Eu poderia dizer que a única coisa boa no carnaval é o fato de ser feriado, mas, enquanto escrevia a frase, lembrei que não é feriado, é estado de sítio. Porque, se fosse feriado, eu poderia me locomover pela cidade sem ser parada por trinta barricadas durante o percurso, a quantidade de ladrões não teria quadruplicado do dia para a noite, a cidade não sofreria uma crise de abastecimento de água mineral, eu não precisaria escolher aonde ir tendo em vista que 90% dos bairros que freqüento são locais de confronto e a locadora não cometeria o despautério de cobrar preços especiais.
A visão mais respeitosa que posso ter sobre as pessoas que gostam do carnaval é que elas são seguidoras de uma religião. Uma religião com ritos bizarros e que não faz o menor sentido para mim. Ok. Mas uma religião tem direito de parar a cidade por seis dias, impondo prisão domiciliar para os membros de todas as outras religiões? Imagine se, durante o natal, todo mundo que não fosse cristão fosse obrigado a ficar trancado em casa. O natal dura apenas um dia, mas aposto que se os cristãos impusessem o trancafiamento dos hereges eles seriam justamente acusados de intolerância religiosa. Porque é simples: mesmo sendo uma religião majoritária, ninguém tem direito de inviabilizar a vida dos outros, muito menos a vida de uma capital durante seis dias. E olha que estou partindo do pressuposto de que os adeptos do carnaval são maioria, coisa que não estou nem um pouco convencida. Se fizessem um plebiscito na cidade votando a permanência do carnaval, não me surpreenderia nem um pouco se a população dissesse que não quer viver esse estado de sítio toda merda de todo ano. Mas é claro que isso nunca será votado. Porque religião dominante não é aquela que tem mais fieis: é aquela que cala os hereges com mais eficiência.
Da minha atual escritora favorita. Graças a deus, não aceitaram a menina no programa de trainee da Folha, poderiam ter sugado sua alma lá dentro. Tirando os textos sobre os livros de vampiro, não tem nada no blog dela que eu não gostaria de ter escrito.
Aliás, Nova Orleans está igualzinho. Não dá pra ir na esquina.
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