Uma das críticas mais comuns feitas à Prisão Dinheiro foi a ausência da questão familiar. Disseram:
Oras, tudo é muito fácil se você não tem filhos!
E eu respondo:
É verdade, tudo na vida é muito mais fácil se você não tem filhos - o que, aliás, é o principal argumento para NÃO ter filhos.
Reparem que não estou criticando a decisão de ter filhos. Cada um faz o que quer da sua vida. Eu respeito sua decisão, leitor-patriarca. Mas se decidiu conscientemente ter filhos e formar família, é porque encampou o desafio. Então, não vem dizer que a minha vida é fácil, não vem reclamar dos seus dois empregos, não vem reclamar dos preços de aparelhos ortodônticos.
A escolha foi sua. Agora, aguenta.
Minha vida é fácil? Comparada à sua, claro que é. Minha vida é fácil porque eu decidi não complicá-la tendo filhos e formando família. Minha vida é fácil porque eu abdiquei das vantagens de ser pai para não ter que sofrer as desvantagens. Minha vida é fácil porque eu, apesar de adorar crianças, não tenho um filhinho fofo pra eu ensinar a gostar de Senhor dos Anéis, mas também não tenho dívidas e hipotecas, não pago escola particular nem curso de inglês.
Fizemos nossas escolhas, eu e você, e eu estou feliz com a minha. Se o seu filhinho não vem me abraçar e me chamar de papai, não venha você me reclamar das despesas de criá-lo. Uma coisa só existe em função da outra.
Senão, é como um amigo passar de carro pelo ponto de ônibus onde estou pegando chuva e esperando há quarenta minutos... e vir me dizer que minha vida é muito fácil porque não tenho que pagar metade do salário em leasing do Audi! Ele, dentro daquele ambiente seco, refrigerado e com música ambiente, pago por suas enormes dívidas, querendo que eu, molhado e de saco cheio no ponto de ônibus, mas de vida muito fácil, sinta peninha dele...
* * *
Historinha que recebi por email de um leitor sem filhos:
Eu e minha esposa percebemos a mesma coisa. Funciona assim:
1- Um casal com filhos descobre que nos fizemos uma coisa legal. Tipo: viagem para uma praia em algum lugar exotico.
2- O casal com filhos espera dois minutos e pergunta: "quando vcs terao filhos, hem?"
* * *
Já escrevi bastante sobre os motivos da minha decisão de não ter filhos e sobre os filhos dos outros (esse último, já com 400 comentários). No contexto da Prisão Dinheiro, cabe acrescentar o seguinte:
Economicamente falando, a decisão de ter filhos é igual a de financiar uma casa.
Você decide incorrer em um passivo que vai sangrar suas finanças por muitos e muitos anos, em troca dos benefícios que aquele passivo lhe proporcionará (as alegrias de ter um filho, o conforto de morar em casa própria) e torcendo para que, eventualmente, o passivo se torne um ativo (o valor de revenda da casa depois de paga, a ajuda que seu filho pode lhe dar quando você fique velho e incapaz).
Uma amiga querida (que já quis casar comigo e depois desistiu, I wonder why!) ficou revoltada com essa comparação:
bicho, as vezes eu acho que vc é defeituoso de fabrica. só vc para chamar a familia que alguem constroi como um gasto fixo. tem coisas que nao se resumem a isso. eu nao to dizendo que o que vc esta dizendo nao é verdade. mas é irrelevante.
Mas a beleza da economia é justamente que todo tipo de comportamento humano pode ser reduzido e estudado nos seus aspectos econômicos. Ainda mais a decisão de ter filhos. Converse com qualquer casal de recém-casados, com ou sem filhos. Eles vão citar números, estatísticas e planilhas que eu não sei, nem quero saber.
Dizer que a decisão de ter filhos é uma decisão econômica não quer dizer esvaziar essa decisão de seus aspectos lindos, românticos, biológicos, espirituais, subjetivos, imponderáveis, blá blá blá. Mas, ainda assim, não deixa de ser uma decisão econômica.
Mesmo que não faça esse tipo de raciocínio conscientemente, o indivíduo ou o casal pesa os benefícios, tanto concretos (ter um apoio na velhice, etc) quanto subjetivos (a felicidade de ter um filho, etc), contra os custos, tanto concretos (as despesas, etc) quanto subjetivos (acordar no meio da noite pra trocar fralda, etc), e toma sua decisão.
Não estou inventando nada. É assim que se toma qualquer tipo de decisão. No nosso exemplo, tudo o que as pessoas falam como sendo a magia de procriar, o impulso biológico, a felicidade suprema de ser pai, etc, cai na categoria de benefícios subjetivos, mas não muda em nada a estrutura do argumento. Ainda assim, por mais que a pessoa deseje experimentar todos esses maravilhosos benefícios subjetivos, ela precisa ter renda suficiente para pagar as despesas concretas que vão resultar da sua decisão.
Explicou o Leo Monastério, blogueiro e economista:
Os alunos ficam chocados quando eu digo que filhos sao "bens inferiores"(ou seja, bens que quando a renda aumenta, a demanda cai; tal como carne de segunda). Para alguns é dificil ver que isso nao é a minha opiniao. Eh só uma relacao empirica consagrada.
Mas sempre me aparece um leitor de dedo em riste, brandando:
Você não entende, Alex! Ter filho não é uma decisão assim consciente, fria, calculista! É o objetivo do homem da terra! É a nossa obrigação perante deus! É nosso destino biológico! É a maior felicidade da vida! (complete com o seu argumento pró-procriação preferido) (etc)
E eu respondo:
Amigo, não diz isso pra mim, diz pro seu gerente de banco.
Não importa o quanto você quer uma coisa ou o quanto ela é importante. O que importa é: pode pagar por ela? Está disposto a arcar com as consequências e fazer os sacrifícios necessários?
* * *
Opinou uma amiga:
Mas o texto dá a entender que você quer muito ter filhos!
E eu respondi:
Ué, se não tivesse custo nenhum, seria ótimo. Eu também queria muito ter um helicóptero, o foda é ter que pagar! Se fosse possível desligar filho e guardá-lo na gaveta, eu já teria tido uns oito.
Prisão Dinheiro:
I - Viver É Mais Barato do que Você Pensa
II - A Armadilha Consumista
III - Os Dilemas da Classe Média
IV - Caindo na Armadilha do Aumento do Padrão de Vida
V - Viver Fazendo Tanta Economia Já Não É uma Prisão?
VI - Não Existe Liberdade sem Independência Financeira
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