Luto Virtual - Post Pós-Socrático

Lá nos idos de 2003, eu escrevi um post sobre esse novo fenômeno dos velórios virtuais: Blogs de Pessoas Mortas:

A Internet fez muitas promessas de mudança: mudar o modo como fazemos compras, procuramos empregos ou até mesmo lemos jornal. Quem diria que uma das coisas que a Internet mudaria seria o modo como velamos nossos entes queridos, uma das mais consolidadas tradições humanas.Em algum futuro dois de novembro, quem sabe, bastará uma peregrinação por meia dúzia de blogs para estarmos em dia com nossos mortos.

Ontem, a Camila escreveu um post sobre seu estranhamento em relação a isso: Descansar em Paz.

Não consigo evitar o estranhamento. Fico me perguntando como se sentem essas pessoas que deixaram um recadinho lá. Será que acham natural. Será que só eu acho estranho. A única certeza que tenho é esta: quando alguma pessoa que me for muito próxima morrer, tentarei fazer o possível para tirar do ar seus perfis em comunidades virtuais. Quando eu morrer, sei lá, que façam com meu perfil no Facebook o que acharem melhor - não vou estar aqui mesmo para saber. Mas, com amigo meu, não quero. Não gostaria. Lutaria muito contra. ... Minha concepção de “descansar em paz” deve ser bem diferente da concepção dos que comentaram em seu Facebook.

Deixei o seguinte comentário lá na Camila:

Acho que é um novo fenômeno na maneira como as pessoas trabalham o luto. Não me espanta o seu incômodo, a morte é sempre incômoda, mas queria que você tentasse desenvolver o motivo. Exatamente em quê deixar um recado num perfil do Facebook/Orkut ou comentário no blog de uma pessoa que morreu é diferente de, por exemplo, deixar uma flor no seu túmulo? Não são ambas maneiras de as pessoas que conheceram a falecida de se lembrar dela, de prestar uma pequena homenagem, de trabalhar o luto, enfim? O que existe de intrinsecamente ruim, nocivo, etc, nesse hábito?

(O texto continua abaixo da imagem.)
 Luto e Melancolia

Em resposta a isso, a Aline, amiga em comum e excelente blogueira do Até Aqui Tudo Bem, veio falar comigo no MSN e travamos, enfim, o diálogo abaixo:

meu dia nem começou faz tempo e vc já está me fazendo pensar, por causa de um comentário seu no blog da camila sobre manifestações virtuais de luto. eu concordo com ela. não gosto disso, mas vc TINHA que perguntar "porque?" :) grrrrr, estou há quase uma hora pensando no porque. agora eu tbm quero saber porque nao gosto. e tenho um princípio de resposta. acho que existe algo de ritualístico em velar um corpo morto e visitar a tumba, prestar homenagens

assim como existe algo ritualistico em ir numa livraria e folhear um livro e cheirar o livro... vc se incomoda das pessoas comprarem livros pelo submarino?

não, não me incomodo em compras virtuais, mas o processo de comprar algo é desritualizado, ou deveria ser

soh se for pra vc. preciso te levar pra sair com minhas amigas q compram um sapato sempre que tem depressao...

eu não gosto muito desse tipo de coisa tbm. o consumismo é algo datado, circunscrito em um contexto. a morte nao. a morte tem um status muito específico. o luto envolve elementos muito bem definidos. um vivo, um morto, e vários sentimentos intermediários e acho que a presença do corpo morto, ou algo que o simbolize, é importante no tal ritual de luto

mas veja, deixar comentarios no blog de alguem q morreu tb eh um ritual, nao eh? eh todo um ritual.. vc vai na pagina do orkut do seu amigo, reve as fotos dele, rele os scraps que vc deixou pra ele, rele os q ele deixou pra vc, isso te faz lembrar de mil coisas que vcs viveram juntos, aí vc le os scraps que outros amigos em comum deixaram, e isso tb te faz lembrar de varias coisas que vcs viveram juntos, e as manifestacoes de luto dos outros tb te emocionam, tb te fazem ver q a morte eh real, que vc nao vai mais ver aquele amigo, isso tb te leva a entrar em contato com amigos em comum que comentaram lah, e vc vai no orkut deles e diz que foi lindo o que ele escreveu, e q vc ainda lembra do dia que os tres foram pra guarapari, etc, e isso tudo eh um ritual enorme, bem organizado, bem simbolico, e cada vez mais comum

sim, visitar o orkut do morto é um jeito de relembrar, mas escrever scraps pra ele é estranho, pq a comunicação virtual não é exatamente como a comunicação ao vivo, ou os diálogos internos que a gente estabelece com "pessoas"

as pessoas rezam e acham q estao falando com deus, isso tb nao eh estranho?

eu acho estranho sim, mas eu sou atéia. há vários tipos de manifestações de luto na net. uma coisa é fazer um blog para o morto, tipo o "para francisco", eu eu acho um blog muito bom, e muito bonito, ou as pessoas entrarem em contato umas com as outras num espaço virtual pra falar sobre o morto

"escrever scraps pra ele é estranho... comunicação virtual não é exatamente como a comunicação ao vivo"... comprar sua carne nao é exatamente como caca-la.... ler na tela nao é exatamente como ler no papel... mandar um email nao é exatamente como mandar uma carta.... tudo isso é estranho? mas a questao é: e daí? sao experiencias inferiores ou q valem menos? voar tb eh estranho... comer de garfo e faca tb....

não sei se são experiencias inferiores, mas me causam estranhamento e aversão porque escrever na internet com um morto é um tipo de registro que eu não sei se convém

voltamos a questao inicial: por que escrever na internet com um morto é um tipo de registro que não convém?

porque... que difícil de explicar... porque acho que esse tipo de registr dissolve alguns dos elementos que sustentam o ritual do luto, não seria estranho escrever um cartão postal pra um morto? ou perguntar as novidades? a pagina do orkut é algo que depende da pessoa existir. o tipo de informação que o orkut usa está profundamente ligado a vida social e afetiva da pessoa, que muda completamente quando ela morre. não é como um album

eu diria q essa nossa conversa por msn nao convem. q conversa é um ritual, q tem q ser cara a cara, olhando nos olhos, vendo a comunicacao corporal. q essa nossa conversa eh inferior, eh estranha, que ela nao tem uma serie dos marcadores de uma conversa de verdade, e que causa estranhamento ou aversao.... e entao?

ela pode soar estranha a muita gente que nao gosta de msn. e o msn mudou o estatuto da conversação alias. pq é escrita, ao vivo e instantânea. nao obedece padrões de conversa oral nem escrita, mistura os dois, mas é um contrato que os interlocutores fazem pra poder viabiliazar a conversa

pois eh, e esse fenomeno em questao mudou o estatuto do luto, do modo como as pessoas velam seus mortos e trabalham seu luto, nao obedece padrões do velorio ou do luto tradicional, mistura os dois, mas é um contrato que as pessoas fazem consigo mesmas pra poder viabiliazar seu trabalho de luto

sim, essa parte eu concordo. essa mudança de estatuto, eu acho um pouco leviana. pq coloca o luto numa engrenagem que lida com exposição exagerada

mas o luto EH publico. como meu pai jah me explicou uma vez, a gente vai no enterro e no velorio muito mais pq gosta dos vivos do que do morto... o enterro eh pra dar consolo aos que ficaram... eh uma coisa publica... pra todos se verem e lembrarem o morto....

ele pode ser publico, mas nao é necessariamente.

sim, mas o luto continua nao necessariamente publico, aline. os scraps no orkut e ir ao enterro sao o lado publico do luto, nao quer dizer que essas pessoas que fizeram essas duas coisas resumam seu luto a essas manifestacoes publicas

sim, é verdade. estou tentando organizar algumas idéias. eu receio ainda um pouco do apelo que a internet tem

eu acho que eh puro preconceito, como das pessoas que acham um absurdo comprar livro pela internet sem cheirar ou conversar sem olhar no olho... acho q o mundo estah mudando rapido e algumas mudanças assustam... nem todas sao boas... mas recusar soh pelo estranhamento eh uma reacao simplista... acho q cabe a gente, que somos a geracao vivendo e fazendo essas mudancas, de avaliar cada mudanca caso e caso e pensar se sao positivas ou negativas... sem preconceito... sem apelar pra "estranhamentos"....

sim, eu concordo

hj eh o ultimo mes de fabricacao de filme pra camera polaroide, eh uma coisa q vai acabar e eh triste. eh um icone cultural grande, q foi morto pelas cameras digitais... uma forma de arte e d expressao vai sumir. a gente tem q pensar cada mudanca, uma de cada vez. esse fenomeno q vc e a camila repudiam eh importante pra muita gente. ajuda muita gente a lidar com seu luto e lembrar seus entes queridos. estah cada vez maior e mais comum. e soh faz crescer.... ainda estah pequeno, pq estatisticamente quem tem orkut e blog eh quem morre menos...

eu não tenho certeza de que a internet comporta discursivamente todos os processos emocionais, sociais e psicológicos das pessoas. e, se comporta, se é um tipo de coisa que eu gosto. não por estranhamento puro

e nao vejo pq essa manifestacao de luto dessas pessoas seja menos valida, ou deva causar estranhamento, embora estranhamento ateh vai, mas repugnancia eh forte....

é forte sim. aconteceu com dois amigos meus que morreram, e eu fiquei chocada. e como a camila disse, tentei tirar o orkut deles do ar. eu nunca me perguntei o porque. e é um assunto que me é caro. eu realemnte preciso elaborar isso

eu tenho 15 anos, morre minha melhor amiga, eu vou no orkut dela (como eu tinha o habito de fazer TODO dia), eu vejo as fotos dela, eu penso nos nossos tempos juntas, eu choro e choro, e nao resisto e acabo escrevendo mais um scrap, o ultimo de tantos e tantos q já escrevi p/ela e digo "tchau, amiga, fica bem"... ... e vem vc e acha isso repugnante???

é, mas agora me parece estranho sentir repulsa

me parece repugnante sua repugnancia com uma menina sofrendo tentando trabalhar sua dor e recordar sua amiga, mas tudo bem, deve ser eu... ;)

não, não, faz sentido, eu to pensando mesmo a respeito, nao sei se vou ter com que justificar, acho que vou ficar esperando a resposta da camila.. hohhooho. ela é mais cabeçuda que eu :)

e seu amigo morreu e vc queria tirar ele do ar, apagar a vida dele, os comentarios que deixaram pra ele, as fotos q ele botou no ar, tudo? se eu morrer, vc quer apagar o LLL tb? nao basta eu ter morrido, vc quer q tenha sido como se meus textos tb nunca tenham existido? nao basta meu corpo morrer, vc quer apagar minha memoria e meus vestigios? poxa, nao sei se quero q vc seja minha amiga....

ai, pera, calma. é. verdade. to passada

ue, vc nao disse q lutou pra apagar o orkut do cara? qual eh a diferenca entre o orkut dele e os meus textos? o orkut nao eh a obra dele, q ele construiu do jeito dele, com as frases dele, as preferencias dele, os livros favoritos, a sua frase do perfil, etc? cruzes, q horror. vc quer tb queimar a casa dele e jogar sal em cima? o thomas pynchon acabou de morrer, vamos queimar os livros dele? e as pessoas que mandam cartas pra editoras opinando sobre o livro do pynchon? jah q ele morreu, quem manda carta pra editora agora eh repugnante?? também estão querendo falar diretamente com o morto.

não, nao quero. não, não isso não

ue, mas eh tudo a mesma coisa, aline.... a justificativa pra apagar um funciona pra apagar tudo.... pq vc lutou pra apagar a memoria e os vestigios e as preferencias e as fotos dos seus dois amigos mortos?

não é a mesma coisa que falar do morto, sobre ele. estou dizendo do estranhamento de falar com ele. alias, não falar, escrever, numa página da internet, não acho que se estenda assim, como mandar cartas pra editoras

mas vc queria apagar o orkut dos dois caras!!! apagar tudo! mandar pro limbo, pro vazio, pro esquecimento eterno!

mas a coisa de apagar o orkut e apagar as memórias, sim. sim, sim, eu to entendendo o que vc disse. já coloquei tudo em suspenso

entao, se eu morresse, e fossemos amigos, vc apagaria o LLL? e meu flickr com minhas fotos? e meu orkut? pra nao restar mais nada de mim? finis alex castro. esquecimento total. e isso pq vc é minha amiga. se vc fosse minha inimiga, vc faria o que, meu deus? estupraria minha irma e mataria meu cachorro tb?

vc tá de sacanagem comigo :) eu já entendi. e embora concorde com a crueldade de se fazer isso, nao acho que isso acabaria com a sua memória - o que não justifica nem ameniza

to de sacanagem nao. como alguem que escreve e sabe que vai morrer, estou falando serissimo. entao vc apagaria o LLL? sim ou nao? pq eu te garanto q se eu morro amanha, o ultimo post vai ter 200 comentarios soh no primeiro dia, de um monte de gente falando comigo, "vc era chato, alex, eu nao concordava com nada, mas eu te lia todo dia"

não, eu não apagaria, nem gostaria que apagassem o jusqu'ici se eu morresse, nem o apagariase o paulo morresse, vc tem razão

mas pq nao apagaria se seria tao repugnante todas essas pessoas que gostavam de mim deixando mensagens sinceras de dor e saudades?

alex, eu já coloquei esse estranhamento sob suspeita. vc vai bombardea-lo agora?

ta bom. trabalho concluido. my work here is done. :)

hahahhahahah. to passada mesmo. enfim. eu ia escrever a respeito, mas acabaram minhas parcas frases

e pra nunca me chamarem de coerente, um texto falando aparentemente o oposto de tudo isso: http://www.sobresites.com/alexcastro/artigos/kafka.htm deixa eu publicar esse dialogo no blog, sem seu nome?

pode ser sim, com nome e link. talvez eu faça um post a respeito da desconstrução do estranhamento

* * *

(O texto continua abaixo da imagem.)
 Alegorias da Derrota

Poderia ser o lema do LLL: desconstruir estranhamentos, mas também descontruir as certezas. Confortar os perturbados e perturbar os confortáveis.

* * *

Aliás, uma pergunta levantada pela Viva: qual é a diferença entre ir no perfil no Orkut e escrever "puxa, saudades suas, Felipinho, fica em paz"; e colocar um daqueles anúncios fúnebres no jornal "Vovó Teinha, seus netos Julinho e Paulinha morrem de saudades etc"? Esse anúncio causa "estranhamemto e repugnância"? Se o problema é o estranhamento de falar diretamente ao morto, então qual a diferença? Devemos apagar o perfil do Orkut e também proibir esses anúncios nos jornais?

* * *

No fim das contas, se uma pessoa deixa expresso seu desejo de destruir seu blog, como o Inagaki, ou parte de sua obra, como Kafka, seus entes queridos devem respeitar - ao contrário daquele canalha Max Brod. Mas, caso contrário, não será a tarefa deles justamente preservar a memória do falecido?

O perfil de uma pessoa no Orkut, assim como os livros que escreveu, os filhos que criou, a casa que construiu, as fotos da viagem pra Salvador na gaveta do criado-mudo, são vestígios que deixou pra trás.

Se, no momento da morte, devemos apagar seu perfil no Orkut, como querem a Camila e a Aline, por que não queimar também as fotos de Salvador? Por que um é intrinsecamente melhor que outro?

E se você disser que é porque o perfil do Orkut é público, e as fotos não, então por que apagar o perfil do Orkut e não os livros que escreveu ou as músicas que compôs? Não são todos públicos? Por que preservar uns e destruir outros? Qual o critério?

E se você disser que é porque músicas e livros são arte e perfil do Orkut não, eu vou responder que seu entendimento de arte está muito século XIX. Um urinol pode ser arte, uma pichação numa parede branca também. Para muitas pessoas não-criativas, o seu perfil no Orkut - com aquele particular arranjo de fotos e desenhos, mix de depoimentos e textos, citações de livros e declarações sobre si mesmas - é o mais perto que vão chegar de uma obra de arte única e individual.

E - deixa ver se entendi bem - isso deve ser apagado justamente por seus entes queridos? É isso mesmo?

 Grupo de Suporte ao Luto

 

10.12.08


Categorias: Comportamento, Tecnologia


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Comentários:


Comentário de: Luis

É estranho porque é novo e diferente. O Perfil no orkut lhe dá uma "poder" maior de se despedir da pessoa. Acho que a sensação de querer ter a ultima palavra com a pessoa querida que morreu é comum na maioria das pessoas.. e me parece que o orkut dá uma sensação maior(maior que colocar nota no jornal, fazer poema, colocar flores etc) de poder se despedir da pessoa que faleceu.

Um problema que eu vejo é que se por um lado isso ajuda na despedida, por outro pode atrapalhar, fazendo com que a pessoa se apegue demais a esse perfil, a essa sensação de ter contato, fazendo com que ela n aceite a morte completamente.

PermalinkPermalink 10.12.08 @ 00:43



Comentário de: fe

Sabe o que mme lembrou? Quando vc escreveu aquele texto sobre a... Eloa(?) E veio aquele monte de paraquedistas pra falar "diretamente" pra ela como aquilo foi um crime, quanto eles achavam um absurdo, descanse em paz, etc.

Eu achei uma loucura, super morbido, aquelas pessoas neem sequer conheciam a menina, mas com certeza devem ter mandado um scrap pra ela.

O que me incomoda essa historia? Nao é pq a foto da pessoa tah lah que ela vai receber o recado, e as pessoas que falam diretamente com os mortos (oi, soube que vc morreu, vou sentir saudades, te amo, vai com deus) me dao calafrios. O exemplo que vc deu, da adolescente de 15 anos eu entendo, se acontecesse cmg eu ia entrar no perfil da minha amiga todo dia, mas eu nao ia me sentir confortavel em mandar recados, talvez pq eu nao queira dividir a minha dor com os curiosos de plantao. Talvez seja puro preconceito.



Genteeem, me mandem scraps me dizendo que me amam agora, depois eu nao vou ler, tah?

PermalinkPermalink 10.12.08 @ 01:25



Comentário de: Daniel · http://www.danielaraujo.net

Cara, que coisa...

Sempre achei incômodas essas manifestações de luto pela internet, ainda que algumas fosse bem bonitas. Ler seu post me fez parar prá pensar sobre o que me incomodava tanto. Cheguei a uma conclusão.

Mas precisa de historinha para contextualizar: no velório de um parente muito querido, a certa altura nos deparamos com uma mulher desconhecida de todos ali que estava muito solícita conversando com pessoas da família. A princípio ficamos tocados com o fato de uma desconhecida demonstrar tanta preocupação, mas depois de certo tempo começou a incomodar, havia uma insistência levemente fora do normal na cordialidade dela. Por fim nos demos conta que o que a atraía ali não era nenhum sentimento de compaixão ou solidariedade, era pura morbidez. Ela não estava ali por consideração, estava ali puramente satisfazendo um impulso mórbido de sua personalidade. Então a presença dela ali passou a ser insuportável para qualquer um de nós, uma indesculpável invasão de um momento difícil. Similar à ocasião em que, no velório de um amigo morto em um assalto, todos foram tomados de súbita repulsa ao descobrir um repórter em meio aos visitantes.

Outro dado: mortos famosos sempre atraíram curiosos mórbidos. O túmulo do Jim Morrison, o local onde John Lennon foi baleado, o túnel onde Lady Di morreu, todos esses e muitos outros são locais de visitação. os respectivos rituais fúnebres dos citados acima tinham repórteres aos montes. Esse tipo de invasão, tão perturbador para pessoas normais, é parte do pacote que vem com a fama. A morte de um famoso é pública, e isso não parece nos chocar muito. Mas quando o mesmo acontece com a gente, com a nossa família, com algum amigo, é profundamente perturbador. Não estamos acostumados com essa idéia.

Só que a internet e seus blogs e redes sociais fez de todo mundo um famoso em potencial. E o pacote da fama, mesmo pequena, vem com todos os inconvenientes característicos, inclusive a pouca privacidade do luto. Então creio que não é a manifestação de luto virtual que incomoda (pelo menos no meu caso), é a exposição desse luto para além do círculo de relações do morto, e a porta aberta para os mórbidos de plantão. E, também, o fato de que você mesmo pode de repente se encontrar na situação de estar ali visitando um perfil de um falecido com o qual você não tem nenhum laço, e então ter que encarar seus próprios impulsos mórbidos. O luto virtual pode revelar todo tipo de maluco mórbido que anda por aí, inclusive o que pode existir dentro de nós mesmos. Acho que tudo isso constrói esse desconcerto com o luto virtual.

O caso da menina morta pelo namorado em Santo André é bem significativo: milhares de pessoas compareceram ao velório, tiraram fotos, ficaram inconformadas com o pouco tempo para ver a menina. Correlatamente, o Orkut dela foi devassado, e as fotos presentes ali viraram corrente de email. Essas são manifestações de luto ou morbidez? Certamente de morbidez. Usando sua comparação das fotos de viagem na gaveta, é o equivalente a um desconhecido entrar na casa do morto, pegar as fotos e publicar em uma revista.

O que incomoda no luto virtual é a porta que ele abre para que isso saia do âmbito das celebridades e aconteça com qualquer pessoa.

E desculpe o comment gigante...

PermalinkPermalink 10.12.08 @ 02:05



Comentário de: Camila · http://rre.opensadorselvagem.org

Oi Alex,

Só queria deixar registrado aqui o que já te disse pessoalmente hoje:

- Não acho que deixar no ar o facebook ou o orkut de uma pessoa morta seja algo "inferior" ou "intrinsicamente ruim"; não estou "repudiando o fenômeno" e nem acho que "essa manifestacao de luto dessas pessoas seja menos valida". Eu, hein? Quem sou eu para saber do luto dos outros? Se isso é um facilitador do processo de luto de alguém, ótimo, parabéns, vá em frente & sucesso. Só estou dizendo que esse não é o meu jeito de elaborar as minhas perdas; e esse outro jeito, que não é o meu, provoca-me sim bastante estranhamento. Assim como, aliás, inúmeras outras coisas (quase todas, aliás) me parecem estranhas nas pessoas, mas nem por isso inferiores ou intrinsicamente ruins.

- Um morto sempre deixa muitas coisas para trás. Uma página no orkut, fotos, roupas, discos, uma casa, eventualmente livros que tenha escrito... Cabe aos vivos a penosa tarefa de inventariar tudo isso e decidir o que será preservado e o que será jogado fora. Apagar o orkut de uma pessoa querida não implica que eu vá jogar fora todo o resto que ela deixou. Implica apenas que eu considero os facebooks e orkuts das minhas pessoas queridas coisas descartáveis que podem ser jogadas fora uma vez que essas pessoas morram. Uma página do orkut e do facebook pode ser considerada obra de arte? Certamente. Mas não é o caso das páginas dessas pessoas que tenho em mente - eu me desfazeria desses perfis (pois para mim só têm alguma razão de ser enquanto as pessoas a eles correspondentes estão vivas), e preservaria muitas outras coisas. A menos, é claro - e isso nem escrevi isso no meu post porque já parto desse pressuposto - que a pessoa tivesse me pedido o contrário. Se algum amigo me disser, ei, quando eu morrer, deixa tudo no ar, obviamente serei a primeira a cuidar para que sua vontade seja realizada.

Então, Alex, tirar um perfil de facebook ou orkut do ar não equivale a sair numa cruzada pelo "esquecimento total" do morto. Esse raciocínio é tão absurdo quanto supor que a opção por não utilizar determinada palavra da língua portuguesa equivale a sair numa cruzada pela censura e queima de livros.

E agora com licença que vou voltar para os meus índios! :-)

PermalinkPermalink 10.12.08 @ 03:59



Comentário de: Monix · http://duasfridas.wordpress.com

Esse estranhamento, no fundo, é um medo (irracional) de que o morto responda. :P

Bjs

PermalinkPermalink 10.12.08 @ 09:57



Comentário de: Nadhiesda

Ale
minha morte ficou mais próxima a partir de ontem, fiz aniversário..rss nesse contexto recebi no orkut alguns "parabéns, felicidades etc, enfim...
Digo felicitamos o nascimento e costuma-se rejeitar completamente o fato da morte.
Aí me pergunto e se eu não tivesse lido aqueles scraps? Acho que qq manifestação de recordar pode ser válida , seja aos mortos ou aos vivos. Why not?

PermalinkPermalink 10.12.08 @ 10:59



Comentário de: Te

Depois eu leio com calma. Olha um link pra você, via Observatório da Imprensa
http://claudia.abril.com.br/materias/3181/?pagina1&sh=31&cnl=35&sc=
E também pra quem diz que não existe racismo no Brasil.

PermalinkPermalink 10.12.08 @ 11:30



Comentário de: Andre · http://acimadedeus.blogspot.com

Bom, eu acho que deixar uma flor no túmulo da pessoa meio idiota tbm. Mas entendo que as pessoas que fazem isso acreditam que estão, de alguma forma, contactando o falecido. Agora, escrever no jornal é bem idiota mesmo.

Eu não gostaria que excluíssem nada meu, mas que fechassem os comentários (no caso do orkut, como não dá, seria legal excluir sim, pra ninguém ficar deixando recadinho). Acho que quem deixa uma flor e vai embora não se importa em se mostrar (olha eu aqui, essa flor é minha, eu me importo com o morto!). Agora, quem deixa recadinho no orkut, acho que faz é pra aparecer.

PermalinkPermalink 10.12.08 @ 11:45



Comentário de: Lelé

VOCÊ É UM SOCRÁTICO PERFEITO!!

PermalinkPermalink 10.12.08 @ 11:49



Comentário de: aline · http://ateaquitudobem.blogspot.com

eu não disse que a resposta da camila ia ser bem mais interesante? :)

PermalinkPermalink 10.12.08 @ 12:44




qdo vc morrer deixe os pés pelo menos, hein?

PermalinkPermalink 10.12.08 @ 12:51



Comentário de: marcos

Pergunta: quem vai pagar o 'Pro' do seu Flickr?

Porque tenho certeza que eles não terão nenhum pudor pós-socrático, e logo que acabe a subscrição só vão sobrar 200 fotos no seu photostream.

Melhor já deixar uma verba no testamento. ;D

PermalinkPermalink 10.12.08 @ 13:01



Comentário de: Victor Barone · http://escrevinhamentos.blogspot.com/

"O perfil de uma pessoa no Orkut, assim como
os livros que escreveu, os filhos que criou,
a casa que construiu, as fotos da viagem pra
Salvador na gaveta do criado-mudo, são
vestígios que deixou pra trás. "

Concordo. Excelente artigo Alex. Li o post de
2004, gostei muito da forma como você abordou
o tema, extremamente humana.

PermalinkPermalink 10.12.08 @ 17:04




Comecei a escrever este comentário num post da Camila, mas vi que ele se dirigia muito mais ao teu, Alex. E achei suas questões bastante provocadoras, tanto que vi Camila e Aline desandarem a falar sobre o tema, hora revendo suas posições, hora refletindo e sustentando perspectivas parecidas às de início, embora com variações.

Quanto ao estranhamento, suponho que parte da tua crítica esteja ligada ao "sinal de negativo" que vi no estranhamento descrito pela Aline... Da minha parte, não vejo esse sentimento como crítica ou diminuição daquilo que é estranho, especialmente quando comparado ao que é próximo e/ou conhecido. Penso que o que importa é "o que fazer desse estranhamento". Diria mesmo que ele é vital, pois sem estranhamento — e aqui associo a palavra à idéia de "distância", a distância necessária para se enxergar algo, "ajustar o foco" — a gente não reflete sobre o que faz, diz, pensa, sente etc.

Dito isto, por mais que muitas das relações interpessoais tenham sofrido o impacto das novas tecnologias de comunicação — acelerando processos que antes demoravam... quase uma vida inteira! —, há questões que demandam tempo e dedicação para serem melhor processadas. Pelo que pude perceber, entre outras coisas vc enfatizou bastante o aspecto público do luto, e nesse sentido, que ele aconteça in loco ou na internet, em princípio, não deveria fazer lá tanta diferença, se o que se quer é de alguma forma demonstrá-lo. Mas não deixo de pensar: a quem se dirigem os recados deixados numa página do Facebook ou do Orkut? Aos parentes ou amigos do falecido? Até quando (o "prazo de validade") esse aspecto vale? Ouquêi, o prazo dos amigos e parentes é mesmo limitado, caso contrário não haveria ninguém nos túmulos do Jim Morrisson, da Carmem Miranda e de tantos outros, como vi mencionado num comentário acima. Então passemos logo a outro ponto: como avaliar a proximidade e profundidade da experiência do "comentador" em relação ao morto, sendo ela intermediada por tantas "facilidades ao alcance do teclado", tais como emoticons, textos em PPS encontrados depois de dois cliques, arquivos em mp3/wav/mid e sei lá mais o quê, que já estão prontinhos, bastando jogá-los no lugar certo, sem nem ser preciso encarar as clássicas "chuvas do dia de finados" feitas para aumentar a tristeza? (Vc é do Rio, sabe que chuva em finados é quase lei! ;-) )

Se do que se trata é da "eficácia do gesto em termos de visibilidade", basta que quem deixa o recado acredite que o destinatário o receberá — seja o morto, seus parentes ou a menina ou menino que freqüenta o tal perfil orkut-facebookiano do morto. Mas no que se refere à elaboração do luto, a ficar cara a cara com a morte — e por tabela, cara a cara com a perspectiva da própria morte —, esse virtual não dá muito bem conta do recado... E para o que acabei de dizer, te peço que esqueça a internet e pense no velho cinema, por exemplo. Por mais realistas que sejam os registros das mortes — em filmes de ficção ou em "documentários-verdade" —, o impacto de um morto "ao vivo" (desculpe se soou de mau gosto), especialmente se for alguém conhecido, é qualitativamente diferente, e muito mais profundo...

Posso me alongar ainda mais e falar, aparentemente contra meus próprios argumentos, sobre as tecnologias modificando a percepção do afeto pelo outro (e falo agora dos vivos), e nem preciso apelar para o caso do casal inglês que se casou e divorciou no Second Life. Basta pensar no (já velho) advento da ultra-sonografia e sua influência a respeito do amor materno — esse amor pela imagem daquele "caroço de feijão" mostrado ao som de Kenny G. —, comparando-o ao caso das mães sem acesso à tecnologia, vivendo em áreas de elevada mortalidade infantil, e que não sofrem tanto a perda de filhos se estes "ainda não vingaram" — expressão em desuso, mas não incomum em parte do interior do Brasil...

Bom, isto daqui já está longo demais, mas preciso me posicionar melhor em relação às manifestações virtuais de luto. Quer saber? Considero-as substitutos bastante precários para a elaboração desse luto. Certo, talvez eu devesse ler alguns desses livros que vc indicou antes de parecer tão convicto, mas deixo o registro do que penso antes de lê-los. De resto, melhor parar por aqui, já escrevi demais para um comentário só, e a culpa é do teu post!
:-)

Abs

PermalinkPermalink 10.12.08 @ 20:13



Comentário de: Kitagawa

Ricardo, se você acha que mandar um scrap pelo orkut não é uma maneira adequada de manifestar seu luto, então não faça isso, que pegue um avião para aparecer no velório lá em belo Horizonte, pegue na mão do morto, chore no ombro dos que ficaram, etc. Mas, sinceramente, não faz sentido ficar julgando a manifestação de luto dos outros. Quem somos nós pra ficar julgando isso? E qual o interesse em faze-lo? "Sua lágrima não é sincera", "seu lamento é puro teatro", "sua manifestação não passa de morbidez"... Não consigo imaginar coisa mais invasiva. E afinal, pegar um avião pra ir até Belo Horizonte prova alguma coisa? Levar flores para o tumulo é, tipo, uma forma de sacrificio que se faz para provar seus sinceros sentimetos em relação a quem se foi? Dá trabalho sair de casa, gastar uma grana com flores, pegar o transito pra ir até o cemitério? Há uma sinceridade intrínseca nesse tipo de atitude? A manifestação de luto é, sim, uma manifestação publica, ao mesmo tempo que é uma coisa totalmente pessoal.

PermalinkPermalink 10.12.08 @ 22:57



Comentário de: Alex Castro Email

Kita,

Muito obrigado. Era isso q eu ia dizer.

Escreveu o Ricardo, entre outras coisas:

"como avaliar a proximidade e profundidade da experiência do "comentador" em relação ao morto..."

O problema não é como avaliar, mas se devemos. Quer dizer agora que vamos fazer um campeonato pra ver quais demonstrações de luto são mais válidas que outras? Quem está mais "próximo" do morto? Quem demonstrou mais luto? Vamos criar a escala Richter de dor? E daí? Alguém tem direito de mensurar/validar o luto do outro?

Sim, façam o que quiserem com o luto de vocês, mas olhar alguém sofrendo a perda de um ente querido e vir dizer que o modo como essa pessoa sofre ou processa seu luto é inválida, estranha, repugnante, etc, me parece um comportamento terrível de alteridade zero.

Se tivessem falado simplesmente: "pôxa, isso EU nunca faria" e pronto, eu nem teria escrito o post.

PermalinkPermalink 10.12.08 @ 23:11



Comentário de: Pedro Cunha · http://www.dominiocultural.com

É estanho porque há motivo pra se colocar lá no orkut uma homenagem póstuma. Se fosse seguir esta sua premissa de que é a mesma coisa que colocar uma rosa num túmulo, qual seria então a diferença entre, ao invés de postar no perfil da pessoa morta, apenas em pensamento prestar-lhe um adeus? Nenhuma. Só que a pessoa coloca no orkut pra mostrar as outras que está lá, que é amiga, para que ninguém lhe acuse de omissão; ou por qualquer outro motivo. Externar sentimento de luto em orkut parece ter algum motivo por trás. Parece que a pessoa faz questão de mostrar o seu sentimento. É como você colocar no MSN, junto ao seu nome, (LUTO). A minha opinião é essa mesmo.. com a internet as pessoas começaram a gostar de mostrar para todos alguma coisa que ela sente. A flor por sua vez tem um significado pessoal e religioso. É como aquele texto mesmo que dizem ser do Arnaldo Jabour (e provavelmente é;), intitulado "nicks de MSN".

PermalinkPermalink 10.12.08 @ 23:32



Comentário de: rafael

Apagar a memória, o scrap ou qualquer coisa virtual é a primeira reação a morte, a tentativa de esquecer o falecido – vai-se reconstruindo o luto, depois quando se passa o trauma é bom ver as cartas, mas o estranhamento da sua amiga é compreensível, como entrar todos os dias na internet e estar ao lado do seu amigo falecido? Como a sua amiga iria trabalhar a perda desta pessoa. Não acho que se deva colocar fogo em tudo, ou deletar, mas isso acontece, é uma das formas de enfrentar a consciência da morte.

PermalinkPermalink 11.12.08 @ 00:35




o meu cometário ficou tao grande que virou post. amanha publico.

PermalinkPermalink 11.12.08 @ 00:57




Kitagawa — e Alex, que endossou seu comentário —, creio há uma ligeira confusão aqui. Julgando? Onde?

Fui extenso, e pelo visto, não muito claro. Então tentarei, mais uma vez — um pouco mais curto, prometo.

Quando indago sobre "a proximidade e profundidade da experiência do 'comentador'" no perfil de algum falecido, por exemplo, preocupo-me muito mais com esse comentador do que com o morto. Se relerem o meu comentário, verão que o meu interesse está muito mais centrado no processo de elaboração do luto do que se essa manifestação é percebida socialmente como sincera, profunda ou qualquer coisa do gênero. E nesse sentido, a enorme quantidade de "facilidades" que a esfera virtual oferece ao comentador podem até resultar numa expressão super bem avaliada por todos, uma mensagem de profunda dor. Mas a distância do processo, que aqui associo ao mundo virtual, tende a ser mais precária quando comparada a possibilidades no mundo "real", ponto. Diferente do que vocês parecem ter entendido, aqui pouco me importam as razões do autor da expressão de luto fazê-la virtualmente, se foi por não poder ou querer ir ao cemitério, se por ser fóbico, porque é longe e ao tem dinheiro para ir, se por estar com preguiça ou com coisas mais importantes a fazer. Não é nada disso a que me refiro. Elaborações de qualquer dor demandam tempo, idas e vindas. A velocidade da vida contemporânea — com o auxílio luxuoso da internet —, não tem facilitado tanto esse processo. Esse é o ponto, e não qualquer tipo de moralização sobre o que pode o não pode, o que é legítimo ou não em relação a manifestações relacionadas à morte de alguém.

PermalinkPermalink 11.12.08 @ 01:07




"Sim, façam o que quiserem com o luto de vocês, mas olhar alguém sofrendo a perda de um ente querido e vir dizer que o modo como essa pessoa sofre ou processa seu luto é inválida, estranha, repugnante, etc, me parece um comportamento terrível de alteridade zero." (Grifos meus)

Caro Alex, não reconheço nenhum dos meus argumentos nessa crítica, embora ela pareça dirigida tb ao meu primeiro comentário.

PermalinkPermalink 11.12.08 @ 01:13



Comentário de: Gustavo B.

Muito bom post, vou abandonar mais uma vez o habitual lugar de espectador para dar my two cents.

Me pareceu que a preocupação dela, mesmo não tendo se dado conta, é com o fato de mandarem mensagem pro falecido. E a transformação de um processo privado (choque, tristeza, mourning, aceitação, etc.) em algo público. Ou seja, o cara bota lá "Vamos sentir sua falta" mais por outro motivo qualquer (como por ex. cumprimento de sua parte, ou um sentimento gregário, ou até pra ficar "bem na fita") do que por realmente gostar da pessoa, e ela pensa "Vamos quem, cara-pálida? Você mal conhecia/não gostava dele!". E, pelo indício do cartão postal, o fato em si de enviar uma mensagem agrava a questão, talvez pelo fato de ser atéia.
A meu ver, há também a questão que, mesmo não acreditando em deus, vida após a morte etc, os humanos precisam (eu não, já venci essa prisão :) )de um ritual para um processo tão complexo e desconhecido como a morte, e simplesmente sentar a bunda na cadeira e escrever três palavras não lhes parece um ritual válido (e ainda por cima, por motivos torpes, como dito acima), e sim uma heresia para os religiosos, um desrespeito com o amigo falecido para os não-religiosos. Algo do tipo: é só isso que ele representava para você? não vai nem se dar ao trabalho de acender uma vela, entoar mantras, bater tambor?

Por fim de todas as perguntas que você fez, faltou a que definiria tudo isso e que as respostas às suas perguntas sobre o que ela faria com seu blog, livros, cachorro dão uma pista:
Se o perfil do morto no (insira aqui sua rede social) fosse bloqueado, não permitindo que nada fosse alterado ou inserido, mas continuasse lá para você ver quando quisesse, ainda pediria para apagá-lo?

PermalinkPermalink 11.12.08 @ 08:52



Comentário de: Maybe the Boy. · http://dmspacedreams.blogspot.com/

Boa a discussão, mas acredito que esse assunto esteja mais ligado com a intenção ou capacidade da pessoa que deseja prestar a homenagem.

Por exemplo: Seu amigo morreu. Você esta viajando e a noticia chegou ate você. Então, para demonstrar seu pesar você entra na pagina de recados dele e deixa uma declaração de seu pesar e demonstração de seu luto. Ao chegar de volta de viajem você de prontidão ja esta preparado para visitar o tumulo e prestar sua homenagem de "corpo presente".

Outro exemplo: Você esta na sua casa e seu vizinho falece. Então não ha motivos para você não prestar sua ultima homenagem a ele e não estar presente em eu velório, com certeza não ha nada que possa substituir sua presença lá e tão pouco ha algo que possa substituir a sensação que é estar lá. Mas, caso você se expresse apenas por um scrap em sua pagina de recado isso demonstrara uma grande falta de afeto com o seu vizinho, o que, nesse caso, torna a mensagem virtua de pesar uma péssim ideia.

Então, a conclusão que eu pelo menos consigo chegar é que não ha forma correta ou errada de demonstrar o luto, você deve apenas se esforçar um pouco para demonstra-lo, da forma que você achar mais conveniente e estando as duas formas sujeitas as "penalidades" da sociedade.

PermalinkPermalink 11.12.08 @ 13:51



Comentário de: Fernanda Dalles · http://fifolina.blogspot.com

Fico abismada com a sua capacidade de pensar profundamente, chacoalhar conceitos e fazer todo mundo refletir sobre qualquer coisa:de racismo a cocô de cachorro.

Muito obrigada por escrever.

Vim só engrossar o coro de seus fãs :)

PermalinkPermalink 12.12.08 @ 19:20



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