O(a) leitor(a) que assina com o pseudônimo Cam escreveu:
Ok, os problemas já foram apontados. Abuso, submissão, humilhação... E agora, como resolvê-los? Qual é a sua proposta? Alguém tem alguma sugestão?
Quando apontei que o LLL só vende problemas, nunca soluções, veio a resposta:
A cômoda postura acadêmica... Muito bem. Lança-se a questão, cria-se a polêmica, cada um conta como é em sua casa e faz um mea culpa ou não, conforme o caso. Muito produtivo. Era somente essa a proposta?
Era. Isso mesmo. Só isso. Você acha pouco? Eu acho que é uma tarefa hercúlea - como dá pra ver pelos comentários do LLL.
Se eu somente conseguir que alguns leitores enxerguem problemas que antes não conheciam, que vejam o mundo um pouco diferente, que descubram que as coisas não são tão simples quanto parecem, que percebam que o caminho mais trilhado não é o único e talvez nem o melhor, que o modo como as coisas aconteceram não é o único como poderiam ter acontecido, uau!, eu já vou me considerar vitorioso.
Não sou pai, professor nem salvador da pátria de ninguém. Não me propus resolver nada, não prometi soluções, então ninguém tem o direito de se sentir fraudado. Se você acha que, usando as palavras de Cam, "apontar problemas" e "lançar questões" é uma "cômoda postura acadêmica" e que não é "produtiva", então eu só posso lamentar.
Não só Cam. Muitos leitores fazem os mesmos questionamentos. Na universidade, em aulas de humanas, como aluno e como professor, já vi muita gente manifestando a mesma preocupação: depois de horas discutindo profunda e frutiferamente algum assunto complexo, eles levantam a mão, às vezes ansiosos e confusos, outras, desafiadores e arrogantes, e perguntam:
"Mas, afinal, professor, E então? E aí? O que fazemos? Qual a SOLUÇÃO?"
E dá vontade de suspirar e jogar a toalha:
"Meu filho, será que você não entendeu nada?"
O objetivo de uma boa educação (e também do LLL, blog escrito por um professor que adora lecionar) é estimular o pensamento crítico e ensinar o aluno/leitor a pensar por si mesmo, de modo que possa descobrir suas próprias soluções para os problemas que encontre.
As soluções cabem a cada aluno/leitor, em seus papéis de pai/mãe de família, cidadão, eleitor, trabalhador, artista. Se propor soluções coubesse somente ao professor, então as soluções seriam somente tão boas quanto ele: mas a responsabilidade da solução é de todos e, portanto, a qualidade da solução será uma soma do potencial de todos nós.
Tenho medo dessas pessoas que procuram soluções ou respostas, seja em salas de aulas ou blogs, em igrejas ou palanques políticos. Eu posso ter até frustrado uma busca infantil hoje, mas amanhã, na próxima esquina, quem sabe?, podem acreditar na solução que lhes vende um pastor evangélico ou um traficante de drogas, na resposta dada por um salvador da pátria operário de nove dedos ou negro carismático e cheio de esperança.
As maiores tragédias da história foram perpetradas por pessoas que buscavam respostas e, um dia, encontraram. Muito, muito medo.
Um conselho: nunca confie em ninguém que queira te vender soluções - especialmente se forem simples e à prova de idiotas. (Quem acredita que existe algo à prova de idiotas é um deles.) Mas sei que é um conselho desperdiçado: se você é um ser pensante, já sabia disso; se não é, não adianta.
Pessoas inteligentes não buscam respostas, elas buscam perguntas. Não buscam soluções, buscam problemas.

* * *
Muitos leitores me pedem sugestões de leitura. Por isso, meus livros recomendados estão sempre ali na coluna da direita. Mais especificamente, esses são os que sugiro para qualquer um que queira abrir sua cabeça, expandir seus horizontes, ser mais livre. Fiquem avisados: além de não darem respostas, esses livros vão estragar as respostas que você achava que tinha:
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Por falar em livros, a lista de leituras, ali na coluna da direita, está atualizada.
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Atualização
Sobre Leitores Anônimos, Caça às Bruxas, Liberdade de Debate & Objetivos Pedagógicos
A leitora Cyntia escreveu:
"O que tenho visto aqui são os tais dedos apontados. Gente que se acha no direito de criticar os outros simplesmente pq a pessoa assume que tem uma empregada doméstica. E se o patrão cumpre com suas obrigações de empregador e trata a doméstica com o respeito e consideração que qualquer ser humano merece? Continua a ser vilão?"
Não sei que dedos foram esses. Eu não vi ninguém acusando ninguém pessoalmente de ter domésticas, ou presumindo que todos têm domésticas, ou dizendo que todas as pessoas que têm empregadas são escrotas. Estou vendo muitos leitores discutindo os problemas de modo geral, e alguns leitores contando histórias pessoais. Uns contam histórias pessoais de horror, de empregadas exploradas e maltratadas, e outros contam histórias de como "lá em casa não tínhamos domésticas", ou "tínhamos, mas eram super bem tratadas", etc. Mas nenhuma acusação pessoal, ou dedos apontados, ou caça às bruxas.
Agora, claro, ninguém é responsável pelas carapuças que os leitores colocam. Pelo contrário, a impressão que tenho é que o assunto gera tanta culpa e ansiedade que a maioria dos leitores corre desesperada pra se inocentar, pra dizer que não, que não tem domésticas, que o problema não existe, na minha cidade ninguém tem, na minha casa éramos todos felizes, eu juro que sou uma pessoa boa!, etc.
Perguntem a algum psicólogo o que ele acha de tantos protestos.
E tb percebi, como o Hardy e outros aqui, que qualquer evidência que coloca a questão em perspectiva é imediatamente descartada. ... Mas qualquer outro tipo de comentário aqui que não concorde plenamente com o discurso vigente é descartado. ... E acho que essa pequena caça às bruxas está sendo estimulada pelo autor do blog, que modera apenas o que vai de encontro ao pensamento pronto dele.
Aliás, a leitora Hardy também escreveu hoje:
"Essa bobagem de implicar com pseudônimo em bons comentários também é indicativa de um desapreço pelas idéias. Compra-se a etiqueta, não o conteúdo."
Cyntia, só pra você saber, O Hardy é A Hardy. Ela também é mulher, assim como a Cam. E como eu me reservo o direito de não dialogar com gente que não assina o próprio nome, eu só comecei a responder aos comentários delas quando ambas me escreveram pessoalmente e se "revelaram". Reparem que eu nunca desqualifico quem não se identifica - essas pessoas é que se pré-desqualificam. Todos comentam livremente e sem restrições, mas, como indivíduo livre e independente que sou, me dou ao direito de somente dialogar com quem eu quero. E, sinceramente, quando o Tuca1982@bol.com.br aparece no meu blog, seja pra dizer que sou feio e bobo ou pra fazer um longo e elaborado comentário, eu prefiro não responder.
Em segundo lugar, fiquei muito curioso sobre várias expressões no seu comentários.
Por exemplo, "descartar". O que você chama de descartar? Apagar, censurar? Algum comentário foi descartado, apagado, censurado do LLL? Qual? E o que seria o NÃO-descartar? Concordar com você? Se você fala e eu discordo, isso pra você quer dizer que "descartei" seu comentário?
Outra coisa: "caça às bruxas", via de regra, é uma busca histérica por culpados, mas como não vi ninguém acusando ninguém de nada ("você tem domésticas que eu sei!", "todos que têm domésticas são maus!" etc) fica meio difícil de entender a comparação. Como pode haver caça às bruxas sem acusações específicas a indivíduos específicos? Você poderia esclarecer?
Por fim, "moderar". Suas outras reclamações eram genéricas, poderiam se referir aos leitores de modo geral ou a mim, mas essa foi específica comigo ("o autor do blog modera...").
Moderar, em internet, quer dizer só aprovar alguns comentários e não permitir a publicação de outros. É prática muito comum na internet, perfeitamente aceitável e qualquer blogueiro tem o direito de fazê-lo. Eu, entretanto, nunca fiz. Que moderação é essa que você menciona? O que foi moderado no LLL? Tem alguém por aí dizendo que comentou aqui e eu apaguei? Muito, muito estranho.
Em suma, perdi aqui um tempo na minha manhã escrevendo esse adendo porque estou me divertindo muito. Acho que esses comentários são mais uma manifestação da ansiedade crônica que acomete os brasileiros quando se fala de um assunto tao incômodo. De fato, a maioria dos leitores diz que se convenceu de que o racismo ainda existe no Brasil, ou que a questão das domésticas ainda é um problema, não por causa dos meus textos, mas por causa dos comentários.
Fica difícil ler uma mulher esclarecida dizendo que acha prático e razoável pedir para uma empregada tomar banho antes de começar a trabalhar e não ver nisso uma indicação do fosso que divide os patrícios dos intocáveis nessa nossa sociedade de castas. Fica difícil ler uma leitora dizendo que não é racista a polícia parar mais negros do que brancos, porque os negros tendem a ser mais pobres e os pobres tendem a se envolver mais com criminalidade, logo os policiais estão certos, e não concluir que o nosso país não só é racista, como não aceita o seu próprio racismo.
Ninguém foi acusado de nada, não se apontaram dedos, não se descartaram opiniões, não moderei comentários. Todos falaram livremente e publicamente e cada um é responsável por sua opinião - daí serem problemáticos os comentários anônimos, mesmo se bem escritos e elaborados, pois são uma fuga da responsabilidade inerente à expressão pública de uma opinião. Entretanto, mesmo com as minhas reservas, esses comentários não são nem descartados nem moderados.
Acho muito interessante quando os comentários parecem reclamar do excesso de liberdade dos comentários. As pessoas que assinam com pseudônimos e não se responsabilizam por suas opiniões são as mesmas que reclamam dos dedos apontados das outras. Como disse, não vi nenhum dedo apontado, nem nenhuma acusação pessoal, mas, se visse, podem ficar certos que não apagaria. Só apago comentários que ofendem pessoas que eu mesmo expus. O resto é liberado.
A brincadeira aqui é um debate livre e democrático. Todos podem falar. Inclusive os que discordam ferozmente de mim. Inclusive os que assinam Kiko6969@hotmail.com. Ninguém é descartado nem moderado.
Se você não gosta disso, se acha que não aguenta, se ficou incomodado, se queria que eu censurasse esses bárbaros que ousam discordar de você, então eu só posso lamentar. A liberdade total dos comentários é parte inerente, integrante, essencial do processo pedagógico do LLL: sem isso, se fosse só eu falando sozinho, não adiantaria nada.
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(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)
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"O que tenho visto aqui são os tais dedos apontados. Gente que se acha no direito de criticar os outros simplesmente pq a pessoa assume que tem uma empregada doméstica. E se o patrão cumpre com suas obrigações de empregador e trata a doméstica com o respeito e consideração que qualquer ser humano merece? Continua a ser vilão?"
E tb percebi, como o Hardy e outros aqui, que qualquer evidência que coloca a questão em perspectiva é imediatamente descartada. ... Mas qualquer outro tipo de comentário aqui que não concorde plenamente com o discurso vigente é descartado. ... E acho que essa pequena caça às bruxas está sendo estimulada pelo autor do blog, que modera apenas o que vai de encontro ao pensamento pronto dele.
"Essa bobagem de implicar com pseudônimo em bons comentários também é indicativa de um desapreço pelas idéias. Compra-se a etiqueta, não o conteúdo."