Eu tinha um vizinho milionário.
Ele detestava dirigir e não queria se estressar com documentação, impostos, seguro, consertos. Então, contratou uma empresa de rádio-táxi para que mantivesse um carro, a sua disposição, 24 horas por dia, na portaria do prédio. Pronto. Se um quebrasse, que mandassem outro. O homem só sabia uma coisa: tinha dinheiro que não acabava mais e não queria se aporrinhar.
A pergunta: esse homem vivia fora da realidade?
Pra começar, que realidade, cara-pálida? Existe só uma realidade? Ou será que existe uma realidade certa e outras tantas realidades erradas? Se sim, quem decide qual é a certa e qual são as erradas?
Realidade é que nem cú, cada um tem o seu. O mendigo que passa fome nas ruas do centro está tão fora da realidade do meu vizinho quanto meu vizinho está fora da realidade do mendigo.
Por que ninguém acusa o mendigo de estar fora da realidade? De que modo a experiência de catar restos de comida em latas de lixo e dormir ao relento é mais real do que ir ao coquetel de um pintor famoso e depois pegar o concorde pra Paris? Pior, claro. Mais lamentável, com certeza. Mas mais real? Por quê? Como pode uma coisa ser mais real que outra?
Será que existe uma escala de realidade e ninguém me avisou? Qual é a medida? Sacos de pitombas? A realidade do meu vizinho atingiu 3 graus na escala saco de pitombas; a do mendigo do centro, 8 graus. Logo, a realidade do mendigo é mais real que a do meu vizinho. É isso?
Qual das duas realidades ganha? Existe uma que é certa? Por que ninguém nunca fala que alguém está dentro da realidade? Isso quer dizer alguma coisa?
Em geral, quem fala besteiras do tipo você vive fora da realidade!! são ou os malas da direita, reacionários e moralistas, defendendo os valores da tradicional família cristã brasileira, ou então os malas da esquerda, ainda mais moralistas, achando que todo mundo tem que se engajar em tudo e que alienação dos problemas que eles julgam vitais é algum tipo de crime de lesa-Marx.
Um conselho: se alguém, algum dia, acusá-lo de viver fora da realidade, em geral é porque você está se divertindo demais. Mande-os todos à merda e continue a fazer o que estava fazendo.
As realidades são muitas, todas igualmente válidas. Cada um vive a realidade que pode. Meu vizinho tem lá seus muitos defeitos, mas está vivendo a realidade dele, a realidade em que nasceu, uma realidade que é tão válida quanto qualquer outra. Dizer que ele vive fora da realidade é dizer que a vida dele não é válida. Quem tem moral de dizer uma coisa dessas?
Afinal, era pra ele fazer o quê? Doar tudo pra caridade e entrar pra um mosteiro? Ou então qual é o problema? É que ele está gastando muito? Era pra ele gastar quanto? Quem é que determina esse limite? Se ele gastar até vinte mil por mês (do próprio dinheiro, claro), então ele vive na realidade, se gastar mais que isso, ele vive fora da realidade? Como funciona essa regra? Será que tem uma escala também (sacos de pitombas? narjaras-turetas?) e esqueceram de me avisar?
* * *


À esquerda, um livrinho sensacional e divertidíssimo, uma verdadeira etnografia antropológica dos ricos enquanto tribo, seus hábitos e seus costumes. À direita, um dos melhores romances sobre o dinheiro e seu efeito na vida das pessoas.
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