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A Rachel está tendo uma discussão digna do LLL lá no seu RioGringa, sobre o verbo "judiar", que horroriza qualquer estrangeiro aprendendo português.
Uma aluna minha, judia colombiana, ficou tão chocada quando expliquei o significado na palavra (aparece em "O Auto da Compadecida", que estávamos lendo) que eu, quase constrangido, pedi desculpas em nome da língua portuguesa. Ela está coberta de razão: é chocante. Traduzindo para o inglês dá pra se ter uma idéia do impacto:
"My son loves jewing the dog, he's so naughty!"
Os brasileiros (sempre em denegação) dizem que não, que é um verbo inofensivo, não tem nada de mais, blá blá. E ela pergunta: e se vocês chegassem nos EUA e tivesse um verbo chamado "to brazilianate", vocês iriam gostar?!
Conheço brasileiras que se ofendem até com a expressão "Brazilian wax". Outras, ficam revoltadas com a fama de puta das brasileiras - como se a prostituição não fosse uma atividade remunerada como qualquer outra! (Já escrevi sobre isso.) Portanto, fico aqui pensando, se houvesse mesmo um verbo "to brazilianate", provavelmente ele seria usado mais ou menos assim:
"Kimberly is such a slut, man! Can you believe she brazilianated me on the very first date?! Wow, bro!"
Sim, a palavra é tão corrente na língua portuguesa que a maioria dos falantes a usa sem nenhuma malícia. Nem se dão conta de que estão usando o nome de um povo como sinônimo de fazer maldade. A questão é: isso justifica o uso da palavra?
A palavra é nojenta. Ela é ofensiva aos judeus (que sabem BEM o que está por trás dela) e, vocês me dão licença, é ofensiva inclusive a mim, como falante da língua portuguesa. Se você a usa sem perceber sua carga de malignidade, a solução é tomar consciência disso e parar de usá-la, NÃO bradar sua ignorância como defesa e continuar usando.
* * *
No fim das contas, a questão é simples. Quem sabe da ofensa é o ofendido.
Aqui nos EUA, o povo usa latino e hispânico intercambiavelmente. Quando estou com saco, eu explico que não sou hispânico, pois isso quer dizer sangue ou descendência espanhola, e isso eu não tenho, mas que sou latino; que os brasileiros, assim como os haitianos e os guianenses, são latinos, mas não são hispânicos. E os americanos não entendem muito, eles continuam achando que hispânico e latino é tudo a mesma coisa, mas respeitam. Depois disso, ninguém mais me chama de hispânico.
Então, pouco interessa o que você pensa, seu gói insensível. Se os judeus acham o termo ofensivo, não use. É uma questão de respeito.
O texto continua abaixo da imagem.

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As Origens da Palavra Judiar
Perguntou uma leitora:
Sempre tive a dúvida: o termo deriva do fato de os Judeus terem sido muito maltrados ("Fulano judia dos cachorros" = "Fulano trata cachorros como os judeus foram tratados"?) ou da crença que os Judeus são cruéis, traidores ("fulano judia dos cachorros" = "Fulano age como um judeu quando se trata de cachorros"?)
Quem acha que "judiar" é uma palavra positiva também devem achar que "trabalhar como um negro" não é racista: "Poxa, Alex, como pode ser racista? A expressão quer dizer que os negros são esforçados, trabalhadores, tudibom! Como esse povo se faz de vítima, meu deus!"
Mas enfim, vamos ao dicionário. Segundo o Dicionário Houaiss:
Etimologia: judeu + -ar; f.hist. sXV ajudyar, 1713 judiar, sXVIII judear
verbo transitivo indireto: (1789) tratar com escárnio; zombar. Ex.: j. com a infelicidade alheia.
verbo transitivo indireto: (1881) tratar mal, física ou moralmente; atormentar, maltratar. Ex.: tem uma alma perversa, judia dos animais; judiava dele provocando-lhe ciúmes.
Outras fontes citam o livro "Os 'porquês' do Judaísmo", do Rabino Henry Sobel (São Paulo: Congregação Israelita Paulista, 1983):
"O significado está claro: não há nada de pejorativo. Não fomos nós que maltratamos. Nós, os judeus, fomos maltratados. E cada vez que usamos a palavra ‘judiar’, estamos conscientizando os outros. O termo não deve ser eliminado. Pelo contrário, é bom que o mundo se lembre do preconceito do passado, para que não o permita no presente e no futuro".
Respeito a opinião do rabino quanto ao sentido pejorativo do termo, embora tenha que dizer que a maioria dos meus amigos judeus não são tão contemporizadores. Mas, em relação à origem da palavra, confio mais no Houaiss.
Nenhuma fonte ou dicionário que consultei cita a palavra como tendo vindo de Judas, nome do traidor/delator de Jesus. Até que porque "judiar" não "significa" nem "trair" nem delatar, mas "maltratar". De qualquer modo, Judas (assim como Jesus, aliás) era judeu: o anti-semitismo dos cristãos começa todo com Judas, paradigma do judeu malvado avaro e ganancioso. Ou seja, mesmo se a palavra "judiar" viesse de Judas e quisesse dizer "se comportar como Judas", ainda assim teria uma carga grande de anti-semitismo.
O leitor Alexandre Lemke apontou o seguinte trecho de A Escrava Isaura, romance brasileiro de 1875:
"Coitada da Isaura. Deus te livre a você de estar na pele daquela pobrezinha! se vocês soubessem quanto penou a pobre da mãe dela! ah! aquele sinhô velho foi um home JUDEU mesmo, Deus te perdoe."
Não existe nenhum antecedente ou contexto para a palavra "judiar" ser usada como "tratar alguém como os judeus foram tratados". Essa é uma lógica moderna, politicamente correta, pós-holocausto, de quem vê os judeus como uma minoria ameaçada, que não faria nenhum sentido para a maioria dos falantes de português ao longo dos séculos.
Pelo contrário, a palavra "judeu", como no exemplo acima, sempre teve significado pejorativo na língua portuguesa. Chamar alguém de "judeu" significava chamado de avarento, mesquinho, perverso, tudo de ruim. Um blog português listou outras acepções negativas relacionadas, como:
Exemplo: “É um menino muito rabino”
RABINO adj., travesso; rabugento; buliçoso.Exemplo: “És mesmo semítico!”
SEMÍTICO adj., relativo aos Semitas. fig., avarentoExemplo: “Não faças judiarias”
JUDIARIA fig., maus tratos; chacota; pirraça; mofa; maldade.
Ou seja, dado esse contexto histórico e esse imaginário cultural anti-semita, fica realmente difícil de imaginar que o verbo "judiar", ao invés de seguir a prática corrente, signifique logo o seu oposto.
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Anti-Semitismo
Sempre que falo de racismo e preconceito, meus leitores gostam de dizer que essas coisas não existem mais no Brasil ou, pelo menos, que não são mais um problema. Muitos dos meus comentaristas discordam:
Problema deles. Se eles não gostam do Brasil, que voltem para o lugar de onde vieram. A língüa é nossa, não deles.
A culpa não é da língua portuguesa, ou da nomenclatura usada no Brasil. A culpa vem dos judeus mesmos. Começando por Estevão, Jesus, Polònia, Palestina, inocentes morrendo indiscriminadamente todos os dias na Faixa de Gaza (de quem é aquilo?), de ambos os lados, e finalmente da dificuldade de se esconder toda a cultura judia de ser sempre a primeira onde estiver, independente do local onde se desenvolva. Se um descendente de português nasce no Brasil, é brasileiro, filho de português. Se um filho de judeu nasce no Brasil, é judeu e pronto. Isso não é culpa da cultura brasileira. É culpa da cultura hebraica. Então,porque discutir isso no Brasil? Se estão incomodados, voltem para Israel e discutam sua forma de comportamento entre eles. etc
Talvez seja óbvio, mas vale a pena deixar registrado: um judeu brasileiro é tão brasileiro quanto um católico brasileiro ou um evangélico brasileiro ou um árabe brasileiro. A língua portuguesa pertence tanto à judia Clarice Lispector (na minha opinião, o maior escritor que nossa língua já teve) quanto a qualquer um dos retardados que comenta nesse blog.
Abaixo, o melhor texto que já li sobre anti-semitismo:
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http://www.interney.net/blogs/htsrv/trackback.php/27777 Posts similares:
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