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Quando eu era jovem e muito rico, eu tinha essa idéia meio preconceituosa de que era preciso muito dinheiro para se viver. No meu mundo, tudo era muito caro: bastava uma aritmética simples para concluir que só ganhando muito, muito dinheiro para manter aquele estilo de vida.
Buscando essa quimera, montei uma empresa e, logo depois, fali. Meu pai e minha mãe não estavam em condições de me ajudar financeiramente com nada. Fui morar com a esposa na casa da minha mãe, e pagando aluguel, ainda por cima. Vendi o carro e fiquei a pé pela primeira vez desde os 17 anos, uma experiência bem mais emasculante do que eu imaginaria.
Então, abri o jornal de domingo e fui procurar um modo de ganhar dinheiro. A demanda por professores de inglês era gigantesca e eu estava em posição ideal de supri-la. Passei dois meses espalhando currículos até obter a primeira resposta. Tinha dias que eu pegava mais de oito, nove ônibus pra dar duas ou três aulas em pontos diferentes da cidade. Foi a melhor coisa que poderia ter me acontecido.
Percebi que não precisava ter medo da vida. Não são necessários R$15 mil por mês para ser feliz. Com poucas horas de aulas em dias alternados da semana eu já conseguia ganhar o suficiente para pagar minhas contas básicas - e viver como um bicho, é verdade, mas sem depender de ninguém e saqueando a biblioteca da PUC. Se e quando eu precisasse de mais dinheiro, bastava encher progressivamente os outros horários. Além disso, minha reputação na praça ainda era boa o suficiente para que trabalhos de consultoria surgissem esporadicamente aqui e ali.
Essa certeza de que eu conseguia me sustentar sozinho (e com esforço mínimo) foi talvez a revelação mais importante da minha vida.
As pessoas acham que precisam se escravizar dez horas por dia em um escritório sem janelas para poder viver. Que o único modo de terem tranqüilidade na vida, de serem consumidores, de garantirem sua velhice, é vendendo a alma ao mercado de trabalho.
Não é verdade. E isso não é vida.
Se a sua vida é isso, você quer viver pra quê?
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Hoje, tenho uma vida estranha. Passo sete meses por ano nos Estados Unidos, em Nova Orleans, onde sou estudante profissional e vivo de bolsa. Passo cinco meses por ano no Brasil, no Rio, onde me viro como posso, faço trabalhos de consultoria em Internet, traduzo, pego uns bicos.
O dinheiro da bolsa serve para eu viver monasticamente durante os sete meses que passo nos EUA: divido uma casa, não tenho carro, vou a pé pro trabalho, não como fora, não compro livros, CDs, DVDs. Troco de computador nos anos pares (cerca de US$1.000) e de óculos nos ímpares (cerca de R$600). Como gosto de cozinhar e comer saudável, gasto cerca de US$400 por mês de supermercado - o que é um absurdo, mas também o melhor investimento do mundo. Meus outros gastos mensais são: US$180 de telefone (cartão telefônico internacional, celular, internet), US$350 de aluguel, US$100 de táxi, US$100 de luz/gás/água, US$60 de plano de saúde, US$25 de Netflix. Ou seja, vivo muito bem, com acesso a uma excelente biblioteca, comendo bem, fazendo exercício, vendo filmes a vontade, por cerca de US$1200 por mês, ou US$8000 por ano.
A verdade é que viver é muito, muito barato. Quem quer trocar de carro todo ano e ter vista pro mar tem mesmo que trabalhar 16 horas por dia. O resto de nós, não. Precisamos mesmo de tanto? Não será melhor ganhar menos, trabalhar menos e ter mais paz? Você realmente precisa de tudo aquilo que necessita?
Sinto uma dor no coração cada vez que escuto um vestibulando dizer que adora biologia/filosofia/etc, mas que vai cursar direito/medicina/engenharia/etc, porque dá mais dinheiro. E eu penso: meu deus, tão moleque, morando com os pais, vivendo de mesada, ainda nem sabendo o preço da vida, mas já abrindo mão do que gosta - já com tanto medo! Como as pessoas suportam viver com tanto medo?
A maioria das pessoas que conheço vive tomada por um medo enorme da vida: medo de serem demitidas, medo de serem pobres, medo de não conseguirem se sustentar. Mas se sustentar é fácil. Dá pra se sustentar com qualquer empreguinho. Não dá pra comprar todas porcarias que você vê anunciando na TV, mas dá pra se sustentar, sim, e ser muito feliz. Do que essas pessoas têm medo então? De não conseguirem se sustentar ou de não conseguirem comprar roupas de grife, livros caros, engenhocas eletrônicas?
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À esquerda, um livrinho sensacional e divertidíssimo, uma verdadeira etnografia antropológica dos ricos enquanto tribo, seus hábitos e seus costumes. À direita, um dos melhores romances sobre o dinheiro e seu efeito na vida das pessoas.
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Dicas de Economia Doméstica de um Ex-Rico:
I - As Dicas Básicas
II - Viva a Vida à Vista
III - Não Pague por Nada que Possa Ter de Graça
IV - Não Pague por Nada que Possa Ter de Graça: Livros, CDs, DVDs
V - Reconsidere o seu Carro
Prisão Dinheiro:
I - Viver É Mais Barato do que Você Pensa
II - A Armadilha Consumista
III - Os Dilemas da Classe Média
IV - Caindo na Armadilha do Aumento do Padrão de Vida
V - Viver Fazendo Tanta Economia Já Não É uma Prisão?
VI - Não Existe Liberdade sem Independência Financeira


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