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Continuando nossa conversa sobre o poema "Lúcia", de Castro Alves. (Leia o poema e os comentários dos leitores.)
Fiquei muito feliz com as leituras, com as observações, com os comentários, com os insights. Vocês são lindos. Uma boa aula de literatura é exatamente assim. Agora, deixa eu também demonstrar pra vocês como eu dou aula.
(Tinha um trecho aqui sobre o papel do professor de literatura, mas ficou tão legal e tão longo que achei melhor fazer um post separado. Então, ao invés de teorizar, vamos direto a prática.)
Alguns comentários sobre seus comentários. Reparem que não estou respondendo somente aos melhores comentários, mas aos comentários sobre os quais eu tenho algo a dizer:
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Que Lares?
Escrava que "fazia parte" da família foi vendida quando a coisa apertou (embora eu não entenda pq ele usou "teus lares" se a a narração é em primeira pessoa).
Excelente pergunta. O que vocês acham?
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Enrubesceu, Não Sangrou
"Mas súbito estacou... Nuvem de sangue / Corou-lhe o rosto pálido e sombrio ... (ok, ela começa a sangrar) (...) Acho que ela podia estar arrastando uma corrente ou presa numa algema que repentinamente fez ela sangrar, daí a vergonha eterna é a escravidão.
Quando Castro Alves escreve sobre a "nuvem de sangue", ele queria apenas dizer que ela corou. Com certeza, não é pra ser entendido literalmente.
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Narrador vs Poeta
Uma menina escrava é criada juntamente com o senhorzinho. Entre eles se desenvolve um genuíno afeto. A menina recebe cuidados de toda família , o que a faz sentir-se como um deles. Mas um dia, a realidade se faz presente, e a menina percebe sua condição de escrava, de objeto, ao ser vendida. Anos mais tarde, quando revê o amigo/amor da infância, seu impulso é de retomar o vínculo mas, dessa vez "ciente" de sua condição, afasta-se.
Tive a impressão que o narrador não se dá conta, com a devida clareza, deste fato. Então eu não sei se fui em quem não entendeu direito ou, se é um recurso do autor para evidenciar a posição do senhorzinho, repleta de boas intenções, mas sem um pingo de humanidade verdadeira.
Essa é uma velha questão da literatura. Alguns autores de fato criticam esse poema por ver em Castro Alves essa "hipocrisia desumana" que você viu no narrador. Isso é possível? É, claro. Mas também é possível ler o poema como uma denúncia e uma exposição dessa mesma hipocrisia.
Então, no fim das contas, pouco interessa a posição de Castro Alves, ou se ele tinha o mesmo "ponto cego" do narrador ou não. O que importa é o que a poesia nos diz hoje.
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O Negro, Esse Animal
Lúcia é uma "cria" q lembra uma "corça", seus olhos "as plumas ... da graúna", seus cabelos "festões de parasitas"; no momento da despedida, o poeta percebe o canto do galo, o mugido das vacas e o relincho das éguas... enquanto Lúcia chora; ela se despede das violetas com pena de não vir mais arrancá-las e dos sabiás com pena de não mais lhes roubar os ninhos; na última cena, Lúcia some "entre as sombras da mata".
As metáforas naturais como descrição da personagem. Natureza aqui parece implicar liberdade! Que outro motivo haveria para compará-la a um colibri, ou graúna (verso famoso!) ou, suprema sacanagem, corsa arisca? Porque ela choraria ao se despedir do lugar? Ela era livre? Acho que não. Os termos cria e cativa nos dizem que ela já nasceu escrava.
Sempre esbarro nessa questão ao escrever sobre negritude e literatura. Mesmo nos autores mais bem-intencionados, é comum a imagética do negro enquanto animal: seja como um animal livre e forte, ou como uma besta-fera raivosa e sexualizada, mas sempre um animal. Castro Alves está apenas caindo no mesmo estereótipo.
E, sim, existe uma certa contradição entre comparar um indivíduo escravizado com animais livres. Não sei se os próprios autores se davam conta disso.
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Definição de um Clássico
Se a data batesse, diria poderia ser de alguma forma uma critica à abolição em si ou à maneira como ela se deu, mostrando que as condições para os negros pioraram depois da abolição pois totalmente abandonados.
Nada impede que seja. A marca de um clássico é sua capacidade de falar às sucessivas gerações. Castro Alves é um clássico lido, estudado e comentado até hoje porque nunca parou de ser relevante. Esse poema é tanto sobre a Abolição quanto sobre a relação patrão e empregada doméstica em 2009. Estamos aqui discutindo esse poema não como uma relíquia de um tempo passado, mas como algo que ilumina nossa vida e nossa sociedade hoje.
Então, de um modo bem real, esse poema é sim sobre a Abolição. E talvez sobre muitos outros assuntos que ainda nem existem. Esse é o poder da literatura.
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A Vergonha de Lúcia
O sangue que lhe cora a cara pálida simboliza o momento em que ele (e também ela) percebem que a Lúcia era negra e o narrador branco. Acho que quando eles se conheciam quando criança nem ele e nem ela tinham se dado conta disso, de que eram diferentes em termos raciais e consequentemente socias. Acho que existia uma pureza no sentimento entre ambos, além da questão de raças e etc.
O epílogo, no qual a sua condição torna-se evidente. Por isso ela fica envergonhada e esconde o rosto: ela passa a ter consciência de que é uma escrava. A vergonha eterna escondida pela mão crispada. A carga dramática, penso eu, está na oposição entre liberdade/escravidão potencializada aqui pela perda da inocência da infância e pela ênfase no "comércio de pessoas" como algo condenável. Mas ela não passou a ser escrava assim que foi vendida, ela sempre foi escrava!
Ela compreende que entre os dois não poderia haver sentimento verdadeiro porque aquela situação anterior que os aproximou - a instituição da escravidão -, mesmo que aparentasse gerar amizade e respeito, não poderia gerar uma amizade verdadeira pois ela não nasceu da reciprocidade entre senhor e criado..
Antes de precisar ser vendida, Lúcia não tinha consciência de sua condição, de sua posição, de seu lugar, na sociedade escravista. A vergonha de Lúcia, que cobre o rosto com as mãos, advém da falta de dignidade, a vergonha eterna, pois é um fardo que ela carregará para o resto da vida, algo intrínseco a ela. Lúcia tem vergonha de sua condição e sabe que nada pode fazer para mudar isso.
Talvez essa seja a questão mais importante do poema, não? Afinal, do que Lúcia se envergonha?
Mas, pra podermos responder isso, precisamos entender melhor qual era sua relação com o narrador.
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Quem É o Narrador?
Cativo significa algo como "refem", "abduzido". Imagine a situação: A menina rica que gosta do escravo, mas não pode se envolver com ele pq é rica. Por um acaso, não estaria ela presa a situação de riqueza? ... O autor pode muito bem ter utilizado o termo "cria" num jogo de palavras. Veja: CRIANÇA/CRIADA. Se a intenção fosse mesmo chamar de escrava, usaria o termo "criada"; mas pq será que usou necessariamente o termo cria? Será que mesmo a criança era "impura"? A poesia é sempre muito figurativa.
O leitor Lucas fez algumas confusões vocabulares, advindas de uma compreensível ignorância dos termos do século XIX, mas elas acabaram abrindo sua mente pra algumas novas possibilidades - e isso é bem mais interessante.
Para clarificar, cria era termo usado para filhos de escravos. Cativo era termo usado para escravos. Para o leitor conteporâneo de Castro Alves, ambas palavras remeteriam direto à escravidão. Então, uma coisa que sabemos com certeza é que Lúcia era cria (criança-escrava) da fazenda, provavelmente nascida lá.
O que NÃO sabemos com certeza é quem é o narrador. Vocês todos parecem presumir que ele é branco, que é livre, que é sinhôzinho, que tinha status socioeconomico superior à Lúcia, mas eu me pergunto de onde vocês tiraram isso. Alguém poderia me justificar alguma dessas afirmativas com exemplos do texto?
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Dever de Casa
Para quem leu, opinou e depois acompanhou a discussão, agora algumas perguntas concretas:
- Quem era o narrador?
- Ele e Lúcia se amavam ou não?
- Qual é a fonte da vergonha de Lúcia?
A única regra, claro, é responder usando o poema, com as evidências textuais disponíveis. Ou, no mínimo, usando as lacunas do texto para construir hipóteses que o texto não invalide ou desminta.
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Então? Estão gostando? É assim que são minhas aulas de literatura. E ainda me pagam pra isso, vai entender!
Estou escrevendo um texto longo sobre Castro Alves. Amanhã* publico o trecho sobre "Lúcia".
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*Sobre o conceito de "amanhã" na língua portuguesa, um texto genial do Ubaldo - clique e desça até o fim da página. O texto não aparece em mais nenhum lugar da internet, mas Ubaldo foi sábio em colocá-lo em sua página oficial na ABL. Eu gostaria de ser lembrado por um texto desses. Todo semestre, eu xeroco e dou pros meus alunos.
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