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Bruno, como tantos homens no começo dos trinta, vive pra sua carreira, trabalha que nem um mouro e está sempre cansado. Chega em casa com o corpo tão moído e o cérebro tão entorpecido que não consegue fazer nada de útil a não ser se jogar em frente a tv e zumbizar, vendo seriados na TV a cabo. Outro dia, comprou o DVD da primeira temporada da Super Máquina. Pagou R$200.
De vez em quando, lê os meus textos e vem me dizer que queria muito ver a vida como eu vejo, não dar tanta importância a essas coisas, saber relaxar mais. Respondi que viver a minha vida não é difícil. Basta simplificar as coisas. Trabalhar menos, gastar menos. Mas tem um preço: abdicar de ser consumidor. Não há como separar as duas coisas.
O DVD da Super-Máquina é bom (sic!) mas foi comprado com o dinheiro de suas quinze horas de trabalho diárias. Se trabalhasse menos e ganhasse menos, esses R$200 não estariam dando bobeira e teriam que ser usados pra comprar arroz, feijão e frango. Por outro lado, se não trabalhasse quinze horas por dia, seis dias por semanas, não estaria sempre exausto e não precisaria anestesiar seu cérebro vendo DVDs de seriados idiotas.
De um modo bem real, Bruno não tem "tempo livre", pois mesmo quando está longe do trabalho, seu tempo é definido em função do trabalho. Quando não está trabalhando, Bruno está descansando o cérebro de tanto trabalho e se preparando para poder trabalhar mais. Nunca está verdadeiramente livre.
O que complica a vida de Bruno é justamente ser consumidor. É isso que o joga direto nas garras do paradigma capitalista.
* * *
A humanidade sempre sonhou que o avanço tecnológico liberaria o tempo do homem. Fazia sentido. No século XIX, demorava-se um mês pra fazer cem sapatos. Com os avanços da tecnologia, podemos fazer esses cem sapatos em um dia. Não é perfeito? Mais tempo para brincar, passear, andar sob o sol.
Enquanto isso, o sistema capitalista nos acena com cada vez mais produtos interessantes (iPods, TVs de plasma, carros com GPS), que nos obrigam a trabalhar cada vez mais para poder ganhar cada vez mais dinheiro para consumir cada vez. E quanto mais consumimos, mais queremos consumir, e mais temos que trabalhar pra poder consumir ainda mais.
Sem estimular essa nossa ganância primordial, o capitalismo quebra.
Seria desperdício, pensa o sapateiro, fazer cem sapatos em um dia e deixar o equipamento ocioso. É muito tentador fazermos três mil sapatos por mês. Podemos expandir os negócios, ganhar mais dinheiro, economizar, ter mais segurança. Sei lá, pode acontecer alguma coisa, o futuro a gente nunca sabe. É melhor aproveitar pra ganhar agora.
Quase dá pra ouvir o clang metálico quando a armadilha se fecha.

Underhill é um dos principais pensadores do consumo e do modo como as pessoas compram. Esse seu primeiro livro, e o seguinte, especificamente sobre shopping centers, são repletos de observações inteligentes e grandes sacadas que me ajudaram a entender melhor o funcionamento do mundo.
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Eu não sou de esquerda. E nem de direita. Esse texto não é uma crítica ao capitalismo. O capitalismo é lindo, cria riqueza e gera felicidade. Para isso, entretanto, escraviza as pessoas dentro do seu paradigma de mais trabalho e mais consumo, mais consumo e mais trabalho.
Somos agentes racionais. Ninguém é obrigado a comprar iPods ou comer Big Macs. Assim como as empresas são agentes livres e têm direito de vender seu peixe e anunciá-lo e promovê-lo, as pessoas também são agentes livres e tem direito de não comprá-lo. Acreditamos nos discursos em que queremos acreditar.
O melhor do capitalismo é que ele não nos força a nada. Tudo nos empurra em direção da armadilha consumista mas, felizmente, para escapar dela basta ter vontade. Eu, por exemplo, me sinto totalmente livre para viver à margem desse sistema.
Mas a decisão tem que partir de você:
"Não, eu não vou pegar esse emprego, porque ele vai me fazer trabalhar 10h por dia e ninguém merece trabalhar 10h por dia. Ele paga R$5 mil por mês e, sim, preciso de R$ 5 mil por mês se eu quiser comprar o DVD da Super Máquina, ou passar férias em Bonito, ou comprar um novo home theather, mas não preciso de R$ 5 mil pra viver."
E pronto.
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Veblen me ensinou quase tudo que eu sei de economia. Além de um pensador brilhante, também era mordaz e engraçadíssimo. Muita gente que discorda de suas teorias ainda o lê como um satirista da sociedade americana. Poucos escreveram sobre os ricos como ele. Fitzgerald também dedicou-se a contar as aventuras e desventuras dos mais ricos: O Grande Gatsby é sua obra-prima e um dos melhores romances de todos os tempos.
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Dicas de Economia Doméstica de um Ex-Rico:
I - As Dicas Básicas
II - Viva a Vida à Vista
III - Não Pague por Nada que Possa Ter de Graça
IV - Não Pague por Nada que Possa Ter de Graça: Livros, CDs, DVDs
V - Reconsidere o seu Carro
Prisão Dinheiro:
I - Viver É Mais Barato do que Você Pensa
II - A Armadilha Consumista
III - Os Dilemas da Classe Média
IV - Caindo na Armadilha do Aumento do Padrão de Vida
V - Viver Fazendo Tanta Economia Já Não É uma Prisão?
VI - Não Existe Liberdade sem Independência Financeira
Obras completas de Freud, de R$960, por R$399
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