Algum tempo atrás, reproduzi um texto do blog Histórias de Menina, sobre o preconceito que uma professora negra sofreu por causa de seu cabelo. Falou-se uma quantidade incrível de besteiras nos comentários:
Querem fazer crer que o fato de alguém não gostar de cabelo crespo é uma demonstraçao de racismo, o qual teria sido incutido desde a infância, e não de preferência estética ou de simples preferência mesmo. Ora, ora, vocês preferem um travesseiro ou um edredom macio e sedoso ou um áspero? Mal comparando, acham mais bonito uma roupa passada ou uma roupa amarrotada? Sejamos razoáveis! Por outro lado, os negros têm mesnos ataque cardíaco, são melhores em diversos esportes, normalmente têm um físico e uma saúde mais privilegiadas, não aparentam a idade que têm, e por aí vai. Cada qual com suas vantagens e desvantagens! Os negros talvez sejam os maiores racistas. É compreensível, mas não é por aí. ... Não se trata, no caso do cabelo, de ditadura estética e sim de senso estético que é uma coisa instintiva. Ditadura estética é dizer que careca, gordo, pele preta, suvaco cabeludo em mulher, são feios por não atenderem ao chamado "padrão" de beleza. Sou meio gordo e meio careca, não gosto de ser, mas não vou ficar acusando os outros de serem preconceituosos por preferirem quem tenha cabelo e seja esbelto (até porque eu concordo com eles, hehehe)
Naturalmente, a estética não é instintiva, mas sim construída. Se não fosse assim, todas as sociedades humanas teriam o mesmo padrão estético. Muito pelo contrário, até mesmo em nossa sociedade os padrões mudam de tempos em tempos. Afirmar a existência de um "senso estético instintivo ou natural" é ignorar não só o mundo lá fora mas nossa própria história, que vai das rechonchudas de Renoir à magreza de Adriana Lima, passando por Marilyn Monroe e Leila Diniz.
Acima, uma mulher surma, povo que habita o sudoeste da Etiópia. Por razões puramente estéticas, as mulheres surma esticam e colocam um piercing em seus lábios inferiores para mantê-los nesse formato. Os homens surma disseram não se importar muito com peitos ou cintura, ou mesmo com virgindade, mas a maioria afirmou que não se casaria com mulheres feias - ou seja, sem o piercing labial.
Ninguém avisou os surma do tal senso estético instintivo da humanidade.
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A escravidão negra nas Américas não foi a única, nem mesmo a mais longa ou a mais intensa. Quase todas as civilizações do mundo, em todas as épocas, tinham escravos. Na grande maioria delas, um dos atos rituais que simbolizavam o cativeiro era raspar a cabeça - sinal de perda de força e de poder, de virilidade e de feminilidade.
Entretanto, em nossa escravidão, isso não acontecia. Pelo contrário, talvez o símbolo mais visível da escravidão no Novo Mundo eram os pés descalços, não a cabeça raspada.
Por quê?
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Procurei e procurei e não encontrei a referência, mas aqui vai, de memória. Um estudo sobre percepção de raça descobriu o seguinte: o cabelo é o principal marcador de negritude. Pessoas de pele muito branca e traços caucasianos, mas cabelos-afro, eram consistentemente percebidas, ou descritas, como negras, em oposição a pessoas de pele mais escura e traços negróides, mas cabelos lisos. 
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Nas Américas, não se cortava o cabelo dos escravos justamente porque o cabelo era o maior símbolo da escravidão, o grande diferenciador entre livres e cativos, mais até do que a própria cor. Afinal, existem muitas variações de cores possíveis: o filho de um irlandês com uma negra poderia nascer mais claro do que um típico português. O cabelo, entretanto, não mente. Independente da sua cor, quem tem cabelo africano tem sangue africano.
(Fonte: Orlando Patterson, Slavery and Social Death, o melhor livro que conheço sobre escravidão global.)
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Não é verdade que existe essa associação entre negritude e feiúra, disse minha amiga Vânia:
Quando vejo uma pessoa, até penso em termos de bonito ou feio, mas nunca em termos de preto ou branco.
Mas o que faz de uma pessoa bonita ou feia?, eu perguntei.
Nos comentários do post citado acima, a blogueira Meg resumiu tudo assim:
Deixa ver se entendi a argumentação da galera: No Brasil, o negro não é discriminado por ser negro. É discriminado apenas por ser feio, pobre, ter cabelo ruim, ter pouca cultura, baixa escolaridade e se fazer de vítima. De onde se conclui que não há racismo no Brasil, cqd.
Se um grupo humano tem todas essas associações negativas, como poderiam as características físicas desse grupo também não adquirirem uma conotação negativa? Se o bando dos feios, pobres, burros e incultos é conhecido por ter um cabelo assim ou um nariz assado, a última coisa que qualquer um vai querer é possuir essas características físicas.
"Cruzes, deus me livre! Eu quero que as pessoas olhem pra mim e pensem que sou lindo, rico, culto. Quanto tá o alisador, moço?"
A beleza é definida em termos das características físicas do grupo dominante. Ou seja, uma pessoa é mais bela quanto mais se parece com o grupo que manda, e é mais feia quanto mais se parece com o grupo que obedece.
Qual será o percentual de negros e brancos entre os belos e os feios da minha amiga Vânia? Dentre os negros e negras universalmente considerados como sex symbols, quantos têm características negróides marcantes e quantos parecem brancos de pele escura?
Em outras palavras, a Halle Berry é uma negra linda por ser uma negra linda, ou é uma negra linda por ter cara de branca tostada?
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Por fim, sempre aparece alguém pra dizer que o maior racista é o próprio negro:
Pior que eu acho que eh preconceito estetico mesmo, nao racial. Senao eu teria que considerar as americanas negras racistas contra elas mesmas, ja que 90% delas alisam os cabelos. ... Digo que eh preconceito estetico mesmo, pq eh bem longe do que racismo quer dizer nos EUA/Europa.
Entretanto, está errado quem diz que "não existe racismo porque o negro é quem tem mais preconceito contra si mesmo". Esse auto-racismo, pelo contrário, prova somente a gigantesca força cultural da ideologia racista. Suas vítimas introjetam a mesma ideologia que seus beneficiários: também aprendem desde cedo que são feios e têm cabelo ruim, que se não fazem na entrada fazem na saída, que é melhor jogar bola ou tocar samba porque negro não dá pra filósofo e diplomata, etc. Com o tempo, com a insistência, muitos acreditam.
Mas não todos.
E tem mais aqui: Why Black Girls Still Prefer White Dolls
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