Você deve conhecer alguém assim. Eu conheço muitos.
São cultos, hips e intelectuais. Moram ali na esquina da Oscar Freire com Vieira Souto. Freqüentam museus, galerias de arte e livrarias com cafés. Gostam de Bandeira e do Bauhaus, de Van Gogh e dos Mutantes, de Caetano e de Rimbaud. Torcem o nariz para cinema-entretenimento e só assistem filmes em que meninas iranianas perdem sapatinhos ou meninos esquimós refletem a condição existencial.
Gastam uma fortuna em livros. Livros enormes, belíssimos, caríssimos. Você chega em suas casas e encontra, casualmente largados no coffee-table, três livros que juntos pesam 10 kg, custaram mais de 500 reais e têm menos de cinco páginas de texto corrido, com fotos de favelados do Salgado, roteiros das fazendas de café fluminenses ou close-ups de rostos de atores de cinema.
Você olha pra estante e os poucos livros que vê são uma verdadeira retrospectiva dos mais vendidos dos últimos 15 anos: Estação Carandiru, 1968, O Ano que Não Acabou, Olga, O Mundo de Sofia, Comédias da Vida Privada, A Arte da Felicidade, Quem Mexeu no Meu Queijo, Pai Rico, Pai Pobre, O Código da Vinci, O Nome da Rosa, tudo do Amyr Klink e do Paulo Coelho e os infalíveis 100 Melhores Contos de Qualquer Porra.
Nenhum livro que pareça ter sido comprado por vontade própria. Nenhum livro, aliás, que pareça ter sido aberto.
Entretanto, sem essas pessoas, nem o cambaleante mercado cultural brasileiro existiria mais.
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