Racismo à Brasileira, por Edward Telles

  Racismo à Brasileira: uma Nova Perspectiva SociológicaUm dos melhores livros sobre raça que já li: basicamente, um apanhado de números, estatísticas e experimentos cujo objetivo é combater o "anedotismo" das discussões sobre o assunto. Além disso, o autor não tem os vícios politicamente corretos da maioria dos pesquisadores e nem tenta impor a classificação racial americana à realidade brasileira: não aplica o "one drop rule", não fala de "afro-brasileiros" e aceita nossa mestiçagem como um fato a ser entendido. O livro é bom sobretudo para dar argumentos aos que querem debater, ou convencer os sinceramente confusos, mas, verdade seja dita, não tem nenhum dado ali que uma pessoa observadora já não pudesse ter deduzido sozinha, somente por viver no Brasil e não estar em estado de denegação profunda.

Mas não confiem em mim, não: leiam a resenha abaixo, de Elio Gaspari.

Um grande livro sobre o racismo (in)existente

Vem aí um livraço. É “Racismo à brasileira”, do professor americano Edward Telles, da Universidade da Califórnia, em Los Angeles. Será um demarcador no debate do período pós-blablablá da questão racial brasileira. Ele trata do puro, velho e verdadeiro racismo nacional. Aquele que se disfarçou de branqueamento e democracia racial. Telles localiza na década de 90 o colapso dessas teorias de conveniência e saúda a entrada dos negros no debate. O livro deixa a impressão de que o andar de cima gosta de transformar a questão racial brasileira num eterno seminário em torno da obra de Gilberto Freyre ou de quem quer que seja, desde que os negros fiquem calados. Coisa assim: em 1998, num debate sobre as questões sociais da América Latina realizado em Nova York, um representante do movimento negro nacional disse que o Banco Interamericano de Desenvolvimento devia investir mais nos afro-brasileiros. Foi repreendido pelo representante oficial de Pindorama na reunião: “Eu acho que você não deveria levantar essa questão. Esse é um problema dos Estados Unidos, que não existe no Brasil.” Telles mostra como o andar de cima do Itamaraty ajudou a propagar a idéia da harmonia celestial. Cita o embaixador Celso Amorim, numa reunião em Genebra, em março de 2000: “A essência (do Brasil) como nação se expressa através da afirmativa da mistura étnica e da tolerância.” (Em 1999 havia 1.060 diplomatas e, no máximo, oito negros misturados ao grupo.)

Telles leu os livros, conheceu as pessoas (foi representante da Fundação Ford no Brasil), e é uma fera em demografia. Seu livro chega a machucar: “O caso brasileiro demonstra que a industrialização pode, na realidade, aumentar a desigualdade no topo da estrutura de classes.”

O progresso não diminuiu a disparidade de renda entre brancos e negros. Pelo contrário. Em 1960 a renda de um homem negro equivalia a 60% da renda do branco. Em 1976, no auge do Milagre Econômico, caíra para 36%. Em 1999 estava em 46%. Entre 1960 e 1999 a diferença absoluta na escolaridade dos jovens brancos em relação aos pretos passou de 1,6 para 2,2 anos.

Telles tirou do Censo de 1991 uma chocante relação estatística: tomando-se negros e negras que têm irmãos ou irmãs brancas (com pais ou mães diferentes, entenda-se) vê-se que entre os 9 e os 16 anos a percentagem de jovens brancos que estavam nas séries escolares adequadas era superior à dos irmãos negros. A evasão escolar era maior entre os irmãos negros e o aproveitamento, maior entre os irmãos brancos.

Telles chega ao seu melhor momento num brilhante capítulo sobre as políticas de ação afirmativa. Ele defende um sistema de cotas para o acesso às universidades públicas. O professor compara números brasileiros e americanos de 1960 (quando começaram as cotas nos EUA) e 1996. Em 1960 um branco americano tinha 3,1 vezes mais chances de se tornar um profissional liberal do que um negro. Passados 36 anos, suas chances caíram para 1,6. Em Pindorama, as chances do branco eram de 3,1 em 1960; 36 anos depois elas aumentaram para quatro (4,8 para mulheres).  Racismo à Brasileira: uma Nova Perspectiva Sociológica

O argumento de Telles é simples: é lorota a história segundo a qual no Brasil há uma base de desigualdade social, mas não há racismo. É o racismo quem desenha a base da desigualdade.

“Racismo à brasileira” tem a marca das grandes obras: merece ser lido sobretudo por quem se dispõe a contrariá-lo.

Telles, Edward E. Racismo à Brasileira: uma Nova Perspectiva Sociológica. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2003. [Tradução de Race in Another America. The Significance of Skin Color in Brazil. Princeton: Princeton University Press, 2004]

Página do livro na editora, GoogleBooks.Racismo LLL

* * *

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13.01.09


Categorias: Livros, Raça


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Comentários:


Comentário de: Alexandra · http://guerson.wordpress.com

Obrigada pela dica. Esse eu vou ter que ler... já pedi na minha biblioteca...

PermalinkPermalink 13.01.09 @ 01:53



Comentário de: Marcelo01

Muito bom, tava precisando ler um livro como esse, valeu pela dica.

PermalinkPermalink 13.01.09 @ 07:53



Comentário de: Carlos Sampaio

"Telles tirou do Censo de 1991 uma chocante relação estatística: tomando-se negros e negras que têm irmãos ou irmãs brancas (com pais ou mães diferentes, entenda-se) vê-se que entre os 9 e os 16 anos a percentagem de jovens brancos que estavam nas séries escolares adequadas era superior à dos irmãos negros. A evasão escolar era maior entre os irmãos negros e o aproveitamento, maior entre os irmãos brancos."

Já que você leu o livro, talvez possa me responder: esses irmãos eram da mesma familia, moravam na mesma casa? Ou eram criados por familias diferentes?

Um abraço.

PermalinkPermalink 13.01.09 @ 14:44



Comentário de: Diego Camara

Realmente uma belíssima obra que merece uma leitura.

O interessante nisto tudo é observar a fachada criada em torno do Racismo no Brasil e de como os estadunidenses podem crer que aqui aparentemente é uma grande maravilha.
É um tipo de leitura que talvez seja até mesmo mais interessante para o exterior que aqui para o Brasil, para destruir esta visão criada pelos diplomatas de que temos tanta diversidade étnica e que todos aqui são iguais, uma visão realmente utópica de uma sociedade perfeita e moderna.

Você por acaso sabe me dizer se este livro foi editado também nos EUA (acho que neste é bem provável) ou em outros países?

Parabéns pela recomendação.

PermalinkPermalink 14.01.09 @ 01:27



Comentário de: Alex Castro Email

carlos, nao lembro mais, teria q reler o livro.

diego, o livro foi originalmente escrito em ingles - apesar da traducao em portugues ter sido publicada antes...

PermalinkPermalink 14.01.09 @ 01:46



Comentário de: Rodolfo

Acho que o livro desvenda uma realidade que está
aí nas ruas, e que poucas pessoas têm interesse
em ver.

PermalinkPermalink 14.01.09 @ 23:32



Comentário de: quilombonnq

REVOLUÇÃO QUILOMBOLIVARIANA !
A COMUNIDADE NEGRA AFRO-LATINA BRASILEIRA
APOIA E É SOLIDARIA AO POVO PALESTINO.VIVA A PALESTINA!
Viva! Chàvez! Viva Che!Viva! Simon Bolívar! Viva! Zumbi!
Movimento Chàvista Brasileiro

Manifesto em solidariedade, liberdade e desenvolvimento dos povos afro-ameríndio latinos, no dia 01 de maio dia do trabalhador foi lançado o manifesto da Revolução Quilombolivariana fruto de inúmeras discussões que questionavam a situação dos negros, índios da América Latina, que apesar de estarmos no 3º milênio em pleno avanço tecnológico, o nosso coletivo se encontra a margem e marginalizados de todos de todos os benefícios da sociedade capitalista euro-americano, que em pese que esse grupo de países a pirâmide do topo da sociedade mundial e que ditam o que e certo e o que é errado, determinando as linhas de comportamento dos povos comandando pelo imperialismo norte-americano, que decide quem é do bem e quem do mal, quem é aliado e quem é inimigo, sendo que essas diretrizes da colonização do 3º Mundo, Ásia, África e em nosso caso América Latina, tendo como exemplo o nosso Brasil, que alias é uma força de expressão, pois quem nos domina é a elite associada à elite mundial é de conhecimento que no Brasil que hoje nos temos mais de 30 bilionários, sendo que a alguns destes dessas fortunas foram formadas como um passe de mágica em menos de trinta anos, e até casos de em menos de 10 anos, sendo que algumas dessas fortunas vieram do tempo da escravidão, e outras pessoas que fugidas do nazismo que vieram para cá sem nada, e hoje são donos deste país, ocupando posições estratégicas na sociedade civil e pública, tomando para si todos os canais de comunicação uma das mais perversas mediáticas do Mundo. A exclusão dos negros e a usurpação das terras indígenas criaram-se mais e 100 milhões de brasileiros sendo estes afro-ameríndios descendentes vivendo num patamar de escravidão, vivendo no desemprego e no subemprego com um dos piores salários mínimos do Mundo, e milhões vivendo abaixo da linha de pobreza, sendo as maiores vitimas da violência social, o sucateamento da saúde publica e o péssimo sistema de ensino, onde milhões de alunos tem dificuldades de uma simples soma ou leitura, dando argumentos demagógicos de sustentação a vários políticos que o problema do Brasil e a educação, sendo que na realidade o problema do Brasil são as péssimas condições de vida das dezenas de milhões dos excluídos e alienados pelo sistema capitalista oligárquico que faz da elite do Brasil tão poderosa quantos as do 1º Mundo. É inadmissível o salário dos professores, dos assistentes de saúde, até mesmo da policia e os trabalhadores de uma forma geral, vemos o surrealismo de dezenas de salários pagos pelos sistemas de televisão Globo, SBT e outros aos seus artistas, jornalistas, apresentadores e diretores e etc.
Manifesto da Revolução Quilombolivariana vem ocupar os nossos direito e anseios com os movimentos negros afro-ameríndios e simpatizantes para a grande tomada da conscientização que este país e os países irmãos não podem mais viver no inferno, sustentando o paraíso da elite dominante este manifesto Quilombolivariano é a unificação e redenção dos ideais do grande líder zumbi do Quilombo dos Palmares a 1º Republica feita por negros e índios iguais, sentimento este do grande líder libertador e construí dor Simon Bolívar que em sua luta de liberdade e justiça das Américas se tornou um mártir vivo dentro desses ideais e princípios vamos lutar pelos nossos direitos e resgatar a história dos nossos heróis mártires como Che Guevara, o Gigante Osvaldão líder da Guerrilha do Araguaia. São dezenas de histórias que o Imperialismo e Ditadura esconderam. Há mais de 160 anos houve o Massacre de Porongos os lanceiros negros da Farroupilha o que aconteceu com as mulheres da praça de 1º de maio? O que aconteceu com diversos povos indígenas da nossa América Latina, o que aconteceu com tantos homens e mulheres que foram martirizados, por desejarem liberdade e justiça? Existem muitas barreiras uma ocultas e outras declaradamente que nos excluem dos conhecimentos gerais infelizmente o negro brasileiro não conhece a riqueza cultural social de um irmão Colombiano, Uruguaio, Venezuelano, Argentino, Porto-Riquenho ou Cubano. Há uma presença física e espiritual em nossa história os mesmos que nos cerceiam de nossos valores são os mesmos que atacam os estadistas Hugo Chávez e Evo Morales Ayma,Rafael Correa, Fernando Lugo não admitem que esses lideres de origem nativa e afro-descendente busquem e tomem a autonomia para seus iguais, são esses mesmos que no discriminam e que nos oprime de nossa liberdade de nossas expressões que não seculares, e sim milenares. Neste 1º de maio de diversas capitais e centenas de cidades e milhares de pessoas em sua maioria jovem afro-ameríndio descendente e simpatizante leram o manifesto Revolução Quilombolivariana e bradaram Viva a,Viva Simon Bolívar Viva Zumbi, Viva Che, Viva Martin Luther King, Viva Osvaldão, Viva Mandela, Viva Chávez, Viva Evo Ayma, Viva a União dos Povos Latinos afro-ameríndios, Viva 1º de maio, Viva os Trabalhadores e Trabalhadoras dos Brasil e de todos os povos irmanados.
O.N.N.QUILOMBO –FUNDAÇÃO 20/11/1970
quilombonnq@bol.com.br

PermalinkPermalink 01.05.09 @ 17:07



Comentário de: PB

O livro parece interessante, mas no dia em em que o bicho humano for mais caridoso, menos orgulhoso e menos egoísta, não precisaremos mais ficar falando de diferenças nem de como tratá-las.

A solução não passa pelo campo técnico, mas sim pelo da evolução da consciência: "Por que estamos aqui? Para onde vamos depois?". Quando o burro humano deixar de ser burro e tiver plena consciência de seus atos, todos olhar-se-ão e vir-se-ão como irmãos.

Podemos citar o resultado do estudo do genoma humano o qual mostrou não ser possível a existência de raças humanas haja vista o nível de igualdade do genomada população humana (99,9%). É também verdade que os humanos têm mais de 98% dos seus genes iguais ao de chimpanzés, por exemplo.

Precisamos de menos academicismo e mais humanismo.

PermalinkPermalink 06.06.11 @ 15:15



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