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Quando dizem que as cotas raciais são de difícil aplicação no Brasil ("como saber quem é negro e quem não é em um país tão mestiço?!"), eu respondo que a solução é simples: basta colocar uma blitz na PM na porta da universidade. Quem tomar uma dura está qualificado pra receber o benefício. A comissão julgadora da universidade pode até não saber quem é preto e quem não é, mas a polícia sempre sabe.
Aparentemente, o fato de que a polícia rotineiramente importuna mais negros do que brancos é uma das poucas unanimidades entre os leitores do LLL. Entretanto, em um non-sequitur inexplicável, algumas pessoas acham que isso indica justamente que a polícia NÃO é racista ou que não existe racismo no Brasil. O comentário da leitora Gabi, pra mim, é emblemático de muitas características definidoras do pensamento racial brasileiro contemporâneo:
E, além disso, Alessandra, do teu exemplo poderíamos erroneamente deduzir que o cara é parado EXCLUSIVAMENTE por ser mais escurinho ou negro. Como se o policial que parasse o cara pensasse claramente assim: "preto = criminoso".
A maioria esmagadora dos pobres no Brasil é negra/mulata. Entre os pobres, devido a inúmeros fatores, sabemos que há muitos crimes, principalmente aqueles relativos a roubos. Logo, a pessoa não é parada SOMENTE PORQUE É NEGRA. O raciocínio do PM não é "caralho, pode pegar que COM CERTEZA fez merda PORQUE é preto" e sim "preto = pobre, logo preto = criminoso".
Essa é uma parte de que ninguém fala.
Não quero entrar no mérito do ovo e da galinha, dizer qual a porcentagem de status sócio-econômico e qual a de racismo que entram na equação do problema. Só estou dizendo que ignorar esse fator é o que muita gente aqui anda fazendo. Todo mundo põe a discriminação no saco "racismo" e pronto, se esquecendo (o que eu acho INCRÍVEL!) que a gente no Brasil (e sem dúvida não somente aqui) associa AUTOMATICANTE negros a pobreza, e portanto a pessoas inferiores ou "coitadinhas", na melhor das hipóteses, ou a pessoas de má índole que podem apelar para o crime, na pior das hipóteses.
É como a historinha do cara negro e riquíssimo que foi comprar uma Mercedes, e que todo mundo já deve ter ouvido. O vendedor da loja da Mercedes-Benz veio mostrar um catálogo de caminhões pra ele. E muita gente usa essa historinha para apontar o quanto o cara da loja era racista.
Putaquepariu, é muita cegueira.
O nosso racismo é INFINITAMENTE diferente do que o dono do blog quer nos fazer acreditar. Deixar de lado o fator sócio-econômico é, na minha opinião, algo que ninguém que se diz estudar um assunto a fundo deveria fazer.
Muitos leitores se convenceram de que existe racismo no Brasil não pelos meus textos, mas pelos seus comentários. Por exemplo, na primeira vez em que destaquei o comentário acima, os leitores caíram de pau em mim aqui e aqui. NADA que eu pudesse ter escrito poderia ser tão forte, contundente e indiscutível como essas reações.
Para comprovar a existência arraigada do racismo no Brasil basta ler o que escreveram essas pessoas - todas aparentemente inteligentes e sinceras no seu desejo de entender seu país.
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Uma reação comum quando se fala de racismo no Brasil é dizer que não somos um país racista: nosso problema é sócio-econômico. "A questão é classe, não raça."
Já a moça acima falou o oposto, dizendo que fica angustiada com a "cegueira" de quem "discute racismo deixando de lado o fator sócio-econômico".
Ambos partem da mesma premissa errada: que é possível falar de racismo sem falar de classe. Oras, racismo É um problema sócio-econômico. O que mais vocês acham que o racismo é, meu deus? Um problema literário? Um problema culinário?
Reclamar que alguém "falou de racismo deixando de lado o fator sócio-econômico" é como reclamar que alguém falou de inflação deixando de lado o aspecto econômico. Inflação É um fenômeno econômico: não tem como discutir, debater, estudar, pensar a inflação e, ao mesmo tempo, deixar de lado o fator econômico. Como isso seria possível?
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Comentário da excelente blogueira Eva:
Cara, eu só digo obrigada. Pelos teus textos. Eu nunca tinha percebido o quanto eu era preconceituosa e racista. Eu achava que recismo era lavar a mão com álcool depois de cumprimentar um negro, e ora! eu nunca fiz isso.
Mas o lance de associar negro=pobre=marginal tá suuuper dentro de mim. E graças ao seus textos, agora eu sei e posso refletir mais consciente sobre isso, e posso me desvencilhar disso. E hoje eu sei que essa associação é, sim, racismo.Graças aos seus textos. Obrigada.
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E, por fim, uma pergunta do leitor Homero:
Depende das razões que levam a polícia a parar mais negros que brancos numa Blitz. Se é porque eles aparentam ser pobres, aí é racismo, mas e se tiver um trabalho estatístico mostrando a propensão de uma pessoa cometer mais crimes, aí seria racismo? Vou dar um exemplo hipotético:
De cada 100 carros dirigidos por brancos que a polícia rodoviária federal manda parar numa BR para inspecionar, em média são encontradas drogas em 28 carros. Quando os carros são conduzidos por negros, de cada 100 automóveis inspecionados os policiais encontram drogas em média em apenas 12 carros.
Baseados nessa estatística, se o chefe da inspeção ordena que os policiais diminuam em 30% as inspeções em carros conduzidos por negros e aumentem em 30% as inpeções em carros conduzidos por brancos, há racismo nessa atitude?
PS: parte-se sempre do princípio de que inspeções só podem ser feitas por amostragem, já que inspecionar cada automóvel pararia o trânsito, tornando essa atitude impraticável.
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Na mesma linha, vários leitores já disseram (o comentário abaixo é apócrifo):
Ah, não apela, Alex, isso é o maior preconceito! Se alguém usa uma camisa escrita 100% negro, ninguém reclama, é lindo, mas se eu sair na rua usando uma camisa 100% branco vão fazer o maior alarde, vou ser chamado de nazista, skinhead, preconceituoso, o escambau! Isso é justo, por acaso? É justo?
Uma camisa "100% Branco" é de profundo mau-gosto, ao mostrar quem está por cima celebrando sua hegemonia. "100% Negro", por outro lado, é a celebração de uma identidade subalterna tentando se afirmar contra todas as desvantagens inerentes no sistema. (O texto continua abaixo da imagem.)

Um dos grandes estudos sobre racismo no Brasil.
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Alguns leitores, no afã de inocentarem a si mesmos e ao Brasil, talvez joguem toda a culpa em cima dos policiais, esses pobres-coitados que, certos ou errados, arriscam a vida todo dia e morrem como moscas, em troca de um salário miserável.
Mas, se a polícia tem culpa, isso não quer dizer que sejam eles OS culpados. Se houvessem esses míticos racistas empedernidos, o problema seria fácil: bastava prendê-los, educá-los, exterminá-los, e o problema do racismo estaria resolvido. Infelizmente, ou somos todos culpados ou não somos. A atitude da polícia é somente um reflexo e um sintoma de nossa atitude generalizada.
Não vou entrar no mérito de se os negros são mesmo a maior parte dos criminosos ou não. Com certeza, são a maior parte dos prisioneiros, o que somente indica que são mais parados pela polícia e mais condenados pelos tribunais.
Mas mesmo se não houvesse preconceito algum, mesmo se os policiais somente parassem mais os negros porque sabem, com certeza absoluta, escorados por dados empíricos inquestionáveis, que a maioria dos criminosos são negros, isso seria somente a prova de que o nosso país mantém parte de sua população na mais abjeta pobreza, na ignorância, na desesperança, no crime.
Ou o país é racista por ter uma polícia sistematicamente racista, que vê o negro sempre como um criminoso, ou o país é racista por ter toda uma estrutura de poder racista que faz com que os negros sejam de fato a maioria dos criminosos.
De um modo ou de outro, como enfiar a cabeça na areia e fugir da conclusão inescapável?
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Sinceramente, se o fato da polícia parar mais negros do que brancos por já presumir que os negros tem mais chance de serem criminosos não é o maior indicador de que o Brasil é um país racista, então eu não sei o que mais pode ser. Se isso não te mostra que o nosso país é racista, não sei mais o que poderia mostrar. Se você usa isso pra demonstrar que o Brasil NÃO é um país racista, então você e eu devemos raciocionar de modos tão opostos que é incrível que a gente consiga se comunicar.
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UPDATE
Crime e Pobreza
Perguntou o André:
Então você acha que há uma relação de causa e efeito entre pobreza e crime?
Não. As pessoas ricas e branquinhas com quem cresci cometiam regularmente uma série de crimes: compravam e usavam drogas, faziam abortos, dirigiam bêbadas, batiam nas esposas/namoradas, brigavam em ruas ou boates, cometiam fraudes contra seguradoras, roubavam o governo de todas as maneiras possíveis e imaginárias, sonegavam imposto de renda, corrompiam agentes do poder público, cometiam assassinato. Com exceção do último, esses foram apenas os crimes que eu ou testemunhei meus amigos cometerem ou que eles admitiam abertamente, sem culpas nem vergonha. Imagino que também cometessem outros crimes dos quais talvez se envergonhassem.
Como disse Hélio Luz, então chefe de polícia civil do Rio de Janeiro, no documentário Notícias de uma guerra particular (1999):
"A sociedade não quer uma polícia honesta, porque no dia em que a polícia for honesta, o filho do banqueiro e do juiz será preso da mesma maneira que o jovem favelado."
Pra responder sua pergunta: existe uma correlação fortíssima entre pobreza e ser preso por um crime.
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