Muita gente parece achar isso. Como falou o amigo Leo:
"Vc estah - implicitamente - assumindo uma posicao dos escravos como objeto. Ao que parece, vc estah ignorando a literatura que mostra as estrategias de resistencia e negociacao na escravidao. (or acaso nao tem uma literatura sobre as estrategias de resistencia das domesticas? Isso seria um tema bem interessante). (...) Por exemplo, quando vc diz: "the arrangement more closely resembles a prisoner's life - or rather, a slave's life." prisoners' life??? Ora, a gente sabe que a vida de escravo - via de regra - não era a vida de um preso. (Soh se vc forcar a barra e dizer que preso tb tem negociacao e resistencia. Mas aih vc teria que explicitar isso no texto.)"
A bibliografia (e as histórias que eu escuto) são repletas de empregadas domésticas que são virtuais prisioneiras e escravas sim. Até hoje, conheço gente que deixa a diarista em casa, sai e tranca a porta, deixando a pobre moça presa até voltar. Nada mais comum do que empregadas que moram no serviço terem seu direito de ir e vir severamente cerceado. Naturalmente, que elas não são realmente escravas nem prisioneiras, e podem exercer muita negociação e resistência sim, mas os escravos e prisioneiros também.
(Um excelente artigo, recente e disponível online, sobre as estratégias de negociação e resistência das empregadas domésticas: Serviço Doméstico: elementos políticos de um campo desprovido de ilusões.)
O máximo que posso fazer aqui é empilhar caso em cima de caso, da experiência pessoal e da bibliografia, mas vou citar só um, contado por uma amiga. Depois dessa última série de posts do LLL, ela começou a conversar mais com suas empregadas:
hoje eu conversei com a minha faxineira e ela me contou que morou/trabalhou numa casa antes de ter a filha e disse que era um saco pois ela era babá e depois que a nenem dormia, ela tinha que ficar só no quarto dela,
Ou seja, apesar de "morar" na casa, ela não podia usar as áreas comuns nas suas horas de descanso, sendo uma virtual prisioneira do seu cubículo.
dai eu perguntei o que ela ficava fazendo e ela disse que depois de um tempo eles colocaram uma tv pra ela, e que as vezes ela lia, mas que era foda pois a crianca ia dormir umas 7 horas da noite e ela ficava esperando até a hora de dormir.
"Depois de um tempo" quer dizer que até colocarem a televisão ela ficava presa e ainda por cima sem nada o que fazer, olhando pra parede.
dai eu perguntei por que ela nao saia pra dar uma volta, tipo 7 horas ainda esta de dia as vezes, ela podia ir num shopping, cinema, sei lá qualquer coisa, dai ela disse que os patroes nao deixavam ela sair porque tinham medo que ela fosse rendida por algum ladrao quando estivessem entrando no predio. dai eu perguntei se eles nao saiam, ela falou que sim e eu perguntei se eles nunca tinham sido rendidos.
As desculpas paternalistas, familiares e carinhosas que os patrões usam pra restringir a liberdade de movimento das empregadas são sempre muito criativas. Essa aqui é especialmente cara de pau. Outra muito comum é (mesmo hoje em dia!) apelar para uma defesa da honestidade da doméstica: "você é moça virgem, o que pensariam se ficasse andando por aí no meio desses porteiros e peões?!" Em entrevistas com patroas, uma eventual gravidez da empregada é sempre temida, pois significa ou ter que despedi-la e encontrar outra, ou aceitar que ela tenha o filho em sua casa.
ela começou a rir e disse que era otimo quando eles saiam pois ela tinha o que fazer pois tinha que ficar com a crianca.
O tédio em que ela vivia era tão desesperador que a pobre mulher preferia trabalhar, cuidando da criança, a "ficar de folga" prisioneira num quarto vazio.
Difícil de imaginar uma história como essa acontecendo em um país sem um forte passado escravista.
Juro que esse caso não é nem único nem incomum. Querem que eu conte mais um e mais outro? Quantos precisarei contar até se convencerem? Tem algum número mágico?
* * *
E você? Que histórias de domésticas você conhece? Já conversou com sua empregada hoje? Quer uma sugestão? Senta com ela. Pergunta como é sua vida. Deixe ela livre pra responder. Depois, vem cá e conta pra gente.
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