Devem os Brasileiros Expatriados Ter Representação no Congresso?

O Senador Cristovam Buarque, o homem em quem eu teria votado para presidente em 2006 (se estivesse no Brasil), está com um novo projeto de lei sendo debatido no Congresso.

Ele agora propõe que os brasileiros residentes no exterior sejam representados por quatro novos deputados, de acordo com a seguinte distribuição geográfica: EUA, Europa, Japão, resto do mundo.

Revolução nas Prioridades Modernidade com Ética

* * *

Minha admiração por Cristovam só faz subir. Penso no assunto faz tempo e já inclusive pesquisei como funciona em outros países. Minha opinião:

1) Os brasileiros no exterior são mais numerosos do que a população de seis estados brasileiros e do Distrito Federal;

2) Apesar de muitos não pagarem impostos no Brasil, enviam uma fortuna em divisas ao país (justificando assim os gastos com os novos deputados);

3) A grande maioria deles é de origem humilde, emigrou por total falta de oportunidades no Brasil, não fala perfeitamente a língua do país-hospedeiro, está em situação ilegal e extremamente vulnerável, e precisa mais do que nunca de alguém que lhe defenda os direitos.

Esse último ponto é particularmente importante. Não estou falando por mim, ou pelo Idelber, Paulo, Nemo, Ana, ou por outros tantos brasileiros de alta escolaridade que moram aqui: apesar de às vezes me sentir sub-representado, a gente sabe se virar. Eu continuo escrevendo para o Gabeira como sempre escrevi, desde a época em que morava no Rio e de fato votava nele.

Estou falando em nome das pessoas de baixa escolaridade que estão, ao mesmo tempo, em situação vulnerável E sub-representadas - uma combinação potencialmente fatal.

Vou dar só um exemplo: os brasileiros apátridas.

* * *

Por uma distração na redação de uma emenda constitucional em 1994, cerca de 200 mil filhos de brasileiros nascidos no exterior tornaram-se apátridas, sem direito nem à cidadania brasileira, nem à do país de nascimento. No mundo nacionalizado de hoje, verdadeiros párias.

O erro não foi visto porque, francamente, nenhum dos deputados envolvidos estava preocupado com a situação dos brasileiros no exterior. Mesmo depois que o erro tornou-se público e os três milhões de brasileiros expatriados começaram a se organizar e reclamar, e essas 200 mil crianças começaram a enfrentar todas as dificuldades burocráticas muito reais de não ter uma pátria, o Congresso Nacional ainda assim demorou treze anos (treze anos!) para consertar o erro, causando mais de uma década de angústia para as famílias envolvidas.

Se houvesse representantes especialmente dedicados a defender os brasileiros expatriados, erros como esse provavelmente não teriam acontecido. E não apenas esse: são inúmeros os obstáculos que o brasileiro expatriado enfrenta diante da lei brasileira, pelo simples fato dela nunca levá-lo em consideração, prever sua existência, antecipar seus problemas.

O site da campanha Brasileirinhos Apátridas reúne todas as informações sobre esse triste episódio.
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Obras completas de Freud, de R$960, por R$299/R$399 (sinceramente? o preço dessa joça tem mudado duas vezes por dia, mas está sempre muito barato)

* * *

Alguns links:

Do blog Brazil com Z, do jornal O Globo, que vêm fazendo uma excelente cobertura do assunto:

- Emigrantes querem ter representantes no Congresso

- Senado aprova criação de deputados para emigrantes

- Novos deputados: opinião pública massacra emigrantes

Do governo federal:

- Dados do governo sobre o número de brasileiros no exterior.

Exemplos de outros países:

França:

- Site dos 12 senadores franceses que representam os cidadãos expatriados. - em francês.

- Entrevista com Robert del Picchia, um dos 12 senadores acima, onde ele explica a uma repórter britânica como funciona esse negócio de representar os franceses que não moram na França. - vídeo, em inglês. (muito bom!)

Itália:

Fábio Porta mora em São Paulo e foi eleito, por 17 mil votos, como o representante da América Merional no Parlamento Italiano. Ele agora divide seu tempo entre São Paulo e Buenos Aires (duas cidades fortemente italianas) e Roma. O lema de seu site é "si può fare" - hmmm, onde será que já ouvi isso antes?

- Site oficial do Deputado Fábio Porta - em português.

- Video de sua campanha para as eleições italianas - em italiano, com legendas em português.

- Como funciona o voto dos expatriados - página interessante no site do Deputado Porta, em português.

* * *

E você, leitor/eleitor? O que VOCÊ acha?

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14.04.09


Categorias: Economia, Política


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Comentários:


Comentário de: Dr Plausível · http://drplausivel.blogspot.com

Nem importa muito se a proposta é boa ou ruim, ou correta ou errônea; importa é se ela vai ser aprovada ou não. Minha previsão é q vai. Deputado, senador e ministro é tudo gente já com filhos e parentes no exterior, ou q pretende ter filhos e parentes no exterior, senão ele mesmo se mandar pra lá, q quem fica parado é poste.

Eles não tão pensando nos tadinhos desescolados. O próprio Buarque propõe a idéia porque já tem até netos no exterior, não se engane.

PermalinkPermalink 13.04.09 @ 22:22



Comentário de: marcus · http://grandeabobora.com/

ADORO gente que vê conspiração em tudo =)

Eu sou a favor, até por estar nesta situação atualmente. Me sentiria mais amparado tendo algum tipo de representação no legislativo que, de alguma maneira, olhasse um pouco para fora do país.

PermalinkPermalink 13.04.09 @ 22:33



Comentário de: Dr Plausível · http://drplausivel.blogspot.com

Então não me adore, pq não vejo conspiração alguma. Só vejo o q é aquilo lá em Brasília. Vc sabe o bicho q é pelo rastro q deixa.

A situação da França (cujas idéias brasileiro imita endemicamente), por exemplo, com seu ensino gratuito universal, suas ex-colônias e empresas multinacionais é totalmente diferente da do Brasil, q não tem ensino gratuito universal, FOI colônia e é *receptáculo* de multinacionais. Ou seja, não é de interesse nenhum pro Brasil q o expatriado seja "amparado" se não paga impostos aqui, pois além do mais ele *já está* no estrangeiro pra se beneficiar de sua desbrasilização.

They want to eat their cake and have it, if you ask me.

PermalinkPermalink 13.04.09 @ 22:58



Comentário de: samuca

Acho que não! ora porque! pelo simples fato de tendo abandonado o país, demonstra o desinteresse que tem pelos problemas dele.

PermalinkPermalink 14.04.09 @ 01:09



Comentário de: samuca

Acho que não! ora porque! pelo simples fato de tendo abandonado o país, demonstra o desinteresse que tem pelos problemas dele.

PermalinkPermalink 14.04.09 @ 01:12



Comentário de: Alex Castro Email

samuca, define pra mim "abandonar"? tipo, qual é a diferença entre "sair", "abandonar", "fugir", essas coisas...? pq não entendi bem o comentário... se todo brasileiro que saiu do país é pq *abandonou* o país, vc tb acha, sei lá, que um sujeito que sai pra trabalhar de manha *abandonou* sua casa? o q é q define esse abandono na sua cabeça? explica aí, fiquei curioso...

PermalinkPermalink 14.04.09 @ 04:15



Comentário de: Diogo Slov

Eu estudo no exterior porque tenho bolsa de estudos. Simples assim.

Se a minha universidade no Brasil me desse salário, mesa numa sala com ar condicionado, biblioteca boa e mensalidade grátis, por que raios eu viria morar no Japão?

Minha namorada, além dessas coisas todas, ainda ganha verba pra comprar livro e verba pra participar de congresso.

"Abandonar o país" é forçar um pouco -- pra não falar nada de pré-julgamento de pessoas que o cidadão nem conhece.

Pra esse mesmo cara, que parece não saber do que está falando, eu digo: planejo voltar pro Brasil algum dia, com a educação que eu vim garimpar no exterior, e compartilhá-la -- não por patriotismo, simplesmente por gostar da "minha casa".

Esse tempo todo mantive conta no Banco do Brasil -- e lá se vão dois anos pagando R$ 9 mensais de "taxa de manutenção".

Voltei duas vezes pro Brasil em 2008. Não poderei fazê-lo em 2009 e já estou com o coração na mão. E ainda vem gente falar em "abandonar o país"? Tenha santa paciência.

--

Sobre o post em si, concordo plenamente com a idéia.

Eu moro a 170km do consulado brasileiro mais próximo e o voto continua obrigatório. Ao menos agora a burocracia apresenta algum retorno pra quem só vê o lado da obrigação.

Mas quero só ver os tipinhos que vão se apresentar a candidato...

PermalinkPermalink 14.04.09 @ 05:34



Comentário de: Anna C. · http://mistral-gagnant.blogspot.com

Totalmente a favor. Até porque a gente é obrigado a votar mesmo morando fora (o consulado brasileiro na Grã-Bretanha fica a duas horas de trem de onde eu moro, o que dá um certo trampo), então algum retorno é esperado dos caras, não?

Obviamente, eu tenho medo de quem vá se apresentar para concorrer o cargo, mas isso faz parte...

E, quanto a "abandonar" o Brasil...isso daria um outro post. A maioria dos expatriados que eu conheço sonha em um dia voltar para a terra natal, por "n" motivos. Quem quer mesmo largar de tudo não vai se interessar pelo projeto, logo, nada se perde.

PermalinkPermalink 14.04.09 @ 08:03



Comentário de: Te

Boa idéia pra apoiar os brasileiros no exterior, de problemas mais simples até situações como a do Jean Charles. O problema é fazer funcionar. Ter mais deputados só pra receber salário e benesses sem fazer nada não dá. E o Brasil é cheio de boas idéias que fracassaram, vide os CIEPs criados pelo seu companheiro de partido Darcy Ribeiro.

Acho a divisão resto do mundo muito genérica, ainda mais com o crescimento da China e da Índia.

Pra quem diz que os emigrantes "abandonaram" o país: manifestações como o Brazilian Day, com todo o seu exagero, não é coisa de quem "abandonou" o seu país.

PermalinkPermalink 14.04.09 @ 13:31



Comentário de: valter

e as embaixadas ano podem resolver os problemas dos brasileiros????

PermalinkPermalink 14.04.09 @ 15:46



Comentário de: Ed · http://professored.wordpress.com

Bom, eu vou um pouco contra a corrente.
É difícil para os que moram no país acompanharem e "fiscalizarem" os atos de seus "representantes", que dirá os que estão fora.
Acho justíssima a reivindicação de que devam ser representados, mas, sinceramente, torço o nariz para qualquer ato que aumente o número de congressistas, pois sou radicalmente a favor do extremo oposto: a diminuição do número de parlamentares.
Muito embora veja com bons olhos a requisição.
Abs.

PermalinkPermalink 14.04.09 @ 16:13



Comentário de: alex castro

valter,

seguindo esse argumento, nao eh necessario ter deputados pra representar os cearenses tb, pq eles podem resolver seus problemas nas delegacias e tribunais de fortaleza....

PermalinkPermalink 14.04.09 @ 16:16



Comentário de: Michel

O Brasil precisa mesmo de mais cargos públicos?
Esse pessoal já não vota normalmente se quiser?
Mais mordomia para filhinho de papai?(maioria do pessoal aí fora, sem dúvida alguma, vide o blogueiro).

PermalinkPermalink 14.04.09 @ 21:50



Comentário de: Michel

Pensando bem, escrevi bobagem.
Peço desculpas.

PermalinkPermalink 14.04.09 @ 21:53



Comentário de: Kitagawa

"sou radicalmente a favor do extremo oposto: a diminuição do número de parlamentares."

Quanto menos melhor? O ideal seria nenhum? O problema na verdade é a baixa qualidade dos deputados, tão baixa que faz a gente querer que sejam na menor quantidade possível. Eles estão lá para representar o povo mas mais parece que são um bando de vagabundos aproveitadores que se deram bem na vida. Mas convenhamos, o problema não é a quantidade de deputados, é a quantidade de deputados ruins.

PermalinkPermalink 15.04.09 @ 00:10



Comentário de: André

Os brasileiros que moram no exterior podiam pagar todos os impostos aqui também...
Putz, já acho ridículo ter votação fora do país pra presidente. Saiu, boa sorte, vai lá, na fé. Queria mais estudos pra provar que a maioria dos brasileiros fora do país são "coitadinhos sem oportunidade no país", porque pra mim se alguém precisa de mais políticos trabalhando são os mais pobres, e temos muita pobreza neste país...

Aliás, pelo que to entendendo, estado nação não precisa mais do território?

PermalinkPermalink 15.04.09 @ 09:56



Comentário de: Diogo Slov

André, tem um monte de brasileiro batalhador que manda dinheiro pra ajudar as respectivas famílias no Brasil.

E mesmo se não mandasse dinheiro, então quer dizer que um cidadão brasileiro no exterior não tem mais direitos? Só tem direito quem paga imposto? Quem paga mais impostos tem mais direitos?

O Silvio Santos, então, deveria ter uns 100.000 votos. Ele paga mais impostos que você, não é?

E sobre a questão do território, pergunte isso a um israelense ou a um palestino.

PermalinkPermalink 15.04.09 @ 23:13



Comentário de: Ed · http://professored.wordpress.com

"Quanto menos melhor? O ideal seria nenhum? O problema na verdade é a baixa qualidade dos deputados..."

Não André. O ideal não seria nenhum. Mas eu sempre tive uma dúvida: O que fazem aqueles 500 e tantos deputados não poderia ser feito, por digamos, 250?? Ou quem sabe 200?? Ou mesmo 150?

Te digo uma coisa, além do processo de "fiscalização" por parte do eleitorado ser mais fácil (por motivos óbvios), teríamos menos pessoas de quem cobrar resultados, trabalhos, enfim. E mais: não existiriam os anacronismos, como bancadas minúsculas, ou coisas absurdas, como o tal do "baixo clero".

Quanto à representatividade, sou da polêmica idéia de que os que estão lá são mais ou menos o reflexo de nossa população mesmo. A grande maioria da população talvez não fizesse muito diferente (generalizações, são foda, mas em se tratando de um cargo com tantas benesses, vá lá, tenho medo de que até eu caísse na esparrela da vida fácil).

Fato é que com menos cargos em jogo, talvez fôssemos forçados a, quem sabe, votar melhor. Entende?
Esse é o meu ponto de vista.
Abs.

PermalinkPermalink 16.04.09 @ 19:22



Comentário de: Manuel Carreiro

Conheci o Senador Cristóvam pessoalmente ano passado, durante a minha relativamente curta estadia de 6 meses nos EUA. Assim como você, a minha admiração por ele só aumentou. Ele falou sobre este projeto numa palestra sobre Keynesianismo social. Obviamente, gerou discussão. Surpreendentemente, houve quem se posicionou contra e se manifestou durante as perguntas. Digo surpreendentemente, porque pra mim ainda é muitíssimo claro que esta parcela da população não só merece, mas necessita de representação. Olha, morar nos EUA por 6 meses foi uma das experiências mais engrandecedoras da minha vida. Também morei no Brasil por muitos anos, mas foi só nos EUA que pude conhecer a fundo uma realidade que no Brasil eu só via à distância, com o olhar do professor direcionado para 70 alunos pobres numa sala quente e barulhenta. Foi só nos EUA, conhecendo gente pegando o trabalho pesado - limpando mesas, cozinhando numa cozinha minúscula e quente numa jornada de 12 horas seguidas sem intervalos, que pude conhecer essa realidade - a realidade de gente que sai do Brasil em busca do sonho de ter segurança financeira. Eles vivem num mundo à parte - não falam nada de inglês, só saem entre si, basicamente "só" trabalham e enviam dinheiro para ajudar os seus no Brasil. É uma vida solitária, eles não têm voz. Ter representantes talvez até fosse um primeiro passo para iniciar projetos de regularização da situação deles no exterior. Bola dentríssima do Senador, mais uma vez, na minha opinião.

PermalinkPermalink 31.08.10 @ 15:30



Comentário de: Manuel Carreiro

Conheci o Senador Cristóvam pessoalmente ano passado, durante a minha relativamente curta estadia de 6 meses nos EUA. Assim como você, a minha admiração por ele só aumentou. Ele falou sobre este projeto numa palestra sobre Keynesianismo social. Obviamente, gerou discussão. Surpreendentemente, houve quem se posicionou contra e se manifestou durante as perguntas. Digo surpreendentemente, porque pra mim ainda é muitíssimo claro que esta parcela da população não só merece, mas necessita de representação. Olha, morar nos EUA por 6 meses foi uma das experiências mais engrandecedoras da minha vida. Também morei no Brasil por muitos anos, mas foi só nos EUA que pude conhecer a fundo uma realidade que no Brasil eu só via à distância, com o olhar do professor direcionado para 70 alunos pobres numa sala quente e barulhenta. Foi só nos EUA, conhecendo gente pegando o trabalho pesado - limpando mesas, cozinhando numa cozinha minúscula e quente numa jornada de 12 horas seguidas sem intervalos, que pude conhecer essa realidade - a realidade de gente que sai do Brasil em busca do sonho de ter segurança financeira. Eles vivem num mundo à parte - não falam nada de inglês, só saem entre si, basicamente "só" trabalham e enviam dinheiro para ajudar os seus no Brasil. É uma vida solitária, eles não têm voz. Ter representantes talvez até fosse um primeiro passo para iniciar projetos de regularização da situação deles no exterior. Bola dentríssima do Senador, mais uma vez, na minha opinião.

PermalinkPermalink 31.08.10 @ 15:31



Comentário de: Manuel Carreiro

desculpa o replay - travou aqui, apertei "enviar" de novo... nunca aprendo...

PermalinkPermalink 31.08.10 @ 15:35



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