
Nada mais surreal do que ler as atas do Congresso e os editoriais sobre a escravidão do Brasil no século XIX.
Nos Estados Unidos, a discussão era abertamente racial e chega a dar nojo: os americanos falam tudo na cara e não usam meias-palavras. Numa discussão de uma assembléia estadual do Sul, logo depois da Guerra Civil, durante a Reconstrução (um processo que largamente transformou os negros recém-libertados em sub-cidadãos), um deputado interrompeu uma discussão tangencial assim: "Senhores, afinal, viemos aqui pra tirar o direito de voto dos negros [defranchise] ou não?" Sério, está nas atas. Ninguém precisava ter vergonha. O homem que disse isso era um representante eleito dos seus constituintes: ele se elegeu falando coisas assim para pessoas que concordavam com isso e, mais importante, se sentiam representadas por ele.
No Brasil, quem dizia meias-palavras já deveria ser tachado de radical. A discussão era travada em oitavos de palavras. Fomos a última nação ocidental a abolir a escravidão - e *ninguém* era a favor dela. Nas discussões sobre o assunto, não se vê (como nos Estados Unidos) partidários da escravidão defendendo o sistema ou pregando a inferioridade do negro.
Pelo contrário, no último país ocidental a abolir a escravidão, não se encontrava uma única pessoa que a defendesse - tirando o radical ocasional que, por falar as coisas às claras, era visto como maluco.
Não, meus amigos, todos concordavam que a escravidão era um mal, que ia contra as leis de deus, que ia contra até mesmo grande parte da nossa constituição, mas, sabe como é, é um mal necessário, nossa sociedade precisa dele, fazer o quê?, além disso, a escravidão já está condenada mesmo, vai acabar por conta própria, aos poucos, pra que lutar contra ela?
Especialmente a partir de 1871, quando passa a Lei do Ventre Livre (que diz que filho de escravo nasceria livre), o argumento do "deixa disso" ganha força. "Meu filho, por que você está aí bradando contra a escravidão? Isso não existe mais. Só uns casos isolados. Já está condenada..." Ou seja, o velho argumento de que não precisamos fazer nada porque o problema já está resolvido.
Falando sobre racismo e empregadas domésticas aqui no blog, lembro muito desses debates sobre escravidão no século XIX. Não mudamos nada. Continuamos um povo que foge do conflito a todo custo, sempre apaixonado por eufemismos e meias-palavras. Qualquer um que levante algum problema, ou que fale algo com todas as letras, será visto como um chato, um incômodo, um criador de caso. Na melhor das hipóteses, ao falar de um fenômeno como o racismo, que se vê em qualquer caminhada por qualquer cidade, temos que ouvir que o problema não existe, que falar nisso é racismo, que somos uma democracia racial.
Florestan e sua turma, na USP, em meados do século XX, acharam que com a industrialização crescente, o fosso entre brancos e negros diminuiria, mas estavam errados. O fosso só faz aumentar. A democracia racial é linda como "projeto nacional" ou "sonho de Brasil", mas péssima como uma "realidade já alcançada", pois torna-se uma desculpa para a inação.
Convenhamos: já tentamos essa tática. Há cento e tantos anos, o Brasil enfia a cabeça na areia, diz que é uma democracia racial e que não existe problema.
Claramente, não funcionou. É hora de mudar de tática.
* * *
Veja todos os posts sobre Raça do LLL e acompanhe a conversa, assinando o RSS dos comentários. Para divulgar toda a série, use esse link ou o botão ao lado.
Posts similares:
Vergonha da Escravidão (Histórias de um País Escravocrata)
Brancos Não Tem Raça
Não Somos Racistas, de Ali Kamel (enfim, lido!)
(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)
Atalho pra o formulário