Perguntaram a Adorno quais eram seus hobbies e o que ele fazia em seu tempo livre.
Adorno, sempre rabujento, respondeu que "tempo livre" simplesmente não existia: ao se definir como o período em que o corpo se recupera da fadiga do trabalho para poder então trabalhar mais, esse tempo não tem nada de livre. As pessoas realmente livres não têm "tempo livre" porque não têm "tempo preso": estão sempre trabalhando em seus próprios projetos pessoais. Pelo mesmo motivo, ele também não tem hobbies, pois está sempre se dedicando aos seus projetos pessoais e intelectuais: não precisa, digamos, jogar videogame pra relaxar a cabeça de tanto trabalho e poder mais tarde trabalhar mais, pois já adora seu trabalho e trabalha porque quer.
Enquanto isso, eu, fumando na varanda, pleno começo de dezembro, véspera de viajar de férias pro Brasil, depois de ler uma enorme sequência de livros para o trabalho e para a tese, tendo pego esse livro de ensaios do Adorno na estante por puro prazer, pra descansar a cabeça de tanta leitura direcionada, comecei simplesmente a rir sem parar.
E pensei que, de fato, é por isso que acabei entrando nessa vida acadêmica. Pois apesar de todos os problemas e aporrinhações (que todo trabalho tem, senão não precisava ser pago), pelo menos eu passo a maior parte do tempo desenvolvendo meus próprios projetos pessoais. Enquanto os colegas do mundo real passam o dia inteiro obedecendo ordens, fazendo coisas para os outros, porque o chefe mandou, para aumentar o valor das ações, etc, na carreira acadêmica, boa parte do tempo você passa desenvolvendo o seu projeto pessoal, correndo atrás da sua curiosidade. Estou escrevendo sobre escravidão nas literaturas brasileira e cubana do século XIX, já publiquei artigo sobre as opiniões de um argentino do século XX sobre uma poesia do XIX, e, se quisesse, poderia estar escrevendo tese sobre "O Papel do Céu na Obra de Alexandre Soares Silva" ou "Trilinguismo Sincrético: O Teatro de Anchieta".
Uma coisa que eu faria (se tivesse mais tempo livre, claro) seria o Blog do Adorno, com os posts que o rabujento faria se vivesse hoje.

A obra-prima de Adorno e Horkheimer, mastigadinha pra você.
Posts similares:
Dinheiro, Trabalho e Tempo Livre (Adendo da Prisão Dinheiro)
A Armadilha Consumista (Prisão Dinheiro, 2 de 6)
Sua Vida É Sua Escolha
(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)
Atalho pra o formulário