Existe um ponto de ônibus no qual vivi momentos de intensa felicidade.
Eu estava namorando uma colega de trabalho, Valéria. Ela era linda, sexy e inteligente. Psicóloga, mestre em Filosofia, me apresentou a Antônio Nóbrega e a Roberto Freire. Sinto muito sua falta em minha vida.
Todo dia, às seis, eu ia levá-la no ponto. Enquanto esperávamos seu ônibus chegar, nos beijávamos apaixonadamente.
Meu grande objetivo era fazê-la perder o maior número de ônibus possível. Ela perdia o primeiro, perdia o segundo, tinha dias que perdia o terceiro e o quarto, embalada nos meus beijos. Só não perdia mais porque estava indo para um segundo emprego e não podia se atrasar.
Hoje, esse ponto fica perto da minha casa. Dou voltas enormes para evitá-lo. Passar por ele me faz mal. Tanta felicidade morta tem um peso opressivo. Quanto maior a felicidade, mais fedorenta a massa putrefata.
Um triplo assassinato não teria deixado a atmosfera tão pesada quanto aqueles longos beijos ao pôr-do-sol. Passo por lá e posso sentir o velho ponto de ônibus me atormentando, esfregando minha felicidade passada em minha própria cara, me acusando de não ser tão feliz quanto era, de não ser tão feliz quanto poderia ser.
Fantasmas Nada Assustadores
Nas histórias de terror, os fantasmas são vítimas de terríveis violências, pobres pessoas de cabeças decepadas e unhas arrancadas, impedidas de alcançar o descanso eterno pelas dramáticas circunstâncias de suas mortes, condenadas a vagar por nosso mundo buscando por seus algozes.
Que escritores mais sem imaginação! Fantasmas assim nada têm de assustadores.
Eu poderia chegar em casa todos os dias e conviver com eles sem problema algum.
Boa noite Nick-sem-cabeça, boa noite Gaspar, como vão?, ainda sentindo cócegas no braço decepado?, já conseguiu encontrar o seu assassino?, não?, puxa, que chato, alguma pista?, me passa o porto?, ah, é verdade, você é imaterial, pode deixar que eu pego, etc.
Assassinato, morte e mutilação, além de não serem tão terríveis assim, pelo menos dão assunto.
Uma Casa Verdadeiramente Mal-Assombrada
Muito pior seria morar em uma casa verdadeiramente mal-assombrada.
Imaginem uma ex-casa de festas, onde adolescentes perderam a virgindade em êxtases de felicidade, onde casamentos representaram a culminação dos desejos de várias vidas, onde casais se conheceram e experimentaram aquela alegria primordial de se encontrar sua alma gêmea.
Acontecimentos posteriores não importam. Acontecimentos posteriores sempre estragam tudo. A ex-virgem ficou grávida, o cara fugiu e deu a maior merda. O casamento acabou em adultério e recriminação menos de um ano depois. O casal que se conheceu nunca se juntou, pois ele foi transferido e ela não quis ir atrás. Não interessa.
Aqueles momentos foram tão infinitamente extasiantes que ficaram cravados na estrutura do universo, impregnados nas paredes da casa, se recusaram a deixar de existir e caminhar para as trevas do passado juntos com os outros momentos comuns.
Não, meus amigos. Um momento realmente feliz nunca deixa de existir. Ele continua reverberando para sempre. Sua existência é tão concreta que ele quase pode ser visitado, como se visita a casa de um velho amigo.
E imaginem que terror seria chegar em casa e tentar tomar tomar um café na cozinha logo no momento em que o tal casal está se conhecendo melhor - o quê?, você também colecionou Watchmen?, não acredito!
Ao contrário dos assassinados, mutilados e amaldiçoados, esses dois nem mesmo conversam comigo, não me dão a menor bola, não me fazem companhia. Só querem saber um do outro. Eles se bastam para a eternidade.
Lá em cima, a mesma coisa. Nas noites em que os virgens se manisfestam, tenho que ir dormir no sofá: eles fazem muito barulho e ocupam a cama toda. Já tentei inclusive mudar a cama de quarto e nada. Eles seguem a cama. Deve ter sido naquela cama mesmo. Inferno.
A felicidade dos outros sempre é algo sufocante. Se o outro for nós mesmos, alguns anos antes, é pior ainda.
* * *
Essa crônica faz parte do meu livro Liberal Libertário Libertino, com minhas melhores crônicas de 2003 a 2007, incluindo clássicos como Fantasmas de Felicidades Passadas, Pessoas-que-Acreditam-em-Coisas e Manifesto Libertário. A primeira edição, de 2007, esgotou e a segunda edição já está disponível para pré-venda, com entrega antes do natal.
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