Quer comprar no Submarino? Entre por aqui e eu ganho 8%.

Conversando sobre "Lúcia", de Castro Alves

Continuando nossa conversa sobre o poema "Lúcia", de Castro Alves. (Leia o poema e os comentários dos leitores.)

Fiquei muito feliz com as leituras, com as observações, com os comentários, com os insights. Vocês são lindos. Uma boa aula de literatura é exatamente assim. Agora, deixa eu também demonstrar pra vocês como eu dou aula.

(Tinha um trecho aqui sobre o papel do professor de literatura, mas ficou tão legal e tão longo que achei melhor fazer um post separado. Então, ao invés de teorizar, vamos direto a prática.)

Alguns comentários sobre seus comentários. Reparem que não estou respondendo somente aos melhores comentários, mas aos comentários sobre os quais eu tenho algo a dizer:Racismo LLL

* * *

Que Lares?

Escrava que "fazia parte" da família foi vendida quando a coisa apertou (embora eu não entenda pq ele usou "teus lares" se a a narração é em primeira pessoa).

Excelente pergunta. O que vocês acham?

* * *

Enrubesceu, Não Sangrou

"Mas súbito estacou... Nuvem de sangue / Corou-lhe o rosto pálido e sombrio ... (ok, ela começa a sangrar) (...) Acho que ela podia estar arrastando uma corrente ou presa numa algema que repentinamente fez ela sangrar, daí a vergonha eterna é a escravidão.

Quando Castro Alves escreve sobre a "nuvem de sangue", ele queria apenas dizer que ela corou. Com certeza, não é pra ser entendido literalmente.

* * *

Narrador vs Poeta

Uma menina escrava é criada juntamente com o senhorzinho. Entre eles se desenvolve um genuíno afeto. A menina recebe cuidados de toda família , o que a faz sentir-se como um deles. Mas um dia, a realidade se faz presente, e a menina percebe sua condição de escrava, de objeto, ao ser vendida. Anos mais tarde, quando revê o amigo/amor da infância, seu impulso é de retomar o vínculo mas, dessa vez "ciente" de sua condição, afasta-se.

Tive a impressão que o narrador não se dá conta, com a devida clareza, deste fato. Então eu não sei se fui em quem não entendeu direito ou, se é um recurso do autor para evidenciar a posição do senhorzinho, repleta de boas intenções, mas sem um pingo de humanidade verdadeira.

 Escravos, Os

Essa é uma velha questão da literatura. Alguns autores de fato criticam esse poema por ver em Castro Alves essa "hipocrisia desumana" que você viu no narrador. Isso é possível? É, claro. Mas também é possível ler o poema como uma denúncia e uma exposição dessa mesma hipocrisia.

Então, no fim das contas, pouco interessa a posição de Castro Alves, ou se ele tinha o mesmo "ponto cego" do narrador ou não. O que importa é o que a poesia nos diz hoje.

* * *

O Negro, Esse Animal

Lúcia é uma "cria" q lembra uma "corça", seus olhos "as plumas ... da graúna", seus cabelos "festões de parasitas"; no momento da despedida, o poeta percebe o canto do galo, o mugido das vacas e o relincho das éguas... enquanto Lúcia chora; ela se despede das violetas com pena de não vir mais arrancá-las e dos sabiás com pena de não mais lhes roubar os ninhos; na última cena, Lúcia some "entre as sombras da mata".

As metáforas naturais como descrição da personagem. Natureza aqui parece implicar liberdade! Que outro motivo haveria para compará-la a um colibri, ou graúna (verso famoso!) ou, suprema sacanagem, corsa arisca? Porque ela choraria ao se despedir do lugar? Ela era livre? Acho que não. Os termos cria e cativa nos dizem que ela já nasceu escrava.

Sempre esbarro nessa questão ao escrever sobre negritude e literatura. Mesmo nos autores mais bem-intencionados, é comum a imagética do negro enquanto animal: seja como um animal livre e forte, ou como uma besta-fera raivosa e sexualizada, mas sempre um animal. Castro Alves está apenas caindo no mesmo estereótipo.

E, sim, existe uma certa contradição entre comparar um indivíduo escravizado com animais livres. Não sei se os próprios autores se davam conta disso.

* * *

Definição de um Clássico

Se a data batesse, diria poderia ser de alguma forma uma critica à abolição em si ou à maneira como ela se deu, mostrando que as condições para os negros pioraram depois da abolição pois totalmente abandonados.

Nada impede que seja. A marca de um clássico é sua capacidade de falar às sucessivas gerações. Castro Alves é um clássico lido, estudado e comentado até hoje porque nunca parou de ser relevante. Esse poema é tanto sobre a Abolição quanto sobre a relação patrão e empregada doméstica em 2009. Estamos aqui discutindo esse poema não como uma relíquia de um tempo passado, mas como algo que ilumina nossa vida e nossa sociedade hoje.

Então, de um modo bem real, esse poema é sim sobre a Abolição. E talvez sobre muitos outros assuntos que ainda nem existem. Esse é o poder da literatura.

* * *

A Vergonha de Lúcia

O sangue que lhe cora a cara pálida simboliza o momento em que ele (e também ela) percebem que a Lúcia era negra e o narrador branco. Acho que quando eles se conheciam quando criança nem ele e nem ela tinham se dado conta disso, de que eram diferentes em termos raciais e consequentemente socias. Acho que existia uma pureza no sentimento entre ambos, além da questão de raças e etc.

O epílogo, no qual a sua condição torna-se evidente. Por isso ela fica envergonhada e esconde o rosto: ela passa a ter consciência de que é uma escrava. A vergonha eterna escondida pela mão crispada. A carga dramática, penso eu, está na oposição entre liberdade/escravidão potencializada aqui pela perda da inocência da infância e pela ênfase no "comércio de pessoas" como algo condenável. Mas ela não passou a ser escrava assim que foi vendida, ela sempre foi escrava!

Ela compreende que entre os dois não poderia haver sentimento verdadeiro porque aquela situação anterior que os aproximou - a instituição da escravidão -, mesmo que aparentasse gerar amizade e respeito, não poderia gerar uma amizade verdadeira pois ela não nasceu da reciprocidade entre senhor e criado..

Antes de precisar ser vendida, Lúcia não tinha consciência de sua condição, de sua posição, de seu lugar, na sociedade escravista. A vergonha de Lúcia, que cobre o rosto com as mãos, advém da falta de dignidade, a vergonha eterna, pois é um fardo que ela carregará para o resto da vida, algo intrínseco a ela. Lúcia tem vergonha de sua condição e sabe que nada pode fazer para mudar isso.

Talvez essa seja a questão mais importante do poema, não? Afinal, do que Lúcia se envergonha?

Mas, pra podermos responder isso, precisamos entender melhor qual era sua relação com o narrador.

* * *

Quem É o Narrador?

Cativo significa algo como "refem", "abduzido". Imagine a situação: A menina rica que gosta do escravo, mas não pode se envolver com ele pq é rica. Por um acaso, não estaria ela presa a situação de riqueza? ... O autor pode muito bem ter utilizado o termo "cria" num jogo de palavras. Veja: CRIANÇA/CRIADA. Se a intenção fosse mesmo chamar de escrava, usaria o termo "criada"; mas pq será que usou necessariamente o termo cria? Será que mesmo a criança era "impura"? A poesia é sempre muito figurativa.

O leitor Lucas fez algumas confusões vocabulares, advindas de uma compreensível ignorância dos termos do século XIX, mas elas acabaram abrindo sua mente pra algumas novas possibilidades - e isso é bem mais interessante.

Para clarificar, cria era termo usado para filhos de escravos. Cativo era termo usado para escravos. Para o leitor conteporâneo de Castro Alves, ambas palavras remeteriam direto à escravidão. Então, uma coisa que sabemos com certeza é que Lúcia era cria (criança-escrava) da fazenda, provavelmente nascida lá.

O que NÃO sabemos com certeza é quem é o narrador. Vocês todos parecem presumir que ele é branco, que é livre, que é sinhôzinho, que tinha status socioeconomico superior à Lúcia, mas eu me pergunto de onde vocês tiraram isso. Alguém poderia me justificar alguma dessas afirmativas com exemplos do texto?

* * *

Dever de Casa

Para quem leu, opinou e depois acompanhou a discussão, agora algumas perguntas concretas:

- Quem era o narrador?
- Ele e Lúcia se amavam ou não?
- Qual é a fonte da vergonha de Lúcia?

A única regra, claro, é responder usando o poema, com as evidências textuais disponíveis. Ou, no mínimo, usando as lacunas do texto para construir hipóteses que o texto não invalide ou desminta.

* * *

Então? Estão gostando? É assim que são minhas aulas de literatura. E ainda me pagam pra isso, vai entender!

Estou escrevendo um texto longo sobre Castro Alves. Amanhã* publico o trecho sobre "Lúcia".

* * *

*Sobre o conceito de "amanhã" na língua portuguesa, um texto genial do Ubaldo - clique e desça até o fim da página. O texto não aparece em mais nenhum lugar da internet, mas Ubaldo foi sábio em colocá-lo em sua página oficial na ABL. Eu gostaria de ser lembrado por um texto desses. Todo semestre, eu xeroco e dou pros meus alunos.

* * *

Mais livros de Castro Alves.

Espumas Flutuantes Os EscravosMelhores Poemas de Castro AlvesRacismo LLL

* * *

Veja todos os posts sobre Raça do LLL e acompanhe a conversa, assinando o RSS dos comentários. Para divulgar toda a série, use esse link ou o botão ao lado.

 

22.04.09


Categorias: Livros, Raça

Trackback:

http://www.interney.net/blogs/htsrv/trackback.php/32824

Posts similares:
Três Leituras de "Lúcia", de Castro Alves
Ainda sobre "Lúcia", de Castro Alves
Lúcia, de Castro Alves

(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)

Atalho pra o formulário

Comentários, Trackbacks:


Comentário de: Cybelle Kostetzer

"O que NÃO sabemos com certeza é quem é o narrador. Vocês todos parecem presumir que ele é branco, que é livre, que é sinhôzinho, que tinha status socioeconomico superior à Lúcia, mas eu me pergunto de onde vocês tiraram isso. Alguém poderia me justificar alguma dessas afirmativas com exemplos do texto?""

Caralho, não, não posso. Não há verso claro a esse respeito; pelo menos eu não vejo nenhum. Eu realmente presumi que se tratava de um senhorzinho branco. E realmente presumi que a vergonha dela só poderia ser devida a sua condição de escrava. Quer dizer, isso estava o tempo todo na MINHA cabeça. Enfim, sobre o poema não posso, com certeza, responder às questões. Mas ficou mais ou menos claro como EU vejo as coisas...hahaha...:P


PermalinkPermalink 22.04.09 @ 11:46



Comentário de: Monix · http://www.duasfridas.wordpress.com

Curioso, isso. Por que será que presumimos que o narrador é não só branco, como membro da família dos "senhores"? A partir da sua pergunta (quem é o narrador?), reli o poema. Embora não tenha encontrado evidências nem de que ele seja sinhozinho nem que seja escravo como ela, um verso me deixou em dúvida:
"Tua senhora ria-se, contente..."
Caso o narrador fosse realmente um sinhozinho, a "senhora" deveria ser sua mãe, ou avó? Ele poderia referir-se a ela como "tua senhora", nesse caso? (Até poderia, mas fica a pulga atrás da orelha.)
Somando-se a isso a dúvida levantada pelo verso "...teus lares...", acho que já são dois indícios de talvez o narrador NÃO seja o sinhozinho. O que não significa automaticamente que ele seria um escravo. Pode ser um dos agregados da fazenda, por exemplo. Aliás, será que ele também era criança? Vai ver era um adulto, peraí que eu vou reler o poema de novo! :-)
Bjs

PermalinkPermalink 22.04.09 @ 12:09



Comentário de: João Ricardo

ahhh, como é bom embriagar-se de arte né

PermalinkPermalink 22.04.09 @ 13:54



Comentário de: MarcosVP · http://pirao.wordpress.com

Bom, as perguntas são:
- Quem era o narrador?
- Ele e Lúcia se amavam ou não?
- Qual é a fonte da vergonha de Lúcia?

Reli o poema e os comentários. Na minha opinião, há sim, um contexto - ainda que não um verso explícito - que parece indicar que o narrador não é um escravo, ou que, pelo menos, leva a essa impressão. Ambos eram crianças ("Eu e Lúcia, corríamos - crianças -") e em todo o poema, o narrador parece conhecer bem o ambiente em que transita Lúcia. Se ele também fosse uma cria da fazenda, não necessariamente, por ser menino, iria transitar nos mesmos lugares, nem nas mesmas horas.

Outra questão é a própria forma como o narrador descreve Lúcia. Ele não diz que a ama - a família sim. Há um certo distanciamento dele em relação a ela. No verso "Meu Deus! um beija-flor fez-se criança...Uma criança fez-se mariposa!", o narrador parece expressar uma certa surpresa. Bom, e aí, entra uma sutileza que pode ser viagem minha. No sertão, normalmente, a mariposa não é um símbolo de pureza, como um beija-flor ou a borboleta - animais do dia. É como se ele dissesse com essa metáfora que, de repente, descobriu em Lúcia sua verdade: Não mais a menina, mas a mucama, a escrava, que doravante ele passa a tratar - e o faz por três vezes - de "pobre Lúcia".

Deste modo, passando à segunda pergunta, aí sim, não há indicação no texto de que havia um amor - afetivo - entre ambos. São vários os sentimentos misturados - perda, saudade, nostalgia. Mesmo quando Lúcia diz "Não te esqueças de mim que te amo tanto...", não há a certeza de uma paixão aqui.

Por fim, se há uma concordância de que o narrador é sim, um dos senhores - o verso "Um dia nos sertões eu caminhava
Por uma estrada agreste e solitária" remete claramente a um sentido de liberdade, que certamente um escravo não poderia ter - a vergonha certamente vem pelo impulso que a escrava - agora não mais a menina - tem diante do antigo companheiro de brinquedos ("Quis para mim lançar-se, abrindo os braços.
... Mas súbito estacou"). A vergonha de ter, por um instante, esquecido-se de quem ela era ("ua mulher seguia,
- Co' o cântaro à cabeça - pés descalços,
Co'os ombros nus, mas pálidos e magros ...Ela cantava, com uma voz extinta,
Uma cantiga triste e compassada") agora. Por isso o corar, por isso a fuga.

BTW, Alex, você conhece uma música chamada "Morro Velho", de Milton Nascimento?

Lembra muito esse poema.
http://letras.terra.com.br/milton-nascimento/45930/

Abs.

PermalinkPermalink 22.04.09 @ 16:01



Comentário de: Dr Plausível · http://drplausivel.blogspot.com

Sei não. Esse poema me parece bastante simplório. Tá claro q o narrador é o próprio poeta, ou relembrando ou imaginando; tá claro q, se não estiver comparando Lúcia a um bicho de estimação, ele mistura alhos com bugalhos na hora errada (Lúcia chorando enquanto as vacas mugem, as éguas relincham) coisa típica ou de cínico ou de mau poeta; e tá claro q o autor faz Lúcia fugir ostensivamente pra esquecer o passado, mas na verdade pra permitir q o poeta-narrador seja inundado com um sentimento vago de algo intangível q foi perdido pela realidade anti-romântica, e ai ele pode fantasiar como quiser sem ferir sua hombridade pós-adolescente. Muita fumaça.

PermalinkPermalink 22.04.09 @ 18:28



Comentário de: Filipe

O poeta intercala primeira e segunda pessoas, ora falando com o leitor, ora com Lúcia, daí o trecho "teus lares", os lugares que Lúcia vivia, frequentava, na fazenda. Estou enganado?

É interessante notar que no início do poema, o poeta e Lúcia corriam "Como um casal de colibris travessos". Já no meio do poema, o poeta se impressiona com a transformação ("cai a ficha" na cabeça dele) de Lúcia, de beija-flor para mariposa. Tenho a impressão de que a surpresa que ele demonstra esclarece sua situação de sinhozinho branco, já que nada fala acerca de uma possível transformação de si próprio. Nesse sentido, ele continua sendo um colibri, ou um beija-flor.

Essa descoberta do poeta o faz em um primeiro momento feliz ("Então, Lúcia, sorrindo eu murmurava"), para logo em seguida cair em desapontamento (Mas um dia a miséria, a fome, o frio...").

Acho isso.

PermalinkPermalink 22.04.09 @ 18:42



Comentário de: Dr Plausível · http://drplausivel.blogspot.com

Ei Alex, ói só q interessante. Esbarrei por acaso num outro poema chamado Lúcia, de um conterrâneo de Castro Alves nascido 1879 chamado Artur Sales, q certamente conhecia o do C.A.

Lúcia

Lúcia chegou, quando do inverno o tredo
vento agitava o coqueiral vetusto.
Vinha ofegante, e pálida de susto,
e trêmula de medo...

Ah! quanto beijo e quanto riso ledo
deu-me seu lábio, rúbido e venusto!
Quanto divino sentimento augusto,
quanto infantil segredo!

Lúcia partiu... E aquele riso doce
Lúcia levou! A casa transformou-se
num sepulcral degredo.

Se o vento agita o coqueiral vetusto,
inda a recordo: pálida de susto
e trêmula de medo...

Teressante, não?

PermalinkPermalink 22.04.09 @ 21:13



Comentário de: Gustavo B.

- Quem era o narrador?
O sinhôzinho. Ele estava muito próximo da família e dos sentimentos da família para ser "de fora".

- Ele e Lúcia se amavam ou não?
Quanto a ele, não ama ela: como já dito, não foi atrás dela em nenhum dos dois momentos. Embora talvez ir atrás de uma escrava não fosse considerado digno de um branco.
Já quanto a ela, agora fiquei em dúvida se ela amava ele, não há referência implícita ou explícita. Tanto o "não se esqueças de mim" quanto o lencinho poderiam ser pra qualquer um. Poderia até ser a família toda, se fosse no plural.
Não sendo, suponho que seja ele realmente.
Um adendo: relendo sob essa nova ótica, ela não me pareceu se despedir de ninguém na verdade, e sim da sua "liberdade" (a parte do "adeus, ó meus amigos").

- Qual é a fonte da vergonha de Lúcia?
Tomando como base a teoria da vergonha (ainda discordo que um negro possa ficar rubro/pálido, vou supor licença poética), não me parece ser a consciência dela de ser escreva como aventado por alguns, pois ela passou a ter essa consciência no momento em que foi vendida ("venderam para longe a pobre Lúcia").

PermalinkPermalink 22.04.09 @ 23:48



Comentário de: Andréa

O narrador é possivelmente um escravo como Lúcia. A maior evidencia seria o seguinte trecho:

“”E quando à noite todos se juntavam,
Aos reflexos doirados da candeia,
Na grande sala em torno da fogueira,
Então, Lúcia, sorrindo eu murmurava:
"Meu Deus! um beija-flor fez-se criança...
Uma criança fez-se mariposa!"”

Todos se juntando em torno da fogueira em uma grande sala: isso me pareceu a imagem de uma senzala. Talvez essa seja a diferença entre ele e Lúcia, ela era escrava de casa e ele não. Também por isso ele usa expressões tais como “tua senhora” e teus lares”.

Afirmo que eles se amaram, a todo tempo ele se refere com carinho à lembrança que Lúcia representa e ela pede para não ser esquecida por ele e afirma que o ama.

Contudo, não podemos afirmar que se trata de um amor de amantes, ou mesmo de um amor que perdurou no tempo em que eles ficaram afastados. Pode ser até que sejam parentes, por que não?

A vergonha de Lúcia é o que mais me perturba. Acho mesmo que, como já foi dito por aqui, é a vergonha de se saber objeto, e talvez, por ser objeto, não ser digna dos sentimentos que expressou ao encontrar o narrador, recolhendo-se logo ao seu lugar, a sua condição de coisa.

(muito boa a discussão do post!)

PermalinkPermalink 23.04.09 @ 12:54



Comentário de: Kitagawa

"Tá claro q o narrador é o próprio poeta, ou relembrando ou imaginando"

Sim, acho que o fator primordial para nos fazer intuir que se trata de um "sinhozinho" branco é o fato dele ter sido escrito pelo Castro Alves

"tá claro q, se não estiver comparando Lúcia a um bicho de estimação"

Sei não esse negócio de bicho de estimação. Acho que a admiração dele por ela é uma admiração qualquer de um homem por um mulher (ou no caso de um menino por uma menina)

PermalinkPermalink 23.04.09 @ 15:34



Comentário de: Raquel

Concordo com você, Andréa. A hipotese do narrador ser escravo como Lúcia faz bastante sentido essencialmente pelos trechos que você ressaltou.
Entretanto, fica difícil imaginar um escravo da senzala com a capacidade narrativa e poética do narrador. Talvez a evidência maior que o autor é um sinhozinho seja a existência da poesia em si.

Ele e Lúcia se amavam?
Acredito que ela o amava, despediu-se dizendo "Não te esqueças de mim que te amo tanto..." e ele a esqueceu, custou a lembrar seu nome, quando ela o reconhece de imediato.

Quato à vergonha dela, não tenho tanta certeza que se trata de um momento de tomada de consciencia da sua condição de escrava. Pode ser a vergonha de não ser mais "a mais formosa e meiga", "a mais mimosa e alegre" de não possuir mais a boca de "pássaro escarlate". No lugar, "pés descalços", "ombros nus, mas pálidos e magros" e "rosto pálido e sombrio". Ela olha para o sinhozinho e o primeiro impulso é o de abraçá-lo; vê o seu reflexo na água e sente vergonha, foge.

PermalinkPermalink 23.04.09 @ 16:13



Comentário de: josaphat · http://umquetoque.blogspot.com

Cheguei atrasado e quero apenas pontuar que acho que o eu poético era provavelmente branco e livre. Não haveria outra razão para a vergonha de Lúcia no final.
E fiquei curioso sobre o poema apresentado pelo leitor Plausível. Leva a forma de soneto, embora os últimos versos das estrofes sejão hexassílabos, um verso pouco utilizado. Parece ou é uma estrofe sáfica, não? Só o que estranho é o hexassílabo. A estrofe sáfica termina com um adônio, que, se o vertermos à versificação moderna, silábica, resultaria em cinco sílabas. Mas, para mim, há sempre a possibilidade de duplicarmos, em português, uma sílaba grega longa. Então poderíamos chamá-lo, em uma livre criação, de soneto sáfico?
Não tem nada a ver com a querela, mas vai o comentário assim mesmo. ;)

PermalinkPermalink 26.04.09 @ 14:48



Deixe seu comentário:

Seu endereço de email não será exibido nesse site.
Sua URL será exibida.

Post anterior: Lúcia, de Castro Alves

Próximo post: Saindo de Nova Orleans

 promoção submarino

Mulher de Um Homem Só

 Obras Completas Sigmund Freud: Edição Standard - 24 volumesObras completas de Freud, de R$960, por R$399

Um blog sobre rebeldia, contemplação e sacanagem, regado a muita literatura e humor. Nosso assunto são as várias prisões que acorrentam o homem, como ambição, verdade e medo. Dê sua opinião!


Quer comprar no Submarino? Entre por aqui e eu ganho 8%

Meus Livros à Venda:

  • Radical Rebelde Revolucionário
  • Onde Perdemos Tudo, por Alex Castro

Se gostou desse blog, inclua um botão no seu site

Se gostou desse blog, inclua um botão no seu site

Se gostou desse blog, inclua um botão no seu site

Se gostou desse blog, inclua um botão no seu site

Se gostou desse blog, inclua um botão no seu site

Livros Recomendados

Se gostou desse blog, inclua um botão no seu site

Diário de Leituras 2008

  • 100. Roediger, David R. The Wages of Whiteness. Race and the Making of American Working Class. [EUA, 1991] Nov.26 (TulBib)
  • 99. Roediger, David R. Colored White. Transcending the Racial Past. [EUA, 2002] Nov.25 (TulBib)
  • 98. Roediger, David R. Towards the Abolition of Whiteness. Essays on Race, Politics, and Working Class History. [EUA, 1991] Nov.26 (TulBib)
  • 97. Mills, Charles W. The Racial Contract. [EUA, 1997] Nov.22 (TulBib)
  • 96. Machado, Ubiratan. A Vida Literária no Brasil Durante o Romantismo. [Brasil, 2001] Nov.22 (ILL)
  • 95. Buruma, Ian & Avishai Margalit. Occidentalism: the West in the Eyes of its Enemies. [EUA, 2004] Nov.20
  • 94. Alencar, José. Lucíola. [Brasil, 1862] Nov.13
  • 93. Achebe, Chinua. Things Fall Apart. [Nigéria, 1959] Nov.12
  • 92. Matheson, Richard. I Am Legend. [EUA, 1954] Nov.11
  • 91. Alencar, José. O Tronco do Ipê. [Brasil, 1871] Nov.10
  • 90. Morrison, Toni. Playing in the Dark. Whiteness and the Literary Imagination. [EUA, 1992] (TulBib) Nov.7
  • 89. Eiró, Paulo. Sangue Limpo. [Brasil, 1861] (ILL) Out.
  • 88. Pinheiro Guimarães, Francisco. História de uma Moça Rica. [Brasil, 1861] Out.
  • 87. Teixeira e Souza, Antonio. O Filho do Pescador. [Brasil, 1843] (TulBib) Nov.6
  • 86. Almeida, Julia Lopes de. A Viúva Simões. [Brasil, 1897] (TulBib) Nov.6
  • 85. Ignatiev, Noel. How the Irish Became White. [EUA, 1995] (TulBib) Nov.
  • 84. Thompson, E. P. The Making of the English Working Class. [Reino Unido, 1966] (TulBib) Nov.
  • 83. Telles, Edward E. Race in Another America. The Significance of Skin Color in Brazil. [EUA, 2004] Nov.
  • 82. Macedo, Joaquim Manuel de. As Vítimas-Algozes. Quadros da Escravidão. [Brasil, 1869] Out.18
  • 81. Cuenca, João Paulo. O Dia Mastroianni. [Brasil, 2007] Out.
  • 80. Gorak, Jan, ed. Canon vs Culture. Reflections on the Current Debate. [EUA, 2001] Out. (TulBib)
  • 79. Morrissey, Lee, ed. Debating the Canon. A Reader from Addison to Nafisi. [EUA, 2005] Out. (TulBib)
  • 78. McKinney, Karyn. Being White. Stories of Race and Racism. [EUA, 2005] Out. (TulBib)
  • 77. Lund, Joshua et al. Gilberto Freyre e os Estudos Latino-Americanos. [EUA, 2006] (TulBib)
  • 76. Branche, Jerome. Colonialism and Race in Luso Hispanic Literature. [EUA, 2005] (TulBib)
  • 75. Falcão, Joaquim et al. Imperador das Idéias. Gilberto Freyre em Questão. [Brasil, 2001]
  • 74. Döpp, Hans-Jurgen. Sadomasochism: On the Ecstasies of the Whip. [Alemanha, 2003] Set.
  • 73. Diamond, Jared. The Third Chimpanzee. The Evolution and Future of the Human Animal. [EUA, 1992] Set.
  • 72. Suzuki, Daisetz Teitaro. The Zen Koan as a Means of Attaining Enlightenment. [Japão, 1950] Set.
  • 71. Skidmore, Thomas E. Black into White. Race and Nationality in Brazilian Thought. [EUA, 1974] Set. (TulBib)
  • 70. Peter Pauper Press. Zen Buddhism. [EUA, 1959] Set.
  • 69. Ventura, Roberto. Estilo Tropical. História Cultural e Polêmicas Literárias no Brasil, 1870-1914. [Brasil, 1991] Ago. (TulBib)
  • 68. Freyre, Gilberto. Casa Grande & Senzala. [Brasil, 1933] Ago.
  • 67. Andrade, Carlos Drummond et al. Elenco de Cronistas Brasileiros. [Brasil, c.1950-2000] Ago.
  • 66. Veríssimo, Luis Fernando. Histórias Brasileiras de Verão. [Brasil, c.2000] Ago.
  • 65. Veríssimo, Luis Fernando. Novas Comédias da Vida Privada. [Brasil, c.2000] Ago.
  • 64. Rodrigues, Nelson. O Óbvio Ululante. Primeiras Confissões. [Brasil, c.1960] Ago.
  • 63. Lispector, Clarice. A Descoberta do Mundo. [Brasil, c.1960] Ago.
  • 62. Lima Barreto, Afonso Henriques de. Crônicas Escolhidas. [Brasil, c.1900-1920] Ago.
  • 61. Alencar, José de. Crônicas Escolhidas. [Brasil, c.1860] Ago.
  • 60. Machado de Assis, Joaquim Maria. Crônicas Escolhidas. [Brasil, c.1870-1900] Ago.
  • 59. Mankell, Henning. The Fifth Woman. [Suécia, 2000] Ago.15
  • 58. Mankell, Henning. The Man Who Smiled. [Suécia, 1994] Ago.10
  • 57. Lindsay, Jeff. Dexter in the Dark. [EUA, 1997] Ago.
  • 56. Couto, Mia. A Varanda do Frangipani. [Moçambique, 1996] Ago.
  • 55. Coutinho, Odilon Ribeiro. Gilberto Freyre ou O Ideário Brasileiro. [Brasil, 2005] Ago.
  • 54. Albuquerque, Roberto Cavalcanti de. Gilberto Freyre e a Invenção do Brasil. [Brasil, 2000] Ago.
  • 53. Chacon, Vamireh. A Construção da Brasilidade. Gilberto Freyre e sua Geração. [Brasil, 2001] Ago.
  • 52. Araujo, Ricardo Benzaquen de. Guerra e Paz. Casa Grande & Senzala e a Obra de Gilberto Freyre nos Anos 30. [Brasil, 1994] Jul.
  • 51. Schwarcz, Lilia Moritz. O Espetáculo ds Raças. Cientistas, Instituições e Questão Racial no Brasil, 1870-1930. [Brasil, 1993] Jul.
  • 50. Isfahani-Hammond, Alexandra. White Negritude. Race, Writing, and Brazilian Cultural Identity. [EUA, 2008] Jul.
  • 49. Bosi, Alfredo. Dialética da Colonização. [Brasil, 1992] Jul.
  • 48. Salles, Ricardo. Nostalgia Imperial. A Formação da Identidade Nacional no Brasil do Segundo Reinado. [Brasil, 1996] Jul.
  • 47. Salles, Ricardo. Joaquim Nabuco. Um Pensador do Império. [Brasil, 2002] Jul.
  • 46. Nabuco, Joaquim. O Abolicionismo. [Brasil, 1883] Jul.
  • 45. Nabuco, Joaquim. Minha Formação. [Brasil, 1899] Jul.
  • 44. Weber, João Hernesto. A Nação e o Paraíso. A Construção da Nacionalidade na Historiografia Literária Brasileira. [Brasil, 1997] Jul.
  • 43. Gofman, Rosane & Eny Lea Gass. Empregadas e Patroas. Uma Relação de Amor. [Brasil, 1998] Jul.
  • 42. Graham, Sandra Lauderdale. Proteção e Obediência. Criadas e seus Patrões no Rio de Janeiro, 1860-1910. [EUA, 1988] Jul.
  • 41. Maio, Marcos Chor. Raça, Ciência e Sociedade. [Brasil, 1996] Jun.
  • 40. Almeida, Luana Chnaiderman de. Entremeios e Entretempos. Aproximações ao Filme Shoah de Claude Lanzmann. [Brasil, 2006] Jun.
  • 39. Levi, Primo. É Isto Um Homem? [Itália, 1946] Jun.
  • 38. Sartre, Jean-Paul. A Questão Judaica. [França, 1946] Jun.29
  • 37. Costa, Angela Marques da e Lilia Moritz Schwarcz. 1890-1914. No Tempo das Certezas. [Brasil, 2000] Jun.
  • 36. Holanda, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. [Brasil, 1934] Jun.9
  • 35. Villa, Marco Antonio. Canudos. O Povo da Terra. [Brasil, 1995] Jun.7
  • 34. Brandão, Adelino. Euclides da Cunha e a Questão Racial no Brasil. A Antropologia de Os Sertões. [Brasil, 1990] Jun.6
  • 33. Moura, Clóvis. Introdução ao Pensamento de Euclides da Cunha. [Brasil, 1964] Jun.6
  • 32. Lima, Luiz Costa. Terra Ignota: a Construção de Os Sertões. [Brasil, 1997] Jun.5
  • 31. Bernucci, Leopoldo M. A Imitação dos Sentidos: Prógonos, Contemporâneos e Epígonos de Euclides da Cunha. [Brasil, 1995] Jun.4
  • 30. Lima, Luiz Costa. Euclides da Cunha, Contrastes e Confrontos no Brasil. [Brasil, 2000] Jun.4
  • 29. Haddon, Mark. O Estranho Caso do Cachorro Morto. [Reino Unido, 2005] Mai.
  • 28. Guilherme, Paulo. Goleiros: Heróis e Anti-Heróis da Camisa 1. [Brasil, 2006] Mai.
  • 27. Krakauer, Jon. Na Natureza Selvagem: a Dramática História de um Jovem Aventureiro. [EUA, 1996] Mai.
  • 26. Cunha, Euclides da. Os Sertões. Campanha de Canudos. [Brasil, 1902] Mai.
  • 25. Wilder, Thornton. Bridge of San Luis Rey. [EUA, 1927] Mai.
  • 24. João de Patmos. Apocalipse. [Grécia, c.séc.I] Abr.
  • 23. Manzano, Juan Francisco. Autobiografia de un Esclavo. [Cuba, 1836] Abr.
  • 22. Castelnau, Francis de. Entrevistas com Escravos Africanos na Bahia Oitocentista. [Brasil, séc.XIX] Abr.
  • 21. Suzuki, Daisetz Teitaro. Introdução ao Zen Budismo. [Japão, 1934] Mai.
  • 20. Goethe, Johann Wolfgang Von. Faust. [Alemanha, 1832] Mai.
  • 19. Lisboa, Adriana. Rakushisha. [Brasil, 2007] Abr.
  • 18. Tezza, Cristovão. O Filho Eterno. [Brasil, 2007] Abr.
  • 17. Piñon, Nélida, A República dos Sonhos. [Brasil, 1984] Abr.
  • 16. Fanon, François. Black Skin, White Masks. [Martinica, 1952] Abr.
  • 15. Rheda, Regina. Pau de Arara Classe Turística. [Brasil, 1993] Abr.
  • 14. Guillory, John. Cultural Capital. The Problem of Literary Canon Formation. [EUA, 1993] Mar.7-10.
  • 13. Fonseca, Rubem. Feliz Ano Novo. [Brasil, 1975] Mar.11
  • 12. Butler, Octavia. Kindred. [Estados Unidos, 1979] Mar.7
  • 11. Ribeiro, João Ubaldo. Viva o Povo Brasileiro. [Brasil, 1984] Fev.
  • 10. Lispector, Clarice. Laços de Família. [Brasil, 1960] Fev.
  • 9. Veiga, José J. A Hora dos Ruminantes. [Brasil, 1966] Fev.
  • 8. Ramos, Graciliano. Vidas Secas. [Brasil, 1938] Jan.
  • 7. Pinto, Fernão Mendes. Peregrinações. [Portugal, séc.XVI] Fev.- (TulBib)
  • 6. Antunes, Antonio Lobo. O Esplendor de Portugal. [Portugal, 1997] Fev.-
  • 5. Santos, Gislene Aparecida dos. A Invenção do Ser Negro. Um Percurso das Idéias que Naturalizaram a Inferioridade dos Negros. [Brasil, 2002] Fev. (TulBib)
  • 4. Scott, Rebecca J. e outros. The Abolition of Slavery and the Aftermath of Emancipation in Brazil. [EUA, 1988] Fev.
  • 3. Moura, Clovis. O Negro: de Bom Escravo a Mau Cidadão? [Brasil, 1977] Fev. (TulBib)
  • 2. Suassuna, Ariano. Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta. [Brasil, 1971] Jan. (Releitura)
  • 1. Lima Barreto, Afonso Henriques de. Clara dos Anjos. [Brasil, 1922] Jan.

8129 Panola St, New Orleans, LA, 70118, msn, tel, email

Ao me enviar email ou comentar no LLL, você está automaticamente permitindo que eu publique sua mensagem no blog, inclusive com seu nome e endereço. Pense bem.

Busca


[ La Brute - Jogo Online em Flash Grátis ]