Lúcia, de Castro Alves

Pequena brincadeira literária: leiam a poesia abaixo e me deixem um comentário dizendo o que acharam e fazendo um pequeno resumo do enredo.

Não precisa pensar muito. Não vale buscar pela poesia no Google ou ler o que outros críticos disseram. Cheguem nela com seus olhos virgens de leitores inteligentes do século XIX e me digam o que está acontecendo.

Depois eu explico.

* * *

LúciaRacismo LLL
(Castro Alves, 1868)

Na formosa estação da primavera
Quando o mato se arreia mais festivo,
E o vento campesino bebe ardente
O agreste aroma da floresta virgem...
Eu e Lúcia, corríamos - crianças -
Na veiga, no pomar, na cachoeira,
Como um casal de colibris travessos
Nas laranjeiras que o Natal enflora.  Escravos, Os

Ela era a cria mais formosa e meiga
Que jamais, na Fazenda, vira o dia ...
Morena, esbelta, airosa... eu me lembrava
Sempre da corça arisca dos silvados
Quando via-lhe os olhos negros, negros
Como as plumas noturnas da graúna,
Depois... quem mais mimosa e mais alegre?...
Sua boca era um pássaro escarlate
Onde cantava festival sorriso.
Os cabelos caíam-lhe anelados
Como doudos festões de parasitas...
E a graça... o modo... o coração tão meigo?...

Ai! Pobre Lúcia... como tu sabias,
Festiva, encher de afagos a família,
Que te queria tanto e que te amava
Como se fosses filha e não cativa...
Tu eras a alegria da fazenda;
Tua senhora ria-se, contente
Quando enlaçavas seus cabelos brancos
Co'as roxas maravilhas da campina.
E quando à noite todos se juntavam,
Aos reflexos doirados da candeia,

Na grande sala em torno da fogueira,
Então, Lúcia, sorrindo eu murmurava:
"Meu Deus! um beija-flor fez-se criança...
Uma criança fez-se mariposa!"

Mas um dia a miséria, a fome, o frio,
Foram pedir um pouso nos teus lares...
A mesa era pequena... Pobre Lúcia!
Foi preciso te ergueres do banquete
Deixares teu lugar aos mais convivas...

Eu me lembro... eu me lembro... O sol raiava.
Tudo era festa em volta da pousada...
Cantava o galo alegre no terreiro,
O mugido das vacas misturava-se
Ao relincho das éguas que corriam
De crinas soltas pelo campo aberto
Aspirando o frescor da madrugada.

Pela última vez ela chorando
Veio sentar-se ao banco do terreiro...
Pobre criança! que conversas tristes
Tu conversaste então co'a natureza.

"Adeus! pra sempre, adeus, ó meus amigos,
Passarinhos do céu, brisas da mata,
Patativas saudosas dos coqueiros,
Ventos da várzea, fontes do deserto! ...
Nunca mais eu virei, pobres violetas,
Vos arrancar das moitas perfumadas,
Nunca mais eu irei risonha e louca
Roubar o ninho do sabiá choroso...
Perdoai-me que eu parto para sempre!
Venderam para longe a pobre Lúcia!..."

Então ela apanhou do mato as flores
Como outrora enlaçou-as nos cabelos,
E rindo de chorar disse em soluços:
"Não te esqueças de mim que te amo tanto..."

Depois além, um grupo, informe e vago,
Que cavalgava o dorso da montanha,
Ia esconder-se, transmontando o topo. . .

Neste momento eu vi, longe... bem longe,
Ainda se agitar um lenço branco...
Era o lencinho tremulo de Lúcia...

Epílogo

Muitos anos correram depois disto ...
Um dia nos sertões eu caminhava
Por uma estrada agreste e solitária,
Diante de mim ua mulher seguia,
- Co' o cântaro à cabeça - pés descalços,
Co'os ombros nus, mas pálidos e magros ...

Ela cantava, com uma voz extinta,
Uma cantiga triste e compassada ...
E eu que a escutava procurava, embalde,
Uma lembrança juvenil e alegre
Do tempo em que aprendera aqueles versos...
De repente, lembrei-me. . . "Lúcia! Lúcia!"
... A mulher se voltou ... fitou-me pasma,
Soltou um grito. . . e, rindo e soluçando,
Quis para mim lançar-se, abrindo os braços.
... Mas súbito estacou ... Nuvem de sangue
Corou-lhe o rosto pálido e sombrio ...
Cobriu co'a mão crispada a face rubra
Como escondendo uma vergonha eterna ...
Depois, soltando um grito, ela sumiu-se
Entre as sombras da mata ... a pobre Lúcia!

* * *

A discussão sobre esse poema continua nesse post, onde respondo os comentários dos leitores.

* * *

Mais livros de Castro Alves.

Espumas Flutuantes Os EscravosMelhores Poemas de Castro AlvesRacismo LLL

* * *

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21.04.09


Categorias: Livros, Raça


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Comentários:


Comentário de: Dr Plausível · http://drplausivel.blogspot.com

¿Ué, não é óbvio? A cativa cresceu "como se fosse filha", talvez até filha de senhor e escrava. Depois a fazenda entrou numa crise econômica e ela foi vendida. O poema tem toda uma imagística de animais, como se a menina fosse um intermediário entre humanos e bichos.

PermalinkPermalink 21.04.09 @ 10:13



Comentário de: Ex-esposa

Eles a tratavam como um animalzinho de estimacao...como as vezes fazemos com criancas que sao filhos dos empregados, bonitas e boas para um entretenimento...quando as "patacas" estavam acabando...nao pensaram duas vezes em vender o animalzinho...se gostavam tanto dela, pq a venderam? claro....na epoca era assim...e vamos julgar isso pq? contexto eh importante lembrar..

PermalinkPermalink 21.04.09 @ 10:22



Comentário de: Jampa

O texto também fala a partir de uma voz que tensiona com a realidade do "como se fosse filha" ou da do "animalzinho" vendido em momento da crise. É muito interessante perceber que fica um algo de incompreensão da parte de quem narra a experiência,que é sentida também por nós leitores. No epilogo algo milagroso quase acontece: no transbordar repentino de alegria Lucia quase se esquece de sua condição atual para novamente se sentir próxima de alguém que de fato amou, mas bastou lembrar-se quem de fato era (as marcas da vida presentes em seus rosto não a deixariam esquecer)que o lhe sobrou do passodo foi apenas o recurso da fuga envergonhada.

PermalinkPermalink 21.04.09 @ 10:42



Comentário de: leod · http://twitter.com/leodippolito

Confuso... Lúcia era uma empregada? Escrava? Ela parecia querida pela família rica, mas depois foi vendida. E quem narra?

(lendo agora os outros comentários percebo que falei o óbvio)

PermalinkPermalink 21.04.09 @ 11:05



Comentário de: Alex Castro Email

Não existe óbvio, Léo. Quero saber mesmo qual foi a impressão de vcs.

PermalinkPermalink 21.04.09 @ 11:16



Comentário de: marcus · http://grandeabobora.com/

Não li os comentários dos outros leitores até o momento.

----

O carinha e Lúcia se conhecem desde crianças, mas ela era uma escrava da família. Tratavam ela igualmente. Ela, inclusive, sentava-se à mesa com eles para as refeições.

Mas aí um dia chegou um pessoal pra uma festa na fazenda e venderam Lúcia para eles.

Depois de anos, ele encontrou-a novamente, a trabalhar, e, ao chamá-la, ela se envergonhou e fugiu.

PermalinkPermalink 21.04.09 @ 11:41



Comentário de: Filipe

O poema é interessante. Lúcia, ao que tudo indica, é uma criança negra e escrava que vivia na Casa Grande se divertindo e divertindo as pessoas a sua volta. Mas nunca foi considerada de fato alguém da família, pois no momento de crise foi mandada embora.
Nesse momento, então, Lúcia se deu conta de ser da "cor errada" (parodiando o Alex). E no epílogo, novamente se lembra disso e, com vergonha, esconde o rosto com as mãos.
Mas achei interessante o comentário da Ex-esposa fazendo um paralelo com a relação patrão-empregada doméstica.

PermalinkPermalink 21.04.09 @ 11:43



Comentário de: Antonio


A vida passa rapido

voce vai vivendo , nem se dá conta

tudo parece nos seus devidos lugares.

Qdo acorda e percebe o qui si passou...


PermalinkPermalink 21.04.09 @ 12:29



Comentário de: Thiago

Puxa, não saberia nem chutar uma resposta, minha primeira idéia não batia com a data do poema.

Mas a idéia da "Ex-esposa" parece fazer sentido pra mim.


PermalinkPermalink 21.04.09 @ 12:35



Comentário de: Alex Castro Email

thiago, me conta qual foi sua primeira ideia. e nao tem resposta certa. eu só queria que vcs me descrevessem/resumissem o poema

PermalinkPermalink 21.04.09 @ 12:40



Comentário de: Thiago

Bom, minha primeira idéia era que se tratasse de uma descrição de acontecimento na promulgação da Lei Áurea, mas vários detalhes vão contra isso (não só a data)...

PermalinkPermalink 21.04.09 @ 13:20



Comentário de: Jasão · http://jasoncarreiro.wordpress.com

Pareceu-me um bonito e intenso poema de amor que escancara a famigerada e perpétua hipocrisia da elite brasileira.

PermalinkPermalink 21.04.09 @ 14:33



Comentário de: Gustavo B.

Escrava que "fazia parte" da família foi vendida quando a coisa apertou (embora eu não entenda pq ele usou "teus lares" se a a narração é em primeira pessoa).
Não entendi também o epílogo. Pq ela correu? No primeiro momento achei que o feitor ou alguém tinha lhe dado um "corretivo" no rosto, pela menção de ir em direção ou tomar aquelas "liberdades" com um branco, mas os versos seguintes não estão de acordo com essa interpretação. Parece mesmo que ela ficou com vergonha, embora eu não entenda como uma negra possa ficar rubra ou pálida.

Outra coisa interessante é que em momento algum ele lutou contra ou questionou aquela venda (ou mesmo se questionou), como se fosse coisa comum, apesar dela fazer parte da família.

PermalinkPermalink 21.04.09 @ 14:46



Comentário de: Gustavo B.

Lendo os comentários anteriores agora, é engraçado que ninguém se questionou sobre o não questionamento dele. À exceção desse último de Jasão.

PermalinkPermalink 21.04.09 @ 14:50



Comentário de: Glauber K

Para mim o texto fala sobre uma escrava amiga de infância do narrador num ambiente campestre. Então ela foi vendida e eles ficaram separados por longo tempo, até se reencontrarem quando adultos e essa parte é que me pareceu interessante.
É difícil tirar uma única conclusão do trecho final, tive duas idéias, aqui vai:

"Mas súbito estacou... Nuvem de sangue
Corou-lhe o rosto pálido e sombrio ...
(ok, ela começa a sangrar)

Cobriu co'a mão crispada a face rubra
Como escondendo uma vergonha eterna ...
(ela se envergonha disso, uma vergonha eterna que ou pode ser ou da condição de escrava ou da condição humana)

Depois, soltando um grito, ela sumiu-se
Entre as sombras da mata ... a pobre Lúcia!
(ok, ela foge)"

Acho que ela podia estar arrastando uma corrente ou presa numa algema que repentinamente fez ela sangrar, daí a vergonha eterna é a escravidão.

Ou ela era mulher livre e menstruou repentinamente! Daí a vergonha eterna é a menstruação.

Livre ou escrava ela estará sempre algemada.

PermalinkPermalink 21.04.09 @ 15:03



Comentário de: Débora Vieira · http://didascaliae.blogspot.com/

eita, a coisa parece marromenos clara. aí chega alguém e pede pra "falar sobre", tudo obscurece =P

Lúcia, escrava da fazenda que pertencia á família do "eu poético". Aparentemente tratada "como se" fosse da família - ou seja, de fato nunca foi tratada assim. A analogia com o "animal de estimação" acho q foi pertinente... sugere a relação de posse, de hierarquia, de "quem dá a comida" em troca do que o outro possa oferecer - seja trabalho ou, no caso, entretenimento.
Até que chegou o tempo das vacas magras e o "como se" mostrou sua face santa e crua: "NÃO É" da família, então bye! Tempos depois, eu lírico e Lúcia se encontram... ela, calejada, magra, "voz extinta" (a contrastar com a alegria e esperteza que tinha quando era criança). Ele a reconhece, a chama... e por instantes ela sente outra vez a alegria de estar junto ao amigo, e tem o impulso de correr até ele. Mas o impulso é rapidamente censurado por todas as marcas que ela já carrega consigo, pela "vergonha eterna" de ser quem é. O eu-lírico, passivo, contempla os acontecimentos mas não se dedica muito a tentar compreendê-los.

PermalinkPermalink 21.04.09 @ 15:10



Comentário de: Jasão · http://jasoncarreiro.wordpress.com

uma atualização: que CULMINA por escancarar a famigerada e perpétua hipocrisia da elite nacional.

O bunda-mole do eu-lírico nem tomou partido da moça. Deixou que ela corresse.

PermalinkPermalink 21.04.09 @ 15:43



Comentário de: Lucas

Sacanagem, viu? O autor dá indícios tanto que era uma família nobre que faliu e um outro ponto de vista que de fato Lúcia era uma escrava.

:/

PermalinkPermalink 21.04.09 @ 16:01



Comentário de: Lucas

Quando eu estava montando o enredo eu pensei: "E se fosse o contrário?", daí notei que o troço era muito mais complicado do que pensava.

PermalinkPermalink 21.04.09 @ 16:03



Comentário de: Cybelle Kostetzer

Uma menina escrava é criada juntamente com o senhorzinho. Entre eles se desenvolve um genuíno afeto. A menina recebe cuidados de toda família , o que a faz sentir-se como um deles. Mas um dia, a realidade se faz presente, e a menina percebe sua condição de escrava, de objeto, ao ser vendida. Anos mais tarde, quando revê o amigo/amor da infância, seu impulso é de retomar o vínculo mas, dessa vez "ciente" de sua condição, afasta-se.

Tive a impressão que o narrador não se dá conta, com a devida clareza, deste fato. Então eu não sei se fui em quem não entendeu direito ou, se é um recurso do autor para evidenciar a posição do senhorzinho, repleta de boas intenções, mas sem um pingo de humanidade verdadeira.

PermalinkPermalink 21.04.09 @ 16:50



Comentário de: Dr Plausível · http://drplausivel.blogspot.com

Pra mim, tanto o eu-poético como o próprio poeta são piegas e hipócritas. Lúcia é vista como pouco mais do q um bicho de estimação:

Lúcia é uma "cria" q lembra uma "corça", seus olhos "as plumas ... da graúna", seus cabelos "festões de parasitas"; no momento da despedida, o poeta percebe o canto do galo, o mugido das vacas e o relincho das éguas... enquanto Lúcia chora; ela se despede das violetas com pena de não vir mais arrancá-las e dos sabiás com pena de não mais lhes roubar os ninhos; na última cena, Lúcia some "entre as sombras da mata".

Ou C. Alves é um poeta medíocre, ou sua hipocrisia anda de mãos dadas com sua pieguice.

Nada contra a hipocrisia, claro: sem ela, não haveria civilização; mas pieguice é atestado, né?

PermalinkPermalink 21.04.09 @ 17:00



Comentário de: Daniel Christino · http://pasmoessencial.wordpress.com

Eu acho que o enredo é esse mesmo que todo mundo falou. Mas duas coisas me encucaram.

1. As metáforas naturais como descrição da personagem. Natureza aqui parece implicar liberdade! Que outro motivo haveria para compará-la a um colibri, ou graúna (verso famoso!) ou, suprema sacanagem, corsa arisca? Porque ela choraria ao se despedir do lugar? Ela era livre? Acho que não. Os termos cria e cativa nos dizem que ela já nasceu escrava.

2. O epílogo, no qual a sua condição torna-se evidente. Por isso ela fica envergonhada e esconde o rosto: ela passa a ter consciência de que é uma escrava. A vergonha eterna escondida pela mão crispada.

A carga dramática, penso eu, está na oposição entre liberdade/escravidão potencializada aqui pela perda da inocência da infância e pela ênfase no "comércio de pessoas" como algo condenável. Mas ela não passou a ser escrava assim que foi vendida, ela sempre foi escrava! Só não sei se seria o caso de puxar o orelhão do bom e velho Castro Alves ou louvar-lhe a coragem de criticar o comércio de escravos, mesmo de forma bem malandra!

PermalinkPermalink 21.04.09 @ 17:07



Comentário de: Lucas

"Ou C. Alves é um poeta medíocre, ou sua hipocrisia anda de mãos dadas com sua pieguice."

Ou vc não entendeu o poema e tá procurando "pelo em ovo".

Leva na brincadeira, tá? XD

PermalinkPermalink 21.04.09 @ 17:11



Comentário de: Lucas

Gente, vamos por partes:

Na formosa estação da primavera
Quando o mato se arreia mais festivo,
E o vento campesino bebe ardente
O agreste aroma da floresta virgem...
Eu e Lúcia, corríamos - crianças -
Na veiga, no pomar, na cachoeira,
Como um casal de colibris travessos
Nas laranjeiras que o Natal enflora.

(Essa parte não demonstra maiores expicações, temos duas crianas que corriam pela propriedade)

Ela era a cria mais formosa e meiga
Que jamais, na Fazenda, vira o dia ...
Morena, esbelta, airosa... eu me lembrava
Sempre da corça arisca dos silvados
Quando via-lhe os olhos negros, negros
Como as plumas noturnas da graúna,
Depois... quem mais mimosa e mais alegre?...
Sua boca era um pássaro escarlate
Onde cantava festival sorriso.
Os cabelos caíam-lhe anelados
Como doudos festões de parasitas...
E a graça... o modo... o coração tão meigo?...
(Aqui o poema começa a dar o sentido, e acredito que muita gente esbarrou aqui: O fato de a menina ser negra. Mas o poema não diz que a menina é "escrava", diz sim que é negra. Quem garante que a "mulher do senhor" não o traiu com um escravo, de repente? E dessa forma o senhor acreditar que a menina é sua filha? Não podemos tirar tais conclusões pq não temos fatos suficientes. Claro, o fato de o autor ter dito que a garota era negra também pode indiciar que ela era escrava, mas não temos como provar.)

Ai! Pobre Lúcia... como tu sabias,
Festiva, encher de afagos a família,
Que te queria tanto e que te amava
Como se fosses filha e não cativa...
Tu eras a alegria da fazenda;
Tua senhora ria-se, contente
Quando enlaçavas seus cabelos brancos
Co'as roxas maravilhas da campina.
E quando à noite todos se juntavam,
Aos reflexos doirados da candeia,
(Tendo a conclusão de que não pq a menina era negra ela era obrigatoriamente escrava, é visto que essa parte se encaixa perfeitamene nas duas situações)

Na grande sala em torno da fogueira,
Então, Lúcia, sorrindo eu murmurava:
"Meu Deus! um beija-flor fez-se criança...
Uma criança fez-se mariposa!"

Mas um dia a miséria, a fome, o frio,
Foram pedir um pouso nos teus lares...
A mesa era pequena... Pobre Lúcia!
Foi preciso te ergueres do banquete
Deixares teu lugar aos mais convivas...
(Essa parte não impede em nada a idéia de que a menina podia ser da famílica rica ou não)

Eu me lembro... eu me lembro... O sol raiava.
Tudo era festa em volta da pousada...
Cantava o galo alegre no terreiro,
O mugido das vacas misturava-se
Ao relincho das éguas que corriam
De crinas soltas pelo campo aberto
Aspirando o frescor da madrugada.

Pela última vez ela chorando
Veio sentar-se ao banco do terreiro...
Pobre criança! que conversas tristes
Tu conversaste então co'a natureza.

"Adeus! pra sempre, adeus, ó meus amigos,
Passarinhos do céu, brisas da mata,
Patativas saudosas dos coqueiros,
Ventos da várzea, fontes do deserto! ...
Nunca mais eu virei, pobres violetas,
Vos arrancar das moitas perfumadas,
Nunca mais eu irei risonha e louca
Roubar o ninho do sabiá choroso...
Perdoai-me que eu parto para sempre!
Venderam para longe a pobre Lúcia!..."

Então ela apanhou do mato as flores
Como outrora enlaçou-as nos cabelos,
E rindo de chorar disse em soluços:
"Não te esqueças de mim que te amo tanto..."

Depois além, um grupo, informe e vago,
Que cavalgava o dorso da montanha,
Ia esconder-se, transmontando o topo. . .

Neste momento eu vi, longe... bem longe,
Ainda se agitar um lenço branco...
Era o lencinho tremulo de Lúcia...
(E tal é apenas o desfecho)

PermalinkPermalink 21.04.09 @ 17:22



Comentário de: Alex

Conhecia Castro Alves só de ouvir falar. A poesia "Lúcia" muito me agradou. Na minha opinião, muito bem escrita.

Para conseguir formular opinião sobre o que aconteceu, tive de ler duas vezes a poesia. Eis o que entendi: O poeta - filho dos proprietários - foi criado junto com Lúcia, escrava de propriedade da família do poeta. Lúcia sempre foi bem tratada. Fazia, de certo modo, parte do círculo da família do poeta. Cresceram, apaixonaram-se, e então a família do poeta, para o afastar de Lúcia, vende a escrava para longe. Como era bonita, imagino que talvez tenha sido vendida para ser explorada como prostituta: motivo da vergonha de Lúcia ao se encontrar, anos depois, com o poeta.

PermalinkPermalink 21.04.09 @ 17:35



Comentário de: Lucas

Daniel


cativo significa algo como "refem", "abduzido".

Imagin a situação: A menina rica que gosta do escravo, mas não pode se envolver com ele pq é rica. Por um acaso, não estaria ela presa a situação de riqueza? Sua interpretação também pode estar certa, enfim, Castro Alves fez um trabalho genial no poema.

O epílogo deixa claro que muito tempo se passou, e então; talvez a a agora mulher tenha outras visões de mundo e outra noção. Tendo vergonha de uma condição (Que o texto deixou a entender) de falência, e tendo que se juntar na pequena mesa dos escravos.

Claro que as outras interpretações podem estar certo, só estou deixando claro que não são as únicas interpretações possíveis; com certeza.

PermalinkPermalink 21.04.09 @ 17:40



Comentário de: Lucas

*certas, *",tendo"

PermalinkPermalink 21.04.09 @ 17:42



Comentário de: renata

a escrava era amada e tratada como se fosse da família, mas quando a miséria apareceu, ela foi vendida. anos depois, o narrados a reencontra, ela fica surpresa mas foge envergonhada.

PermalinkPermalink 21.04.09 @ 18:37



Comentário de: renata

*narrador

PermalinkPermalink 21.04.09 @ 18:48



Comentário de: Daniel Christino · http://pasmoessencial.wordpress.com

Veja lá meu caro Lucas, cativa está sendo usada como adjetivo ou como substantivo. Se for substantivo - e, se ainda me lembro da nossa "inculta e bela" parece ser o caso - o Aurélio o define como escravo. Se for, como você parece querer indicar, adjetivo, pode ser várias coisas desde encarcerado até seduzido. Tenho cá comigo que o contexto aponta para a idéia de escravo.

Quanto ao termo cria" o mesmo Aurélio diz lá em algum lugar: Desus. Escravo criado na casa do senhor; no caso da Lúcia, cria de pé.

E também há a relação entre criança e cria, cuja etimologia é a mesma mas o sentido, no poema, é diverso. O termo criança não carrega nenhuma relação com a escravidão, o que não acontece com o termo cria. Tanto é assim que o eu lírico jamais refere a si mesmo como cria. Nisso são distintos, embora sejam iguais em sua inocência infantil. Mas aqui creio ter viajado um tanto, a seu convite, na Santa Maionese, protetora de todos os vagabundos verborrágicos dessa Internet de Nosso Senhor! Amém!

PermalinkPermalink 21.04.09 @ 18:52



Comentário de: Lucas

"Escravo criado na casa do Senhor"

Se, por um caso, a mulher do senhor tivesse um caso com um escravo e o marido soubesse, porém escondesse os fatos por vergonha; teríamos Lucía com uma menina "impura" para o contexto da época. Não deixaria de ser "uma escrava criada na casa do Senhor".

E continuo achando que "cativa" pode ser visto como adjetivo. Por exemplo: O grupo "Y" é burro. A Letra Y por si só não remete a ideia de burro, mas numa visão geral um tanto preconceituosa pode ser colocada na frase.

PermalinkPermalink 21.04.09 @ 19:50



Comentário de: Lucas

E o autor pode muito bem ter utilizado o termo "cria" num jogo de palavras.

Veja: CRIANÇA/CRIADA.

Se a intenção fosse mesmo chamar de escrava, usaria o termo "criada"; mas pq será que usou necessariamente o termo cria? Será que mesmo a criança era "impura"? A poesia é sempre muito figurativa.

Todas as interpretações colocadas podem estar certas, mas que não é só uma certa; isso com certeza.

Castro Alves deixa muita coisa nas entrelinhas, não é que nem o Paulo Coelho :D

PermalinkPermalink 21.04.09 @ 19:55



Comentário de: Alex Castro Email

Queridos,

A discussão está linda, de altíssimo nível mesmo. Não quero falar muito, pra não travar vocês, e tb porque não existe resposta certa, mas preciso fazer uma correção, digamos, histórica.

Disse o Lucas:

"E o autor pode muito bem ter utilizado o termo "cria" num jogo de palavras. Veja: CRIANÇA/CRIADA. Se a intenção fosse mesmo chamar de escrava, usaria o termo "criada"; mas pq será que usou necessariamente o termo cria?"

O raciocínio do Lucas está ótimo, mas preciso esplicar uma coisa. Se o autor quisesse chamar alguém de escrava, não usaria o termo criada pois, justamente, eram coisas bem diferentes. E cria era usado comumente para querer dizer filho de escravo. Então, quando se dizia "cria", já se sabe estar falando de um escravinho. Se fosse livre, seria chamado de criança. Cativo também era outro termo usado para escravo. Nesse contexto, qualquer menção a cativo será sempre a um escravo. Mesmo se, hipoteticamente, uma pessoa branca e livre estivesse sido mantida cativa (sequestrada, presa em cativeiro, etc), nao se usaria a palavra justamente pq ela remeteria a escravidão.

Não se sintam mal. Quem não é especialista em século XIX não tem obrigação alguma de saber isso. É pra isso q serve prof de literatura: não pra explicar o texto e dar as respostas certas, mas pra guiar vocês e corrigir um ou outro erro factual.


PermalinkPermalink 21.04.09 @ 21:15



Comentário de: Guilherme · http://orinocerontevoador.wordpress.com/

Eu acho que a mensagem do poema não é tanto sobre a venda da escrava ou a crise que obrigou sua venda, mas a diferença intransponível entre as classes sociais.

Quero dizer o seguinte: no inicio do poema existe o clima de interação entre Lucia e a família. Mas é uma situação artificial, ditada muito mais por uma necessidade economica-social que por relação de afeto e carinho.

Tanto é verdade é que eles a vendem; contudo, não se vende aquilo que se preza e considera, muito menos uma pessoa que julgamos semelhante - só se dispõe o que se considera "indesejável", "supérfluo", "disponível".


O derradeiro final para mim é quando, no epílogo, ao ver Lucia anos depois, ela foge, não se aproxima do eu lírico, correndo para a mata.

Ou seja, ela compreende que entre os dois não poderia haver sentimento verdadeiro porque aquela situação anterior que os aproximou - a instituição da escravidão -, mesmo que aparentasse gerar amizade e respeito, não poderia gerar uma amizade verdadeira pois ela não nasceu da reciprocidade entre senhor e criado.

Acho que isso que Castro Alvez quis dizer.

PermalinkPermalink 21.04.09 @ 22:17



Comentário de: Lucas

kkk, então vou ter que reler o poema.

PermalinkPermalink 21.04.09 @ 22:33



Comentário de: Lucas

Nesse caso, eu acho que o poema (Então bastante óbvio) é de uma menina escrava que convivia com o menino rico de forma bastante harmônica, e que depois foi vendida... O que deixa claro que a relação mais "humana" com os patrões não era real, o que muito dificilmente seria... Pois de qualquer forma foi vendida.

Muitos anos depois, então, ela encontra o antigo "quase mais que amigo" e num primeiro momento se empolga um pouco... Porém logo se envergonha, pq sabe que ele não fazia parte da sua realidade e na verdade nunca havia feito... Sendo que numa época ela acreditava que fazia.

PermalinkPermalink 21.04.09 @ 22:51



Comentário de: Guilherme · http://orinocerontevoador.wordpress.com/

Lucas, eu acho que o poema é justamente uma crítica de como as instituições afetam a moldam o relacionamento.

PermalinkPermalink 21.04.09 @ 23:27



Comentário de: Filipe

Deixa eu ver se captei algo diferente agora:
Antes de precisar ser vendida, Lúcia não tinha consciência de sua condição, de sua posição, de seu lugar, na sociedade escravista.
A vergonha de Lúcia, que cobre o rosto com as mãos, advém da falta de dignidade, a vergonha eterna, pois é um fardo que ela carregará para o resto da vida, algo intrínseco a ela. Lúcia tem vergonha de sua condição e sabe que nada pode fazer para mudar isso.

PermalinkPermalink 22.04.09 @ 00:04



Comentário de: Kitagawa

Bom, talvez induzido pelo tema recorrente nesse blog, ela era escrava e foi vendida.
No momento que se reencontram aparentemente ela está sozinha e abandonada, meio que vivendo no mato feito um bicho. Poderia ser um momento pós abolição, mas a data não bate. Talvez tenha sido liberta numa dessas fases anteriores à abolição total ou fosse uma escrava fugidia. O sangue que lhe cora a cara pálida simboliza o momento em que ele (e também ela) percebem que a Lúcia era negra e o narrador branco. Acho que quando eles se conheciam quando criança nem ele e nem ela tinham se dado conta disso, de que eram diferentes em termos raciais e consequentemente socias. Acho que existia uma pureza no sentimento entre ambos, além da questão de raças e etc.
Quando eu era criança, minhas tias (japonesas) tinham uma amiga negra com a qual convivi bastante. Mas só depois de muito tempo, quando ela já tinha se afastado desse convivio, é que, puxando pela lembrança, me dei conta de que ela era negra. Até então, ela era só mais uma naquele mundo dos adultos.

PermalinkPermalink 22.04.09 @ 00:13



Comentário de: Kitagawa

Se a data batesse, diria poderia ser de alguma forma uma critica à abolição em si ou à maneira como ela se deu, mostrando que as condições para os negros pioraram depois da abolição pois totalmente abandonados. Sei lá...
Acho muito chatoum saco esse tipo de narrativa.

PermalinkPermalink 22.04.09 @ 00:28



Comentário de: Bruno · http://www.doteasy.com.br

vamos reler!

PermalinkPermalink 22.04.09 @ 01:43



Comentário de: Bruno · http://www.doteasy.com.br

Que narrativa...

PermalinkPermalink 22.04.09 @ 01:44



Comentário de: Te

Uma amizade entre duas crianças que as diferenças sociais (no caso senhor/escrava) pôs fim. Me lembra essa música:

Morro Velho
(Milton Nascimento)

No sertão da minha terra,
fazenda é o camarada que ao chão sedeu
Fez a obrigação com força,
parece até que tudo aquilo ali é seu

Só poder sentar no morro
e ver tudo verdinho,
lindo a crescer

Orgulhoso camarada,
de viola em vez de enxada

Filho do branco e do preto,
correndo pela estrada atrás depassarinho
Pela plantação adentro,
crescendo os dois meninos,
sempre pequeninos

Peixe bom dá no riacho
de água tão limpinha, dá pro fundo ver
Orgulhoso camarada,
conta histórias prá moçada

Filho do senhor vai embora,
tempo de estudos na cidade grande
Parte, tem os olhos tristes,
deixando o companheiro
na estação distante

Não me esqueça, amigo, eu vou voltar,
some longe o trenzinho ao deus-dará

Quando volta já é outro,
trouxe até sinhá mocinha
para apresentar

Linda como a luz da lua
que em lugar nenhum
rebrilha como lá

Já tem nome de doutor,
e agora na fazenda é quem vai mandar.
E seu velho camarada,
já não brinca mais,
trabalha.

PermalinkPermalink 22.04.09 @ 13:48



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