O Banheiro do Sofitel
Minha mulher vem de família pobre (quase disse humilde, mas odeio eufemismos) e ainda tem alguns pudores de pobre. Eu venho bravamente tentando extirpá-los. Não é fácil, até que porque, hoje, somos de fato pobríssimos. O que eu tento ensiná-la é que não termos dinheiro nem pra pagar os 10 reais da conta de gás não é motivo para nos comportarmos como se fôssemos pobres.
Não somos pobres, estamos pobres.
Outro dia, andando pela praia de Copacabana, ela queria muito ir ao banheiro. Sugeri usar o banheiro do Sofitel Rio Palace onde eu, em outras épocas, já me hospedara na suíte presidencial pra ver os fogos de ano-novo.
Nada disso. Bateram os pudores de pobre. Ela teve vergonha, receios, palpitações. Preferia ir em um daqueles postos imundos da praia ou em algum dos ainda mais imundos restaurantes da Atlântica.
Para alguém que nunca entrou em um hotel de altíssimo luxo, o Sofitel realmente parece imponente e ameaçador. Para quem conhece os melhores hotéis do mundo, o Sofitel é apenas um cinco estrelas local que, se estivesse no primeiro mundo, talvez não chegasse nem a quatro.
As pessoas têm uma idéia estranha de que, se entrarem nos melhores ambientes, vão ser chamadas atenção, seguranças engravatados e de óculos escuros vão perguntar o que estão fazendo por lá, quem pensam que são para entrar no Sofitel Rio Palace? Fora daqui, intrusos imundos!
Nada, nada mesmo, pode ser mais distante da verdade.
Consumidores Humildes
Você entra na C&A, ou vai comer no Habib's, ou tenta fazer um crediário nas Casas Bahia, e há uma série de restrições que você tem que obedecer. Os funcionários não fazem muita questão de lhe agradar - especialmente se isso entrar em conflito com as draconianas regras do estabelecimento. A fila é só aqui, não aceitamos esse método de pagamento, os pratos não podem ser modificados, reclamações e trocas só na matriz. Arre!
Realmente, já cansei de ser chamado atenção por seguranças, mas só mesmo nesses estabelecimentos comerciais para pessoas de baixa renda (leia-se lugar de pobre) que tenho que freqüentar hoje em dia. Minha mulher diz que não sei me comportar, e é verdade: não sei me comportar como gado.
Parece que esses lugares foram desenvolvidos especialmente levando em conta a baixa auto-estima dos seus clientes, como se a loja estivesse fazendo um grande favor de deixar essa gentinha humilde gastar seu dinheiro ali. Como a minha auto-confiança é tão inflacionada que nem todos os golpes da vida conseguiriam me deixar humilde desse jeito, meu comportamento realmente destoa do esperado. Os seguranças fazem mesmo bem em me pedir para me retirar, pra eu não dar idéia aos outros clientes bem-comportados.
Por outro lado, mal consigo imaginar o que alguém teria que fazer no Enotria, ou na Daslu, pra ser chamado atenção. Dependendo do cliente, acho que ele pode até bater no garçom e nada acontece. O maitre faz um sinal lá detrás pro garçom aguentar firme e não revidar, dá um gorjetão depois e fica tudo por isso mesmo.
O Banheiro É Só para Clientes
O Habib's e a C&A podem até vender comida e roupas, mas o que o Enotria e o Sofitel vendem é uma experiência de satisfação total. Você paga o preço de um Sofitel para que nada dê errado, para não ser incomodado, para que todos os detalhes estejam absolutamente impecáveis, para saber que tem alguém cuidando de literalmente tudo para você.
Quando você pede pra usar o banheiro de algum daqueles restaurantes imundos típicos da praia de Copacabana, o garçom pergunta rudemente: "Você é cliente?!". Ele faz isso porque sabe que, se você for cliente, você vai apontar pra sua mesa, dizer "Sou, estou sentado ali, ó", e pronto. E, se não for, vai botar o rabo entre as pernas e ir embora.
Se você atravessar a rua e fizer a mesma brincadeira no Hotel Meridien, ninguém vai falar nada. Podem ir lá testar.
Antes de tudo, a equipe do hotel nunca tem certeza absoluta de quem é hóspede e quem não é. Ou de quem não é hóspede, mas é convidado do hóspede. Eles sabem que se lhe perguntarem "Você está hospedado aqui?" e você estiver, eles podem até ser despedidos. Imagine a repercussão! O hóspede vai voltar pra sua terra e comentar com seus ricos e influentes amigos que, no Meridien no Rio, ele não podia nem usar o banheiro do saguão sem ser interpelado e ter que se identificar. "Que pobreza, hein? Vamos ficar no Copa, então?"
Melhor deixar dezenas de penetras usarem o banheiro do que se arriscar a estragar a satisfação de um único hóspede.
Mais ainda, mesmo que tenham certeza que não é hóspede, se você estiver simplesmente usando o banheiro, sentado no saguão ou mesmo nas cadeiras da piscina e não estiver incomodando ninguém, ou tirando lugar de um hóspede, a gerência vai deixar passar.
Pra começar, se você está lá com essa fleuma toda (e fleuma é a palavra), é porque você não é *deus me livre* pobre, pois pobres têm medo de entrar em lugares como esse. Se não é pobre, então é cliente em potencial: melhor deixar correr.
Por fim, mesmo que você seja quem for, um bom profissional do turismo sabe que quando se aborda uma pessoa para que ela se retire, bem, tudo pode acontecer. Ela pode dar um escândalo, ela pode nem mesmo falar a sua língua, ela pode ficar violenta. Pior, pode ser que os seguranças precisem vir ajudar. Cruz credo, pode ser que tenham que chamar a polícia!
A equipe do hotel pode até te observar de longe, mas se você não incomodar ninguém, eles provavelmente não vão querer arriscar o escândalo de te incomodar.
Pode até ser que você pegue um concierge mais brigão que queira te colocar pra fora, mas as chances de isso acontecer são pequenas. Essas pessoas até existem, mas duram pouco nesse tipo de emprego.
Sem Medo de Escândalo
E, mesmo que peçam pra você se retirar, quem disse que você precisa sair?
A grande maioria das pessoas está sempre tentando evitar o escandânlo e fugir do confronto. Portanto, se você não perde a calma, mas deixa claro que vai fazer um escândalo, as chances são grandes de você conseguir tudo o que quiser.
Outro dia, eu estava em uma das salas de computador da universidade. Na frente, um professor dava aula de contabilidade enquanto eu, no fundo, acessava à internet. Daqui a pouco, veio o professor perguntar se eu estava matriculado naquela disciplina. Eu respondi que não e ele, educamente, pediu para eu me retirar pois aquela sala era só para alunos daquela matéria. Um pedido perfeitamente razoável. Posso imaginar poucas pessoas que não atenderiam.
Mas a sala estava vazia. Havia cerca de trinta lugares e só uns dez ocupados, os alunos amontoados em volta dele na frente e eu sozinho atrás. Além disso, eu sabia que todas as outras salas de computador estavam fechadas. Entrei lá porque era a única.
Ele pediu educamente pra eu eu sair e eu disse, educadamente: "Não."
Todo mundo devia tentar isso pelo menos uma vez na vida. Eu tento quase sempre, ainda vou levar um tiro. Mesmo as pessoas que têm menos autoridade esperam sempre ser obedecidas em suas ordens disfarçadas de pedido. Dizer um simples não, e observar a reação, é um prazer raro.
Como assim não?, ele disse. E começou a falar que aquela sala era só pra alunos, que havia uma placa na porta dizendo isso e etc. Eu interrompi delicadamente e dei para ele as seguintes opções.
Eu estou aqui usando a Internet sem incomodar ninguém, seus alunos não estão nem me vendo, tem lugar sobrando na sala. Se você deixar eu ficar aqui sozinho, não vou te atrapalhar em nada. Aliás, essa conversa já demorou muito, daqui a pouco eles vão começar a viajar e vão perder a concentração. Agora, se quiser me fazer sair, eu vou dar um escândalo, não vou sair por bem, vou dizer que sou um aluno pagante e não admito isso, o segurança vai ter que vir me arrastar, eu vou dizer pra ele que se ele encostar em mim, eu vou contar pro meu avô, o Juiz, que vai tirar até as calças dessa universidade. Enfim, eu vou até acabar saindo, imagino, mas sua aula vai por água abaixo. E como essa é uma universidade mercenária, eu nem mesmo vou ser expulso ou penalizado, pois eles querem meu dinheiro mais do que qualquer coisa.
Ele bufou, suspirou, rolou os olhos. Esticou o braço até o meu pulso, pensou seriamente em me agarrar fisicamente, depois desistiu, deu de costas e continuou a aula.
Não é à toa que minha mulher tem vergonha de sair comigo, mas a gente sempre consegue o que quer.
Temor Reverencial
Até entendo o temor reverencial que as pessoas mais humildes têm por esses templos do dinheiro que eles, afinal de contas, nunca freqüentaram.
O irônico é que pessoas acostumadas a ser rotineiramente interpeladas e chamadas atenção por policiais, garçons, vendedores, etc, tenham receio de entrar, por medo de ser chamadas atenção, nos poucos lugares em que ninguém chama a atenção de ninguém.
Final da história: entramos no Sofitel, eu dei bom-dia ao pessoal da recepção como se morasse ali há 20 anos, fiquei no saguão lendo um jornal enquanto esperava, ela saiu, bons-dias para todos e ponto final.
* * *
Escrito em 2004. Hoje sou divorciado, minha ex-esposa mora no Timor Leste e trabalha pra ONU, terminei a pós na universidade caça-níqueis e nunca voltei pra pegar o diploma, o Sofitel Rio Palace (antigo Rio Palace) virou só Sofitel, o Meridien virou Iberostar, e eu continuo pobre, estudante profissional e vivendo de bolsa, ainda dependendo da caridade de estranhos pra pagar o leite das crianças. O texto acima está incluído no meu livro Liberal Libertário Libertino, que é um livrinho de papel mesmo, bonitinho, vermelhinho, com minhas melhores crônicas. Se você gostou, compre, pra você ou pra dar de presente, e eu te agradeço, sinceramente.
* * *

Livrinho sensacional e divertidíssimo. Uma verdadeira etnografia antropológica dos ricos enquanto tribo, seus hábitos e seus costumes.
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