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Está nas bancas a última edição do diário carioca Tribuna da Imprensa, onde tenho uma coluna semanal desde 2003. O jornal está com dificuldades de manter a folha e depende da viúva lhe pagar o que deve pra continuar circulando. Abaixo, matéria do Estadão:
A Tribuna da Imprensa, jornal fundado por Carlos Lacerda em 1949 e um dos principais instrumentos da oposição da UDN ao segundo governo Getúlio Vargas (1951-1954), encerrado com o suicídio do presidente, anunciou ontem que não circulará a partir de hoje. Seu proprietário, Hélio Fernandes, ocupou toda a primeira página do diário com um artigo, sob o título “Esta Tribuna interrompe momentaneamente a sua circulação”, no qual ataca o ministro Joaquim Barbosa, do Supremo Tribunal Federal (STF), por suposta demora para dar sentença em um processo indenizatório que o jornal move contra a União desde 1979 por perseguições na ditadura. À tarde, Fernandes reuniu os empregados para comunicar que todos deverão aguardar uma solução em casa - sem salários.
O Estado procurou o ministro, mas a assessoria do STF informou que ele está de licença médica e não se pronunciaria.
“Uma repercussão nacional sensacional, o telefone não pára”, disse Fernandes, de 88 anos, diretor da publicação desde 1962 e que fechou a primeira página com o artigo em segredo, surpreendendo os funcionários. Ele comprou o jornal de M.F. Nascimento Brito, que o adquirira pouco antes do próprio Lacerda. Segundo Fernandes, o diário “paga o preço de 40 anos de resistência”. Imprimia, afirmou, de 18 mil a 20 mil exemplares diários e tem 64 empregados. Praticamente não tinha publicidade.
De acordo com a presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio, Suzana Blass, desde 1995 a empresa não paga Fundo de Garantia do Tempo de Serviço nem INSS. Após atrasos em outros meses (pagos sob ameaça de greve), os empregados não receberam os salários de outubro e novembro. “Cheguei um dia lá e não havia dinheiro para comprar tinta para impressão”, relatou Suzana. “Ele está com as contas bloqueadas. O vale-transporte e salários são pagos em dinheiro.” O diretor disse comprar à vista e garantiu que o que tem a receber supera o que deve.
Fernandes aposta na indenização para voltar a circular. A versão online deve continuar. Na ditadura, o jornal fez oposição aos militares, tendo sido submetido a censura prévia e apreensão de edições.
Leia também a última coluna de Hélio Fernandes.
A Tribuna, como todo jornal, é cheio de roupa suja que não vou lavar aqui. Mas é um jornal íntegro e digno, combativo e arretado, pobre mas limpinho, que sobrevive (sobrevivia?) de venda em bancas e assinatura, que não veicula propaganda da Caixa Econômica numa página e "apura" o último escândalo da mesma Caixa na página seguinte, essas coisas que se vê em outros jornais que pagam os funcionários em dia.
Em 2003, inovou ao chamar um escrete de blogueiros para revitalizar o gênero crônica em seu caderno cultural TribunaBis. Cecilia Gianetti, João Paulo Cuenca, Clarah Averbuck, Zander Catta Preta, eu, e muitos outros passaram por lá. Hoje, é normal, qualquer jornal tem blogs e blogueiros. Naquela época, foi revolucionário - e barato, claro.
Talvez não fosse um grande jornal, mas era com certeza uma voz única, uma perspectiva diferente, um outro discurso de mídia. Muito abaixo dos grandes jornalões e também muito acima dos pequenos jornais provincianos/de bairro, a Tribuna ocupava um estranho nicho só dela.
Como a morte de uma língua, o fim da Tribuna empobrece um pouco todos nós. A imprensa brasileira fica ainda mais chapa branca.
Talvez o jornal ainda volte. Talvez continue na internet. Veremos.
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