Amanda começou a ganhar bem depois de passar muito tempo pobrinha. Naturalmente, bateu a demanda reprimida. Precisava de um novo sofá pra sala, consertar o carro e refazer a fiação do banheiro - e agora podia pagar!
Até aí, tudo bem. O importante é não cair na armadilha do "aumento do padrão de vida".
Se ela antes passava o mês com mil reais, hoje continua podendo. Se está ganhando quatro, não precisa aumentar o padrão de consumo para quatro: pode continuar gastando mil e economizar três.
Ok, eu aconselhei, compre tudo o que tem que comprar, todas aquelas coisas urgentes e adiadas. Consertar o carro, comprar o sofá e refazer a fiação do banheiro não sai por mais de cinco, oito mil reais. Pois bem, são dois meses do novo salário para satisfazer suas demandas mais reprimidas. Você merece. Hmmm, realmente, dá até pra aumentar seus gastos mensais. Ao invés de viver com mil, pode tentar viver com mil e quinhentos, talvez com uma margem de erro até dois mil, mas parando por aí. Conseguir economizar metade do seu salário líquido é um excelente negócio.
Mas Amanda, depois de anos de pobreza, sente que tanta austeridade não é justa e resolve usar meus próprios termos contra mim:
"Pôxa, Alex, vou ter que continuar vivendo nessa *prisão*, nessa vida monástica, nessa pobreza absoluta sem poder consumir nada? Logo agora que *tenho* a renda pra comprar e sou livre pra consumir? Não posso ser livre? Tenho que continuar presa? Não é você que fala tanto em liberdade?!"
Essas palavras me gelam o sangue, porque é justamente assim que o sistema nos rouba a alma. E eu explico:
Se ganhar quatro mil reais por mês e consumir quatro mil reais por mês, você não vai ser livre. Pelo contrário, se tornará prisioneira do seu emprego, pois precisará dele pra manter esse novo padrão de consumo. Seu trabalho logo vai tomar conta de todos os aspectos de sua vida e te dominar completamente. Por mais que goste dele, em breve se tornará uma trabalhadora chata e medíocre: não terá nem mais coragem de tomar uma atitude diferente, ter uma nova idéia, criticar o chefe. Afinal, se for despedida, como continuaria morando nesse novo apartamento, dirigindo esse novo carro, comendo nesses restaurantes chiques? Se ganhar quatro mil reais por mês e consumir quatro mil reais por mês, você terá dado sua alma, de bandeja, ao mercado de trabalho e nunca mais a verá de novo.
Se continuar vivendo com os mesmos mil reais mensais que gastava antes, vai poder economizar três mil reais por mês. Sua vida vai continuar tão boa ou tão ruim quanto sempre foi (ao menos, você sabe que era sustentável) com um benefício: vai estar construindo um lastro. Ao final de um ano, terá R$36 mil economizados. Com esse dinheiro, sabe que vive por 36 meses, sem precisar trabalhar nem mudar nada no seu estilo de vida.
A segurança que terá é o exato oposto do medo sufocante de quem ganha quatro e gasta quatro. Agora, não é você que precisa do emprego, é o emprego que precisa de você. Se quiser, pode parar de trabalhar e procurar outra colocação. Se quiser, pode tentar abrir um negócio. Se quiser, pode ficar três anos sem fazer nada e, depois disso, estará exatamente onde está hoje, sem perder nada e tendo ganho três anos de ócio.
Não precisará ter medo do chefe, medo de arriscar, medo de perder o emprego. Pelo contrário, vai poder amar seu trabalho e se dedicar a ele de maneira mais saudável, sem precisar lhe hipotecar a alma ou colocá-lo no centro da sua vida. Não ter medo de perder o emprego vai te ter tornar uma profissional melhor, mais criativa, mais eficiente, mais original - especialmente se comparada aos seus colegas bundões e apavorados - e, provavelmente, diminuirá as suas chances de acabar realmente perdendo o emprego.
Mais importante, vai viver livre do medo, e não sentir medo já é uma recompensa por si só.
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À esquerda, um livrinho sensacional e divertidíssimo, uma verdadeira etnografia antropológica dos ricos enquanto tribo, seus hábitos e seus costumes. À direita, um dos melhores romances sobre o dinheiro e seu efeito na vida das pessoas.
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Dicas de Economia Doméstica de um Ex-Rico:
I - As Dicas Básicas
II - Viva a Vida à Vista
III - Não Pague por Nada que Possa Ter de Graça
IV - Não Pague por Nada que Possa Ter de Graça: Livros, CDs, DVDs
V - Reconsidere o seu Carro
Prisão Dinheiro:
I - Viver É Mais Barato do que Você Pensa
II - A Armadilha Consumista
III - Os Dilemas da Classe Média
IV - Caindo na Armadilha do Aumento do Padrão de Vida
V - Viver Fazendo Tanta Economia Já Não É uma Prisão?
VI - Não Existe Liberdade sem Independência Financeira
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