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Onde É sua Casa?

Dou aulas de português para universitários em Nova Orleans. Essa semana, como parte das nossas dicussões em classe, perguntei aos meus alunos que jornais eles liam, no mínimo, três vezes por semana.

Dos 16 alunos, 9 citaram o New York Times - para 6, como a única fonte de informação. Somente 2 citaram o Times-Picayune, jornal local de Nova Orleans. Nenhum outro jornal teve mais de 2 menções, incluindo aí El Pais, Wall Street Journal, Washington Post.

Nenhum dos meus alunos é de Nova Orleans. A enorme maioria, quase todos de fato, está no seu primeiro ano na cidade - seja por estarem começando a graduação ou a pós-graduação. Boa parte cursa Letras-Espanhol ou Estudos Latinos-Americanos.

E nenhum, nem um único, citou um periódico de sua cidade natal.

Eu revelei os meus: O Globo e O Dia, pra saber as notícias da minha terra; Times-Picayune, pra saber sobre a cidade onde moro; CNN, pra saber do mundo; Granma, Miami-Herald, El País ou Agencia Cubana de Noticias (alterno entre um dos quatro, pois cada um conta somente um lado da história), para saber sobre o país que estudo.

E então perguntei: nenhum de vocês realmente lê algum jornal de suas cidades natais? Não tem interesse pelas notícias de casa? Don't you want to know what's happening back home?

E um dos alunos, postura bem blasé, encostado na cadeira, pernas cruzadas, joelho pra cima, tascou essa, certeira:

"Home is here now." (Casa agora é aqui.)

Todo mundo balançou a cabeça, concordando.

* * *

Não sei se é uma coisa minha ou se é uma diferença entre brasileiros e americanos. O Idelber, por exemplo, ao mesmo tempo em que se sente absolutamente em casa em Nova Orleans, também continua se sentindo absolutamente mineiro.

Eu? Não sei. Pra mim, casa é o Rio. Pode ser que mude, mas vai demorar muito tempo.

Quando eu dava aulas para crianças pequenas e os alunos queriam me chamar de "tio", eu sempre corrigia: "tio é o irmão do papai, ou o irmão da mamãe. eu sou irmão do seu pai? eu sou irmão da sua mãe? eu sou seu professor e me chamo Alex. Você pode me chamar de "professor", "Alex" ou "professor Alex", mas não de "tio"."

Tem gente que acha isso insensível mas é parte do processo educacional. As crianças, em uma fase em que estão descobrindo o mundo e descobrindo a língua, precisam começar a aprender que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Cachorro é cachorro, não é gato. Professor é professor, não é tio.

Pois é, eu não achar Nova Orleans minha casa não é porque eu não gosto de Nova Orleans, assim como eu não deixar os alunos me chamarem de Tio não é porque não gosto deles, mas uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

O Rio é uma cidade incrível, linda, culta, cosmopolita. Por ter crescido em uma cidade assim, eu hoje sou um cidadão do mundo que pode morar em qualquer lugar e ser feliz. Não sei nem se, algum dia, ainda voltarei a morar no Rio, mas não consigo me imaginar deixando de me sentir carioca, não me interessando pela política ou notícias locais, não sentindo o Rio como "minha casa" e "minha terra" - no sentido mais profundo, concreto e visceral que essas expressões podem ter.

* * *

Claro que tudo pode ser muito mais simples. Como explicou um amigo:

"Você tem que entender, Alex, que nem todo mundo nasceu em uma cidade interessante, capital cultural, etc. Quase todos os seus alunos vieram de cidades minúsculas, no interior de estados obscuros, onde o único jornal é não apenas hiper-conservador como também hiper-provinciano. A coisa que eles menos querem saber é quem venceu o concurso local de Miss Tomate 2008."

Ah, tá.

* * *

E você, leitores que moram longe das cidades onde nasceram? Como se sentem?

 Rio de Janeiro  Rio de Janeiro

 

25.11.08


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Comentários, Trackbacks:


Comentário de: Renam · http://renam.net

Alex,

Bem, sou baiano. De São Salvador. Tipicamente soteropolitano. Da baianidade não abro mão. Mas, também sinto-me do mundo.

Há quase cinco anos moro fora de Salvador, três dos quais em sua terra, no Rio de Janeiro. Cidade maravilhosa!

Antes de sair já conhecia um pouco de outros lugares, outras culturas, outras pessoas. As viagens do movimento estudantil permitiram descobrir um mundo maior, de lugares menores e assustadoramente maiores.

Os laços que tenho com a terra natal são mais culturais, afetivos. Terra rica, de pessoas maravilhosas. Quanto ao enraizamento territorial, a tal da territorialidade, não tenho raízes.

A internet é uma das principais responsáveis por me sentir a vontade. Leio o A Tarde, blogs locais. Tenho um número (voip) de Salvador, outro de São Paulo. Mantenho o contato necessário com amigos de todos os lugares. Não sei onde será a próxima parada. Não sei se volto. Sinto-me um baiano, cidadão do mundo.

PermalinkPermalink 25.11.08 @ 08:16



Comentário de: Madalena · http://www.somemadeleines.blogspot.com

Olá Alex,

Eu morei um tempo em Montreal, cidade linda, cosmopolita, fria. Um dia, já um pouco cansada de tanta neve e com saudades do suco de maracujá feito na hora, ouvi uma amiga canadense comentar algo do RJ, eis a história:

- Carol, I saw RIO on TV yesterday. (cleaning)
- Yeah? What? (doing the dishes)
- I saw they killed three or thirteen people in a bar yesterday.
- Oh, you´ve seen? It´s not 13. It´s 30.
- Thirteen?
- No! Not one three, it´s three zero. (continued doidn the dishes)
- 30????? (stopped in front of me with crazy eyes)
- Yeah.
- But there were kids! And is it true that the killer were police cops?
- Yeah.

----------------

E assim foi...ela tentou entender por horas por que diabos para mim parecia compreensível que policiais estivessem em guerra com traficantes nesta linda cidade. Eu entendia. Para mim, era meu povo e minha terra. Neste dia, em vez de querer ficar, quis ir embora imediatamente. Liguei pra companhia aérea e adiantei minha passagem.

Saindo de Montreal: uma última foto das ruas quadradinhas e brancas da cidade vista do alto do avião.

Chegando em SP: chorei ao sobrevoar o caos onde nasci, ruas tortas, pequenas, encaracoladas, misturadas: isso sim, eu entendia, isso sim, era eu.


PermalinkPermalink 25.11.08 @ 08:53



Comentário de: Karina

Sabe qual outro sintoma para ver onde você considera a sua casa? As previsões de tempo. Meu marido é paulistano, nascido lá. Está em Curitiba há pouco mais de dois anos. Esses dias, vendo as previsões de tempo, perguntei a ele qual o estado no mapa do
Brasil que ele olhava primeiro e ele disse que era São Paulo. Isso que estávamos em Curitiba.

PermalinkPermalink 25.11.08 @ 09:03



Comentário de: mauricéia

sou do RS e moro em Salvador, todo dia leio on-line os 2 jornais daqui, depois o de minha cidade lá do interior, os de SP e por último a Zero Hora, jornal de maior circulação do RS, deixo este por último pois leio com mais atenção as notícias, crônicas, tudo, acho ele mais interessante!

PermalinkPermalink 25.11.08 @ 10:53



Comentário de: Edson Forão

Alex,

Sou de Piracaia, interior de SP. Moro em Sao Paulo, devido ao trabalho.
Adoro minha cidade, tenho muito orgulho em ser caípira, em ser piracaiense. Sempre falo da cidade a todos, mesmo sabendo que só voltarei a morar lá, quando me aposentar, ou não.
Leio a Folha de São Paulo diariamente, além dos portais G1, Abril.com e Folha online. Em Piracaia, infelizmente, não há nenhum jornal com página na Internet, há apenas jornais impressos semanalmente, distribuidos gratuitamente pelo comércio da cidade.
Meu pai, quando vai para lá, trás um exemplar. Somente assim, eu consigo saber alguma coisa.

Abrçs

PermalinkPermalink 25.11.08 @ 11:02



Comentário de: Anna C. · http://mistral-gagnant.blogspot.com

Sou paulistana, moro na Grã-Bretanha. E lar é onde eu penduro o meu chapéu, como dizem por aqui. Por enquanto, é numa ilha perto da Europa. Ano que vem é na maior cidade das Américas. E depois inverte de novo. Eu escolhi viver assim e adoro.

Pego notícias de SP na internet, mas fica complicado relacionar com o dia-a-dia que eu vivo aqui. Então eu só leio para saber o que minha mãe vai comentar no telefonema de fim de semana!...

PermalinkPermalink 25.11.08 @ 13:36



Comentário de: Esprit de porc

Déjà vu.

PermalinkPermalink 25.11.08 @ 13:51



Comentário de: Rachel · http://riogringa.typepad.com

Eu considero o Rio a minha casa, apesar do que nao vou ficar aqui para sempre. Para mim, minha casa e onde coloco raizes de alguma maneira, e por isso me sinto que tem casa em Nova Iorque, aqui, na Republica Dominicana, e em Washington. O que acontece nos EUA, principalmente com as universidades urbanas, e que muitos estudantes ficam na cidade da faculdade depois de se formar, entao para eles realmente e a nova casa. Notei que os estudantes da Nova Iorque tendem a voltar para NY, mas os de cidades pequenas muitas vezes acabam ficando no mesmo lugar da universidade. E um costume bem diferente daqui.

PermalinkPermalink 25.11.08 @ 16:26



Comentário de: regina

Eu sou paulista, morei em Londres 30 anos e moro na Franca ha 2 anos. Sai de SP em 76, ou seja, nao tinha internet nem nada disso. Quando apareceu a internet eu ja tinha perdido o tesao de saber o que estava acontecendo em SP. Tive 2 filhos na Inglaterra a acabei me integrando ao dia-a-dia britanico. Visitamos o Brasil varias vezes (bem menos do que eu gostaria, mas cade o $$$?). Hoje em dia me sinto meio sem-patria. Noticias do Brasil me deixam um pouco incomodada, nao entendo direito o que anda acontecendo, me sinto "por fora". Gosto de saber o que se passa em Londres e na Inglaterra, mas so pra confirmar que sai de la em boa hora, aquilo esta um horror. Moro numa cidadeca pequena onde nao acontece quase nada de muito especial em termos de noticia. Passo horas na internet, leio um monte de blogs brasileiros, visito um monte de sites de todos os cantos. De vez em quando (deitada na cama, antes de dormir) eu "viajo" por Sao Paulo: Av Paulista, desco a Reboucas, subo a Consolacao, a Av Angelica, passeio bastante. Mas e Sao Paulo de trinta e tantos anos atras. Acho que e porisso que eu me sinto meio estranha lendo noticias atuais, parece outra cidade, uma cidade que eu nao conheco. Mas continuo gostando de ser brasileira, meus filhos curtem o fato de serem meio brasileiros, enfim... Agora vou ficar com a pulga atras da orelha, sera que eu deveria ter mais interesse sobre o que acontece em Sao Paulo?

PermalinkPermalink 25.11.08 @ 17:06



Comentário de: Fernanda

Alex,

Boa tarde!!! Sempre passo por aqui, mas nunca comentei, apesar das discussões serem sempre muito interessantes.
Mas o texto de hoje me motivou, moro a 400 km da minha cidade natal e tenho um interesse genuíno em tudo que acontece por lá. Leio o jornal local, sites de locais e tudo mais.
Acho que isso acontece, pois é onde aconteceu minha história da infância até a fase adulta.
Acho impossível não me importar com os desmandos políticos e a onda de violência que tomou Londrina no Paraná.
Estou feliz onde estou, mas me preocupo com as pessoas que ficaram.
Mas, endendo seus alunos. Acredito que este sentimento vem com o tempo a maturidade.

Bjs e tudo de bom!!

PermalinkPermalink 25.11.08 @ 17:35



Comentário de: Cristiane Schwingel

A minha casa fica onde eu cresci, passei minha infância e adolescência. Quando me refiro ao lugar constantemente falo “lá em casa”.
Não tem a ver com o fato de ter sido o melhor lugar que já morei, o sentimento é de proteção.
Moro em Goiânia, sou do interior do Paraná, já morei em outros lugares neste entremeio, mas diariamente olho o jornal da minha cidade natal, como se fosse para estar lá um pouquinho todos os dias.
Gosto muito de onde estou sem pretensões de voltar, mas quero saber o que acontece por lá, inclusive a previsão do tempo. 

PermalinkPermalink 25.11.08 @ 18:11



Comentário de: Wanderson · http://wanlima.blog.terra.com.br

foi de propósito que repetiu o post?

PermalinkPermalink 25.11.08 @ 18:34



Comentário de: Alex Castro Email

nao repetiu post nao...

PermalinkPermalink 25.11.08 @ 18:37



Comentário de: Viviana

Sou paulistana e moro na Califórnia há três anos. Uma das minhas dificuldades com a mudança de país foi entender que, quando se tem duas casas, não se tem nenhuma. Se estou aqui, sinto falta de São Paulo. Se estou em São Paulo, sinto falta daqui.

Pensando bem, minha casa é onde estão meus gatos. :-)

PermalinkPermalink 25.11.08 @ 20:58



Comentário de: Te

Casa pra mim é onde me sinto bem. Não tenho boas recordações da cidade onde nasci (São João de Meriti, Baixada Fluminense) e não me interesso pelo que acontece por lá por que é tudo cada vez pior do que eu conheci: maus políticos governando, crimes, pobreza. Tenho o sentimento totalmente oposto ao do Férrez pelo Capão Redondo. Se tem algum lugar que eu posso chamar de casa é o Rio.
Seu amigo tem razão. Vai que os alunos vieram de cidades pequenas em tudo e os jornais só publicam coisas como o casamento do filho do prefeito. Isso quando a população não precisa ler jornais de fora pra saber de algum escândalo envolvendo a elite local pois o jornal da cidade se borra de medo de falar no assunto.
Tá passando na HBO uma minissérie sobre isso de descobrir um mundo novo mudando de cidade: Alice, do Karim Ainouz (diretor de Madame Satã;). Vi só um capítulo mas parece bom, tomara que saia em DVD.
http://www.alice-hbo.tv

PermalinkPermalink 25.11.08 @ 21:17



Comentário de: Filipe

Claro q repetiu, Alex. O post já tem uns 3 meses. Eu até ia "reclamar",mas o post continua gerando comentários bem interessantes.

Então...é inédito! =)

PermalinkPermalink 25.11.08 @ 22:59



Comentário de: Alex Castro Email

repetiu, nao, criancas. esse texto saiu na tribuna, em versao diferente, mas nunca apareceu aqui no blog...

PermalinkPermalink 25.11.08 @ 23:21




Qdo eu estava fora do país lia notícias do Brasil pela internet todos os dias, mas de maneira geral, sem fuçar muito (O uol era minha página inicial). Nao tinha uma preocupaçao especial em ler sobre Salvador (tb pq o único jornal local que eu leria tem grande parte do conteúdo disponível apenas para assinantes)

Agora que deixei Salvador nao leio sobre Salvador (pelo mesmo motivo). O que minha mae considera muito importante, ela me conta qdo telefono.

Mas quando morei fora lia pelo menos 3 jornais diários locais por obrigaçoes da pesquisa, mas também pq eu sentia muita necessidade de entender aquela gente e achava que o jornal me ajudaria. Tb assistia muita tv e aqui meu aparelho de tv nunca foi sequer ligado.

Eu me sinto muito baiana, muito brasileira, mas nao acho que isso tenha a ver com estar por dentro do que acontece em Salvador. Talvez devesse? Nao sei...

Ao mesmo tempo me sinto muitas partes de nenhum lugar, que é um pouco do "home is here now"

PermalinkPermalink 26.11.08 @ 00:02



Comentário de: Fabiane · http://megalopolis-blog.com

Eu nasci no noroeste paranaense (Maringá;) e agora moro na capital do estado. Se sei alguma ou outra coisa da cidade natal, é por causa do jornal local, ou da parentada que de vez enquando a gente encontra.

Em 2006 pra 2007 fui pra lá passar o ano novo com meus avós e me senti uma completa estranha. Eu achei a Cidade Canção minúscula, de cruzar com uma pernada só, provinciana demais. Eu conheço todas as suas principais vias, sei andar por elas, mas não me sinto mais em casa na cidade em que morei durante meus primeiros 17 anos.

Mas em Curitiba eu também não me sinto lá essas coisas. Pra falar a verdade, não sei se há um lugar que eu chamaria de "lar", ao qual eu me apegaria a ponto de saber o que está acontecendo, como andam as coisas. Mas ainda que também a ache provinciana, desconfortável, na comparação, de longe eu prefiro Curitiba.

Mas olha quem está falando? Uma caipirinha que nesses quatro anos longe de sua cidade de nascimento ainda não perdeu o sotaque, se recusa a falar vina, mas ainda nem conheceu tudo do lugar onde vive.

PermalinkPermalink 26.11.08 @ 02:08



Comentário de: Silvia · http://prasemprepitchula.blogspot.com

Eu já tinha lido esse texto na semana passada no agregador(Bloglines).

Eu acho que a diferença é: onde É meu lar e onde ESTÃO minhas raizes. Coincidentemente moro no mesmo lugar que nasci,São Paulo, mas já morei fora daqui e queria saber noticias da minha cidade.
Bjss

PermalinkPermalink 26.11.08 @ 10:14



Comentário de: Victor Barone · http://escrevinhamentos.blogspot.com/

Nasci no Rio de Janeiro e lá morei até os 36 anos. Em 2000 mudei de mala e cuia para Campo Grande (MS). Meu primeiro ano aqui foi um choque. A cidade e o povo eram totalmente diferentes. Minhas referências não serviam pra absolutamente nada. Mas foi a questão geográfica que mais me atingiu. Olhava a cidade e não identificava referências. Diferentemente do Rio de Janeiro, onde montanha e mar se mesclam, Campo Grande é uma planície, não há montanhas, não há encostas cobertas de verde. A ausência do mar atingiu-me também de forma avassaladora. Nem tanto para usufruir um mergulho, mas para olhá-lo. Senti muita falta de olhar o mar e esta sensação estranha, de deslocamento, se prolongou por um ou dois anos até que desapareceu.

Segue um poema sobre este sentimento de falta e de posterior adaptação forçada.


Então vou nadear como Manoel
por entre as letras embaralhadas
nesta estrada de sons e de palavras.

Vou navegar nestas águas ribeirinhas
que se entrelaçam como sonhos
na cabeça dum louco.

Vou me afogar na areia que em
meus olhos se espalha nesta terra
sem montes, sem mar.

Então vou rir de tanta coisura
a bailar pelas voltas e retas desta cidade.

E mesmo assim o nada me invade,
me inunda a alma com boca
escancarada, repleta de tardes.

Que ainda me pego cheirando sal
de oceano, enquanto nos olhos,
apenas uma nesga de chão.

Mas não me meço por saudades
E nem por olhar pelos ombros
Que tombos muitos levei assim.

Então me aquieto
olhando mangueiras.

PermalinkPermalink 26.11.08 @ 11:44



Comentário de: Gustavo


Nasci em Natal-RN e mudei pra Belém do Pará dois anos depois. Morei lá durante 22 anos, mas por uma série de motivos (o calor, o fato de nunca me acostumar com açaí salgado, o fato de mesmo pegando o sotaque ainda falar diferente - "você" dentro de casa e "tu" fora) o máximo que pude chamar de casa foi a minha casa físca - nunca a cidade, por mais qualidades que ela tivesse. Também, claro, nunca consegui chamar Natal de casa. Há um ano e meio moro em Belo Horizonte, onde o sotaque me faz ser confundido com um carioca.

Digo pra mim mesmo que assim fica mais fácil ir embora, que o desapego tem suas vantagens, mas a verdade é que morri de inveja lendo isso: "chorei ao sobrevoar o caos onde nasci, ruas tortas, pequenas, encaracoladas, misturadas".

Pelo menos a parte de ser confundido com um carioca é divertida. =)

Abraço!

PermalinkPermalink 26.11.08 @ 14:30



Comentário de: Paula

Olá Alex,

Estou perto de saber o que é este sentimento. Daqui a dois meses estarei morando em Mandeville, sua vizinha. A sensação? meio maravilhada, meio apavorada, carioca sempre. Um marido transferido e uma filha aborrescente (14 A.), em um lugar sem conhecer nada e nem ninguém. Mas a curiosidade me faz andar. A expectativa não do "melhor", mas de auto-conhecimento, de saber até aonde posso ir depois de meio caminho andado. Minha casa sempre foi onde me senti bem. Agora vou pagar para ver....
Um abração!

PermalinkPermalink 26.11.08 @ 20:41



Comentário de: Alex Castro Email

Paula, Mandeville é pertinho mesmo. Eu nao tenho carro, mas se vc quiser se encontrar quando vier a Nova Orleans, é só me avisar. Meu telefone está ali na coluna direita do blog. :)

PermalinkPermalink 26.11.08 @ 20:45



Comentário de: Kadu Palhano · http://www.umblog.com.br

Alex,

Primeiramente, gostei muito do seu blog. Caí nele por acaso e já estou há mais de uma hora lendo seus posts. Os temas são legais, bem escolhidos. Os textos, muito bem escritos. Suas opiniões são fortes. Ora concordo com elas, ora discordo, mas mesmo discordando, reconheço, têm linha argumentativa. Parabéns. Já adicionei seu blog à minha lista de favoritos.

Agora meu comentário sobre este post. Sou carioca, mas moro em São Paulo há seis anos. Brinco que sou um exilado econômico. Já morei em Salvador, Curitiba, Boston e Cape Town. Moraria em qualquer lugar. Adapto-me fácil as intempéries de qualquer cidade, mas minha casa é e sempre será o Rio de Janeiro. Se um dia eu tiver filhos, uma coisa é certa, os criarei sob a égide de nossas praias. Quero-os correndo na Lagoa, brincando no Jardim Botânico, fazendo amigos na praia e indo ao Maracanã assistir o Fluzão jogar. Isso tudo não tem preço. Não privaria meus filhos disso.

Grande abraço,

Kadu Palhano

PermalinkPermalink 30.11.08 @ 16:38



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Diário de Leituras 2008

  • 100. Roediger, David R. The Wages of Whiteness. Race and the Making of American Working Class. [EUA, 1991] Nov.26 (TulBib)
  • 99. Roediger, David R. Colored White. Transcending the Racial Past. [EUA, 2002] Nov.25 (TulBib)
  • 98. Roediger, David R. Towards the Abolition of Whiteness. Essays on Race, Politics, and Working Class History. [EUA, 1991] Nov.26 (TulBib)
  • 97. Mills, Charles W. The Racial Contract. [EUA, 1997] Nov.22 (TulBib)
  • 96. Machado, Ubiratan. A Vida Literária no Brasil Durante o Romantismo. [Brasil, 2001] Nov.22 (ILL)
  • 95. Buruma, Ian & Avishai Margalit. Occidentalism: the West in the Eyes of its Enemies. [EUA, 2004] Nov.20
  • 94. Alencar, José. Lucíola. [Brasil, 1862] Nov.13
  • 93. Achebe, Chinua. Things Fall Apart. [Nigéria, 1959] Nov.12
  • 92. Matheson, Richard. I Am Legend. [EUA, 1954] Nov.11
  • 91. Alencar, José. O Tronco do Ipê. [Brasil, 1871] Nov.10
  • 90. Morrison, Toni. Playing in the Dark. Whiteness and the Literary Imagination. [EUA, 1992] (TulBib) Nov.7
  • 89. Eiró, Paulo. Sangue Limpo. [Brasil, 1861] (ILL) Out.
  • 88. Pinheiro Guimarães, Francisco. História de uma Moça Rica. [Brasil, 1861] Out.
  • 87. Teixeira e Souza, Antonio. O Filho do Pescador. [Brasil, 1843] (TulBib) Nov.6
  • 86. Almeida, Julia Lopes de. A Viúva Simões. [Brasil, 1897] (TulBib) Nov.6
  • 85. Ignatiev, Noel. How the Irish Became White. [EUA, 1995] (TulBib) Nov.
  • 84. Thompson, E. P. The Making of the English Working Class. [Reino Unido, 1966] (TulBib) Nov.
  • 83. Telles, Edward E. Race in Another America. The Significance of Skin Color in Brazil. [EUA, 2004] Nov.
  • 82. Macedo, Joaquim Manuel de. As Vítimas-Algozes. Quadros da Escravidão. [Brasil, 1869] Out.18
  • 81. Cuenca, João Paulo. O Dia Mastroianni. [Brasil, 2007] Out.
  • 80. Gorak, Jan, ed. Canon vs Culture. Reflections on the Current Debate. [EUA, 2001] Out. (TulBib)
  • 79. Morrissey, Lee, ed. Debating the Canon. A Reader from Addison to Nafisi. [EUA, 2005] Out. (TulBib)
  • 78. McKinney, Karyn. Being White. Stories of Race and Racism. [EUA, 2005] Out. (TulBib)
  • 77. Lund, Joshua et al. Gilberto Freyre e os Estudos Latino-Americanos. [EUA, 2006] (TulBib)
  • 76. Branche, Jerome. Colonialism and Race in Luso Hispanic Literature. [EUA, 2005] (TulBib)
  • 75. Falcão, Joaquim et al. Imperador das Idéias. Gilberto Freyre em Questão. [Brasil, 2001]
  • 74. Döpp, Hans-Jurgen. Sadomasochism: On the Ecstasies of the Whip. [Alemanha, 2003] Set.
  • 73. Diamond, Jared. The Third Chimpanzee. The Evolution and Future of the Human Animal. [EUA, 1992] Set.
  • 72. Suzuki, Daisetz Teitaro. The Zen Koan as a Means of Attaining Enlightenment. [Japão, 1950] Set.
  • 71. Skidmore, Thomas E. Black into White. Race and Nationality in Brazilian Thought. [EUA, 1974] Set. (TulBib)
  • 70. Peter Pauper Press. Zen Buddhism. [EUA, 1959] Set.
  • 69. Ventura, Roberto. Estilo Tropical. História Cultural e Polêmicas Literárias no Brasil, 1870-1914. [Brasil, 1991] Ago. (TulBib)
  • 68. Freyre, Gilberto. Casa Grande & Senzala. [Brasil, 1933] Ago.
  • 67. Andrade, Carlos Drummond et al. Elenco de Cronistas Brasileiros. [Brasil, c.1950-2000] Ago.
  • 66. Veríssimo, Luis Fernando. Histórias Brasileiras de Verão. [Brasil, c.2000] Ago.
  • 65. Veríssimo, Luis Fernando. Novas Comédias da Vida Privada. [Brasil, c.2000] Ago.
  • 64. Rodrigues, Nelson. O Óbvio Ululante. Primeiras Confissões. [Brasil, c.1960] Ago.
  • 63. Lispector, Clarice. A Descoberta do Mundo. [Brasil, c.1960] Ago.
  • 62. Lima Barreto, Afonso Henriques de. Crônicas Escolhidas. [Brasil, c.1900-1920] Ago.
  • 61. Alencar, José de. Crônicas Escolhidas. [Brasil, c.1860] Ago.
  • 60. Machado de Assis, Joaquim Maria. Crônicas Escolhidas. [Brasil, c.1870-1900] Ago.
  • 59. Mankell, Henning. The Fifth Woman. [Suécia, 2000] Ago.15
  • 58. Mankell, Henning. The Man Who Smiled. [Suécia, 1994] Ago.10
  • 57. Lindsay, Jeff. Dexter in the Dark. [EUA, 1997] Ago.
  • 56. Couto, Mia. A Varanda do Frangipani. [Moçambique, 1996] Ago.
  • 55. Coutinho, Odilon Ribeiro. Gilberto Freyre ou O Ideário Brasileiro. [Brasil, 2005] Ago.
  • 54. Albuquerque, Roberto Cavalcanti de. Gilberto Freyre e a Invenção do Brasil. [Brasil, 2000] Ago.
  • 53. Chacon, Vamireh. A Construção da Brasilidade. Gilberto Freyre e sua Geração. [Brasil, 2001] Ago.
  • 52. Araujo, Ricardo Benzaquen de. Guerra e Paz. Casa Grande & Senzala e a Obra de Gilberto Freyre nos Anos 30. [Brasil, 1994] Jul.
  • 51. Schwarcz, Lilia Moritz. O Espetáculo ds Raças. Cientistas, Instituições e Questão Racial no Brasil, 1870-1930. [Brasil, 1993] Jul.
  • 50. Isfahani-Hammond, Alexandra. White Negritude. Race, Writing, and Brazilian Cultural Identity. [EUA, 2008] Jul.
  • 49. Bosi, Alfredo. Dialética da Colonização. [Brasil, 1992] Jul.
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