Muitos leitores me escrevem para dizer que raça não existe. Alguns ficam até exaltados, como se estivessem contando alguma grande novidade que encerraria de vez essa bobagem de "falar de racismo".
Tsc, tsc. Será que acham mesmo que alguém ainda não sabe disso?
* * *
Era uma vez uma terra feliz onde todas as pessoas eram tratadas com igualdade e respeito. Um belo dia, sem motivo aparente, surgiu uma lenda de que as pessoas com covinha no queixo eram mais burras e desonestas do que as outras.
Apesar de completamente ilógica e contrária à mais rasteira observação empírica, o mito começou a se espalhar por toda a sociedade. Em breve, pessoas-com-covinhas-no-queixo estavam sendo preteridas em empregos, não conseguiam mais alugar apartamentos, sua renda começou a cair.
Quando faziam besteira, todos diziam: "essas pessoas-com-covinha-no-queixo quando não fazem na entrada fazem na saída!" Quando mandavam bem, eram a exceção que confirmava a regra: "é uma pessoa-com-covinha-no-queixo com alma de pessoa-sem-covinha-no-queixo!"
Alguns cidadãos tentaram protestar contra isso. Queriam que o governo tomasse providências. Queriam criar leis para proteger as pessoas-com-covinhas-no-queixo. Encontraram, entretanto, muita resistência. Diziam seus adversários:
"Somos todos humanos, covinhas ou não covinhas. Se começarmos a falar sobre o assunto, aí sim é que estaremos dignificando esse boato esdrúxulo. Se criarmos leis específicas para defender as-pessoas-com-covinhas-no-queixo, aí sím é que estaremos tratando-as como se fossem um grupo separado."
"Mas elas JÁ são tratadas como se fossem um grupo separado! Já vivem menos, ganham menos, apanham mais da polícia!"
"Oras, essa distinção entre pessoas-com-covinhas-no-queixo e pessoas-sem-covinhas-no-queixo é um grande mito social! Uma lenda! A ciência já provou que pessoas-com-covinhas-no-queixo são geneticamente indistinguíveis das pessoas-sem-covinha-no-queixo! É tão absurdo classificar as pessoas por suas covinhas no queixo quanto por outros atributos físicos acidentais como altura, cor da pele ou ter o segundo dedo do pé maior que o dedão! Todos temos as mesmas capacidades, habilidades, tudo! Não podemos tratar as pessoas-com-covinhas-no-queixo de forma diferenciada! Isso seria covismo!"
"Eu sei que é um mito, caramba, mas o importante é que o povo aí fora parece não saber! As-pessoas-com-covinhas-no-queixo só fazem levar porrada todo dia! É um mito social mas que tem uma existência bem real!"
* * *
Não importa se um fato é verdadeiro ou não, e sim seu impacto na sociedade. Se todas as pessoas acreditarem que os canhotos são perversos e devem ser mortos, isso vai causar um forte impacto social - independente da veracidade da crença. O governo impedir as pessoas de discriminarem os canhotos, ou passar leis ajudando-os, não quer dizer que ele está confirmando que os canhotos são de fato um grupo à parte, ou que são coitadinhos inferiorizados chorões incompetentes que precisam de ajuda extra, mas simplesmente que o tal mito social colocou-os em uma situação difícil que deve ser remediada.
* * *
O que importa é a percepção e como ela afeta a realidade.
Quando escrevi sobre a polícia parando mais negros do que brancos, alguns leitores disseram que isso não era racista pois os negros de fato tem maior probabilidade de serem pobres e, portanto, bandidos. Quando escrevi sobre a professora que foi atormentada por alunos e colegas por causa do seu cabelo afro, alguns leitores disseram que isso não era racismo e sim estética, pois cabelo de preto é ruim e áspero mesmo, ninguém pode gostar.
Depois de ouvir essas e outras piores, a leitora e blogueira Meg concluiu, resumindo a questão com uma concisão invejável:
Deixa ver se entendi a argumentação da galera: No Brasil, o negro não é discriminado por ser negro. É discriminado apenas por ser feio, pobre, ter cabelo ruim, ter pouca cultura, baixa escolaridade e se fazer de vítima. De onde se conclui que não há racismo no Brasil, cqd.
* * *
Sim, biologicamente falando, raças não existem. Todo mundo sabe disso. Mas e daí? Enquanto discutimos essa fascinante questão, os membros-da-raça-que-não-existe-mas-é-mais-escurinha continuarão sendo consistentemente preteridos em promoções, ganhando salários menores e não conseguindo alugar bons apartamentos.
As raças podem até não existir geneticamente mas, durante uma blitz às onze da noite, os policiais já tensos e de armas engatilhadas, as raças são uma realidade bem palpável.
Hoje, para todos os fins e efeitos, na vida real e nos estudos universitários, raças existem sim: não como um conceito biológico ou genético, mas sim histórico, sociopolítico, cultural. (Mills, 126)
Mestiçagem
A maior prova de que raça é um fenômeno cultural é a questão da mestiçagem.
No Brasil, a existência da categoria racial "mulato" é tanto causa como consequência da ideologia de mestiçagem/branqueamento, e não um resultado automático da mistura de raças. A miscigenação, por si só, não cria "miscigenados" ou mestiços ou mulatos. Nos Estados Unidos, por mais deles que existam, são simplesmente classificados de negros, e pronto. (Telles, 218)
Taí o presidente Obama que não me deixa mentir.
* * *
Veja todos os posts sobre Raça do LLL e acompanhe a conversa, assinando o RSS dos comentários. Para divulgar toda a série, use esse link ou o botão ao lado.
Posts similares:
Repercussão da Série sobre Racismo
Prioridades
A Invisibilidade do Racismo
(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)
Atalho pra o formulário