Primeiro, vocês leram e comentaram o poema "Lúcia", de Castro Alves. Depois, eu respondi aos primeiros comentários e fiz três perguntas concretas sobre o poema:
- Quem era o narrador?
- Ele e Lúcia se amavam ou não?
- Qual é a fonte da vergonha de Lúcia?
Hoje, eu iria postar o meu texto sobre o assunto, mas prefiro somente comentar suas respostas às perguntas acima:
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Escravos Não Tinham Poesia
"Entretanto, fica difícil imaginar um escravo da senzala com a capacidade narrativa e poética do narrador. Talvez a evidência maior que o autor é um sinhozinho seja a existência da poesia em si."
Então vc acha que os escravos eram incapazes de poesia? Comentário pesado esse. Por que você presume que ele era escravo de senzala? Existe alguma indicação disso? Dado que o narrador brincava com Lúcia e a acompanhava pra todos os lados, SE ele fosse escravo, seria certamente um escravo doméstico - e muitos desses sabiam ler e escrever, e até compunham poesias.
Uma das grandes críticas aos escritores abolionistas do século XIX - inclusive Castro Alves - era que defendiam o negro mais ou menos como se defendem os pandas: sem reconhecer neles a humanidade, sem lhes dar voz, presumindo que não tinham poesia, que não saberiam se expressar, que não tinham subjetividade, que não poderiam se defender.
Na verdade, eu acho que Castro Alves (apesar de cair nessa condescendência diversas vezes) é o primeiro que começa a quebrar esse paradigma e retratar personagens negros com vidas interiores intensas e dilemas existenciais profundos - aliás, como qualquer pessoa.
Então, olha, não quero ser chato nem nada, mas a essa altura do campeonato, acho o seu comentário bastante problemático. E fico por aqui.
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Ela Fala para a Natureza
"Acredito que ela o amava, despediu-se dizendo "Não te esqueças de mim que te amo tanto...""
Mesmo quando Lúcia diz "Não te esqueças de mim que te amo tanto...", não há a certeza de uma paixão aqui.
Vamos sempre lembrar que não é para ele que ela diz isso: é para a "natureza". O poema afirma isso com todas as letras. Aliás, é inclusive uma boa pergunta: por que o poema faz questão de dizer que ela se despede e se dirige à natureza e à fazenda, e às flores e às matas, mas não ao narrador?
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Autor vs Narrador
"Tá claro q o narrador é o próprio poeta, ou relembrando ou imaginando"
Sim, acho que o fator primordial para nos fazer intuir que se trata de um "sinhozinho" branco é o fato dele ter sido escrito pelo Castro Alves
Hmm, então vc acha que o narrador é sempre igual ao escritor? Essa hipótese não se sustenta para grande parte da literatura. É como falar que só porque está lendo um livro da Toni Morrison, intui ou pressume que o narrador é uma mulher negra do século XXI. Isso não faz muito sentido.
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Proximidade dos Escravos Domésticos
- Quem era o narrador?
O sinhôzinho. Ele estava muito próximo da família e dos sentimentos da família para ser "de fora".
Hmm, e os escravos eram "de fora"? Os escravos domésticos viviam em total coabitação com as famílias brancas, ainda mais do que as domésticas de hoje. Cresciam juntos, mamavam juntos, comiam juntos, transavam juntos. Dificilmente poderiam ser considerados de fora. Provavelmente, sabiam todas as fofocas e todos os segredos de todo mundo das famílias.
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Mariposas e Colibris
Há um certo distanciamento dele em relação a ela. No verso "Meu Deus! um beija-flor fez-se criança...Uma criança fez-se mariposa!", o narrador parece expressar uma certa surpresa. Bom, e aí, entra uma sutileza que pode ser viagem minha. No sertão, normalmente, a mariposa não é um símbolo de pureza, como um beija-flor ou a borboleta - animais do dia. É como se ele dissesse com essa metáfora que, de repente, descobriu em Lúcia sua verdade: Não mais a menina, mas a mucama, a escrava, que doravante ele passa a tratar - e o faz por três vezes - de "pobre Lúcia".
É interessante notar que no início do poema, o poeta e Lúcia corriam "Como um casal de colibris travessos". Já no meio do poema, o poeta se impressiona com a transformação ("cai a ficha" na cabeça dele) de Lúcia, de beija-flor para mariposa. Tenho a impressão de que a surpresa que ele demonstra esclarece sua situação de sinhozinho branco, já que nada fala acerca de uma possível transformação de si próprio. Nesse sentido, ele continua sendo um colibri, ou um beija-flor.
Excelente observação. Muita gente viu a imagem da transformação de beija-flor em mariposa como negativa. Eu não vi isso mas, realmente, meu contexto é outro. Castro Alves era do interior da Bahia, vai ver lá mariposa remete a "inseto preto e feio que pousa no cocô". Talvez realmente esse verso signifique que o narrador desencantou de Lúcia.
Por outro lado, me parece que todo o tom do trecho é de elogio e assobro pela moça bonita em quem Lúcia se tornou - especialmente porque ele começa o trecho dizendo que está sorrindo. Não faria sentido incluir aí uma crítica, quebraria todo o ritmo e o clima que se estava construindo. Reparem como fica o trecho se eu trocar "mariposa" por um inseto que vai ter conotação negativa para todos:
Na grande sala em torno da fogueira,
Então, Lúcia, sorrindo eu murmurava:
"Meu Deus! um beija-flor fez-se criança...
Uma criança fez-se barata!"
Pois é, acho que não bate, mas gostei da observação.
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Sei não. Esse poema me parece bastante simplório. Tá claro q o narrador é o próprio poeta, ou relembrando ou imaginando; tá claro q, se não estiver comparando Lúcia a um bicho de estimação, ele mistura alhos com bugalhos na hora errada (Lúcia chorando enquanto as vacas mugem, as éguas relincham) coisa típica ou de cínico ou de mau poeta; e tá claro q o autor faz Lúcia fugir ostensivamente pra esquecer o passado, mas na verdade pra permitir q o poeta-narrador seja inundado com um sentimento vago de algo intangível q foi perdido pela realidade anti-romântica, e ai ele pode fantasiar como quiser sem ferir sua hombridade pós-adolescente. Muita fumaça.
Ah, doutor, se você não quer brincar, não brinca, mas se quiser entrar na roda, tem que jogar pelas regras. Não existe isso de dizer que "é claro que o narrador é o próprio poeta". Claro por quê? Claro baseado em quê? Que trechos, que elementos no texto fazem você achar que o narrador é o poeta?
Todo mundo pode falar o que quiser, mas a única regra é justificar suas opiniões com elementos do texto. Senão, deixa de ser extrapolação louca para se transformar em reescritura do texto.
Eu estou afirmando o seguinte: nada nesse poema nos permite presumir que o narrador seja branco, rico, patrão, sinhozinho, ou que tenha nível socioeconomico superior a Lúcia. Ele pode ser um agregado, pode ser mulato, pode ser um escravo da casa, pode ser muitas coisas.
Se vocês acham que é claro que ele é sinhozinho, beleza. Toda a opinião é válida. Provem com o texto.
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Eles Fazem as Mesmas Coisas, Logo Eles São Diferentes
Na minha opinião, há sim, um contexto - ainda que não um verso explícito - que parece indicar que o narrador não é um escravo, ou que, pelo menos, leva a essa impressão. Ambos eram crianças ("Eu e Lúcia, corríamos - crianças -") e em todo o poema, o narrador parece conhecer bem o ambiente em que transita Lúcia. Se ele também fosse uma cria da fazenda, não necessariamente, por ser menino, iria transitar nos mesmos lugares, nem nas mesmas horas.
Tanto senhores quanto escravos conheciam bem a fazenda, e os escravos domésticos teriam tanta liberdade de ir e vir dentro da fazendo quanto os patrões. Não entendi seu raciocínio: se ele e Lúcia andavam juntos, pelos mesmos lugares, fazendo as mesmas coisas, então isso pode muito bem indicar que estavam na mesma situação. Como é que isso, pra você, tornou-se indicador de que não estavam?
Por fim, se há uma concordância de que o narrador é sim, um dos senhores - o verso "Um dia nos sertões eu caminhava / Por uma estrada agreste e solitária" remete claramente a um sentido de liberdade, que certamente um escravo não poderia ter.
De novo, não entendi. A escrava Lúcia está exatamente na mesma situação que ele, caminhando sozinha na mesma estrada agreste e solitária. Se ela é uma escrava e pode estar fazendo isso, por que ele não poderia ser um escravo e estar no mesmo lugar fazendo a mesma coisa? Não há nenhuma indicação no texto que ele não está também descalço ou carregando peso. Assim como acima, o narrador e Lúcia estão exatamente na mesma situação, fazendo a mesma coisa, e você usa isso como evidência da diferença entre eles.
Explica de novo?
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Funções da Literatura: Colocar Pulgas Atrás da Orelha
Curioso, isso. Por que será que presumimos que o narrador é não só branco, como membro da família dos "senhores"? A partir da sua pergunta (quem é o narrador?), reli o poema. Embora não tenha encontrado evidências nem de que ele seja sinhozinho nem que seja escravo como ela, um verso me deixou em dúvida:
"Tua senhora ria-se, contente..."
Caso o narrador fosse realmente um sinhozinho, a "senhora" deveria ser sua mãe, ou avó? Ele poderia referir-se a ela como "tua senhora", nesse caso? (Até poderia, mas fica a pulga atrás da orelha.)
Somando-se a isso a dúvida levantada pelo verso "...teus lares...", acho que já são dois indícios de talvez o narrador NÃO seja o sinhozinho. O que não significa automaticamente que ele seria um escravo. Pode ser um dos agregados da fazenda, por exemplo. Aliás, será que ele também era criança? Vai ver era um adulto.
Pois é, Monix, a grande função da literatura é colocar pulgas atrás das orelhas de quem lê tudo muito rápido e acha tudo muito óbvio. Eram essas dúvidas aí que você levantou que eu estava querendo enfiar nas cabeças dos meus leitores.
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Funções da Literatura: Nos Ensinar sobre Nós Mesmos
Não há verso claro a esse respeito; pelo menos eu não vejo nenhum. Eu realmente presumi que se tratava de um senhorzinho branco. E realmente presumi que a vergonha dela só poderia ser devida a sua condição de escrava. Quer dizer, isso estava o tempo todo na MINHA cabeça. Enfim, sobre o poema não posso, com certeza, responder às questões. Mas ficou mais ou menos claro como EU vejo as coisas...hahaha...
No fim, realmente, a literatura sempre nos ensina mais sobre quem somos, como vemos o mundo e quais são nossas idéias pré-concebidas, do que sobre o texto em si.
Não é lindo isso?
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Essa é a outra grande beleza da arte.
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