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Quando falei da questão das domésticas, muitos leitores me acusaram de anacrônico e anedotista. Ao mesmo tempo que diziam que não existiam mais domésticas e que eu estava falando de uma realidade passada, também afirmaram que eu não estava sendo científico, mas somente citando minha "experiência pessoal".
Enfim, para quem tiver interesse, apresento um trabalho de Antropologia Urbana realizado na USP em 2003: Entre a Casa e a Rua: A Relação entre Patrões e Empregadas Domésticas, por Gabriela Renata R. dos Santos, Patrícia Lagun Mesquita e Rafaela de Andrade Deiab.
Alguns dos melhores trechos:
Este artigo apresenta os resultados da pesquisa desenvolvida a partir do projeto intitulado originalmente "Projeto para Pesquisa de Campo em Antropologia", que se propunha estudar o trabalho doméstico enquanto uma instituição social brasileira a partir da relação entre empregadas domésticas e patroas. Algumas questões foram levantadas, como: "Por que essa relação existe de forma tão disseminada em nosso país?", "Por que é potencialmente conflituosa?", "Como se reproduz e se reinventa na sociedade brasileira ao longo do tempo?". Para responder estas questões, tomou-se como recorte a relação entre patroas e empregadas na cidade de São Paulo enquanto instituição peculiar, que estabiliza a vida familiar brasileira e situa-se num determinado nicho do mercado de trabalho.
[Comentário do Alex: "tão disseminada"?! As autores não devem ter falado com os meus leitores ou saberiam que essa instituição nem existe mais!]
A partir das falas das empregadas domésticas, pode-se perceber que "ir e voltar" é sempre preferível a "dormir no emprego", principalmente por causa da duração da jornada de trabalho. No segundo caso, a labuta estende-se até a última hora do dia, misturando-se a intimidade do empregado com a da família. O tempo para o descanso é reduzido e os limites entre o tempo do trabalho e o tempo do descanso se diluem. (...)
Quando foi perguntado a Sinhá o que ela achava de dormir no emprego, ela respondeu: "Deve ser horrível! Porque você tira a liberdade dos patrão tudo. Você sempre tá cansado... Acho legal assim: terminar o serviço e ir embora."
[Reparem que a doméstica assume imediatamente o ponto de vista dos patrões, e não o dela, pra justificar sua opiniões. Terá realmente introjetado esse ponto de vista? Ou será porque está sendo entrevistada por duas sinhazinhas? Aliás, o artigo nunca menciona que os nomes das entrevistadas foram trocados, então podemos presumir que Sinhá é o nome verdadeiro da doméstica em questão, pois teria realmente sido demais se as autoras escolhessem logo essa palavra como pseudônimo!]
[Alexandre, o dono da agência de empregos domésticos:] "Geralmente, a grande demanda, principalmente no caso do mercado em geral, não só pelo fato de ser agência, eu acho que é pra dormir no emprego. (...) A maioria [das domésticas] que procura a agência não quer para dormir, porque não pode. Ou porque tem filhos que não tem com quem deixar, ou tem marido, são casadas.... Então é o inverso: a grande procura de empregadas é pra arrumar empregos de ir e voltar. Já as patroas procuram mais a agência pedindo empregadas que dormem. Nós é que temos que destrinchar isso aí, nós temos que recrutar essas candidatas que podem dormir e aí... Eu acredito que procurem a agência justamente por ser mais difícil conseguir fora." (...)
O período de contratação da primeira empregada doméstica geralmente se dá por ocasião do casamento . As patroas passam a exigir da empregada que durma no emprego a partir do momento em que têm filhos, quando trabalham fora, ou porque a presença dela viabiliza idas ao cinema, jantares, ou, ainda, pelo simples conforto de ter uma ajuda a mais nas tarefas da casa, como no caso de Jane, que considera o serviço da empregada doméstica um facilitador que torna a vida mais agradável.
"Ajuda muito a vida da gente, simplifica, mas não sei se 'necessário' é a palavra certa. A gente pode fazer, tantos países não têm empregada e as pessoas fazem o serviço doméstico também, mas ajuda bastante. Torna a nossa vida mais agradável".Já Laíde considera indispensável, impossível, viver sem uma empregada doméstica:
"Pra mim não dá pra viver sem. É uma pessoa muito importante. Bastante, viu? Naquele trabalho pesado em casa, pois se eu quero produzir alguma coisa, desenvolver algum trabalho fora de casa eu preciso ter alguém que me ajude".Amanda pensa de modo parecido:
"Não dá para viver sem, hoje, ia implicar no meu desempenho profissional".É possível pensar que a dinâmica econômica impulsiona mulheres de estratos médios a buscar emprego fora de casa, ao mesmo tempo em que as leva a contratar outras mulheres como domésticas. (...)
[Para muitas mulheres pós-modernas, independentes, profissionais, a empregada acaba sendo aquela vítima que oferecem em holocausto no altar da domesticidade para poderem ter suas vidas próprias. Ao arranjar alguém que assuma as tarefas tradicionalmente femininas, as mulheres podem finalmente invadir o mercado tradicionalmente masculino - damatteando, ao encontrar quem tome conta da casa, podem sair à rua.]A casa é o lugar da família, dos laços de sangue. Nesse sentido, a empregada partilha da convivência familiar no espaço da casa, tornando-se "quase" da família. Contudo, no primeiro caso de desconfiança, quando some algo da residência, a primeira pessoa de quem se suspeita é aquela alheia à família. A empregada, que era "quase da família", torna-se "uma estranha", afinal de contas ela não tem sua origem na casa; ela vem da rua - o lugar do perigo e da inconstância - e talvez venha junto com ela a ameaça ao lar. A mulher do site, depois do acontecido, lamenta ter que contratar uma doméstica, considerando este tipo de trabalho quase um mal necessário: "sempre tive empregadas domésticas em casa, pois trabalho fora e preciso de alguém para me ajudar; mas, francamente, se eu tivesse alguma opção, optaria por nunca colocar uma pessoa estranha em minha casa." (...)
Nessa medida, mesmo as empregadas esperam algo mais do que uma relação formal com as patroas. Para Paula: "Uma boa patroa para mim não é dependente ao que ela me paga, uma boa patroa para mim é aquela que me valoriza (...) se eu precisar, ela estar ali para me ajudar. Quando ela precisar que eu a ajude, sem cobrar nada dela" (...)
[Em seguida, as autores citam várias domésticas que afirmam preferir patroas que pagam menos, mas as tratem melhor. Como diria um economista, as domésticas assim literalmente pagam para ser mais bem tratadas. A presidente do Sindicato é contra:]"Muitos patrões ainda ficam com aquela de dar roupa velha, roupa usada e dar isso e aquilo e o valor mesmo do trabalho eles não reconhecem. Entende? Como uma troca assim de alimentação, moradia e não vêem que hoje é um trabalho como os outros que tem que ter tudo mais, todos os outros direitos." (...)
Todas as vezes em que lhes foi sugerido se gostariam que seus filhos fossem empregados domésticos, todas negaram, até mesmo Dalva e Sinhá. Acreditam que é um ótimo emprego para quem não tem outra opção, como coloca Dalva: "Eu gosto. E sabe por que eu gosto? Porque eu não sei ler, pra eu arrumar um emprego numa firma... eu não sei ler... não tô arrependida do serviço que eu tô trabalhando, porque eu tô ganhando o meu dinheiro, pra mim fazer dele o que eu quiser. Então, eu tenho inveja assim, porque eu não sei ler. Mas se eu soubesse ler eu tava ni outro lugar." (...)
[A presidente do Sindicato dos Empregadores Domésticos do Estado de São Paulo, Dra Margareth, dá um depoimento apavorante. Reparem como ela acredita viver num país de oportunidades iguais: segundo seu discurso, todo mundo teria chance de chegar onde ela chegou; quem não chegou e precisou ser empregado doméstico, é por ser "indolente".]
"O nosso maior problema chama-se cultura. Muitas pessoas que trabalham, você vê, eu fiz três faculdades, duas especializações, não sendo custeada nem por pai, nem por mãe, nem por ninguém. Eu acho que temos que criar nossas oportunidades. Você é jovem, vai criar todas as suas oportunidades sem dúvida. Eu sempre trabalhei, desde os 17 anos de idade, eu sempre fiz meus horários eu me enfiava em cursos à noite, estudava de madrugada, às vezes eu estava saindo de casa quando eu reparava eu estava de pijama, são aqueles lances que você não dorme direito fica só estudando tal, então ... Eu criei minhas oportunidades, mas tem muita gente que não quer levantar às 4 horas da manhã - como eu levantei - para tomar ônibus, um trem, um ônibus, fazer a faculdade e voltar tomar o trem, o ônibus e outro trem para ir trabalhar. Levar ovo cozido na bolsa para você poder comer - eu fazia isso. Então, tem gente que não gosta de fazer sacrifícios na vida. Então, que que acontece? Não estuda, não procuram progredir, se contentam com o que têm. Então, que que acontece? Acontece que ficam pessoas aí sem cultura, sem condições de disputar o campo de mercado... Então essas pessoas para sobreviver vão bater na porta de um empregador doméstico, se oferecer para o trabalho, muitas vezes o patrão doméstico paga o empregado para ensinar o empregado. Existe hoje, quer dizer desde 72, a categoria do empregado doméstico, mas eles não são profissionais. Você vai mandar para escrever um recado, tomar nota de um recado, não sabe escrever... Infelizmente existe esse pessoal com a própria indolência." (...)
[Dra Margareth também é contra direitos trabalhistas "normais" para domésticas e explica:]
"O Brasil é o único pais do mundo que concede a essa categoria todos os direitos normais. Porque por exemplo na Europa, Itália, onde eu estive alguns meses lá, fazendo pesquisa, eu observei que são altamente qualificadas. Você paga, paga-se bem. Mas, em compensação, você paga, digamos, por uma limpeza, você recebe tua casa esterilizada. Aqui você paga uma faxina e encontra a sua casa muitas vezes deteriorada. Ou seja, quebraram tudo, teu vaso, tuas coisas, teu computador. Aqui, por exemplo, no escritório, quando eu mando vir faxineira, dependendo na faxineira, na segunda feira tem que chamar um técnico para consertar o computador, para ver o que está acontecendo, porque pepinou tudo. Então, quer dizer, não é um pessoal qualificado."
Uma empregadora que desabafou no site "A patroa e sua empregada" pensa da mesma maneira:
"O preparo dessas pessoas é simplesmente de chorar, e não porque o salário oferecido é pouco. No meu caso pago 3 salários mínimos, mais moradia, mais comida, mais INSS e encargos, sem descontar nada. Quando falo em 'preparo' não me refiro simplesmente à escolaridade, mas à capacidade de entendimento do mundo!" (...)No entanto, ao mesmo tempo em que exigem profissionalismo por parte das empregadas domésticas, as patroas se remetem a um passado idealizado ao dizer que "não se fazem mais empregadas como antigamente". Segundo Jane: "Acho que são os tempos. As empregadas não se submetem mais a serviços, ordens com antigamente."
[Bons tempos aqueles...]
Além disso, as condições de trabalho da categoria dificultam a articulação: muitas domésticas exitam em participar de uma organização política para não terem problemas com as patroas ou por medo de perderem o emprego. O fato de trabalharem separadamente, em casas, muitas vezes dormindo no serviço e tendo só o domingo livre, acentua a condição de isolamento que caracteriza o emprego doméstico, dificultando a comunicação entre suas executantes. Por exemplo, uma moça que foi entrevistada no STDMSP e que dormia no emprego disse: "Falei que ia ao banco para poder vir ao sindicato." (...)
[Como se pode ver pelo comentário acima, não é exagerada a comparação entre uma doméstica e um escravo ou um prisioneiro. Por morar no trabalho e não ter horas livres, a empregada simplesmente não tem (ou não percebe ter, o que dá no mesmo) direito de sair à rua sem precisar justificar suas idas e vindas. No caso, para ir a um lugar que a patroa poderia achar ruim, a moça é forçada a mentir. Ou seja, tudo, em sua postura e em seu discurso, faz lembrar muito mais uma criança, uma escrava ou uma prisioneira, do que uma mulher adulta e independente, desfrutando da sua plena capacidade de negociar com seu patrão.]A dinâmica da casa é peculiar porque menos permeável à lei, sendo, às vezes, até mesmo hostil a ela. Seu sentido próprio é pautado não pela regra pública e, sim, pelo ritmo da família que a comanda. Daí as empregadas não gostarem de dormir no emprego, pois se sentem coagidas por um regime familiar que não reconhecem como o de sua própria família, tampouco como regime de trabalho formal que idealizam para si ou para os filhos. (...)
Quanto às patroas, elas cobram profissionalismo e maior qualificação, mas ainda têm problemas para lidar com empregadas que possuam tais características, considerando-as, muitas vezes, insubordinadas: "não se fazem mais empregadas como antigamente". Apesar desses conflitos, quase unanimemente afirmam que não dá para viver sem essa mão de obra caso queiram participar elas mesmas do mercado de trabalho. Igualmente versam sobre a intimidade que compartilham com a funcionária, daí a exigência quase obsessiva de confiança e honestidade, enquanto as domésticas reclamam respeito e valorização.
Leia o artigo completo: Entre a Casa e a Rua: A Relação entre Patrões e Empregadas Domésticas, por Gabriela Renata R. dos Santos, Patrícia Lagun Mesquita e Rafaela de Andrade Deiab.
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