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Conheci um angolano na UFRJ que dizia que sempre sonhou em vir conhecer a democracia racial do Brasil. Que pensava que aqui, onde conseguimos solucionar o problema das raças, ele encontraria também a solução para os problemas raciais de Angola. Desembarcou no Galeão cheio de esperanças e foi almoçar no Centro da cidade. Suas esperanças não sobreviveram ao almoço.
No restaurante, todos os clientes eram brancos e todos os garçons eram negros.
Acho que só saindo do Brasil e voltando, pra gente conseguir entender como essa cena é insólita. E racista.
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Não é preciso muitos dados e gráficos. Se você chega numa cadeia ou no fórum, e todos os juízes e advogados são brancos, e todos os réus são negros; se você chega num hospital, e todos os médicos são brancos, mas todos os faxineiros são negros; se você chega numa empresa e toda a diretoria é branca, mas a moça do café e o rapaz da xerox e o ascensorista são negros; então esse é um país racista.
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Eu sei. Você vai dizer: não, Alex, não é um país racista. O problema é sócio-econômico.
Então vamos pensar assim. Pra simplificar, suponhamos um país de 100 habitantes, 50 negros e 50 brancos.
Digamos que algumas profissões e ocupações nesse país se distribuam assim:
10 médicos, sendo que 9 brancos e 1 negro.
10 advogados, 9 brancos e 1 negro.
10 executivos, 9 brancos e 1 negro
10 faxineiros, 1 branco e 9 negros.
10 garçons, 1 branco e 9 negros.
10 presos, 1 branco e 9 negros.
Como explicar essa discrepância?
Hipótese 1, vocacional: ora, negros simplesmente não têm vocação, tino ou vontade de seguir essas carreiras, tipo assim, que pagam mais ou têm mais prestígio. Eles gostam de limpar o chão, servir mesa, roubar, essas coisas.
Hipótese 2, capacidade: ora, vamos ser honestos. Se existe a mesma quantidade de brancos e negros, mas quase todos os médicos são brancos, é porque os negros de fato não têm capacidade de ser médicos. Ou advogados. Ou executivos. São burrinhos, coitados. Limpar o chão é tão mais fácil...
Hipótese 3, racismo: esse país é racista pra caralho.
Podemos descartar a Hipótese 1, pois a probabilidade de um grupo de seres humanos só ter vocação pra trabalhos sujos e pesados, e outro grupo, só para trabalhos limpinhos em ambientes refrigerados é muito baixa. Aliás, somente considerar esse cenário possível já é, por si só, racista.
Racista é também a hipótese 2. Racista e hipócrita. Hipócrita porque sugere um ponto de partida igual, como se negros e brancos tivessem, já de cara, as mesmas chances de cursar medicina. Racista porque, presumindo condições iguais, acha que os negros, esses burrinhos, simplesmente não têm capacidade de se formar médicos ou advogados.
Se os negros são 40% da população do Brasil mas somente 5% dos médicos (números chutados), só existem duas explicações: ou os negros são mais burros e não conseguem se formar médicos, ou o Brasil é um país racista, onde toda uma estrutura, desde a saúde até o ensino, funciona no sentido de barrar seu acesso dos negros à essa (e outras) carreiras de prestígio.
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Atualização
Uma Sociedade Racista sem Racistas
O leitor Marx escreveu:
Eu tenho uma quarta hipótese: O principal fator que determina a probabilidade de alguém se tornar médico ou faxineiro é a qualidade da educação formal recebida por esta pessoa, desde criança. A qualidade do ensino público brasileiro, e mesmo de muitas instituições privadas, é péssima. Por isso, o nível econômico da família em que o indivíduo nasceu se torna a principal variável que influenciará a qualidade de sua educação. Sabe-se que, no Brasil, a posição econômica de famílias compostas por brancos tende a ser maior que a de famílias compostas por negros. Logo, quem nasce em uma família cujos pais são brancos tem uma probabilidade maior de seguir uma profissão melhor qualificada, mas a correlação não é necessariamente 100% direta.
Imagine que, no seu país hipotético, começamos com uma população de 10 indivíduos brancos com muito dinheiro e 90 indivíduos negros vivendo na miséria. (Acho que não é difícil fazer uma analogia entre esta situação e a maneira como a população negra iniciou sua história no Brasil). Mesmo que não existisse racismo, é difícil imaginar que, mesmo após 10 ou 15 gerações, um equilíbrio entre as proporções raciais e econômicas seria atingido espontaneamente. Existindo racismo, claro, esse equilíbrio se torna ainda mais difícil.
Obviamente, a quarta hipótese do Marx-o-leitor está inserida na minha terceira. O Brasil é um país racista pois ele sistematicamente mantém sua população negra sem acesso a boa educação, o que por sua vez os coloca sem acesso a bons empregos, etc.
A sociedade hipotética do Marx-o-leitor é um non-sequitur. Como pode não ser racista uma sociedade com 90% de negros miseráveis e 10% de brancos ricos? Essa é praticamente a definição de uma sociedade racista. Não precisa nem sabermos mais nada sobre ela.
Os brancos ricos vão se perpetuar no poder, guardando para si as universidades de medicina, o tribunal das contas da união e o congresso nacional, e os negros miseráveis serão faxineiros e garçons, e seus filhos, que também não poderão estudar e não terão acesso às vantagens dessa sociedade, serão os faxineiros e garçons da próxima geração de brancos ricos, e assim indefinidamente, a não ser que alguém, em algum ponto da história, tome alguma medida que quebre esse ciclo - revolução popular, adoção de cotas universitárias, dilúvio universal, etc.
Do jeito que o Marx-o-leitor narra, parece que é possível pegar uma sociedade com 10% de brancos ricos e 90% de negros pobres, apertar pause, eliminar o racismo e dar condições iguais pra todos, apertar play de novo e esperar pelas 15 gerações até que a desigualdade termine.
Infelizmente, não existe esse ponto mágico. A história nunca começa em nenhum ponto, ela é um contínuo. Hoje é o dia depois de amanhã, e assim por diante. A falácia aqui é a ilusão liberal de que é possível criar uma linha de partida imaginária de onde todos os cidadãos partiriam, com oportunidades radicalmente iguais, em sua corrida em direção à fortuna. Mas uma sociedade com tamanha desigualdade (90/10) tenderia a ficar mais desigual, não menos. Na década de 50, Florestan teorizou que com a industrialização e enriquecimento do Brasil, o fosso social entre as raças diminuiria, mas aconteceu o oposto: ficamos mais desiguais, a renda se concentrou mais, os negros ficaram ainda mais pobres.
O país hipotético do Marx-o-leitor é racista por definição, e não teria como não ser. Ele é estruturalmente racista.
Mesmo que se eliminasse magicamente todo o preconceito e discriminação raciais dessa sociedade, a elite continuaria preferindo se manter no poder e os faxineiros e garçons continuariam sem acesso a educação. Um homem branco e rico hipotético dessa sociedade tão desigual, mesmo se tivesse fé absoluta que seu faxineiro preto e pobre tem rigorosamente o mesmo valor humano que ele, ainda assim pagaria colégio particular, plano de saúde integral e viagens à Europa para o SEU filho e não para o filho do faxineiro. Trinta anos mais tarde, o filho do branco provavelmente seria juiz e o filho do negro provavelmente seria garçom, e assim sucessivamente - mesmo, pasmem!, com todos tendo uma fé religiosa e sincera na igualdade absoluta entre as raças...
Uma sociedade com 90% de negros miseráveis e 10% de brancos ricos, mesmo se nenhuma dessas pessoas for "racista", mesmo se todos acreditarem completamente na igualdade absoluta entre as raças, ainda assim será estruturalmente e intrinsecamente uma sociedade racista.
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