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O racismo é um sistema político e uma estrutura de poder baseados em um Contrato Social (na verdade, um Contrato Racial) no qual os membros da raça dominante formam um acordo tácito de, ao mesmo tempo em que garantem para si a maior parte das riquezas/oportunidades/etc da sociedade, também consentem em não ver o próprio sistema, criando assim a "alucinação consensual" de um mundo sem raças, meritocrático e igualitário, que passa a mediar sua interpretação da realidade. Nem todos os brancos são signatários do Contrato Racial, mas todos são beneficiários. (Mills, 11)
Numa sociedade racialmente estruturada e profundamente desigual, as únicas pessoas que são psicologicamente capazes de negar a centralidade do racismo são justamente aquelas que pertencem à raça privilegiada: a raça, para eles, torna-se invisível porque o mundo é estruturado em função deles; eles são a norma em oposição a qual são medidas as pessoas de outras raças ("esses outros tem raça, não eu!"). Assim como o peixe não vê a água, os membros da raça dominante não vêem o racismo. (Mills, 76)
Parte fundamental do Contrato Racial é justamente o acordo tácito de não fazer certas perguntas e de aceitar como naturais o status quo, a distribuição desigual de renda e oportunidades, a farsa de que igualdade jurídica é suficiente para solucionar séculos de privilégios raciais e, mais importante no caso do Brasil, concordar que o acordo não é racista, mas questioná-lo sim. (Mills, 73-74)
Na verdade, a força ideológica do Contrato Racial em criar e moldar a realidade é tamanha que ela mantém a maioria dos seus beneficiários em eterno estado de denegação histérica. Como enxergar a realidade significaria encarar também sua cumplicidade no Contrato Racial, apelam para "racionalizações tão fantásticas que beiram o patológico", gerando uma "ignorância dolorosa tão estruturada" [a tortured ignorance so structured] que torna impossível levantar certas questões. Por mais que se aponte e se prove empiricamente a virulência do racismo, eles não acreditam e, paradoxalmente, não conseguem acreditar justamente porque sabem que é verdade. (Mills, 97)
Podemos ver esse processo claramente nas caixas de comentários dos textos sobre racismo no LLL. Se eu fizesse uma série de artigos sobre a existência de unicórnios no Brasil, duvido que viessem centenas de pessoas por dia me chamar de maluco. O racismo, entretanto, toca em um nervo exposto da psique nacional. Dos comentários que negaram o racismo, poucos foram agressivos mas todos foram tensos: uma ansiedade latente, quase insuportável, parecia exalar pelas entrelinhas, ameaçando explodir a qualquer momento. Quanto mais alto gritavam, mais certeza tinham da verdade que estavam negando. Como não ficar tenso e ansioso?
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Mills também embarca em uma comparação perigosa, mas praticamente inevitável, entre o racismo e o Holocausto. Visto de fora, pelos não-europeus, "conscientes de que a civilização européia se baseia em barbarismo extra-europeu", o Holocausto não representa "uma anomalia transcendental no desenvolvimento do Ocidente", mas sua unicidade está apenas no aplicação do Contrato Racial contra europeus. Ao colocar o Holocausto no contínuo cultural de outras políticas exterminatórias colonialistas européias, Mills não deseja negar o seu horror, mas somente sua singularidade histórica. Tudo o que o nazismo tinha de operacional já vinha sendo aplicado, legitimado, tolerado, negado e esquecido pelos europeus há muitos séculos: a maior transgressão de Hitler foi aplicar contra europeus métodos que antes eram aplicados exclusivamente contra árabes, negros e índios. O próprio horror tão fora de escala do Holocausto, colocado num plano moral muito diferente de todos os outros massacres de não-europeus por toda a história, é evidência da força ideológica do Contrato Racial. Além disso, ao narrar o racismo como uma invenção aberrante de figuras como Gobineau e Goebbels, o Holocausto presta à intelligentsia européia do pós-guerra um importante serviço: sanitizou seu passado racial.
Por fim, Mills cita o romance de ficção científica "Pátria Amada" [Fatherland], que mostra um futuro alternativo onde os nazistas ganharam a guerra e nunca existiu a memória do Holocausto. Na verdade, aponta Mills, nós JÁ vivemos nesse mundo não-alternativo: a única diferença é que os vencedores foram outros, mas eles também apagaram a memória dos massacres que cometeram, esvaziando sua importância e subtraindo seu ultraje. (Mills, 102-117)
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Charles W. Mills nasceu na Jamaica, mulato, filho de professores universitários. Como um bom filho de qualquer elite, teve uma infância privilegiada sem jamais ter que pensar em raça. Foi somente quando chegou nos Estados Unidos que "descobriu ser negro".
Mills é filósofo, um dos campos onde as minorias são mais sub-representadas nesse país. Não consigo não pensar em Richard Wright (1908-60): depois de escrever alguns romances excelentes sobre a condição negra nos EUA (como Native Son e Black Boy), ele mudou-se para a Europa, se envolveu com o Existencialismo e dedicou-se a filosofia. Obviamente, o público norte-americano jamais o perdoou pelo atrevimento de deixar de escrever "sobre o que sabia" - e, presumivelmente, de se meter onde não era chamado. Sua filosofia nunca foi levada a sério e até mesmo seus romances, que antes faziam sucesso, começaram a ser retroativamente avaliados como tendo maior valor sociológico do que literário."
Richard Wright quebrou o Contrato Racial e pagou o preço.
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