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Muitos leitores acham que o Brasil não é racista porque casamentos interraciais são relativamente comuns:
aqui nos estados unidos, se voce é negro, voce pode ser famoso, rico, o que for: quando voce casar com a loira de olho azul de kennebunkport, Maine, NINGUÉM vai achar bonito. No Brasil, se voce é negro e pobre e é exatamente como o Ronaldo Fenomeno, voce é negro e pobre. Quando voce vira famoso e rico (exatamente como o Ronaldo), voce é OK. Se voce casa com a loira, a família dela acha lindo! Se alguem disser que isso é mentira, eu sou todo ouvidos pra explicação. Como não é, o brasil é um país classista, placist, acima de tudo. Agora, racismo e preconceito existe no mundo todo, sempre existiu, sempre vai existir. Nao existe lugar que é 100% racism/prejudice free. Mas usar isso como argumento é não querer ver o problema principal. No pais onde Pelé namorou a Xuxa (a mulher mais branca do brasil, e segundo o Chico Buarque, a única branca) e todo mundo achou bonito, digam: se pelé fosse pobre, o que voces achariam? Pois é...
Eu devo mesmo entender tudo errado. Pra mim, isso só prova que, no Brasil, o racismo está à venda.
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Sim, existem muitos casamentos interraciais no Brasil mas, na maioria deles (5 em 6), o cônjuge negro tem status socioeconômico superior.
O fenômeno já foi estudado em outras sociedades racistas e se chama "status exchange in interracial marriage". Basicamente, pessoas negras trocariam sua superioridade social/educacional/financeira mas inferioridade racial, pela superioridade racial mas inferioridade social de brancos pobres. Ou seja, os cônjuges negros teriam um status tão baixo no "mercado matrimonial" que seriam obrigados a pagar um alto preço para obter casamentos "vantajosos" ("marry up") com parceiros mais claros. De um modo economicamente bem real, sua cor já é uma desvantagem tão grande que precisam de muitas outras vantagens compensatórias (maior escolaridade, maior renda, etc) para poder competir em pé de igualdade.
Se você pára e pensa, quase pode ver acontecendo. Uma família branca, de classe média baixa, talvez corresse a bala o garçom negro que ousasse dar em cima da filhinha caçula, ou a doméstica negra querendo casar com o branquelo primogênito. Por outro lado, um médico negro, uma profissional liberal negra, com carro na garagem e TV de plasma, talvez não fosse tão ruim assim. Talvez.
Está no nosso próprio imaginário: o ricaço cinquentão fode mulata gostosa da favela, a dondoca fogosa dá pro negão jardineiro bem-dotado, mas ninguém casa com ninguém. Seria até um contrasenso imaginar um casamento desses!
(o texto continua abaixo da imagem)
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O Brasil é um país racista.
Quando digo isso, muitos leitores se sentem atacados, como se eu tivesse chamado todos os brasileiros de racistas, mas uma coisa não tem necessariamente a ver com a outra. Ênfase em necessariamente, por favor. O fenômeno social descrito acima, por exemplo, é extremamente racista, porém nenhum de seus atores poderia ser propriamente chamado de racista.
Ninguém é obrigado a casar com ninguém. Não podemos chegar pra moça branca e brandir um dedo na sua cara, acusando-a de racista por ter preferido o médico negro ao mulato carpinteiro que namorou antes. Não podemos chegar para o médico negro e brandir um dedo na sua cara, acusando-o de racista por ter se casado com uma branca pobre, ao invés de escolher "uma mulher da sua cor!" Nenhuma dessas pessoas (necessariamente) é racista, ou é canalha, ou está errada, ou merece repreensões. Observar os casos individuais não resolve nada.
Entretanto, quando olhamos para os números de modo geral, é impossível não ver nesse fenômeno matrimonial um dos sintomas mais gritantes do racismo brasileiro. Somente o fato de o Brasil ter muitos casamentos interraciais não prova que o país não é racista. Pelo contrário, a dinâmica desses casamentos comprova, mais uma vez, a sobrevalorização do branco e a estigmatização do negro em nossa cultura racista.
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Um pequeno adendo sobre o elo mais fraco da corrente: as negras.
Como existem mais mulheres que homens, há uma maior probabilidade de ficarem solteiras. No Brasil, por causa da perversa hierarquia racial e sexual, quem acaba pagando o pato são as negras. As brancas superam a falta de homens brancos casando com os mulatos; as mulatas, com negros, e assim sucessivamente ao longo do espectro das cores, até que, obviamente, faltam negros para as negras - que não têm literalmente ninguém "abaixo" delas.
Alguns dados: mulheres brancas passam em média 65% de suas vidas casadas, contra 50% das negras; 51% dos homens negros se casam com pessoas de outras raças, contra somente 40% das mulheres negras.
Ou seja, as negras são sempre as grandes perdedoras do mercado matrimonial brasileiro.
Pena que ninguém contou para elas que nossos casamentos interraciais significam que não somos um país racista!
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UPDATE
O Fetiche do Sexo Interracial
Muita gente não estava conseguindo comentar nesse post. A mensagem de erro era "comentário inválido".
Para evitar o spam de comentários, o Interney Blogs tem uma lista de palavras muito usadas pelos spammers: qualquer comentário com alguma delas não é publicado. Raramente dá problema, pois não são palavras que ocorrem com frequência em comentários válidos.
De repente, me bateu um estalo e fui conferir a lista. Estava lá: "interracial". Ou seja, qualquer leitor que tentou escrever um comentário com essa palavra (o próprio tema do post!) não conseguiu comentar.
Spammers usam muito essa palavra em seus anúncios porque existem muitos sites pornôs sobre isso. E existem muitos sites pornôs sobre isso (e seções inteiras nos sex shops daqui só de filmes interraciais) porque esse tema é recorrente e fortíssimo na cultura racista norte-americana. O negro é sempre bestial e sexual, desejado e temido, seja o negão bem-dotado arrombando uma branquinha ou a negona insaciável enfeitiçando um pobre branco reprimido.
A presença da palavra "interracial" na lista negra não é coincidência: na verdade, ilustra o próprio tema do post. O negro, animalizado e sobre-sexualizado, é bom de foder, mas nunca de casar. Não por acaso, a cultura racista norte-americana ao mesmo tempo em que fetichiza muito mais o sexo interracial que a brasileira, também apresenta muito menos casamentos interraciais.
Quanto mais o negro é fetichizado como objeto sexual, menos ele é considerado como possível cônjuge.
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Todos os dados desse texto saíram de:
Telles, Edward E. Racismo à Brasileira: uma Nova Perspectiva Sociológica. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2003. [Tradução de Race in Another America. The Significance of Skin Color in Brazil. Princeton: Princeton University Press, 2004]
Um dos melhores livros sobre raça que já li: basicamente, um apanhado de números, estatísticas e experimentos cujo objetivo é combater o "anedotismo" das discussões sobre o assunto. Além disso, o autor não tem os vícios politicamente corretos da maioria dos pesquisadores e nem tenta impor a classificação racial americana à realidade brasileira: não aplica o "one drop rule", não fala de "afro-brasileiros" e aceita nossa mestiçagem como um fato a ser entendido. O livro é bom sobretudo para dar argumentos aos que querem debater, ou convencer os sinceramente confusos, mas, verdade seja dita, não tem nenhum dado ali que uma pessoa observadora já não pudesse ter deduzido sozinha, somente por viver no Brasil e não estar em estado de denegação profunda. Os dados desse posts talvez tenham sido os únicos que me surpreenderam.
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