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Cada vez que Liloló chega do trabalho e descalça a melissinha que usou o dia inteiro, eu penso no absurdo que é a nossa sociedade ter praticamente criminalizado as manifestações mais naturais do corpo humano.
Aprendemos desde cedo que temos que fazer a barba, depilar o sovaco, tirar o cabelo que cresce da orelha, fazer a virilha, moldar a sombrancelha. Lábios, unhas, olhos devem ser coloridos para ficarem mais bonitos. Pés devem ser cruelmente distorcidos para se moldarem a sapatos criminosos. Seios e pênis precisam ficar apertados e imobilizados para, deus me livre, não revelar suas presenças por debaixo da roupa.
E, pra piorar, os cheiros. Em um dos seus stand-ups, Seinfeld reclamava: por que todos os cheiros do corpo humano são ruins? (E eu realmente ri muito quando ele falou um absurdo desses!)
Can someone please tell me what is the deal with B.O.? Everything in nature has a function, a purpose, except B.O. It doesn’t make any sense. Do something good—hard work, exercise—smell very bad. That is the way the human being is designed. You move, you stink. Why don’t our bodies help us? Why can’t sweat smell good? Be a different world, wouldn’t it? Instead of putting your laundry in the hamper, you’d put it in a vase. Go down to the drugstore, pick up some odorant and perspirant. You’d have a dirt sweat sock hanging from the rearview mirror of your car. And then on a really special night, maybe a little underwear coming out of your breast pocket, just to show her that she’s important.
Alguém nos convenceu que fedemos... e acreditamos! Nossos pés, nossos sovacos, nossos pêlos pubianos, nossos hálitos, nossos corpos suados de modo geral: tudo fede! Mas não tem problema. Podemos ficar tranquilos: existem produtos no mercado para combater todos os nossos cheiros mais naturais. Nada que uns reais gastos na farmácia mais próxima não resolvam. (Por todas as nossas vidas, claro! Afinal, nunca paramos de feder!)
Uma pilha de estudos demonstra que nossos cheiros corporais, em especial o suor, estão repletos de feromônios. Nossos cheiros, longe de serem ruins ou nojentos, são EXATAMENTE a força invisível nos atraindo uns aos outros.
Mas o condicionamento cultural é tão forte que, hoje em dia, o efeito só funciona se sutil. Se sentirmos *conscientemente* o cheiro do suor do outro, nossa cabeça socializada entra em conflito com todos nossos instintos mais básicos, e já brochamos - pois aprendemos que aquele cheiro é ruim.
Anotem o truque, meninos e meninas: para máxima atração sexual no mundo de hoje, o cheiro do seu suor deve ser tão leve que, apesar de estar lá, não seja sentido conscientemente.
E ainda tem gente que toma banho *antes* do sexo!
* * *
Diálogo no Twitter:
Alex: desodorante vaginal e feminismo: quem foi q te convenceu q seu cheiro natural é ruim?
Amiga: As bactérias convenceram a maioria dos meus amigos, segundo relatos rsrs. As vezes o cheiro é naturalmente ruim.
Alex: ñ existe nd "naturalmente" ruim. nossa reação é culturalmente construída. (exceto na auto-preservação d fugir de cobra, p.ex)
Amiga: hahaha, isso porque você ainda não pegou uma mina zuada, Alex! A reação ao mau cheiro tb é pura auto-preservação!
Alex: nojo p/1 ovo podre q ñ tá apto p/consumo e pode fazer mal é instinto d auto-preservação. ñ dá p/comparar c/cecê d namorada
Amiga: Quer dizer que frente a um ovo podre a minha reação é "culturalmente construída"? Pelamor...
Alex: tô falando d cheiros corporais, d fobia de bafo, cecê, chulé, suor, d ânsia depilatória, d todas essas necessidades construídas..
Amiga: Vc não disse que o cheiro se resumia à xana da namorada. Mas como eu disse: pq vc nunca pegou uma fedida - nuff'said. De qq forma, não acho que devamos generalizar todas como construidas. Algumas realmente incomodam, ora essa.
Alex: hahahha! ñ to dizendo q ñ incomodam, ué. serem construidas ñ quer dizer q ñ são reais ou q ñ incomodam d verdade!
Amiga: tsc, ok Alex. Whatever. Não gosto de ficar peluda e fedida. Nem se meu homem pedir. Sendo culturalmente construido ou não
Alex: e essa sua atitude e esse seu gosto ñ têm nd d+ e são perfeitamente válidos e talz. ñ entendi qual foi seu problema
só falei q esse nojo p/corpo é cultural/socialmente construído, ñ q ñ é real, ou q ñ é válido, ou q vc ñ pode ter.
Amiga: Problema? "Quem foi que te convenceu que cheiro natural é ruim" - partindo disso, pareceu que todo cheiro natural é bom
Alex: mas o fato d alguém ter t convencido q são ruins (foi decisão d marketing c/case study e tudo) ñ quer dizer q são necess bons!
* * *
Não vamos misturar duas coisas bem diferentes.
A evolução funciona assim: digamos que, no passado, existiam dois grupos de homens primitivos. Um grupo adorava o cheiro e o gosto da própria merda, comia cocô, cagava no meio da caverna. O outro grupo tinha nojinho. O que aconteceu? Os membros do primeiro grupo morreram desproporcionalmente em decorrência de trocentas doenças infecciosas até praticamente desaparecerem.
Evolutivamente falando, somos todos descendentes dos seres humanos que tinham nojo de comer merda - porque os que adoravam comer merda, se existiram, deixaram menos prole.
(Assim como somos todos os descendentes de pinguços. Até bem pouco tempo atrás, pessoas que só bebiam água tinha uma chance desproporcional de morrer de desinteria, cólera, etc, antes de procriarem. Já os cachaceiros que só bebiam alcool desde crianças tendiam a viver mais e deixar mais descendência - mesmo se morressem de cirrose aos trinta anos.)
Ou seja, um certo nojo aos nossos próprios excrementos é instintivo, natural e facilmente explicável pela teoria da evolução.
Já o nojo por nossos odores corporais é exatamente o oposto: do ponto de vista da evolução, ele não faz sentido algum. Não há nenhuma razão lógica (leia-se biológica) para termos uma reação instintiva de nojo ao cheiro do cecê, do chulé, do suor dos outros seres humanos. Não há vantagem evolutiva alguma nesse nojo - como há vantagem no nojo por cocô, por exemplo.
Muito pelo contrário, dezenas de estudos provam que esses cheiros são muito atraentes e excitantes - mesmo descontando nosso nojo consciente por eles.
Nosso nojo pelos cheiros corporais humanos é social e culturalmente contruído, e a maior prova disso é o fato de que, mesmo assim, o suor humano ainda é comprovadamente o cheiro mais excitante que existe.

Um dos melhores livros que já li na vida. Não é chato, difícil, seco, ultrapassado. Pelo contrário, ainda é absurdamente gostoso de ler, bem escrito, bem desenvolvido, divertido, lindo.
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Querem apostar como ainda assim vai aparecer um bando de comentador defensivo achando que os acusei de serem peões do sistema?
"Socialmente construído é o caralho! Tá pensando que eu sou bobo? Não gosto de cecê porque cheiro de cecê é ruim mesmo!"
Quer apostar também que vai ter gente falando de higiene? Como se o cheiro do corpo humano fosse naturalmente sujo?
Uma coisa é limpar o corpo todos os dias. Outra é passar talco e desodorante nos pés, nas vaginas, nas axilas, para impedir a transpiração natural.
Um sovaco, protegidinho, dentro da camisa, que suou ao longo do dia, não está necessariamente sujo: só está suado.
* * *
Talvez seja distorção de historiador oitocentista, mas lá na minha época não tinha essas coisas, não. As pessoas usavam sabão feito em casa e, os mais ricos, perfume francês. E olhe lá.
Foi só a partir de finais do século XIX e ao longo do XX que começou a surgir toda uma indústria para nos convencer que tínhamos que tomar banho, escovar os dentes e passar desodorante todos os dias. Senão, ó meu deus que medo!, nos tornaríamos párias sociais!
Comparando as duas épocas, eu, cidadão do século XXI por acidente e oitocentista por temperamento, diria que só mesmo a campanha por maior higiene bucal de fato melhorou nossas vidas. Todo o resto foi a estratégia de marketing mais velha do mundo: criar uma necessidade onde ela não existia e, então, supri-la.
Para o homem típico de 1845 não faria sentido gastar dinheiro em um produto para eliminar seu mau-cheiro debaixo das axilas - porque ele nem sabia que suas axilas fediam, coitado!
Como eram ignorantes! Nós hoje é que somos espertos!
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Vale a pena lembrar: estudos sugerem que o excesso de higiene é o grande responsável pelo aumento brutal no número de pessoas alérgicas nos últimos trinta anos.
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Ontem, no excelente blog da Marjorie, um texto sobre essa indústria perversa que vive de nos convencer que nossos corpos são defeituosos e fedorentos.
Só discordo em uma coisa: a Marjorie, feminista até a medula, acha que isso é uma maldade que a sociedade patriarcal faz com as pobres mulheres. E, sim, eu concordo: a mulher sofre mais pressão, pois é o lado mais fraco e a gente sabe onde a corda sempre arrebenta, não é?, mas eu vou mais além.
O processo de criminalização do corpo *humano* afeta os dois sexos.
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Mas, realmente, as mulheres sofrem bem mais coitadas. O que pode ser mais triste do que ver algo tão lindo quanto um pé feminino sendo torcido e deformado por um sapato de salto alto?
O pior mesmo, entretanto, o cúmulo da criminalização do corpo, o engodo mais ridículo de todos... é o desodorante vaginal! Pode algum produto ser mais ofensivo, criminoso, canalha do que aquele que diz que todas as bucetas naturalmente fedem?
Um excelente artigo sobre o assunto:
Having a Female Body Doesn't Make You Feminine: Feminine Hygiene Advertising and 1970s Television
E um vídeo irresistível. Repara como os dois são jovens, lindos e felizes. Repara como ela fica realizada de ter um macho por quem desinfetar sua periquita. Repara a felicidade dele de saber que vai comer uma bucetinha cheirando a remédio.
Agora, fiquei pensando cá com meus botões: quantas brochadas não teriam sido evitadas se as bucetas ainda tivessem cheiro de buceta? Quantas mulheres não teriam menos dores-de-cabeça se seus homens ainda tivessem cheiro de homem?
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Já estive envolvido ao mesmo tempo com duas mulheres, uma que gostava de mim de cabelo grande, descabelado e a barba por fazer, e outra que gostava de cabelo curto, penteado e barba feita. Vocês não vão acreditar nos malabarismos logísticos que eu tinha que fazer.
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A pior coisa do mundo: a menina vai sair comigo pela primeira vez, faz seu dever de casa, descobre que sou podólatra e se prepara toda pra me agradar. Resultado: eu termino a noite frustrado, com gosto de acetona e tênis pé baruel na língua. Argh.
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Hoje, mais do que nunca, parafraseando o poeta, o texto ficou grande porque não tive tempo de escrever um pequeno.
Leiam também meu outro artigo: Em Defesa dos Sentidos
E talvez meu livro favorito sobre todo esse assunto: A História Natural dos Sentidos, por Diane Ackerman
Aviso: a partir de agora, quando quiser recomendar um livro fora de catálogo, vou dar o link pro Estante Virtual. Não tenho contato com o site e não ganho nada com isso, mas eles merecem.
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