Sou muito descrente em relação às artes narrativas contemporâneas. 
Na literatura brasileira, a crítica canonizou um estilo urbano pseudo-marginal que pasticheia Rubem Fonseca há trinta anos, enquanto o grande público lê Paulo Coelho e livros sobre anjos e espíritos, queijos e cachorros. O cinema também oscila entre a bobagem e o mundo-cão, mas com alguma vida inteligente entre esses extremos: filmes como "Edifício Master" e "Quanto Vale ou É Por Quilo" ainda não são de empolgar, mas simbolizam uma esperança. No teatro, o besteirol, cheio de trocadilhos sexuais fáceis, é o contraponto das montagens bem-comportadas e respeitadoras de textos canônicos e das óperas e balés que já não têm vida e poder subversivo há cem anos e, exatamente por isso, são abraçados pela elite mais conservadora em busca de capital cultural. Enquanto isso, na Praça Rooselvelt e similares, montagens cada vez mais amadoras tentam ser cada vez mais chocantes (imaginem Bukowski adaptando "Baixio das Bestas" para o Satyros), mas sem o embasamento teórico e a leitura rigorosa de uma companhia como o Teatro Oficina. 
Cada vez mais irrelevantes, os artistas narrativos contemporâneos me parecem perdidos entre duas armadilhas: por um lado, uma adesão cega e automática aos estilos e gêneros consagrados, e, por outro, uma rebeldia ignorante que retrabalha contestações às vezes centenárias como se fossem inéditas. Não é à toa que me escondo no século XIX: o XXI me deprime.
Só existem dois artistas vivos contemporâneos que eu de fato admiro e respeito, que me parecem estar potencializando seus respectivos meios sem cair nas duas armadilhas acima: na literatura, Lobo Antunes, que não é brasileiro mas é primo, e que a cada livro me ensina novas possibilidades para a língua portuguesa que eu jamais teria imaginado. E, no teatro, Zé Celso Martinez Corrêa.
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Enquanto Zé Celso dava uma palestra sobre sua trajetória, eu chorava baixinho na platéia.
Pela primeira vez na vida, chorei de vergonha. Não vergonha pelo que não conquistei, porque a gente não controla o que conquista. Chorei de vergonha por tudo o que não fiz e poderia ter feito. Por todas as vezes em que priorizei o meu conforto e minha segurança pessoal em detrimento da literatura e da arte. Por cada vez que aceitei dar mais uma aulinha, pegar mais um frilazinho, fazer mais uma traduçãozinha, tudo pra poder ter mais um dinheirinho e poder dar mais uma consumidinha, e por cada capítulo do meu romance que não escrevi porque estava ocupado me vendendo. Por todos os meus amigos e leitores que acham que eu sou ó tão aberto e ó tão artista, ó tão verdadeiro e ó tão inconsequente, e não sabem, tolinhos, que perto de alguém como o Zé, eu me sinto o burguesinho da Barra da Tijuca que nasci pra ser e que lutei tanto pra des-ser, reprimido e bem comportado, careta e consciencioso, sempre preocupado com seu próprio futuro e com seu conforto pessoal, arre!
A simples presença de alguém como o Zé me diminui e me envergonha. Sua própria existência é a prova de que é possível ser como ele e, se você não é, é porque não quis, é porque em algum momento do caminho você pegou o caminho errado, virou à esquerda em direção ao MBA ou à direita em direção ao leasing do Audi.
Agora, de repente, aqui em frente ao computador, eu começo a rir, porque percebo que estou parafraseando os meus próprios leitores, plagiando o email semanal que eu recebo falando mais ou menos a mesma coisa em relação a mim, e que me fazem acreditar minimamente que meus esforços aqui nesse blog ainda valem a pena, que ainda posso fazer diferença na vida de alguém. E agora entendo também aquelas pessoas que, basta eu falar como eu vivo a minha vida, me atacam com cinco pedras na mão, como se eu tivesse falado de suas vidas, como se tivesse falado com elas, como se as tivesse criticado, como se minhas escolhas invalidassem as delas. Será que eu as diminuo assim como o Zé me diminui? Será que minha vida também lhes dá a sensação de terem feito tudo errado?
A diferença é que eu amo o Zé por isso. Perto dele, eu me sinto pequeno porque sou pequeno mesmo. Não sei qual é o tamanho dessas pessoas que me acham metido e arrogante (só podem ser menores ainda!), mas eu sei que não sou ninguém. E um artista como o Zé, que se entregou à sua arte com uma loucura dionisíaca, faz muito mais do que somente me encolher: ele também me levanta. Ele me mostra que é possível viver uma outra vida, que existem outras alternativas, que a arte pode mais.
Andando por Nova Orleans com Zé Celso, ele roubando mexilhões do meu prato e me apalpando sem vergonha alguma, mostrando a bunda em restaurantes e abordando estranhos na rua, subitamente me dei conta que eu, sempre tão cool e imperturbável, eu que nunca tive ídolos nem heróis, estava pela primeira vez na em presença de alguém que eu sinceramente, profundamente admirava.
E é assim que eu fico. Meio atordoado. Meio bobo. Minúsculo.
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Leia mais sobre as aventuras de Zé Celso Martinez Corrêa, fundador do Teatro Oficina, em Nova Orleans:
- Teatro Oficina em Nova Orleans
- Zé Celso Palestrando
- Zé Celso Bêbado Alugando um New Orleaniano Perdido na Rua às Quatro da Manhã
- Cinco Perdidos na Noite Suja de Nova Orleans
- Um Jantar com Zé Celso
- Zé Celso e o Efeito Encolhedor da Arte (esse é o melhor)
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Dois livros sobre Zé Celso e o Teatro Oficina. À esquerda, uma antologia de seus textos, depoimentos e entrevistas entre 1958 e 1974. À direita, um estudo sobre os primeiros dez anos do Teatro Oficina (1958-1968).
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Visite do site do Teatro Oficina, leia o blog, compre os DVDs.
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