ir e vir dentro da fazendo quanto os patrões. Não entendi seu raciocínio: se ele e Lúcia andavam juntos, pelos mesmos lugares, fazendo as mesmas coisas, então isso pode muito bem indicar que estavam na mesma situação. Como é que isso, pra você, tornou-se indicador de que não estavam?

Por fim, se há uma concordância de que o narrador é sim, um dos senhores - o verso "Um dia nos sertões eu caminhava / Por uma estrada agreste e solitária" remete claramente a um sentido de liberdade, que certamente um escravo não poderia ter.

 Castro Alves: um Poeta Sempre Jovem ALBERTO DA COSTA E SILVA

De novo, não entendi. A escrava Lúcia está exatamente na mesma situação que ele, caminhando sozinha na mesma estrada agreste e solitária. Se ela é uma escrava e pode estar fazendo isso, por que ele não poderia ser um escravo e estar no mesmo lugar fazendo a mesma coisa? Não há nenhuma indicação no texto que ele não está também descalço ou carregando peso. Assim como acima, o narrador e Lúcia estão exatamente na mesma situação, fazendo a mesma coisa, e você usa isso como evidência da diferença entre eles.

Explica de novo?

* * *

Funções da Literatura: Colocar Pulgas Atrás da Orelha

Curioso, isso. Por que será que presumimos que o narrador é não só branco, como membro da família dos "senhores"? A partir da sua pergunta (quem é o narrador?), reli o poema. Embora não tenha encontrado evidências nem de que ele seja sinhozinho nem que seja escravo como ela, um verso me deixou em dúvida:

"Tua senhora ria-se, contente..."

Caso o narrador fosse realmente um sinhozinho, a "senhora" deveria ser sua mãe, ou avó? Ele poderia referir-se a ela como "tua senhora", nesse caso? (Até poderia, mas fica a pulga atrás da orelha.)

Somando-se a isso a dúvida levantada pelo verso "...teus lares...", acho que já são dois indícios de talvez o narrador NÃO seja o sinhozinho. O que não significa automaticamente que ele seria um escravo. Pode ser um dos agregados da fazenda, por exemplo. Aliás, será que ele também era criança? Vai ver era um adulto.

Pois é, Monix, a grande função da literatura é colocar pulgas atrás das orelhas de quem lê tudo muito rápido e acha tudo muito óbvio. Eram essas dúvidas aí que você levantou que eu estava querendo enfiar nas cabeças dos meus leitores.

* * *

Funções da Literatura: Nos Ensinar sobre Nós Mesmos

Não há verso claro a esse respeito; pelo menos eu não vejo nenhum. Eu realmente presumi que se tratava de um senhorzinho branco. E realmente presumi que a vergonha dela só poderia ser devida a sua condição de escrava. Quer dizer, isso estava o tempo todo na MINHA cabeça. Enfim, sobre o poema não posso, com certeza, responder às questões. Mas ficou mais ou menos claro como EU vejo as coisas...hahaha...

No fim, realmente, a literatura sempre nos ensina mais sobre quem somos, como vemos o mundo e quais são nossas idéias pré-concebidas, do que sobre o texto em si.

Não é lindo isso?

* * *

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* * *

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Essa é a outra grande beleza da arte.

 

23.04.09


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Comentário de: Lucas

Alex, pq vc não deixa esse fim de semana para a gente tentar ver as respostas? (Fica meio difícil estudando p/ concurso e trabalhando, ainda que minhas aulas só voltam em maio) daí no fim de semana acho que pelo menos quase todo mundo teria mais tempo. Afinal, essas perguntas pelo menos parecem ser muito difíceis.

Enfim, quando o autor fala "tua" pode dar a impressão de que ele pode estar se comunicando com o leitor. Daí a gente se pergunta: "Mas o que diabos eu tenho a ver com uma poesia de 1869?".

Acho que sou meio burro, droga.

PermalinkPermalink 23.04.09 @ 21:38



Comentário de: Filipe

Alex, achei bem legal que vc comentou minha observação sobre a transformação do beija-flor em mariposa. De fato, também me peguei com a questão do poeta estar sorrindo ao mesmo tempo em que descobre em Lúcia uma mariposa.
Ainda assim, não interpretei a mariposa num sentido negativo (já que vc a trocou por barata). Talvez para o narrador a mariposa seria simplesmente outro bicho que voa e o fato de estar sorrindo quando se refere a ela por mariposa teria um sentido de deslumbramento, de descoberta, novidade pra ele ("Oh, somos diferentes, existe uma questão de pele que nos separa").
Essa descoberta do poeta, por sua vez, serviria como introdução ao parágrafo seguinte, quando ele apresenta a crise(miséria, fome, frio)que abateu a família. Ter descoberto no parágrafo anterior a condição de mariposa de Lúcia serviria de justificativa para relacionar os problemas que surgiram com a "expulsão" dela da casa a despeito da permanência dele.

Valeu.

PermalinkPermalink 23.04.09 @ 23:02



Comentário de: Cybelle Kostetzer

hahaha...Lindo só pra você, pra mim foi foda. Além de descobrir que interpretei equivocadamente um texto porque estava cheia de idéias pré-concebidas e outras limitações, fiquei diante da perspectiva tenebrosa de estar fazendo a mesma coisa com tudo na vida...

Mas taí, gostei da brincadeira. Mesmo perdendo, a gente ganha. Na próxima rodada, tô dentro!


PermalinkPermalink 23.04.09 @ 23:12



Comentário de: Filipe

Ops, falha técnica. Poeta não, narrador!

PermalinkPermalink 23.04.09 @ 23:16



Comentário de: MarcosVP · http://pirao.wordpress.com

Pô, tio... me dá pelo menos um seis e meio na prova?...:-)

Olha, o que vc pede para explicar de novo não tem explicação. Eu reli e realmente ficou confuso. Contudo, eu continuo achando que há um distanciamento do narrador em relação a Lúcia e daí eu tiro a idéia de que ele não seria "como ela".

Por exemplo... o verso que diz "Um dia nos sertões eu caminhava / Por uma estrada agreste e solitária" me passa um estado de espírito diferente do que ele coloca, logo a seguir, sobre Lúcia: "Diante de mim ua mulher seguia,
- Co' o cântaro à cabeça - pés descalços,
Co'os ombros nus, mas pálidos e magros ... Ela cantava, com uma voz extinta,
Uma cantiga triste e compassada (...)"
Ou seja, diante de uma suposta mesma faina, um "caminha" e o outro "carrega", percebe?

E mais: de onde viria a surpresa dela se, nesta cena, ambos estivessem caminhando juntos, como companheiros ou conhecidos?

Por fim, ainda a questão da mariposa. Não creio que o sentido que o autor quis dar com a metáfora tenha sido o de repulsa ou repugnancia. Realmente, ele pode ter escolhido mariposa, como poderia ter escolhido borboleta. De qualquer modo, volto ao ponto de que a mariposa, no sertão, não é um inseto repulsivo como a barata, mas um inseto noturno, escuro. Mariposa, inclusive, até hoje é usado como metáfora para prostituta, no sentido da "mulher da noite". No caso, referir-se a Lúcia como mariposa talvez signifique apor a ela essa característica sombria, a sombra da escravidão que suplanta a humanidade da criança.

Abs.

PermalinkPermalink 23.04.09 @ 23:22



Comentário de: Dr Plausível · http://drplausivel.blogspot.com

Hmm, então vc acha que o narrador é sempre igual ao escritor?
Não existe isso de dizer que "é claro que o narrador é o próprio poeta". Claro por quê?


É claro o narrador é o escritor pq Castor Alves foi um poeta romântico. Não se espera dele q ele fale de outra experiência q não a própria. Não é um poeta do século XX, cheio de artifícios formais e metalinguagem. Qdo um poeta romântico diz "eu" é ele mesmo. Além disso, foi um poeta de média estatura, por mais elogiado q tenha sido por seus contemporâneos conterrâneos. Isso quer dizer, entre outras coisas, q não se deve ver nele muito mais do q ele mesmo põe no papel, às vezes (como mostrei) com certa canhestrice.

Outra característica do poeta romântico estilo piegas de C.A. é q ele não relata o q ele realiza ou pratica, mas o q *acontece* com ele. As coisas vão acontecendo com ele e ele fica ali "sentindo", e tanto melhor se ele puder ter arroubos de impotência. Digo isso a quem reclama q, se ele "amava" a moça, ¿por que não foi atrás? Simplesmente pq se ele fosse atrás dela, então ele não seria um poeta romântico.

PermalinkPermalink 24.04.09 @ 00:06



Comentário de: Daniel Christino · http://pasmoessencial.wordpress.com

Deixa eu tentar, fessor! :)

Eu acho que a figura do narrador é muito elusiva; podemos vê-lo apenas pelo negativo. Minha tendência é NÃO considerá-lo escravo. Mas como ele não se mostra por inteiro, o jeito é ir pela sombra!

Vamos lá:

1. Em primeiro lugar o progressivo distanciamento do narrador em relação a ela. A única conexão direta é a infância - e não por acaso, já que a lembrança dessa infância terá papel decisivo no epílogo. Eles são iguais na medida em que são crianças.

2. "Ai! Pobre Lúcia..." Porque esse suspiro dolorido? Ele sabe o que está por vir e se angustia pela condição dela (negra, escreva). Mas note a distância: o "nós" da primeira estrofe não aparece mais. O foco narrativo cai inteiro em Lúcia. É por isso que ele usa "tua senhora". Porque se concentra no modo como se desvela a existência da personagem. Para ela, uma escrava, a mãe, avó, tia, ou o que seja, do narrador é "senhora".

Obs: o lance do beija-flor e da mariposa, para mim, significa apenas que Lúcia mantinha, à noite, a mesma vitalidade. Durante o dia voava como um beija-flor entre as laranjeiras, à noite como uma mariposa ao redor do fogo. Tentei encontrar uma imagem do desenho de Cícero Dias - você diz aí se ainda vale como fonte história, Alex - para me situar em relação ao verso Na grande sala em torno da fogueira. Onde fica isso, na Casa Grande ou na Senzala? De supetão, parece ser a cozinha (ah! a cozinha!!!!). Por outro lado, uma imagem do Debret, "Jantar no Brasil", mostra claramente como a fronteira entre estes mundos, às vezes, tornava-se diáfana.

3. "Teus lares" significa que a crise bateu forte tanto na Casa Grande quanto na Senzala. Implica, acho eu, a mesma mobilidade ao qual me referi. O sinhôzinho na cozinha, Lúcia na sala de jantar. Fronteiras diáfanas.

4. "Eu me lembro...eu me lembro..." Fico matutando: de onde o narrador observa a despedida de Lúcia? Ele não está com ela - seguindo a intuição do Alex, aqui. Ela se despede do lugar! (seria também da própria infância? Da ingenuidade de se achar livre como o são os bichos e a natureza? Ela ainda não sabe o que é ser escrava e não saberá até que seja confrontada com o olhar do outro que já foi um igual) Mas o narrador tem dó: "Pobre Lúcia!" Será que um escravo, falando de um mesmo patamar social seria tão condolente com a situação da Lúcia? Não seria seu sentimento mais vivo, mais forte do que a mera compaixão? Ou me engano e "Pobre Lúcia!" é um apelo solidário? Não sei.

5. O Epílogo. Trecho foda! Aqui o narrador aparece novamente caminhando no sertão. Nenhuma pista. Porque o sinhôzinho estaria caminhando, como se estivesse perdido? Não sei.

6. Pode ser meio forçação de barra, mas lembrei-me de Aristóteles e de sua Poética. Este final é um reconhecimento no sentido clássico do termo, isto é, a personagem se encontra! É aqui que Lúcia se percebe como é, daí sua vergonha. Certamente num tom menos trágico, ela parece Édipo confrontado com sua própria natureza. E é neste ponto, creio, que a mensagem abolicionista se mostra mais forte! Inclusive nos termos usados pelo poeta: "vegonha eterna", "nuvem de sangue", "soltando um grito". Como é dramático esse epílogo, não? Se comparado às imagens idílicas da infância, o contraste fica ainda mais acentuado. Embora Castro Alves tenha esquecido, por qualquer motivo, que Lúcia nascera escrava, a oposição que gera - será que me atrevo? Claro! - a catarse é exatamente entre o antes e o agora do poema. E aqui, ao reconhecê-lo, Lúcia reconhece a si mesma e, neste movimento, percebe a impossibilidade de alcançar quem se encontra do outro lado da liberdade! A igualdade selvagem da infância se dissolve numa vergonha eterna! Vixe!!! Ponto pro Castro Alves, que conhece bem seu ofício!

7. E Nisso tudo, o que faz o narrador?? Meio perplexo, ele nos diz: "pobre Lúcia". Como é?? Pobre Lúcia!?!?!?! Que cara frio! A mulher quer abraçá-lo, ri e chora ao mesmo tempo, crispa as mãos, grita, morre de vergonha, corre e ele "pobre Lúcia"?!?! Porra!!!

É este distanciamento em relação a ela - misturado à nostalgia da própria infância - que me faz acreditar que o narrador não é um escravo ou não possui a mesma tonalidade afetiva da personagem. Mas isso é o que considero importante: Lúcia não se reconhece nele. Ela reconhece a si mesma através dele. E se envergonha!

Paro por aqui antes que alguém use meus delírios hermenêuticos contra mim no futuro! E o House já vai começar!!! Evoé!




PermalinkPermalink 24.04.09 @ 00:15



Comentário de: Jean Scharlau · http://jeanscharlau.blogspot.com

Colibri e mariposa

O Daniel está certo quanto à comparação de Lúcia com colibri e mariposa. O narrador refere-se ao movimento, à vitalidade, à energia e graça de Lúcia, que de dia é como um beija-flor, que move-se rápida e graciosamente de flor em flor e então para, torna-se criança, toma banho, janta e logo toma-se de novo da mobilidade e graça animal, como uma mariposa que adeja e dança e rodopia em torno das luzes das chamas, à noite. Nas fazendas, colibris e mariposas são animais cotidianos e freqüentes durante os dias e as noites, um e outro.

PermalinkPermalink 24.04.09 @ 10:13



Comentário de: Durval

Por que é tão importante saber se o narrador é senhor, escravo ou agregado? O texto já não está resolvido sem essa informação? O poema fala sobre o paradoxo da escravidão, sobre o absurdo de tratar um ser humano como mercadoria. Este absurdo vitima a todos, os senhores (pelo menos os mais sensíveis...), os escravos e outras classes que fazem parte de uma sociedade escravista.


PermalinkPermalink 24.04.09 @ 12:34



Comentário de: Marcos

Então... eu não vou comentar sobre o texto do Castro Alves porque não li. XD

É que eu estava ontem na internet pesquisando umas coisas aleatórias e por uma grata surpressa cheguei à sua página no sobresites. E achei interessantíssimo. Passei a madrugada lendo, fui de manhã pra faculdade e ainda não dormi.

Muito bom.
Rever conceitos, sabe?
Isso que é bom, abrir a mente à possibilidade de novas idéias, novas visões. Mais positivo que isso impossível.

Não sei se você lê esses comentários, nem se esse lugar seria o apropriado pra dizer esse tipo de coisa, mas é que eu tô com a mente em polvorosa graças a você e achei que devia lhe agradecer.

PermalinkPermalink 24.04.09 @ 14:45



Comentário de: Barbara

Por causa de um "analista amigo meu" (como diria o Belchior), eu sempre procuro conteúdo sexual em poemas. Então, quando vi o comentário sobre a mariposa fiquei pensando que a transformação fosse não para um animal nojento, mas para um animal noturno, sexual. Se formos por aí, dá para responder a pergunta sobre a vergonha dela no epílogo.

PermalinkPermalink 24.04.09 @ 15:04



Comentário de: Raquel

Alex,
não acho que os escravos seriam incapazes de poesia. Longe disso, penso que a poesia pode estar em qualquer pessoa e as formas de expressão podem ser as mais variadas. O que eu quis dizer, e você pode me corrigir, é que talvez a maneira de se expressar do escravo e do sinhozinho seriam diferentes e essa diferença ficaria evidente no texto se o autor assim tivesse desejado.
Não sei se o narrador é escravo ou sinhozinho ou qualquer outro. O texto pode nos levar a diferentes interpretações, não existe uma frase chave, algo marcado. Tentei encontrar na forma alguma dica para interpretação.

PermalinkPermalink 24.04.09 @ 16:14



Comentário de: aiaiai

To adorando esse debate/aula. Continuem por favor. Mas entrei para um off topic.
É que vi esse filminho (pequeno e maravilhoso) e me lembrei de um texto do LLL que fala dos fantasmas das felicidades passadas:
http://vimeo.com/3352352

pequei no blog do zeno http://www.zeno.com.br/

PermalinkPermalink 24.04.09 @ 16:42



Comentário de: Filipe

Durval, de fato não há importância alguma em saber o que é o narrador, isso é apenas um exercício de argumentação, uma brincadeira.
E o texto não fala apenas da escravidão, se assim o fosse não teria importância alguma nos dias de hj. Ele nos toca justamente por revelar uma estrutura ainda existente, em outros moldes, claro. A relação patrão-empregada doméstica.

PermalinkPermalink 25.04.09 @ 00:31



Comentário de: vania

td legal

PermalinkPermalink 27.05.09 @ 17:38



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Diário de Leituras 2008

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  • 99. Roediger, David R. Colored White. Transcending the Racial Past. [EUA, 2002] Nov.25 (TulBib)
  • 98. Roediger, David R. Towards the Abolition of Whiteness. Essays on Race, Politics, and Working Class History. [EUA, 1991] Nov.26 (TulBib)
  • 97. Mills, Charles W. The Racial Contract. [EUA, 1997] Nov.22 (TulBib)
  • 96. Machado, Ubiratan. A Vida Literária no Brasil Durante o Romantismo. [Brasil, 2001] Nov.22 (ILL)
  • 95. Buruma, Ian & Avishai Margalit. Occidentalism: the West in the Eyes of its Enemies. [EUA, 2004] Nov.20
  • 94. Alencar, José. Lucíola. [Brasil, 1862] Nov.13
  • 93. Achebe, Chinua. Things Fall Apart. [Nigéria, 1959] Nov.12
  • 92. Matheson, Richard. I Am Legend. [EUA, 1954] Nov.11
  • 91. Alencar, José. O Tronco do Ipê. [Brasil, 1871] Nov.10
  • 90. Morrison, Toni. Playing in the Dark. Whiteness and the Literary Imagination. [EUA, 1992] (TulBib) Nov.7
  • 89. Eiró, Paulo. Sangue Limpo. [Brasil, 1861] (ILL) Out.
  • 88. Pinheiro Guimarães, Francisco. História de uma Moça Rica. [Brasil, 1861] Out.
  • 87. Teixeira e Souza, Antonio. O Filho do Pescador. [Brasil, 1843] (TulBib) Nov.6
  • 86. Almeida, Julia Lopes de. A Viúva Simões. [Brasil, 1897] (TulBib) Nov.6
  • 85. Ignatiev, Noel. How the Irish Became White. [EUA, 1995] (TulBib) Nov.
  • 84. Thompson, E. P. The Making of the English Working Class. [Reino Unido, 1966] (TulBib) Nov.
  • 83. Telles, Edward E. Race in Another America. The Significance of Skin Color in Brazil. [EUA, 2004] Nov.
  • 82. Macedo, Joaquim Manuel de. As Vítimas-Algozes. Quadros da Escravidão. [Brasil, 1869] Out.18
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