A última discussão, rolando aqui e aqui, é interessante pois une dois grandes temas desse blog. Um comentário da Cinthia resumiu bem:
O que eu entendi da resposta do Lucas (o que talvez nem ele mesmo tenha entendido) é que você pôde escolher trabalhar menos, ganhar mesmo e ainda assim se sustentar. Se você trabalhasse mais, teria um padrão de vida melhor, mas você não fez essa opção para poder ler As Bacantes, num gramado, pegando sol, às quatro da tarde. A questão é que muitas pessoas não podem fazer o mesmo porque simplesmente não se sustentariam ganhando menos do que já ganham. O que boa parte dos empregos no Brasil paga para um trabalho de 8 horas diárias já é o mínimo que uma pessoa precisa para sobreviver. Trabalhando menos e ganhando menos, ela não sobrevive. Nesse sentido, não é uma questão de escolha. É claro que isso não desmerece em nada a sua escolha, Alex. Mas é a SUA escolha. Outras pessoas não a fazem porque não querem. Outras porque não podem. E acho que era isso que estava implícito no comentário do Lucas. Ou não?
Muitos amigos olham meu estilo de vida como se ele fosse mágico, impossível ou inalcançável. Como se eu fosse tão mais feliz que eles, coitados, que têm que trabalhar 15h por dia em empregos chatérrimos pra pagar suas dívidas e se sustentar, blá blá blá.
Realmente, quem nasce mulher, preta, pobre e favelada tem muito poucas escolhas na vida - o que prova, aliás, que o Brasil NÃO é uma enorme e justa meritocracia.
(Essa é a mensagem de todos os posts sobre racismo e empregadas domésticas: tentar convencer meus leitores classe-média de que muitos brasileiros não tiveram os mesmos privilégios que eles têm - e aí me acusam de ser um esquerdinha!)
Mas, para quem teve a sorte de nascer acima de um certo nível socioeconômico e cultural (no Brasil, leia-se "classe média"), a vida tem mais escolhas do que imaginam. A prisão onde vivem é antes de tudo mental: não vêem que existem outros caminhos que não sejam a velha armadilha "mais trabalho e mais consumo".
(Essa é a mensagem de todos os posts sobre liberdade individual e dinheiro: tentar convencer meus leitores classe-média de que eles têm mais liberdade de ação individual do que imaginam - e aí me acusam de ser liberal e direitista!)
Se você está lendo e comentando em um blog, ao invés de pegando três conduções pra ir lavar o chão de alguém, então provavelmente também tem a opção de trabalhar um pouco menos, ganhar um pouco menos, e ter mais tempo livre, aproveitar um pouco mais a vida. Se não faz isso, é porque escolheu assim.
Eu respeito sua opção. O mundo precisa de gente que sacrifique sua vida em holocausto no altar da produtividade e do salário. Só não venha choramingar no meu ouvido como se não tivesse tido escolha alguma, como se tivesse sido obrigado à essa vida desesperadora, ó coitadinho de você!
Update
Escreveu o Leonardo Monastério, amigo, blogueiro, professor de Economia da UFABC:
Eu acho que o que vc diz estah batendo em um dos pontos que a pesquisa empirica sobre economia da felicidade diz: a partir de um certo nivel de renda, dinheiro não traz felicidade. O que traz felicidade sao amigos, bom ambiente de trabalho, tempo livre e pouco tempo de commuting. (Filhos, a proposito, nao trazem felicidade)). Ou seja sao nossas escolhas que determinam a nossa realizacao.
Ah, bens materias sao a pior forma de gastar dinheiro. Rapidinho vc esquece que a tua casa eh imensa e que seu carro eh potente.. Melhor gastar em experiencias: viagens, concertos, pular de bungee jumping e afins.
Enfim, viver nao eh para amadores.
* * *
Leia os textos que geraram o bafafá:
- Um Dia na Minha Vida
- Dinheiro, Trabalho e Tempo Livre
- Sua Vida É Sua Escolha
- Um Pouco Sobre Esse Blog
- Termos de Uso do LLL

Os dois livros básicos de Henry Miller. Essenciais. Lindos. Não sei o que teria sido de minha vida sem eles.
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