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Dou aulas de português para universitários em Nova Orleans. Essa semana, como parte das nossas dicussões em classe, perguntei aos meus alunos que jornais eles liam, no mínimo, três vezes por semana.
Dos 16 alunos, 9 citaram o New York Times - para 6, como a única fonte de informação. Somente 2 citaram o Times-Picayune, jornal local de Nova Orleans. Nenhum outro jornal teve mais de 2 menções, incluindo aí El Pais, Wall Street Journal, Washington Post.
Nenhum dos meus alunos é de Nova Orleans. A enorme maioria, quase todos de fato, está no seu primeiro ano na cidade - seja por estarem começando a graduação ou a pós-graduação. Boa parte cursa Letras-Espanhol ou Estudos Latinos-Americanos.
E nenhum, nem um único, citou um periódico de sua cidade natal.
Eu revelei os meus: O Globo e O Dia, pra saber as notícias da minha terra; Times-Picayune, pra saber sobre a cidade onde moro; CNN, pra saber do mundo; Granma, Miami-Herald, El País ou Agencia Cubana de Noticias (alterno entre um dos quatro, pois cada um conta somente um lado da história), para saber sobre o país que estudo.
E então perguntei: nenhum de vocês realmente lê algum jornal de suas cidades natais? Não tem interesse pelas notícias de casa? Don't you want to know what's happening back home?
E um dos alunos, postura bem blasé, encostado na cadeira, pernas cruzadas, joelho pra cima, tascou essa, certeira:
"Home is here now." (Casa agora é aqui.)
Todo mundo balançou a cabeça, concordando.
* * *
Não sei se é uma coisa minha ou se é uma diferença entre brasileiros e americanos. O Idelber, por exemplo, ao mesmo tempo em que se sente absolutamente em casa em Nova Orleans, também continua se sentindo absolutamente mineiro.
Eu? Não sei. Pra mim, casa é o Rio. Pode ser que mude, mas vai demorar muito tempo.
Quando eu dava aulas para crianças pequenas e os alunos queriam me chamar de "tio", eu sempre corrigia: "tio é o irmão do papai, ou o irmão da mamãe. eu sou irmão do seu pai? eu sou irmão da sua mãe? eu sou seu professor e me chamo Alex. Você pode me chamar de "professor", "Alex" ou "professor Alex", mas não de "tio"."
Tem gente que acha isso insensível mas é parte do processo educacional. As crianças, em uma fase em que estão descobrindo o mundo e descobrindo a língua, precisam começar a aprender que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Cachorro é cachorro, não é gato. Professor é professor, não é tio.
Pois é, eu não achar Nova Orleans minha casa não é porque eu não gosto de Nova Orleans, assim como eu não deixar os alunos me chamarem de Tio não é porque não gosto deles, mas uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.
O Rio é uma cidade incrível, linda, culta, cosmopolita. Por ter crescido em uma cidade assim, eu hoje sou um cidadão do mundo que pode morar em qualquer lugar e ser feliz. Não sei nem se, algum dia, ainda voltarei a morar no Rio, mas não consigo me imaginar deixando de me sentir carioca, não me interessando pela política ou notícias locais, não sentindo o Rio como "minha casa" e "minha terra" - no sentido mais profundo, concreto e visceral que essas expressões podem ter.
* * *
Claro que tudo pode ser muito mais simples. Como explicou um amigo:
"Você tem que entender, Alex, que nem todo mundo nasceu em uma cidade interessante, capital cultural, etc. Quase todos os seus alunos vieram de cidades minúsculas, no interior de estados obscuros, onde o único jornal é não apenas hiper-conservador como também hiper-provinciano. A coisa que eles menos querem saber é quem venceu o concurso local de Miss Tomate 2008."
Ah, tá.
* * *
E você, leitores que moram longe das cidades onde nasceram? Como se sentem?
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