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Atualmente, estou escrevendo um romance sobre empregadas domésticas, por acreditar que esse tema é delicado, importante e relevante. Numa terra de tantas injustiças e desigualdades como a nossa, talvez seja uma das ocupações mais desiguais, onde a nossa herança escravista se revela mais forte e mais viva.
"É Um Emprego Como Outro Qualquer, Alex! Todo Empregado É Explorado!"
Nem todo mundo concorda, claro. Em primeiro lugar, muitos leitores descartam a importância do assunto dizendo que é um emprego como outro qualquer.
Da mesma forma que vc contrata um vendedor, um garçon, um professor, vc contrata uma empregada domestica ou uma faxineira, é um contrato de trabalho onde a pessoa cotratada sabe qual o serviço que deve ser feito e quanto está ganhando para fazê-lo, acredito sim que seja um contrato de trabalho como outro qualquer, elas não estão fazendo um favor a você e nem você a elas, é uma troca.
Nesse post, explico que, justamente, o que torna o trabalho de empregada doméstica mais próximo da escravidão do que mesmo de um emprego mais humilde (como garçom e operário) é um certo discurso doméstico-familiar traiçoeiro. Ela mora na casa mas não pode trazer amigas ou namorados para o seu quarto, ou mesmo usar as áreas sociais em suas horas de lazer. Ela tem poucas horas de lazer, pois está sempre a disposição. E não pode se recusar a fazer nada (inclusive até, em casos extremos, sexo) porque não tem descrição definida de emprego. Apesar disso, é uma "pessoa da família".
"Na Minha Casa Não Era Assim Não!"
Uma das coisas mais fofas que aconteceram foram os leitores que disseram que não, na casa deles não era assim:
Nao concordo, eu entendo, voce era rico, tinha este tipo de empregada e esta soterrado de culpa, mas nao é em toda casa assim nao. Na casa da minha tia por exemplo, ela pegou uma "menina pra criar", que eu soh fui saber que nao era da familia quando a minha tia morreu... Ela fazia realmente parte da familia, ajudava bastante na casa, mas eu sempre achei que era por cortesia do que obrigaçao (mas eu devo estar errada). Hoje ela mora sozinha na casa da praia da minha tia como caseira e trabalha como faxineira nas outras casas.
Eu sou completamente amoral e sou incapaz de sentir culpa. Mas, mesmo se sentisse, eu sou vítima da mesma cegueira que vocês. Eu também já cheguei a ter dez diferentes empregados domésticos em casa em uma dada época e eu juro por tudo o que é mais sagrado que todos eram felizes, bem tratados, bem pagos e, mais importante, me amavam muito. Eles contavam altas histórias de horror dos outro patrões, aquelas pessoas horríveis, mas ainda bem que lá em casa não éramos assim. Não mesmo. Pôxa, eu tinha nove anos, mas eu me lembraria!
Enfim, essa ilusão reconfortante eu também tenho. A diferença é que eu sei que é ilusão.
Alguns leitores entenderam o que eu quis dizer:
Achei muito bom..... Sabe sempre achei que você exagerava com essa coisa de empregada.... (...) Sua descrição de como funciona a "Live-In Maid" me pareceu muito convincente, e realmente relembra muitissimo a escravidão.... A gente da casa e comida, e ela faz tudo que a gente mandar, e ainda não tem direito a mais vida pessoal do que é conveniente para nós, afinal, ela mora no nosso teto, come a nossa comida, então temos todo o direito de impor limites.....
"Hoje, isso não existe mais. Acontecia em Outra Época/Em Outras Regiões."
Outros levantaram objeções históricas ou geográficas. Disseram que pode até ser que fosse assim, no passado, em outras regiões, mas não existe mais essa doméstica que mora em casa. "Na minha cidade, nunca vi." "Nenhum dos meus amigos têm." "Logo, não existe." (Se eu usar essa lógica, imaginem quanta coisa vai deixar de existir!)
Vc estah retratando as empregadas domesticas dos anos 70-80 no RJ e SP. Foi-se o tempo que as familias de classe media tinham "live-in maid". (Evidencia fajuta: nenhum dos meus amigos 35-45 anos, professores universitarios, tem empregada domestica).
A live-in maid ta em extincao faz tempo, pelo menos na classe media. Escutei casos assim dos pais dos amigos, e de meus pais, mas eu e o pessoal da minha geracao(todos nos 30 atualmente) ja nao tivemos empregada que dormisse em casa, exceto em raros casos. O caso de pegar pra criar, novamente, so de ouvir contar e encontrar as donas de 50 anos que tinham ido trabalhar assim. Nunca conheci uma mocinha do interior que estivesse trabalhando em BH, SP, POA, "pegada para criar"... Mas claro, para agradar esquerdista gringo, essa peca de ficcao e mais interessante. Se voce delimitasse uma janela, algo como 1950-1980(ou ate 90) o texto poderia ficar razoavel.
É grande a ânsia dos leitores de não se sentirem culpados, de poderem lavar as mãos de boa-fé. "Esse problema existiu, mas é do passado." "Ele existe, mas só na sua terra." "Ele existe na minha terra, mas é na casa dos outros!" "Pô, Alex, eu não tenho nada a ver com isso, eu juro." Qualquer coisa pra poderem se sentir limpos, puros, inocentes.
Muitos leitores admitiram que a instituição das domésticas é bastante comum em suas regiões:
O que eu estou notando é que as pessoas que estão comentando aparentemente se referem aos estados do Sul-Sudeste como sendo o padrão no Brasil. Não sei como são as coisas de verdade aí em baixo, mas no meio em que eu vivo, as live-in maids são extremamente comuns. No prédio onde moro, não lembro de um apartamento que não tenha uma empregada doméstica. O caso do "peguei pra criar" também é muito comum. É uma realidade triste e humilhante, é verdade. Para mim, o mais doloroso na hora de pedir desculpas é que não se trata de uma lembrança distante, mas de algo que está acontecendo agora mesmo, enquanto escrevo. E pensar que tem gente comparando limpar privada, lavar roupa suja, arrumar bagunça alheia, trabalhar 12 horas por dia e não poder trazer amigos ou namorados com um bico temporário que exige que a pessoa atenda telefone e carregue caixa com material. Eu, hein...
Sou advogada, pretento escrever um texto sobre o tema empregadas domésticas e as discrepâncias legais entre estas e outros trabalhadores. achei muito interessante as colocações feitas, no entanto, estou espantada em descobri que vivo no século passado, pois não conheço nenhum colega do meu meio social que não tenha empregada doméstisca que durma em casa,aliás a disponibilidade para dormir, é quase que uma condição para a contratação. Moro numa cidade de cerca de 350 mil habitantes, a terceira maior da bahia, e por aqui, como na maioria do Brasil as diaristas, são raras...
Obviamente, o Brasil é um país gigantesco. Eu não conheço o Brasil todo. Eu não sei quais problemas afetam de qual maneira cada cidade do Brasil. Mas eu sei é que essa questão é uma questão válida e importante MESMO se ela realmente não existir na sua cidade.
"Comparar com Escravidão É Forçar Muito a Barra!"
Depoimento de uma leitora:
hoje eu conversei com a minha faxineira e ela me contou que morou/trabalhou numa casa antes de ter a filha e disse que era um saco pois ela era babá e depois que a nenem dormia, ela tinha que ficar só no quarto dela, dai eu perguntei o que ela ficava fazendo e ela disse que depois de um tempo eles colocaram uma tv pra ela, e que as vezes ela lia, mas que era foda pois a crianca ia dormir umas 7 horas da noite e ela ficava esperando até a hora de dormir. dai eu perguntei por que ela nao saia pra dar uma volta, tipo 7 horas ainda esta de dia as vezes, ela podia ir num shopping, cinema, sei lá qualquer coisa, dai ela disse que os patroes nao deixavam ela sair porque tinham medo que ela fosse rendida por algum ladrao quando estivessem entrando no predio. dai eu perguntei se eles nao saiam, ela falou que sim e eu perguntei se eles nunca tinham sido rendidos.
Difícil de imaginar uma história como essa acontecendo em um país sem um forte passado escravista.
A bibliografia (e as histórias que eu escuto) são repletas de empregadas domésticas que são virtuais prisioneiras e escravas. Até hoje, conheço gente que deixa a diarista em casa, sai e tranca a porta, deixando a pobre moça presa até voltar. Nada mais comum do que empregadas que moram no serviço terem seu direito de ir e vir severamente cerceado. Naturalmente, que elas não são realmente escravas nem prisioneiras, e podem exercer muita negociação e resistência sim, mas os escravos e prisioneiros também.
O caso acima não é nem único nem incomum. Querem que eu conte mais um e mais outro? Quantos precisarei contar até se convencerem? Tem algum número mágico?
"Você Está Pegando Meia Dúzia de Casos que Nem Acontecem Mais e Extrapolando pro País Todo!"
Por fim, me acusaram de anacronismo e anedotismo, de falar de uma situação que não existe mais e de não citar bibliografia. Bem, a bibliografia é pouca mesmo, mas existe e eu a consultei quase toda. Nada do que eu falo, nadinha mesmo, vem da minha experiência pessoal - porque, assim como os leitores, eu também acho que na minha casa tudo era perfeito e todos eram felizes.
Infelizmente, é óbvio que não vai existir nenhum estudo sobre a situação das empregadas domésticas em todo o Brasil hoje, agora, nesse minuto. Um dos trabalhos mais recentes, um estudo de campo de Antropologia, é sobre a cidade de São Paulo em 2003, e você sempre pode dizer, "ahh, São Paulo, lá é tudo fudido mesmo, aqui na minha terra não tem isso, e 2003 já faz tempo, muita coisa muda em cinco anos!", mas você só vai estar demonstrando que não entende como funciona um trabalho acadêmico. Outros trabalhos que consultei tratavam de Niterói (2000), Campinas (2001), Vitória (2003, 2007), etc.
Abaixo, estão alguns títulos. Como li, fichei e anotei esses livros, pretendo compartilhar com vocês, ao longo das próximas semanas, algumas das minhas anotações - se ainda houver interesse.
* * *
Barbosa, Fernando Cordeiro. Trabalho e Residência. Estudo das Ocupações de Empregada Doméstica e Empregado de Edifício a Partir de Migrantes Nordestinos. Niterói: Editora da UFF, 2000.
Estudo antropológico e sociológico sobre porteiros e empregados de prédio de modo geral, e também domésticas. O trabalho foi feito bastante recentemente, em Niterói, que é uma das cidades com maior IDH do mundo. Ou seja, até mesmo em lugares ricos e bons de se viver, as pessoas têm domésticas... Os porteiros sofrem os mesmos tipos de limitação, moram nos prédios, não tem espaço pessoal, tem que estar eternamente a disposição dos moradores, etc. Também interessante é a questão da masculinidade às vezes exacerbada dos porteiros, muitos migrantes nordestinos, com a natureza doméstica, feminina, servil do trabalho.
Costa, Fernando Braga da. Homens Invisíveis: Relatos de Uma Humilhação Social. São Paulo: Globo, 2004.
Literariamente, o melhor. Profundo, lindo, fortíssimo. O autor era aluno de pós-graduação de Psicologia e, como parte de um trabalho para a disciplina de Psicologia Social, teve que exercer algum emprego "humilde" - definido como não exigindo qualquer tipo de treino ou experiência. Tornou-se gari da USP e experimentou na pele a humilhação e a invisibilidade.
Kaufman, Tania. A Aventura de Ser Dona-de-Casa. Rio de Janeiro: Artenova, 1979.
Interessantíssimo. Um manual para patroas sobre como "gerenciar" suas empregadas para elas renderem o máximo. Continua atualíssimo e é apavorante. Lembra muito, às vezes palavras por palavras, uns manuais aqui do Sul dos EUA sobre como gerenciar escravos. A autora é irmã da Clarice Lispector.
Kofes, Suely. Mulher, Mulheres. Identidade, Diferença e Desigualdade na Relação entre Patroas e Empregadas Domésticas. Campinas: Editora da Unicamp, 2001.
Em termos acadêmicos, o melhor. Kofes estuda a relação entre empregadas e patroas em Campinas, especialmente em termos de disputa de feminilidade. Muito bem pesquisado, pensado, argumentado, repleto de entrevistas e estudos de caso.
* * *
Os três artigos abaixo estão disponíveis na internet. Em breve, falarei mais deles:
Brites, Jurema. "Serviço Doméstico: elementos políticos de um campo desprovido de ilusões." Campos (UFPR), Curitiba - PR, v. 03, p. 65-82, 2003.
Brites, Jurema. "Afeto e desigualdade: gênero, geração e classe entre empregadas domésticas e seus empregadores." Cadernos Pagu (UNICAMP), v. 1, p. 91-110, 2007.
Deiab, R. A.; Mesquita, P.; Santos, R. R.. "Entre a Casa e a Rua: a Relação entre Patrões e Empregadas Domésticas." A Graduação em Campo II: Seminário de Antropologia Urbana das Ciências Sociais, 2003, São Paulo.
* * *
Um consolo: pesquiso domésticas faz tempo mas não falo disso sempre por medo de entediá-los até a morte. Entretanto, parece que o tema interessa a muitos leitores. Ainda assim, pra não torrar a paciência de vocês, vou tentar limitar o assunto a um post por semana.
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