Acabou de ser relançado no Brasil aquele que é longe o melhor livro de Agatha Christie. Com um pequeno detalhe: mudaram o título de "O Caso dos Dez Negrinhos" para "E Não Sobrou Nenhum".
O título original, baseado numa canção de ninar inglesa, era "Ten Little Niggers". Como "nigger" é uma das piores ofensas raciais nos EUA, as edições americanas (e também as adaptações teatrais e cinematográficas) saíram como "Ten Little Indians" ou "Then There Were None". Nos últimos anos, até mesmo a edição inglesa trocou de nome, e agora também se chama "Then There Were None". Finalmente, chegou a vez da edição brasileira. (A história da publicação do livro está aqui.)
Escreveu o Polzonoff, sempre deprimido pelo triste estado do mundo (como se o mundo já tivesse alguma vez sido lá grandes coisas):
E o mundo ficou um pouco pior
Quando me contaram, não acreditei. Mas entrei agora no site da Livraria Cultura e está lá, na capa, sem vergonha nenhuma da sem-vergonhice. Do que é que eu tô falando? Do clássico da Agatha Christie, O Caso dos Dez Negrinhos. O livro mudou de nome, para se adequar aos tempos. Agora é “E Não Sobrou Nenhum”. Depois, quando digo que Hitler pode ter perdido a II Grande Guerra, mas não a Guerra-Guerra, me chamam de louco. Humpf. PS.: Um lado meu diz que tem algo de bom nesta mudança esdrúxula: pelo menos não mudaram o título para “O Caso dos Dez Afro-Descendentes”.
Reinaldo de Azevedo também não gostou:
O caso do caso dos dez negrinhos
A escola do filho pediu, e uma amiga foi comprar O Caso dos Dez Negrinhos, o clássico de Agatha Christie. Mas quê... Restam um ou outro de edições antigas. Nas livrarias, agora, o que se vende é E não Sobrou Nenhum, que foi o título que o livro ganhou nos EUA — And then there were none — para evitar as acusações de racismo. E olhem que a palavra “negrinhos” nem se refere a pessoas, mas a... estátuas! A assessoria da editora Globo diz que a mudança foi uma exigência contratual. Se for assim, o politicamente correto está virando uma “legislação” — sem legisladores — de alcance supranacional. “Negro”, no Brasil, não tem, obviamente, o significado ofensivo que “nigger” tem nos EUA. Se a mudança, lá, faz algum sentido (e olhem lá...), aqui não faz nenhum. Ademais, os livros, ainda que sejam atemporais, têm a sua época. Não cumpre corrigir o passado com os olhos do presente. Daqui a pouco, vai haver gente querendo reescrever Monteiro Lobato. A boneca Emília ou vai presa sob a acusação de racismo ou termina num campo de reeducação racial para aprender a respeitar Tia Anastácia.
A dramática cantilena ecoou pela blogoseira afora:
Esse mundo está indo pro ralo. Como esses negrinhos são estressados, chorões e se fazem de vítima! Imagina se eu iria me ofender se fizessem um livro "o caso dos dez alexandrinhos", "dos dez aquarianinhos", "dos dez destrinhos", "dos dez carioquinhas", "dos dez gordinhos", ugh! É por isso que esse mundo não vai pra frente!
Blá blá blá. Como se fosse tudo a mesma coisa.
Essas Editoras Cretinas e Suas Canalhas Trocas de Títulos!
Ainda não entendi bem porque tanta indignação, mas posso garantir que não foi a primeira vez que esse execrável crime foi cometido:
A primeira edição inglesa de "Moby Dick" chamava-se somente "The Whale".
"The Importance of Being Earnest", de Oscar Wilde, já foi traduzida como "A Importância de Ser Honesto", "A Importância de Ser Ernesto", "A Importância de Ser Prudente", etc.
"Llano en Llamas", de Juan Rulfo, foi inicialmente entitulado como "Planalto em Chamas"; entretanto, a nova tradução de Eric Nepomuceno, esse canalha!, sacrificou a precisão em prol da sonoridade original: "Chão em Chamas". No dia seguinte ao lançamento, varri ansioso a blogosfera... mas ninguém falou nada!
A nova edição brasileira de "O Jogador", de Dostoeivski, mudou de título e agora se chama "Um Jogador - Apontamentos de um Jovem Moço". Bóris Schnaidermann, autor da tradução, já prevendo a indignação dos blogueiros, se apressou em explicar a mudança (está aqui, lá no meião da página) mas, estranhamente, os blogs calaram. O céu não caiu sobre nossas cabeças. O mundo continuou um lugar tão bom (ou ruim) quanto antes. O Polzonoff até sorriu esse dia. 
Impunidade das impunidades, ficou tudo por isso mesmo: Eric Nepomuceno anda à solta por aí até hoje.
Eu Nunca Entendo Nada Mesmo
Afinal, qual é exatamente a fonte de tanto ranger de vestes e rasgação de dentes? Alguém me explica?
Não entendo muito bem qual é o absurdo de pegar um título politicamente carregado e potencialmente ofensivo (eu não conheço nenhum amigo negro que goste de ser chamado de negrinho) e, voluntariamente, trocá-lo por outro - que, aliás, não saiu do nada e foi aprovado pela autora para publicação internacional há setenta anos atrás.
Acho lindo que a editora tenha voluntariamente mudado o título - com certeza, por pensar que o título novo venderia mais e seria melhor recebido - e acharia terrível se tivesse sido obrigada a fazê-lo por qualquer governo ou instituição que fosse.
A Lulu, por exemplo, adora esse livro tanto quanto eu, e sempre quis dá-lo para suas turmas de ensino médio, mas ficava com receio de mandar os alunos o comprarem - com um título que pode até causar estresses em casa ou lendo no ônibus. Agora, ficou empolgada com a nova edição e vai adotar em 2010. Resultado: a Editora Globo vai vender uns 40 exemplares que antes não seriam vendidos. Quantos outros professores de português pelo Brasil afora não farão o mesmo?
Ninguém foi obrigado a nada. A liberdade de ninguém foi invadida. Todos podem continuar livremente se referindo ao livro como "O Caso dos Dez Negrinhos". Inclusive, a própria editora, que é dona dos direitos de publicação no Brasil, e pode utilizar o titulo que bem entender. Mais inclusive ainda, se Reinaldo Azevedo estiver certo (o que é raro), se foi imposição dos detentores dos direitos autorais, que também podem escolher à vontade como serão publicados seus próprios livros.
Ou será que não? Será que vocês sabem melhor que eles todos quais títulos devem ou não deve usar?
Afinal, de que lado está a liberdade de expressão nessa história?
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Língua e Liberdade
Não sei vocês, mas eu vi apenas uma editora exercendo sua prerrogativa editorial e um bando de gente protestando contra isso, como se a editora não tivesse esse direito, como se a mudança de título os afetasse de alguma maneira.
Bradam como se fossem combatentes pela liberdade de expressão (quando nenhuma liberdade foi invadida ou ameaçada!) mas sua critica não é positiva, é negativa. Via de regra, quando alguém se enrola na bandeira da liberdade de expressão e põe o dedo em riste, é para lutar pelo direito de algum pobre silenciado poder se exprimir livremente. Nesse caso, é o oposto: se enrolam na bandeira da liberdade de expressão não para defender a fala de um silenciado... mas para criticar a livre-expressão de uma editora. Esse é o non-sense da coisa.
Pergunto aos indignados: qual é o problema, então? Vocês defendem a liberdade ou não? Querem uma língua livre ou não? Se a língua é de todos, elas também pertence às editoras que voluntariamente mudam os títulos dos seus livros.
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Manifesto Libertário da Língua
Quando falo de palavras carregadas, como no post sobre "judiar", sempre aparecem uns idiotas me acusando de fascista, autoritário, anti-libertário, e daí pra baixo, como se eu tivesse defendido algum tipo de censura prévia ou coisa que o valha. Então, explico e explicito:
Sou contra qualquer tipo de controle estatal, oficial ou institucional sobre a língua. A língua pertence a todos os falantes, que podem fazer dela o que bem entenderem - inclusive, claro, modificá-la de acordo com novos tempos. O projeto do deputado Aldo Rebello de proibir estrangeirismos era um absurdo, assim como seria absurdo qualquer tentativa semelhante.
Se houvesse uma lei proibindo as pessoas de usarem palavras politicamente carregadas ou potencialmente ofensivas, eu iria para as ruas de fuzil na mão lutar o bom combate. Jamais daria minha vida pra defender uma abstração política como o Brasil, mas a liberdade de expressão na língua portuguesa é das poucas coisas pelas quais eu me arriscaria tomar um tiro.
Polzonoff e eu dividiríamos bravamente a mesma trincheira, conversando sobre livros favoritos entre as salvas de morteiro, empenhados em combate renhido contra os fascistas nojentos que quisessem impedir uma editora de publicar um livro chamado "O Caso dos Dez Negrinhos".
Enquanto isso, não conheço ninguém que proponha censura para quem fala "deficiente" ao invés de "cadeirante". Não conheço ninguém que queira tornar obrigatório o uso de "afrobrasileiro" ao invés de "preto". Não conheço ninguém desenvolvendo um projeto de lei à la Aldo Rebello codificando o politicamente correto.
Mas, só pra garantir, estou dormindo com minha arma debaixo do travesseiro. Quando precisarem de mim, serei o primeiro a chegar na linha de batalha, armado e uniformizado.
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UPDATE
Eu acho que, como sempre, vocês não estão entendendo. Pouco importa se o livro/título é racista ou não. Os indignados com a mudança agem como se ela tivesse sido imposta à editora. E eu digo que a editora e/ou os herdeiros e detentores dos direitos autorais têm todo direito de mudar os títulos dos seus livros. Eu não acho que existe nenhuma conspiração racista (aliás, porque não é nem necessária), mas os indignados parecem achar que existe alguma conspiração politicamente correta.
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